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sábado, maio 09, 2026

Profecia

     Aparentemente estamos bem arranjados! Estamos fritos, não cozidos, fritos em azeite a ferver, temperados com malaguetas arrepiantes e umas rodelinhas de cebola para puxar ao sentimento, libertar a lágrima hesitante.

    Cada vez mais ouço opiniões de seres humanos que, como eu, perspectivam um fim próximo para a nossa espécie tal como ela se nos apresenta nos dias de hoje. Concordo quase sempre. Ouvi aqui há dias um (penso que era inglês ou seria cidadão dos EUA?) gajo qualquer a dizer exactamente aquilo que me parece, irá acontecer, uma profecia do caraças!

    Não será a nossa espécie que acaba mas sim esta civilização, este modelo de organização capitalista que enforma a sociedade global. Haverá sempre algumas bolsas de sobrevivência, pequenas comunidades agrárias que irão prevalecer, sementes de Humanidade. Decresceremos brutalmente em número mas ficaremos por aí, à espera que o tempo faça o seu trabalho e, tal como um vírus paciente, possamos voltar a declarar-nos a espécie dominante; até que, alguns séculos depois, a coisa dê outra vez para o torto.

    Quantas vezes terá isto acontecido na História do nosso planeta? Quando esta civilização colapsar restará dela alguma memória activa? Nunca o saberei. Nem tu, amigo leitor. O futuro a Deus pertence. 

quarta-feira, dezembro 31, 2025

Amanhã

     O ano de 2025 tropeça e cambaleia em direcção ao seu fim. Envelhecido. desiludido, enganado por tudo e por todos, vê incumpridas todas as promessas que fez e lhe foram feitas. O logro do costume. Mais logo haverá um Novo Ano e a euforia irá invadir corações e empolgar espíritos; novas promessas serão juradas, abraços, beijos e foguetório. O Futuro resume-se a um ritual vazio de conteúdo.

    Amanhã será tudo aparentemente novo. Por um ou dois dias ainda iremos acreditar que uma data no calendário transporta consigo poderes mágicos e capacidades transformadoras mas, dentro de uma semana, mais um ou dois meses, já teremos esquecido tudo, de tal modo voltámos a mergulhar na espuma dos dias.

    Poderias perguntar-me: mas isso é bom ou é mau? A minha resposta não seria satisfatória pois nada disto faz sentido por aí além. Talvez tudo seja apenas um sonho. Talvez acordes antes de bater a meia-noite.

domingo, dezembro 14, 2025

Os merceeiros do Apocalipse

     Empolgados no segredo dos seus sonhos pelo mito do Paraíso descrito nos livros sagrados, alguns dos nossos antepassados recentes, sobreviventes dos horrores da Segunda Guerra, quiseram construir o Jardim aqui na Terra. Foi assim que começou a construção daquilo a que hoje chamamos União Europeia.

    A sensação de justiça e segurança social atrai para este sonho gentes de todas as latitudes. Eles vêm de países ricos, de países pobres, de países assim-assim, seduzidos pelo sonho cristão quase tornado realidade. Milhões de não-cristãos, convertidos ao ideal das Escrituras sem disso se darem conta. Apesar de continuarem a frequentar as suas mesquitas e sinagogas, os cativados imigrantes vão-se transformando numa outra coisa. De tal modo que os filhos dos seus netos não terão memória de quem foram.

    Eis que o terrível mito do anti-Cristo vai ganhando corpo mas, inesperadamente, não é um ser terrível, não são 4 cavaleiros, são merceeiros do Apocalipse, comandados por um tonto imbecil. Um velho gordo e narcisista, com um penteado impossível para disfarçar a careca, como se a estupidez e a ganância pudessem esconder-se numa caverna sustentada a laca.

    Compreendemos agora como as narrativas épicas do passado e a grandeza dos heróis que erigiram este mundo pode ter sido exagerada e orientada pelos próprios. Na verdade, sempre tivemos o destino traçado apesar de isso ser uma impossibilidade cósmica.

     

quarta-feira, outubro 29, 2025

Futurismo

     A sensação instalou-se e nada poderá desalojá-la: o destino da humanidade é mais curto do que se poderia imaginar há apenas duas ou três décadas atrás. Talvez a coisa não seja assim tão radical, haja esperança. Talvez fiquem por aí uns quantos, para semente. Talvez restem pequenas comunidades de seres humanos capazes de resistir e repovoar o que restar de território habitável. Talvez haja esperança para a existência de Deus.

    Parece-me indiscutível que as divindades, tal como acontece com as fadas, dependem daqueles que nelas acreditam para que possam existir. O que será de Jeová sem as Suas criaturas, os Seus altares, as Suas testemunhas? 

    Assim, esta correria vertiginosa da nossa espécie em direcção ao abismo civilizacional parece-me uma espécie de suicídio divino. Talvez as tribos amazónicas que não sabem o que é o aquecimento global ou o continente de plástico, que desconhecem Jeová, Alá e outros aleijões do género, que nunca viram um gajo como eu ou como tu, pacientíssimo leitor, talvez essas tribos venham a reinar no planeta tendo como adversários o crocodilo e a pantera, verdadeiras divindades da floresta.

    Talvez a Bomba nunca chegue a ser lançada.

domingo, maio 19, 2024

Acreditar

     Tantas coisas em que pensar, tantos objectivos para cumprir, a cabeça começa a pesar-me. Fossem coisas fáceis de resolver decerto não sentiria esta ligeira vertigem que começa a tomar forma por detrás dos meus olhos. A táctica a adoptar resume-se a: não esmorecer.

    Não esmorecer significa acreditar. Acreditar que serei capaz de solucionar os problemas, preencher os espaços vazios, produzir pensamento suficientemente eficaz de modo a não ficar embaraçado quando for tempo de apresentar resultados. Acreditar. É fundamental acreditar.

    Acreditar não é bem a mesma coisa que ter fé.

quarta-feira, setembro 20, 2023

Futuro

     Não sabia bem se a coisa fazia sentido mas, agora, já nada poderia pará-lo. Bastava a sua vontade. Algumas pessoas achavam aquilo esquisito, outras torciam o nariz de tal modo que ficavam com expressão de saca-rolhas. Nada disso lhe desviava a atenção, nada disso fazia esmorecer o ímpeto de continuar com aquilo: todos os dias fazia mais um pouco, cada dia avançando um bocadinho, dia após dia o Futuro ia sendo construído.

    O céu escureceu subtilmente, pingou alguma chuva. O ar estava tão fresco que até o canto dos pássaros se sobrepunha ao ronronar maléfico dos automóveis. Olhou demoradamente as suas mãos. Depois desferiu o golpe. Único e certeiro.

quinta-feira, junho 22, 2023

O carnaval sim, são 3 dias

     E os dias vão passando, serenos, quase agradáveis. Adivinha-se a canícula, o que poderá transformar esta pacatez quotidiana em ligeira angústia, desejo de frescura impossível de satisfazer. Mas nada de muito preocupante. Ainda há algum tempo, alguma folga para ir gozando esta suavidade existencial a fazer pensar em veludinho azul e bolas de algodão doce que não se colem aos dedos nem provoquem uma impressão repulsiva nos dentes.

    Um dia seremos confrontados com a factura a pagar por vivermos tal desafogo. Mas, até lá, gozemos as benesses que o capitalismo imperialista ainda nos proporciona. Não vale a pena estarmos a pensar nas gerações anteriores que sofreram as passinhas do Algarve para que tenhamos os confortos de que hoje desfrutamos; nem será aconselhável pensarmos no sofrimento que as gerações futuras (pouquinhas segundo Harari) irão ter de suportar. Vivamos.

    Um dia de cada vez, que a vida já não são três.

quinta-feira, dezembro 26, 2019

2020

Após uns dias a comer como se não houvesse amanhã (e, no entanto, há sempre um outro dia) sinto-me um pouco menos activo, mais passivo, embrutecido, em suma. Quando se come demasiado, a digestão concentra grandes esforços que, em condições normais, poderiam ser distribuídos por outras funções vitais; pensar, por exemplo.

Ando um bocado disperso, hesito em imaginar o ano de 2020. Se o calendário se confirmar irei participar em, pelo menos, 4 exposições de artes plásticas. É bom; não me lembro de participar em tantas exposições no espaço de um ano, muito menos de as ter agendadas com tal antecipação. Sinal de maturidade?

Se tudo se concretizar conforme os indícios, será também publicado um romance do meu amigo José Xavier Ezequiel que ilustrei. É um projecto que está concluído há bastante tempo mas que, por uma razão ou por outra, tem visto a sua edição adiada. Parece que é desta!

Outro amigo do peito, o André Louro, prepara a edição de um CD com músicas da sua autoria no projecto que dá pelo nome de Duas Chamadas Não Atendidas e que terá na capa um desenho meu. É um prazer.

Com o Teatro Ubu ando e congeminar a produção de O Último Burro, nova peça produzida pela Arte 33 e que promete momentos de grande divertimento. Em Maio (se não estou em erro) iremos repor A Inauguração com 4 espectáculos no Teatro-Estúdio António Assunção em Almada. Haverá, portanto, teatro, além das artes plásticas. Deliro!

Tudo isto em paralelo com a minha actividade docente que, a cada ano que passa, se torna menos entusiasmante mas que tento cumprir com o máximo de profissionalismo que sou capaz de investir. 2020 promete não ser monótono. Cá estarei para ver, se Deus quiser, como diz o outro.

domingo, novembro 24, 2019

Querer

O Ser Humano que estamos a construir está cada vez mais desumanizado. Instalada a angústia neoliberal: a necessidade voraz de consumir, de ser através do ter, a transformação do Ser humano em "capital" humano... é demasiado! E as esquerdas respondem aos pontapés no próprio cú.

Precisamos de saber aquilo que queremos MESMO, não pode ser tudo! Temos de saber do que estamos dispostos a prescindir de modo a alcançarmos a distribuição generalizada daquilo que consideramos essencial. Se pretendermos tudo ao mesmo tempo não teremos nada, a não ser decepção e desumanização total.

O neoliberalismo está a dar as últimas, prestes a assumir uma nova forma, definitivamente monstruosa e destruidora. Precisamos de nos preparar para o embate.

segunda-feira, setembro 03, 2018

Futuro?

Um gajo observa os recentes desenvolvimentos políticos em diferentes países da União (ou dela próximos) e não dá para ficar descansado. Nem um pouco mais ou menos.

Por todo o lado os ideais xenófobos da extrema direita ganham espaço e conquistam eleitores. Na verdade, os meios de comunicação expõem estes partidos como sendo racistas e soberanistas. Outras questões políticas (saúde, educação, economia) não são abordadas. Serão o racismo e a xenofobia os únicos combustíveis destes gajos?

A ascensão fascista é preocupante por todas as razões e mais uma. A agressividade fanática destas hordas de energúmenos cria uma tensão social insuportável e o confronto físico passa a estar na ordem do dia. A violência está ao virar da esquina. Muitas ruas deixam de ser seguras.

Há uma evidente conspiração de extrema direita para acabar com a União Europeia. Fica a sensação de que têm o apoio da Rússia de Putin e, agora, também dos EUA de Trump. A União não será um tesouro mas aquilo que se vislumbra nas acções e nos discursos dos fascistas é um lixo lamentável.

Podemos continuar à espera do Futuro ou teremos de ir buscá-lo, nem que seja preciso andar à pedrada?

domingo, junho 26, 2016

O medo de Astérix

Aquilo que Astérix e os irredutíveis gauleses mais temiam está a acontecer a todos os europeus que habitam dentro das fronteiras da União: o céu está prestes a cair-nos nas cabeças.

Sou dos que acreditam que a União Europeia é a melhor forma de sonhar o Futuro. Os objectivos a alcançar estão distorcidos, a forma de construir a União tem sido mal orientada? Sim. Mas isso não significa que troquemos um sonho por um pesadelo.

Sou dos que acreditam que, longe de destruir o espaço comum em que vivemos, deveríamos reflectir sobre a forma de o refundar.

Sinto-me, de novo, um adolescente a viver o tempo do "no future".

sexta-feira, junho 19, 2015

Esquecimento absoluto

Não, eu também estou de acordo.
Sim, já não existe uma luta de classes. O que é isso!?

Quando se fala em "luta de classes" há sempre algum doutor pronto a explicar que isso é uma coisa do passado, que nas actuais democracias ocidentais essa designação não faz sentido.

Pois, não poderia estar mais de acordo, a luta é coisa do passado; actualmente vivemos é uma guerra! Uma guerra de classes.

É uma guerra fria, uma guerra não declarada entre inimigos impossíveis de conciliar. De um lado o exército do Capital. Do outro lado o exército dos Contestatários. O Capital tem armamento muito superior ao dos Contestatários que, no entanto, são um exército muitíssimo mais numeroso. É a guerra da força contra o número.

Não se vislumbra a mínima possibilidade de alguém ou alguma coisa conseguir debelar a intensidade deste confronto, embora muitos estejam convencidos de que um entendimento proveitoso para ambas as partes pudesse ser alcançado. O que falta em bom senso sobra em ambição.

Há quem afirme que esta guerra vai durar enquanto houver um mínimo de organização social. Os mais extremistas destas teorias pensam que, mesmo que a nossa espécie regresse a um estado civilizacional vegetativo, a um sistema de organização de nível pré-histórico, existirá um fosso a separar uma minoria que explora a maioria e que tende a acumular os bens produzidos ou recolectados.

Mesmo que voltemos a subir às árvores para dormir uma noite mais ou menos descansada a guerra de classes não deixará de minar as nossas relações sociais, não deixará de corroer o futuro. Assim, o futuro nunca se distinguirá significativamente do passado até que ambos colidam num estrondoso novo Big Bang, um fabuloso Big Bang filosófico e conceptual que irá atirar a memória do nosso tempo para um limbo que nenhuma outra espécie jamais será capaz de aperceber.

Será o esquecimento absoluto. 

sexta-feira, março 14, 2014

Numeração humana

Os nazis tatuavam nos judeus que mastigaram em Auschwitz aqueles numerozinhos sinistros como factor de identificação. Uns no braço, outros no peito, estavam todos escritos para não haver confusões.

A nós tatuam-nos uma série de numerozinhos no cartão de cidadão: identificação fiscal, utente de saúde, segurança social e mais uns quantos, um pouco menos perceptíveis mas, decerto, individualizados.

Há também os números das contas bancárias (que alguns de nós tatuam na memória), além dos números dos cartões de débito ou de crédito que funcionam como aquelas tatuagens que saem como brinde nas guloseimas das crianças; aquelas que se "tatuam" com água e vão desaparecendo com o tempo.

Estamos todos escrevinhados, riscados e carimbados, identificados, numerados e chipados. Somos como pombos com anilha electrónica, não damos um passo que não possa vir a ser reconstituído no futuro caso seja necessário alguma autoridade saber onde fomos, por forma a poder decidir o que andámos a fazer.

Virá o dia em que todo e cada ser humano será chipado à nascença, um chip enfiado algures, num lugar de onde seja inamovível. Todos os números guardados bem fundo do ser, o sonho de qualquer sistema burocrático contemporâneo.

Estamos marcados para a vida e, decerto, um dia que nos enfiem num caixote e nos enterrem algures, haveremos de ter um numerozinho qualquer que nos identifique, individualize e permita saber com exactidão onde foram depositados os nossos restos mortais.

sábado, novembro 24, 2012

Você está aqui

Para sabermos ao certo aquilo que queremos talvez tenhamos de simplificar o leque das nossas opções. Precisamos de um desenho simples, uma linha clara preenchida com cores planas, sem sombreados ou modelações complexas. Mais De Stijl e menos Dada.

Será que apenas após compreendermos a clareza essencial da estrutura das formas (e do raciocínio) podemos aventurar-nos em loucuras visionárias sem corrermos o risco de perder o tino?

Toda a simplificação resulta de um afastamento. Um olhar afastado permite desenhar um mapa. A nossa capacidade de abstracção faz o resto, confere-lhe sentido. Consultando a linha que representa a rua onde caminhamos deslocamo-nos no sentido pretendido. Fazemos isso dentro da nossa cabeça e, em simultâneo, caminhando sobre os nossos pés. É um exercício de abstracção absoluto e, no entanto, intimamente relacionado com o mundo real.

Também para compreendermos o que se passa com a nossa sociedade necessitamos de afastamento. Analisar o tempo presente é demasiado confuso, estamos dentro dele e ainda ninguém conseguiu desenhar um mapa conceptual que o possa resumir. Estamos demasiado envolvidos.

A História é um exercício de análise do passado que permite delinear formas simples e mais ou menos lineares. O historiador concentra-se na representação de determinados aspectos e passa-nos uma imagem que somos capazes de compreender (ou pelo menos imaginamos que somos capazes de compreender).

Traçar o mapa dos acontecimentos recentes mostrando a cada um de nós em que ponto da nossa História individual nos encontramos e para onde podemos dirigir-nos sem que percamos o fio à meada é algo do domínio da utopia mais absoluta. Caminhamos às cegas, avançamos por instinto e ninguém pode garantir que não estamos a recuar ou a deslocar-nos em círculos.

Imagino que seria interessante poder olhar um mapa do tempo presente (com indicações seguras em relação ao tempo futuro e mostrando com correcção o caminho até aqui percorrido) e ter aquela indicação que é habitual nos mapas turísticos, com um círculo vermelho bem destacado e a frase mágica "você está aqui".

quarta-feira, junho 27, 2007

Robotarium X

O Robotarium X instalado no Jardim Central, Alverca (Vila Franca de Xira), é o primeiro do género no mundo.Trata-se de uma estrutura em vidro e aço no interior da qual vive um conjunto de 45 robots, distintos na sua morfologia, comportamento e forma de conseguir energia.
O Robotarium é um projecto de arte e ciência do artista plástico Leonel Moura, com implementação de robótica da IdMind e apoio da Câmara Municipal de Vila Franca de Xira. Pode ser visitado em qualquer momento mas aconselha-se naturalmente os dias com bastante sol e em que a agitação destas pequenas criaturas é mais acentuada.
Leonel Moura prossegue o seu trabalho de investigação em torno da "vida" dos robôs. Depois dos robôs pintores propõe , desta feita, uma espécie de habitat para seres mecânicos. Clicando aqui http://www.lxxl.pt/rxpt.html pode o leitor familiarizar-se um pouco mais com esta estranha "quinta" artificial e com os seus habitantes.