segunda-feira, novembro 14, 2022

O ponto não está à janela

Notas introdutórias à minha intervenção na conversa/debate "O ponto não está à janela" a realizar no próximo dia 16 deste mês e deste ano

 

Vou basear o meu discurso em algumas coisas nas quais acredito mas que não tenho como provar. Serão ideias discutíveis e talvez, por isso mesmo, possamos trocar umas ideias sobre o assunto.

Vou partir do princípio de que toda a representação simbólica do mundo que nos rodeia tem, na sua génese, um impulso mágico que é, como quem diz, um impulso poético.

Estou convencido que o impulso que origina o discurso poético é diverso do que origina o pensamento científico, embora possam existir momentos em que estes discursos, aparentemente antagónicos, se aproximam e se completam.

Afinal de contas, poesia e ciência, magia e matemática, teatro e astrofísica, são formas de representação do mundo, tentativas de nos aproximar um pouco mais dos mistérios da existência humana. Mistérios esses que, no limite, podem nem sequer existir (ou podem ser representados como na simbologia de Almada Negreiros, 1+1=1).

Acredito que a criação da representação simbólica é muito semelhante às brincadeiras de criança, quando sentimos o impulso incontrolável de tentamos encontrar uma narrativa que faça sentido e a moldamos de acordo com os nossos anseios.

Os adultos informam-nos de que existe uma grande distância entre “real” e “imaginário” e que a “realidade” tem um valor muito superior ao “faz-de-contas” mas não nos convencem. Só deixamos de acreditar no mundo que inventamos quando entramos definitivamente no universo dos adultos e corremos o risco de nos perdermos para sempre.

Quando somos crianças imaginamos a vida como um teatro contínuo. E é assim que eu imagino o teatro: a representação incessante da infância inultrapassável e infinita que é a principal e única característica do Ser Humano.

(claro que continua!)

 

quarta-feira, novembro 09, 2022

Como uma barata (tonta)

     Ai as alterações climáticas, valha-me Nossa Senhora! E a guerra? Benza-me Deus!!! Os aumentos de preços dos combustíveis, das rendas de casa, do chá, do café, da laranjada, dos livros (ai, o preço dos livros...), da inflacção, dos juros da dívida, o aumento da ansiedade generalizada, a deterioração da saúde mental dos jovens (como se os adultos fossem impunes à loucura); estamos fodidos? Um gajo quer  perguntar mas não sabe bem a quem dirigir a questão. Alguém que me ouça? Alguém que me responda?

    Acordar e regressar ao mundo dos vivos é todo um processo de aceitação. Enquanto o mundo circundante não ganha consistência absoluta, o cidadão comum pode imaginar que vive num lugar justo e equilibrado. É como viver a infância toda nos primeiros 10 minutos de cada novo dia. Passada a magia do despertar eis-nos de regresso a este "awful place", como na canção dos Clash. A angústia é normalmente pouco, ou mesmo nada, dispendiosa e encontra-se em qualquer recanto do planeta.

    Viver cada dia como se o objectivo fosse mais ser feliz do que apenas chegar ao outro lado do fim da tarde. Caso contrário corremos o risco de nos tornarmos baratas, baratas daquelas que são tontas.

terça-feira, novembro 08, 2022

O urso

     E é assim, a Memória é como um urso, mas com períodos de hibernação imprevisíveis. Pode acomodar-se na caverna do crânio humano e dormitar para sempre ou deixar-se apaixonar pela luz de cada despertar e não parar de atormentar a quem de direito. A Memória como urso... até poderia funcionar mas parece-me uma metáfora entre o perigoso e o merdoso (rima fácil e evidente).

    A sucessão do Secretário Geral do Partido Comunista Português gerou um pequeno sururu entre alguns comunistas frequentadores do Facebook. Li com razoável atenção certa troca de ideias entre eles e o meu urso rolou sobre a barriga, deitando-se para o outro lado, levantando uma pequena nuvem de memórias na minha caverna craniana (não consigo libertar-me desta metáfora!?).

    Aqui estava eu nos meus 14/15 anos, pleno de confiança em mim próprio, confiança essa gerada por uma ignorância quase absoluta em relação a tudo o que fosse coisa, mas irradiando uma aura de energia positiva capaz de atrair outras pessoas para o meu mundo indefinido, onde ainda não houvera tempo para a criação de pântanos. Foi assim que me vi a frequentar a sede do PCP lá em Viseu sem perceber muito bem onde me estava a meter.

    À época havia a UEC, dos estudantes, e a UJC, dos jovens trabalhadores. A JCP seria fundada mais tarde. Se, por um lado, consegui a atenção dos estudantes, muitos deles, tal como eu, oriundos da pequeníssima burguesia, já do lado dos operários e camponeses apenas recebi desconfiança. A minha militância era errática e frágil e o camarada controleiro, montado numa motoreta e com um aspecto grave e concentrado, demasiado grave e demasiado concentrado para alguém pouco mais velho do que eu, olhava-me com vago desprezo. E tinha toda a razão.

    Nunca tive consciência de classe pois nunca percebi muito bem a que classe pertencia (pertenço) embora reconheça e esteja convencido de que a luta de classes é, sem sombra para dúvidas, a seiva das sociedades humanas. Mas o camarada da motoreta sabia (soube-o antes de mim) que eu não estava pronto a abdicar dos meus anseios em favor da Causa. Afinal de contas eu vivia no universo de Ian Dury e do seu Sex and drugs and rock'n'roll. Estava apanhado, a minha luta era outra: a luta pela sanidade mental.

segunda-feira, novembro 07, 2022

Memorabilia

     Não sei se também te acontece, leitor amigo, olhares para trás (olhares o teu passado) e pensares: não vejo nada! A mim acontece-me quase sempre que olho com a vista desarmada. Não alcanço o que vivi e se sinto uma ligeira brisa a agitar-me a memória, rapidamente a janela se fecha e tudo volta à sua habitual quietude de recanto e sombra. Em matéria de memória sou aparentado ao granito.

    Vivo, no entanto, experiências transcendentais quando coloco na mente o potente telescópio da literatura (ia dizer "os óculos da literatura" mas pareceu-me tão fraquinho...) e o meu corpo é trespassado por memórias de toda a índole. É uma experiência com o seu quê de estranheza mas decerto tudo se explicaria com a maior das naturalidades, fosse eu capaz de compreender os contornos do fenómeno.

    Estou a ler "Lições", o mais recente romance de Ian McEwan, e tem sido uma girândola de sensações perdidas e sensações reencontradas; outras, apesar da sua provecta idade, são sensações que me surgem desvendadas como se regressasse momentaneamente à minha infância, à adolescência. 

    Eu sei que as minhas experiências de vida hão-de estar gravadas no meu cérebro: arrumadinhas, sempre disponíveis caso eu possa chegar-lhes, estão à minha espera. Mas, sem ajuda, sem a prótese poderosa da literatura. as prateleiras onde se alinham as memórias são sempre demasiado altas, demasiado confusas e desarrumadas, afundando o passado no caldo tépido do esquecimento.

terça-feira, novembro 01, 2022

O cavaleiro do Apocalipse

     Com o fim do mundo humano a ganhar forma (sim à guerra, as alterações climáticas que se lixem) Deus vencerá a disputa eleitoral com a Democracia, derrotando-a por larga margem. Em momentos de desespero provocados pela iminência do fim até o mais empedernido dos ateus sente um frémitozinho que o leva a ponderar a possibilidade de haver algo mais do que a morte. Perante a morte a Ciência tende a perder razão; Deus não.

    As narrativas do ano mil informam-nos de uma loucura suplementar que tomou as mentes dos seres humanos perante a aparente inevitabilidade do fim dos tempos. O desvario transforma-se em norma quando a racionalidade é engolida pelo medo. O medo é o grande lobista de Deus e parece trabalhar a troco de nada, como trabalham os demónios, apenas pelo prazer de mostrar a sua força, a sua razão, a sua omnipotência.

    Virão em breve tempos de desespero absoluto com Deus montado na sua terrível sede de vingança, capaz de julgar-nos a todos culpados da sua inépcia criadora? O Apocalipse tem um cavaleiro, apenas um.

domingo, outubro 30, 2022

Pequenas coisas

     Há uma estranha sensação a pairar no espaço livre entre o meu crânio e o seu cérebro. É assim como uma pequena mão, mas feita de papel, que não percebo se me afaga se me arranha o juízo. Não chega a ser áspera mas está longe de ser macia. Muito longe de ser macia.

    Há uma névoa incómoda que me impede de ver com clareza os contornos dos pensamentos que vou debitando. Como se pensar fosse algo como fazer "enter" numa caixa registadora: mais um pensamento, mais riqueza, mais valor acrescentado, tlim, tlim. Feito e registado. Próximo cliente!

    Há mil e uma pequenas coisas incómodas das quais não convém falar em voz alta para não aborrecer quem incomoda pois convém não incomodar ninguém. Posso bem suportar eu essa pequena cruz. Como um pequeno Cristo. Fraquíssimo imitador de coisa nenhuma.

sexta-feira, outubro 28, 2022

Coisa boa

     Não sei como funciona. Por vezes sinto uma coisa dentro de mim (talvez no cérebro ou no coração, talvez nas tripas) que faz com que as coisas que me rodeiam ganhem significados aumentados. Em certas ocasiões dura apenas um momento e logo se desvanece ou desliza rapidamente para algum lugar escondido. Noutras situações, a coisa ganha alguma consistência e permanece comigo tempo suficiente para que lhe perceba minimamente a forma e o conteúdo.

    Imagino que seja isto a criatividade. Se soubesse como funciona havia de registar a patente para a oferecer a quem quisesse dela usufruir. Talvez isso fosse uma coisa boa. O mundo está a precisar de coisas boas.

terça-feira, outubro 25, 2022

Heróis

     Todos temos os nossos heróis. Por esta ou aquela razão elegemos personagens às quais prestamos homenagem e com elas constituímos os nossos panteões pessoais e personalizados. É como se fôssemos gregos antigos ou romanos, como se fôssemos vikings ou adoradores de santinhos católicos. todos temos os nossos heróis e não somos muito receptivos a críticas que possam conspurcar as imagens que deles construímos; nem um bocadinho!

    Tenho a sensação de que a forma como vamos elegendo e elevando as ditas personagens tem sempre algo de religioso. Os nossos heróis são geralmente impolutos, capazes de feitos extraordinários, seja no campo das acções seja no campo do pensamento, há muitos lugares em diferentes prateleiras. São fortes de carácter e os sonhos que sonham são universais. Nós somos os discípulos dilectos, guardiões da chama que arde nos seus altares.

    Os nossos heróis tornam-nos cegos. Antes nos tornassem surdos e mudos.

segunda-feira, outubro 17, 2022

Castigos

     Padres pedófilos cometem crime ou pecado? Não sei o que lhes vai na cabeça mas se acreditam verdadeiramente em Iavé devem estar a tremer como varas verdes... ou não? Se o deus do Antigo Testamento for tão violento com os molestadores de criancinhas como é com os inimigos do povo de Israel, é caso para ter os tomates gelados. Mas se, pelo contrário, então está-se bem. "No problemo", citando Bart Simpson, esse filósofo dos tempos modernos.

    Molestar criancinhas é pecado? Há alguma passagem na Bíblia que condene especificamente os que metem as patas onde não devem e pior ainda? Não sei não. Talvez isso possa explicar a atitude laxista dos bispos e outros bosses da igreja católica em relação aos porcalhões que militam nas fileiras das suas tropas evangelizadoras. A coisa fica em casa, lá entre eles, uma família exclusivamente masculina que é como Iavé quer, acho eu. O que têm de meter o bedelho juízes, bófias e pedopsicólogos? 

    Talvez os abusadores de sacristia vão directamente para o inferno. Na volta é o castigo que lhes está reservado e a bispalhada não vê razão para que lhes seja aplicada outra pena, uns anos de prisão, por exemplo. Eles sabem que bater com os ossos na choça não se compara a ter um satanazim a enfiar-lhes uma forquilha na tromba por toda a Eternidade. Nem nada que se pareça.

quinta-feira, outubro 13, 2022

Ele

     O homem (seria um rapaz?) não tinha dentes e também parecia não ter o juízo todo. Deitado no banco, próximo de uma esplanada bem composta de cidadãos respeitáveis, pediu-me que lhe pagasse um abatanado. Dei-lhe 2€. Pediu-me que entrasse no café e lhe trouxesse o abatanado. Disse-lhe que não se esticasse.

    Apesar do calor, estava coberto com umas mantas sebosas. No chão espalhavam-se restos de coisas que talvez tivesse comido. Uma embalagem vazia, brilhante de gordura, dava guarida a uma pequena multidão de moscas nervosas. Ele perguntou-me "gostas de poesia?" ao que respondi qualquer coisa que nem eu próprio fui capaz de compreender. Ele disse-me "vou dizer-te um poema".

    Começou pelo título: "Eles". E foi por ali fora "blãblãblãbambalhã", foi por ali fora e, fitando-me nos olhos, declamou a coisa num longuíssimo e único fôlego apenas interrompido por muito curtas pausas para respirar. Não percebi uma única palavra. Ficou-me uma espécie de música, uma prece, qualquer coisa assim: "blãblãblãbambalhã"; seria um lamento?

    As moscas distraíam-me mas, fosse como fosse, nunca poderia perceber uma palavra do que ele disse além de "eles", única palavra nítida que irrompia aqui e ali, nos momentos das suas curtíssimas golfadas de ar. As gengivas rebrilhantes, sem um único dente à vista, a língua a formar os estranhos sons que eram, afinal, um poema, os lábios húmidos num sorriso que podia ser feito de urgência. A urgência de não perder o espectador ocasional da sua saga.

    Quando finalmente terminou deu uma risadinha mostrando a totalidade das gengivas. "Fica bem" disse-lhe eu. E fui embora com um misto de alívio e traição alojado no peito. Dali em diante tudo mudou de aspecto. A rua pareceu-me mais suja e mais triste, as pessoas pareceram-me apenas pessoas.

    Eu sabia que era aquele poema ("blãblãblãbambalhã") a provocar em mim um certo desconforto, um desajuste na pele que me cobria o corpo. Apanhei o barco e subi ruas de Lisboa mais ou menos atento, mais ou menos desorientado, até encontrar a Ana. Nesse momento as coisas voltaram a ser mais ou menos o que já tinham sido.

quarta-feira, outubro 12, 2022

Não sei se

     Não sei se também te acontece, tenho frequentemente a sensação de estar à beirinha de uma overdose de informação desinteressante. Ainda agora passeava indolentemente facebook abaixo, facebook acima, senti uma náusea súbita, uma espécie de vertigem ligeira, um tremor na retina. Sintomas seguros de overdose por ingestão exagerada de informação merdosa.

    Não sei se há algum remédio para a maleita descrita que não seja parar de consumir informação que não me faz falta absolutamente nenhuma. Parar com esta porcaria! Stop! Bem tento incentivar-me a largar o lixo mas não consigo. Estou viciado.

    Não sei se também te apercebes de que padeces deste vício. É como ser uma vaca a pastar nas encostas verdejantes das ilhas açorianas, como ser um verme a sorver o cadáver putrefacto de um abutre falecido no deserto. É um acto acrítico, uma compulsão desprezível, um je ne sais quoi pior que cagar deitado.

    Não sei o que pensas disso mas, para mim, é caso clínico.

terça-feira, outubro 11, 2022

Mistérios

     O mistério da vida, o mistério da vida... o que queremos nós dizer quando falamos do "mistério da vida"? Para que a vida fosse misteriosa seria necessário que pudéssemos explicá-la recorrendo a algo mais do que a biologia. Se nos cingirmos à ciência a vida não é assim tão misteriosa. O mistério surge quando pretendemos que a vida seja mais do que mera biologia, quando queremos acreditar que a nossa existência possa ser algo mais do que aquilo que intuímos que ela seja.

    E lá vem deus, lá vem a nossa missão (que é as mais das vezes cumprir aquilo que deus quer e deseja), lá vem a convicção de que somos superiores a outros bichos, que o mundo foi criado para a nossa espécie utilizar como lhe der na bolha, enfim, temos esta tendência para complicar o que é simples, tendência essa que poderá configurar algo entre a soberba e a estupidez pura e simples (soberba e estupidez coexistem na maior das calmas).

    A coisa fica mesmo feiosa quando o mistério da nossa vida choca com o mistério da vida de outro ser humano. Enquanto é com a bicharada, pronto, entre uma facada, um forno e uma patuscada a coisa resolve-se mais ou menos. Quando mete humanos de um lado e do outro do mistério temos o caldo entornado. Estou em crer que é aí que nasce outro mistério, o mistério da guerra.

sexta-feira, outubro 07, 2022

Uma certa indolência

     Não ler é um direito de todo o cidadão. Será a não leitura um direito simétrico ao da leitura? Se colocados na balança dos direitos (aquela que a Justiça segura como segurasse o bebé do Rei Salomão) terá o não ler um peso equivalente ao ler, mantendo os pratinhos equilibrados numa exacta correspondência?

    Enfim, o conhecimento livresco e o conhecimento interiorizado pela vivência do quotidiano equivalem-se? A academia e a rua (ou a selva, ou as ruínas de uma cidade esquecida) terão igual valor enquanto instituições que enquadram a aprendizagem da vida? 

    Poderia continuar a colocar questões atrás de questões num rosário com tendência para o interminável. Nem sequer estou interessado nas respostas, muito menos em eventuais polémicas que tais questões pudessem despoletar. Este post resulta apenas de uma certa indolência intelectual. Nada de muito grave, espero eu.

segunda-feira, outubro 03, 2022

O rapto

        Acontece. Ficara sozinha no salão a dançar uma valsa metida a tango. Todos haviam abandonado o baile. Ela imaginava-se a mais bela, a mais apetecível das criaturas. Pensava que não haveria quem lhe não fizesse a corte que era desejada que seria assim para sempre. Mas estava enganada. Já poucos lhe davam atenção e nenhum a amava (nunca a amara) de verdade. Talvez se tivesse apercebido disso ou talvez tenha apenas sentido uma grande vontade de apanhar o ar fresco que vinha soprado do mar. Saiu, pisou o areal e contemplou a lua magnífica que estendia uma passadeira prateada desde a linha do horizonte até aos seus pés, agora beijados pela espuma das ondas. Pensou que poucas imagens poderiam ser tão kitsch como aquela. Sorriu. Um touro branco emergia das águas e avançava decidido na sua direcção.

sábado, outubro 01, 2022

Um dia magnífico

     "Que dia magnífico!" nem o ruído da moto, lá em baixo na rua, foi capaz de incomodá-lo. "Que dia magnífico." Continuou a dizê-lo de si para si tentando convencer-se de que aquele dia seria, de facto, um dia magnífico.

    A leve sensação de euforia que o animava equilibrava-se-lhe no cocuruto da alma, não tão firmemente quanto gostaria. Estava lá no alto mas parecia poder cair ao mínimo abanão, parecia depender dos gestos que pudesse fazer; um movimento brusco, um pensamento ao lado e... puf, lá se iria o bem-estar levando consigo o "dia magnífico". Resolveu manter-se quieto como um rato quando tem a sensação de haver gato por perto.

    O tempo passou, passaram horas,e ele ali, quieto, a sustentar a alegria que pressentira mas da qual ainda não fora capaz de usufruir. O "dia magnífico" ia avançando montado nos ponteiros do relógio que lhe parecia sorrir lá da parede e ele, suspenso na possibilidade de estragar a beleza da coisa, ele nada. Parado. 

    "Que dia magnífico?" a dúvida instalara-se. Já o céu ia mudando de cor lá depois da janela, o relógio dera várias voltas aos ponteiros e ele sempre ali sentado, o rabo a incomodá-lo, o desconforto a impor-lhe a dúvida acerca da magnificência daquele dia que se preparava para acabar.

    Finalmente levantou-se (tinha de ir mijar). Foi quando aquela sensação de euforia, já há muito transmutada numa leve angústia, se despenhou lá do topo da alma onde a mantivera em precário equilíbrio ao longo de todo o santo dia. Ao aliviar a bexiga apercebeu-se que, afinal, aquele dia não tivera nada de magnífico mas isso não o incomodou. Afinal de contas também não se passara nada.

sexta-feira, setembro 30, 2022

Pesadelo

     Os dias decorriam todos iguais como se o tempo fosse um reflexo de si próprio no espelho da sua existência. O sol chegava, fixava-se no céu e por lá ficava até a lua vir marcar o ponto. Os dias sucediam-se com a normalidade habitual e ele cumpria as rotinas sem entusiasmo mas também sem qualquer angústia especial.

    Vivera toda a sua vida sem grandes medos. Nunca tivera fome a não ser por momentos ou por algumas horas sabendo que saciá-la era uma questão de oportunidade. O mesmo se passava com o frio ou com qualquer outro incómodo que pudesse assaltá-lo. A coisa sempre se resolveu com a naturalidade com que as coisas se resolvem na vida de quem vive uma vida sossegada.

    No entanto algo estava a mudar. Sentia-o bem. Era como se uma coisa má se viesse instalando no seu pequeno e ordenado mundo. Algo vagamente perceptível; um sufoco, um arrepio, um desregulamento que se insinuava entre o sol e a lua. Naquela noite teve dificuldade em adormecer e sonhou um terrível pesadelo.

segunda-feira, setembro 26, 2022

A quem pertence a guerra?

     A mobilização de tropas na Rússia tem sido notícia por estas bandas. Que os russos estão a dar de frosques fazendo filas imensas nas fronteiras; que as autoridades estão a mobilizar soldados entre a população mais pobre e rural. Parece que ninguém quer combater numa guerra que aparentemente nada diz aos candidatos a soldados. Não sei se é assim, se tudo isto é apenas fruto do nosso desejo de que os russos não queiram sujar as mãos numa guerra que, queremos acreditar, não é deles.

    Do outro lado combatem os corajosos ucranianos, defensores dos valores europeus, heróis valorosos que enfrentam o terrível invasor por amor à pátria. Convém recordar que logo nos primeiros dias de guerra o estado ucraniano impôs uma lei marcial impedindo todos os homens com mais de 18 anos e menos de 60 (o intervalo etário pode não ser este exactamente) de saírem do país. Foram obrigados a ficar e a pegarem em armas. Esta guerra não é deles também mas não têm escolha.

    No fundo, esta guerra não é de ninguém a não ser de Putin e dos seus mais próximos. Pertence ainda aos que "entregam" armas aos exércitos e, talvez, aos estados-maiores dos países beligerantes. Pertence a Zelensky? Enfim, pertencerá a algumas pessoas mas duvido que aquelas que combatem no terreno e vão caindo aqui e ali a sintam como sua.

terça-feira, setembro 20, 2022

Sonhos alheios

Parece evidente que o “sonho americano” não é para todos nós sonharmos. É um sonho apenas ao alcance dos grandes (os grandes da política, da finança, do desporto, do espectáculo, etc.) que nos é servido goela abaixo pelos meios de comunicação de massas. 

 

A forma como nos é impingida esta narrativa mostra que os diferentes canais noticiosos são, afinal, desconcertantemente semelhantes. Fica a sensação de que há uma pretensão mais ou menos velada de nos transformar a todos numa espécie de zombies sociais. Zombies que andam de um lado para o outro à procura de um pedaço de sonho americano para devorarem num ápice e que, logo após o terem consumido, voltam a arrastar o seu desejo sem que se vislumbre outra vontade que não seja a de saciar esta fome inumana. É a discreta transformação dos cidadãos em consumidores.

 

Talvez vá sendo tempo de compreendermos que o “mundo ocidental” está a cantar como um cisne e que as gerações futuras irão habitar um mundo com equilíbrios geopolíticos muito diferentes dos actuais onde, temo bem, o discurso dos Direitos Humanos não terá lugar, nem sequer como ornamento. É o “sonho chinês”?

segunda-feira, setembro 19, 2022

Fábulas

     É como se o Lobo Mau estivesse a encher um balão. Ele a soprar, a soprar, a soprar, o balão a inchar, a inchar, a inchar e nós, incautos cidadãos do mundo, olhamos aquele balão já de um tamanho impossível de imaginar sem antevermos a inevitabilidade do seu rebentamento. Quando isso acontecer, quando o enormérrimo balão estoirar num estrondo capaz de provocar ventos cósmicos, o susto vai ser de tal modo que todos os seres humanos nos borraremos em simultâneo no mundo todo, provocando um tsunami de merda que cobrirá o planeta de uma vez por todas; assim se cumprindo o destino que a Humanidade tem vindo a criar para si própria.

    Somos como os Três Porquinhos. As personalidades das rechonchudas personagens ilustram bem aquilo que somos enquanto espécie: confiantes, preguiçosos, despreocupados mas também atentos, inventivos, diligentes, solidários e implacáveis. Há de tudo, como na farmácia, é a maravilhosa diversidade do Ser Humano. Além dos traços psicológicos, os Porquinhos ilustram também, com uma fidelidade comovente, as características físicas daquilo que somos enquanto gente. A semelhança entre um coração de porco e o de uma pessoa é tão grande que só posso imaginar que as almas das duas espécies sejam igualmente aproximadas.

    Tenho para mim que nunca se deveria ter abandonado o recurso à fábula, por brutal que fosse, enquanto ferramenta educativa. Com moral da história e tudo.

segunda-feira, setembro 12, 2022

Cansaço

     Sinto-me tão cansado. Se pudesse desligar o cérebro era já! Parar de ser, parar de pensar, parar de fazer. Parar. Parar. Ficar parado. Como uma pedra, como uma planta, permanecer apenas. Nada mais.

    Esta sensação é deveras incómoda pois estou a poucos dias de começar um novo ano de trabalho e sinto que precisava mesmo era de descanso. As férias foram extenuantes devido à conjugação de um certo número de acontecimentos imprevistos que fizeram do mês de Agosto um autêntico caldeirão ao lume.

    Sinto-me tão cansado... ouço a canção a ecoar no meu interior

    I am tired, I am weary I could sleep for a thousand years A thousand dreams that would awake me Different colors made of tears

quinta-feira, setembro 08, 2022

Brutesco

            (O texto que se segue é o texto de apresentação da exposição de desenho que vou inaugurar mais logo às 21 horas na Galeria Imargem, em Almada.)

            BRUTESCO

Naquele ano dava eu aulas de História da Arte a uma turma do ensino secundário na Anselmo de Andrade, ali mesmo em baixo, atrás da bomba de gasolina, do outro lado da avenida. Na resposta a uma questão relacionada com os capitéis românicos de certas catedrais e igrejas da Idade Média, uma aluna (lembro-me que foi uma rapariga) respondeu num teste que “a escultura Românica é brutesca”. Ultrapassado o estupor inicial fiquei maravilhado.

Quando desenho sei que penso nos tais relevos românicos, no brutal preto e branco de Muñoz e Sampayo, na voz planante de Lou Reed, nas iluminuras do Apocalipse do Lorvão, na lata incontrolável de Picasso, no delírio grotesco de Bosch, na poesia punk dos Clash, na inventividade camaleónica de Bowie, na escrita de Stanislaw Lem, na aspereza de Paula Rego, nas portas de William Blake, nos corredores obscuros dos Pop Dell’arte, no traço desengonçado de Joan Sfar, na ausência de estilo de Max Ernst, nas manchas de Goya, nos fantasmas de Goya, em Goya…

É na hibridização anárquica de milhentas influências e infindáveis acasos que nascem os meus desenhos. Os meus desenhos são brutescos. 

Esta exposição é constituída por desenhos de três séries diferentes: Regresso ao Paraíso, Desenhos Soltos e Desenhos Mortos (todos os de tamanho A3); por 3 ou 4 desenhos de dimensão média e uma pintura a acrílico.

A série Regresso ao Paraíso é constituída por 24 desenhos e foi elaborada entre Maio e Agosto de 2021. Após algum tempo fora de casa, por motivo de obras, regressei podendo dedicar-me novamente ao Desenho. Daí a designação desta série.

A série Desenhos Soltos foi iniciada em Setembro de 2021 e ainda não está fechada. Até à data tem 68 desenhos. Os temas e as técnicas variam muito, conforme os dias e as noites.

A série Desenhos Mortos é constituída por 30 desenhos tendo como pano de fundo a guerra na Ucrânia. Foi iniciada em Março de 2022 e concluída em Junho do mesmo ano. O tema da guerra não desapareceu, faz parte do meu imaginário desde que me lembro, apenas deixou de ser a motivação principal de cada vez que me aproximo da área de trabalho.

Os desenhos de dimensão média têm técnicas e temáticas semelhantes às aplicadas nos restantes. A maior dimensão do suporte permite narrativas mais complexas e jogos formais mais intrincados.

A pintura a acrílico foi realizada durante um período de confinamento.

Os textos foram retirados do Blogue 100 Cabeças e posteriormente adaptados.

Oxalá inventes as tuas histórias e as acrescentes às minhas.

 

Rui Silvares, Julho/Setembro de 2022

quarta-feira, setembro 07, 2022

Professorar

     Por vezes penso se terei algum problema de integração no universo académico. Os professores (e eu sou um professor) de um modo geral secam-me os miolos de uma forma angustiante. 

    Há os que são chatos porque organizam de tal forma a sua exposição que nada de inesperado poderá interferir na sua verborreia. 

    Há os que chateiam porque adoram ouvir-se falar e, apesar de se exprimirem com correcção e clareza, falam, falam, falam, mas aquilo é como música de elevador. É ruído de fundo. 

    Finalmente há aqueles que conseguem equilibrar conhecimento e sensibilidade ao ponto de criarem momentos de grande eficácia comunicacional. Estes conseguem reconciliar-me com a minha própria classe profissional. Infelizmente por pouco tempo.

    Gostava de voltar a ser a criança que entra numa escola pela primeira vez.

sexta-feira, setembro 02, 2022

Palavreado

     Tantas palavras, tantas palavras... tentar explicar aquilo que nos vai na alma exige um esforço tremendo, exige tantas palavras...

    E se aquilo que pensamos pudesse ser passado para o Outro sem necessidade da escrita ou da fala? Se pensássemos directamente no espírito interlocutor haveria muito menos perda de informação no processo de diálogo. Mas, funcionaria?

    É frequente, quando me cruzo com outras pessoas na rua, imaginar como seria estar dentro do corpo que as leva. Que imagens produzem aqueles olhos no seu cérebro, que pensamentos dançam dentro daquela pessoa iluminada pelo mesmo sol que aquece a minha pele? Escreveu Saramago que "o mundo de cada um é os olhos que tem", formulação de feliz eficácia que explica um pouco este problema que me assalta com tanta frequência.

    Pensar dentro de cabeça alheia seria decerto interessante mas, acredito, seria muito confuso, porventura assustador.

terça-feira, agosto 30, 2022

Reformar o discurso

     Ser professor tem que se lhe diga. Deixando para um plano secundário todas as questões relacionadas com as condições de trabalho, com a remuneração ou a proletarização da classe, deixando tudo isso na gaveta, há um pormenor que me incomoda.

    O pormenor incómodo é que não tenho bem o direito de aterrorizar os meus jovens alunos com as minhas visões do futuro. Nem eu queria estar a criar-lhes macaquinhos no sótão, quanto mais alimentá-los! Mas essa auto-censura deixa-me frequentemente à beira de uma tristeza silenciosa.

    Mais, sendo eu professor sinto que faz parte do meu trabalho incentivar e motivar a criançada. Assim farei durante os próximos anos. Tento não mentir mas omito muita coisa que me passa pelo espírito. É uma situação complicada para quem, como eu, foi educado num ambiente católico onde a mentira é castigada com algum diabo de terceira categoria a dar-nos umas marretadas por toda a eternidade.

    Dentro de alguns anos irei reformar-me. Terei então todo o tempo do mundo para me enxofrar com a macacaria que me arrebenta o juízo.

segunda-feira, agosto 29, 2022

Sol

     Eu quero ser bom, praticar o bem, ser agradável. Mas faço-o por quem? Faço-o por mim, por ti, por qualquer outro? Os que têm a Deus por vigia não hesitam mas os que, como eu, são órfãos de céus e de infernos não sabem a que altar oferecer tanta bondade. Por pequenininha que seja.

    Se houvesse um Deus a importar-se decerto não seria Deus mas outra coisa. Assim, com bondade ou sem bondade, a morte ronda aquilo que se chama humanidade. O mundo prevalecerá, pois é claro. Para ele enquanto houver Sol há esperança.

domingo, agosto 21, 2022

Fanatismos

     O ataque a Salman Rushdie veio recordar-nos os contornos obscuros de ódios irracionais que tínhamos de algum modo esquecido. A violência perpetrada em nome de Deus nunca desaparece, adormece por períodos de tempo mais ou menos longos para irromper subitamente em todo o seu terrível esplendor. O fanatismo religioso é um cancro que corrói a Humanidade. 

       Ficamos chocados com a irracionalidade dos fanáticos do Islão mas, temo bem, eles não estão sós. A República Islâmica do Irão é um anacronismo. Não há discurso dos seus líderes sem que a vontade de Deus seja invocada. Mas, ouvindo os presidentes dos Estados Unidos da América, inimigos figadais dos iranianos, verificamos que também eles cometem o pecado de invocar em vão o nome de Deus. Os americanos chegam mesmo a inscrever a sua subserviência nas notas dólar numa proverbial confusão entre a natureza de diferentes divindades . E como classificar o discurso de Jair Bolsonaro? O fanatismo e os perigos que com ele crescem não são exclusivos dos adoradores de Alá, longe disso.

      Na Europa levámos séculos a separar Deus e o Estado, séculos a cicatrizar as feridas profundas que as guerras religiosas cavaram na nossa sociedade. Agora assistimos com maior ou menor perplexidade ao ressurgimento de movimentos sociais retrógrados apoiados em discursos religiosos que pretendem impor indiscriminadamente uma ordem supostamente desejada por Deus. 

       Este monoteísmo soa a politeísmo, tão vincadas são as diferenças dos adoradores de um e outro deus e se alguma coisa coisa prova a grandeza de Alá é o facto de Salman Rushdie ter sobrevivido ao seu assassino.

sábado, agosto 20, 2022

Um dia de cada vez

         "Viver um dia de cada vez" é uma daquelas frases feitas que dizemos sem pensarmos muito naquilo que nos sai da boca. Dizemo-la toda feita de vazios sem que nos trema a voz nem a alma. Mas hoje acho que, pela primeira vez na vida, compreendi um pouco do significado desta frase. 

domingo, agosto 14, 2022

Adeus Senhora das Aparições

    Estou a pensar na exposição de Paula Rego no Museu Picasso de Málaga https://www.museopicassomalaga.org/.../paula-rego-expo-esp uma pequena exposição que funciona como excelente introdução para quem não conheça a Nossa Senhora das Aparições. Paula Rego faleceu entretanto, entre a abertura e o fecho da exposição (no próximo dia 21 de Agosto). Então isto é como uma despedida, é uma nostalgia, é uma oração a deuses eventuais que possam existir e, caso não seja pedir-lhes demais, que possam fazer com que Paula Rego seja recordada enquanto houver gente sobre este mundo.

     

     

sábado, agosto 13, 2022

Ódio

     É tempo de férias mas os filhos da puta não tiram dias de descanso. O cão sarnento que atacou Salman Rushdie estaria a trabalhar? A recompensa prometida ao animal que tratasse da saúde ao escritor continuava à disposição do assassino? Como podemos (como posso) processar uma selvajaria deste género?

    Isto não é uma guerra, não é retaliação por qualquer tipo de agressão física. Isto é um crime contra a Liberdade de Expressão. Isto é um Auto de Fé, está ao nível de Caim a limpar o sebo a Abel. Se nos tiram a Liberdade de Expressão pouco nos resta por que valha a pena lutar.

    Se fosse crente faria uma oração por Salman, a Alá, a Jeová, ao raio que os parta. Como não sou crente fico apenas com algo vagamente semelhante a ódio alojado no meu coração.

segunda-feira, agosto 08, 2022

Ouvi dizer

     Dizem-nos que não há problema, que vai ficar tudo bem.Tendo a concordar, quando nos formos ficará tudo bem. Para as baleias, para os chimpanzés, para os papagaios e para os leões. Dizem por aí que o capitalismo não tem de ser olhado de soslaio, que sem capitalismo não haverá redenção. Tendo a discordar, o capitalismo é um monstro com 20 fileiras de dentes aguçados e de cada vez que um dente lhe cai dois novos crescem no seu lugar. Dizem por aí que o crescimento económico não é "o" problema. Tendo a discordar.

    

quarta-feira, agosto 03, 2022

A Democracia como empecilho


    Há muito que se fala em pós-democracia, mas o conceito não tem sido muito discutido nem tão difundido quanto seria desejável. Muitos são os que consideram que vivemos em pleno um regime pós-democrático; elegemos os nossos representantes que se ocupam do funcionamento das instituições e vão tomando decisões que permitem ir equilibrando o nosso quotidiano, mas as grandes decisões económicas são tomadas nos ambientes controlados dos conselhos de administração de meia dúzia de grandes empresas. Estas multinacionais formam uma espécie de Comité Central da Internacional Capitalista (IC) e são os seus patrões quem decide o modo como vivemos e como morremos, tendo como único objectivo a satisfação dos interesses dos seus principais accionistas. Os seus negócios são transversais, do armamento aos cereais, dos combustíveis fósseis aos verdes, onde houver dinheiro a ganhar há um comissário da IC a fazer com que a coisa flua.

    Isto pode soar a teoria da conspiração, mas não consigo evitar a sensação de estar a IC promovendo o desmantelamento da Democracia, peça por peça. A coisa está já em avançado estado de degradação nos EUA, no Brasil o ambiente não parece muito melhor, a ascensão nazifascista por toda a Europa é preocupante. Para gáudio da IC as grandes potências em ascensão têm regimes abstrusos: na China uma espécie de capitalismo de estado, na Índia um impossível democracia nacionalista hindu. Populações inteiras com direitos socio laborais mitigados ou mesmo inexistentes são o sonho húmido dos dirigentes da IC, o futuro da Humanidade.

    Assistimos ao declínio final do “século das luzes” após a derrocada dos impérios coloniais. A África terá de continuar à espera da sua hora, quem sabe daqui a mil anos…? Putin terá também direito a constar numa página da História, talvez numa nota de rodapé, lado a lado com Zelensky: os dois Vladimiros siameses que, cada um à sua maneira, deram a machadada final na União Europeia. Eu sei que tudo isto soa a teoria da conspiração, mas não consigo libertar-me da incómoda sensação de que a Democracia se tornou um autêntico empecilho.

domingo, julho 31, 2022

Memória esquecida

     Hoje andei por aqui a vasculhar posts antigos. Porquê? Para quê? Porque vou fazer uma exposição de desenho em Setembro e quero experimentar colocar alguns textos entre os meus desenhos (na foto acima, preparação da coisa). Ter um blogue como este é ter um arquivo imenso de textos escritos ao longo dos anos sobre os temas mais variados. Estou habituado a vir aqui de vez em quando buscar coisas de que necessito. É cómodo e eficaz.

    De repente lembrei-me do meu amigo Eduardo Penteado Lunardelli, uma espécie de Senhor dos Blogues, que viu todos os seus blogues obliterados de um momento para o outro sem que lhe tivesse sido explicado, pelo menos de forma satisfatória, porque razão o encerravam assim, sem aviso prévio.

    Isto deixou-me a pensar sobre o que fazer com os dois mil e muitos posts que estão aqui, no 100 Cabeças. Poderei perder esta memória de um momento para o outro? Corro esse risco. Passar tudo para um disco de memória externa? É uma possibilidade mas é tarefa morosa que não me apetece muito levar a cabo.

    Graças à minha inegável preguiça correrei o risco de "amnésia bloguista" mas, se levar em linha de conta uma certa capacidade para executar tarefas repetitivas e mais aborrecidas do que contar os feijões de uma lata, poderei ter esperança na realização da ciclópica saga do descarregamento do 100 Cabeças. Valerá a pena? Fazendo fé no poeta dependerá do tamanho da minha alma.

sexta-feira, julho 29, 2022

BUM!

     Cada vez mais sinto uma certa nostalgia do futuro. Nostalgia do futuro!? "O gajo está a asnear" pensa o leitor desprevenido. Como pode alguém sentir falta ou saudade daquilo que ainda não aconteceu? Pois é, não é fácil de explicar; é um sentimento tão profundamente difuso que as palavras o trespassam sem lhe sentirem a pele.

    É uma nostalgia daquilo que nunca virei a ser, acrescentando já as expectativas defraudadas, as que já lá vão mais as que haverão de vir; uma nostalgia da própria civilização tal como a conheci, não exactamente como ela é agora. Começo a ficar azedo, a pensar "no meu tempo é que era". Mas o meu tempo é também este tempo. Ainda não estou morto, pelo menos ainda não completamente.

    Cada vez mais tenho a incómoda sensação de que a nossa civilização não tem muito futuro. Não sei se esta sensação é provocada por estar a assistir, ao vivo e a cores, ao desabamento da suposta supremacia do "Ocidente". Não sei se por me aperceber que estamos a tornar impossível a sobrevivência da espécie humana nestes moldes, quero dizer, nada se expande infinitamente a não ser (ao que parece) o Universo. A expansão infinita da Economia provocará o rebentamento da bolha civilizacional e... BUM!!!

    Silêncio.

sábado, julho 23, 2022

Uma pequena dor

     Adeus! Tchauzinho, adeus! Não voltou a cabeça, avançou num passo decidido sabendo que voltar atrás era coisa interdita. Adeus, adeus, até nunca mais! A despedida prolongava-se na hesitação da voz que ficava para trás. Resolveu avançar mais rapidamente e lá foi. O "adeuzinho" soou já pequenino, lá longe, uma pequena voz a diluir-se na distância que o separava daquilo que seria inevitavelmente o seu passado. Uma pequena dor alojou-se-lhe na profundeza do peito, na profundeza da alma, também ela a diluir-se, a tornar-se parte dele. Nada a fazer; o tempo não regressa, a vida não é vivida duas vezes. Todo o caminho tem um fim. À medida que avançava as sombras tinham mais densidade, a luz ia perdendo força, o ambiente ganhando uma certa magia. Adeus! pareceu-lhe ouvir, mas não podia ter a certeza. A escuridão aliava-se agora ao silêncio. Talvez fosse aquilo o futuro.

sexta-feira, julho 15, 2022

5 minutos

     Sentia-se submergido pela sua própria experiência de vida. Momentos havia em que quase chegava a perceber fazer parte de algo maior do que o seu quotidiano, momentos em que quase acreditava haver um sentido para a sua vida; chegou mesmo a quase acreditar em Deus. Nestes momentos, tão mágicos quanto fugazes, o corpo descontraía e a respiração ficava regular. O mundo batia em uníssono com o seu coração.

    Mas a vida não se comove com a insignificância de quem somos. Sentia-se deprimido 23 horas e 55 minutos por dia, todos os dias. Sim, mesmo quando dormia, era visitado por pesadelos horrendos. Dizer que se tratava de um homem deprimido seria dizer muito pouco. Era um homem desfeito, um detrito, um indigente social: era, segundo palavras suas ditas defronte ao espelho "uma merda de merda". Poderoso.

    Fosse como fosse, vivia para aqueles 5 minutinhos quotidianos de quase felicidade a que tinha direito. Poderiam surgir logo ao acordar, lá mais para o meio da manhã, perto da hora do almoço, ao fim da tarde, na hora da caminha; podiam viver-se todos de uma vez ou distribuídos em pequenas parcelas ao longo do dia recortando figurinhas alegres no tecido da angústia permanente. Não fossem aqueles doces minutos e já teria enfiado um tiro na cabeça ou bebido um copázio de veneno para a rataria. 

    5 minutos de vaga felicidade vividos cada dia provavam-lhe que a vida não tem de ser apenas sofrimento.

quinta-feira, julho 14, 2022

Historiador

     Poderia escrever toda uma história da arte tendo como ponto de partida a sua própria obra. Uma história da arte contemporânea, está bom de ver, que nem mesmo os artistas são imortais, diga lá Camões o que disser. Coçou a barriga, mirou as unhas lá em baixo, nos pés sujos de pisarem o chão do atelier para lá e para cá, em volta, para cima e para baixo; deixou a nuca ir pesando até lhe atirar a cabeça para trás. Mirou o tecto.

    O tempo passara, passara, voltara a passar. Tanta coisa aconteceu e, afinal, a sensação que perdurava era a de nada ter acontecido. Todas as cenas gloriosas que lhe haviam preenchido os anos de juventude nunca foram motivo de notícia, nunca atraíram as atenções da elite, nem da crítica, nem sequer da chungaria, portanto era como se não tivessem acontecido. Cenas gloriosas? Só mesmo na cabeça dele... ou não? 

    Havia ali uma certa confusão.

    Muita química inflamável, miolos queimados, recordações que tratava de reconstruir sempre que lhe visitavam a alma. Cada vez duvidava mais de que certas coisas tivessem, de facto, acontecido e das que se lembrava sem rebuço punha em causa que houvessem sido mesmo assim. Mas podia escrever essa tal história. Talvez não da arte mas a sua história.

    Levantou-se em direcção ao frasco de pickles onde descansavam pincéis mal penteados afogados em água suja de tinta. Antes de alcançar a tela meio pintada já se tinha esquecido da ideia magnífica que o fizera levantar da cadeira.