Entrudo e Carnaval são coisas de gente pobre e, como são dias de virar o mundo às avessas, a gente ri, mas lá no fundo estamos a gritar tristeza. O Rei Momo é um palhaço (quererá isto dizer que somos governados por palhaços?) e os seus súbditos saltam como macacos, fazem esgares de macaco e guincham como macacos. São festejos onde os pobres têm direito a deitar para fora tudo o que lhes vai na alma e com isso enchem ruas e avenidas das mais destrambelhadas atitudes, em desfiles alucinados.
Quando a festarola chega ao fim, o mundo é devolvido à sua ordem natural. Os macacos do desfile voltam a vestir os seus fatos de gente verdadeira, os Reis de Facto regressam às cadeiras do poder e metem outra vez tudo nos eixos. O mundo não é aquela coisa distorcida e grotesca. É distorcido e grotesco mas de outra forma. A regra não é o samba nem a batucada. A alegria, obrigatória do Carnaval, volta a ser acidental, acontecendo de vez em quando.
Os homens e as mulheres que andam a limpar o chão da rua não estão mascarados de varredores.
