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domingo, abril 05, 2026

Bosch é bom

     Não se compreende, porque o verbo "compreender" não é o adequado quando contemplamos um tríptico de Bosch. Como poderíamos compreender algo tão complexo, tão anguloso, tão abstruso, tão repentino na forma como muda de direcção e se desvia da parede sobre a qual se lançou em vertiginosa velocidade no derradeiro e precioso momento? Deixarmo-nos esborrachar de encontro ao muro de complexos significados formado pelo quadro também é uma opção a ter em conta. E não será menos agradável que qualquer outra que possamos tomar.

    Não se compreende porque vivemos no século XXI, porque temos artefactos electrónicos e nos basta accionar um interruptor para que se faça luz a qualquer hora do dia. Não se compreende porque em vez de burros montamos automóveis e no lugar dos sonhos que eram sonhados olhando o céu temos agora aviões a jacto cortando a imensidão em fatias.

    Não se compreende porque o nosso Deus veste fato e gravata e foi transformado em burocrata. 

segunda-feira, fevereiro 23, 2026

Da pintura

     A arte de pintura é um Universo. Fazer e pensar, pensar e fazer, a ordem das parcelas não é aleatória, configura momentos muito diferentes, atitudes específicas e resultados que nunca ficam completos, antes se expandem para lá do imaginável; a arte da pintura é um Universo em expansão, como é de bom tom entre os membros da Confraria dos Universos.

    Nos dias que correm, a leitura de qualquer texto relacionado com pintura é capaz de me fazer reflectir sobre questões que me parecem excelentes. Seja a prosa de Francisco de Holanda ou um texto sobre pintura contemporânea, tudo me parece clarinho como água, o que não compreendo à primeira depressa me chega por via do raciocínio; sabe bem.

    Quando frequentei a Escola Superior de Belas-Artes estas leituras seriam mais ou menos como espetar agulhinhas nos olhos ou torcer a mioleira como se de um trapo encharcado se tratasse. A idade proporciona espantosas transformações ao ser humano.

quinta-feira, novembro 20, 2025

Rotina matinal

     

    Estou a fazer uma pintura. Começou por ser uma imagem única à qual resolvi acrescentar outras duas, laterais, com as mesmas dimensões da primeira: 100X70cm. O título, "My Sweet Lord". No "painel" central há uma luz que irradia do  alto, sugerindo uma forma cónica ou triangular, luz essa que anuncia actividade divina que se desenrola fora do campo de visão do observador. O que se passa ali, no alto? Não sei, não estou a ver.

    Todas as manhãs olho e observo a pintura durante, pelo menos, meia hora. Tenho uma passadeira com um ângulo de visão aproximado ao desta foto e caminho uns quantos quilómetros a olhar o, agora, tríptico. Surpreendo-me sempre que exerço esta actividade, surpreende-me a forma como o tempo se expande enquanto caminho, olho e sonho. Passo tempo de qualidade comigo próprio.

    Estas caminhadas contemplativas têm qualidades transformadoras que não consigo explicar (nem carecem de explicação), basta-me usufruir da coisa. Todas as manhãs. O dia que segue corre bem.

terça-feira, março 25, 2025

Árvore Imunalógica

    

Árvore Imunalógica (inacabada)
acrílico sobre papel de aguarela em folhas de tamanho A3
7X42cm de altura

    A lua, uma aranha, hipopótamo, um nome, uma ideia, homem, mulher, espírito, o sol, luz, montanha, nuvem, jaguar, o livro, floresta, rio, pássaro, fantasma, nota de banco, elefante, demónio, fogo, coisas pequenas, infinito, tudo, nada, algo impossível e o seu contrário, eis algumas das formas de Deus. Desenhar a árvore genealógica de Deus, entidade híbrida por excelência, é tarefa deveras ingrata. Ao reflectir sobre o assunto encontrei uma árvore, sim, mas imune a qualquer tipo de lógica, encontrei uma “árvore imunalógica”.

sexta-feira, abril 12, 2024

O Jardim das Tentações

     Ver uma pintura de Bosch é como aprender o deslumbramento. Por vezes sinto uma vaga inveja dos que vivem em Madrid mas resolvo a questão com uma ida ao Museu Nacional de Arte Antiga. Graças a Deus temos ali As Tentações de Santo Antão, a pintura que, seguramente, mais tempo de reflexão me ofereceu ao longo da vida.

    Há quem diga que se trata da obra mais espectacular de Bosch mas O Jardim das Delícias não lhe fica atrás. Vi esse tríptico uma única vez durante não muitos minutos e tenho dele uma saudade imensa. Um dia terei de regressar a Madrid, a plantar-me na sala do "Jardim" durante o tempo suficiente que me permita algumas janelas de oportunidade para o olhar com sossego, sem muita gente a incomodar. Consigo fazer isso com facilidade no MNA, poderei fazê-lo no Prado?

    Nem sempre consigo mas, por vezes, tenho lampejos de lucidez que me permitem aproximar vagamente de uma linguagem "boscheana" nos meus trabalhos. Muitas pessoas estabelecem uma relação directa entre muitos dos meus desenhos e o mestre, o que me surpreende pois eu próprio não veria essa relação se não me fosse apontada. 

    Quero criar um Jardim das Tentações mas duvido da minha capacidade de concentração. Como faria Bosch para pintar os seus mostrengos? Que estranho raciocínio, que inesperadas associações, que inventividade! A vantagem é que, em caso de falência imaginativa, posso sempre copiá-lo!

segunda-feira, novembro 13, 2023

Painel central

     O título é "O Jardim das Notícias". Uma sucessão de planos daqui até à linha do horizonte, uma paisagem essencialmente urbana que vai mudando à medida que se afasta do observador. Prédios estapafúrdios, aglomerados de personagens concentradas nos telemóveis que seguram numa mão enquanto que, da outra, deixam pender objectos distraídos.

    Há jardins e animais (essencialmente porcos, abutres, crocodilos, talvez girafas) as plantas germinam vigorosas, árvores têm frutos que são cabeças de crianças. As figuras têm aspectos estranhos, algumas são híbridas, quimeras tecnológicas resultantes do cruzamento entre objectos e carne viva. Há um tom geral de uma certa jovialidade, quase boa disposição.

    Uma repórter tem um microfone erecto na zona do sexo, várias personagens vestidas com camisa e gravata aglomeram-se em volta do que parece ser uma grande cabeça e comem-lhe o cérebro à colherada. Um homem de óculos escuros olha-nos por sobre o ombro sorrindo de forma enigmática. 

    É uma paisagem com ambiente eufórico, um tanto confuso.

segunda-feira, março 14, 2022

E a morte?

     Terá dito Leonardo de Vinci que "a pintura é uma coisa mental". Mais isto menos aquilo, consideremos que sim, que o mestre terá dito que a pintura é uma coisa mental. 

    Conta-se que a frase lhe terá saído após uma queixa dos monges do convento de Santa Maria delle Grazie que reclamavam do facto de ele passar mais tempo embasbacado a olhar para a parede do que a mexer em pincéis e tintas. Será uma das muitas anedotas que se contam sobre pintores e pintura mas deixou uma marca muito profunda no modo como imaginamos que a produção artística se movimenta numa espécie de fronteira entre este mundo e um outro, no qual as formas se encontrarão em estado puro.

    Esta manhã ia caminhando pelo parque quando me veio à cabeça esta frase e, por arrasto, a questão que ela encerra. Especado perante uma árvore tentando captar-lhe a forma, as subtis diferenças de cor e de tom que a luz matinal proporcionava ao meu olhar, pensei na famosa questão: estaria eu, naquele momento, a pintar?

    Entre aquilo que imaginamos e aquilo que pintamos está o nosso corpo. Nem sempre a ideia encontra correspondência na forma, as nossas limitações impedem que a coisa seja tão perfeita quanto a imaginamos. Quando pintamos perseguimos uma ideia, uma espécie de sonho, que se nos adianta sempre, que raramente conseguimos alcançar. Pintar é mais ou menos como pretender atingir a linha do horizonte numa paisagem interminável: dirigimo-nos para ela mas nunca a alcançamos; é o horizonte, caraças!

    Desci a rua em direcção a casa e pensei que, na verdade, tudo é uma coisa mental. Até a vida. Mas... e a morte?

sexta-feira, setembro 05, 2014

100 cabeças num outro lugar

No último mês dediquei grande parte do meu tempo à execução de 5 pinturas em superficíes quadrangulares de 1 metro de lado. Se tudo correr conforme o previsto irei expor estes trabalhos num bar/oficina de bicicletas que fica em Cacilhas, o Mundofixie. O título da coisa será 5m2; óbvio. A organização do evento tem o selo do Cidadão Exemplar.
Aqui ficam imagens dos trabalhos a apresentar nessa exposição que ainda não tem data marcada.




De cima para baixo: "Escravos do Dever"; "Marilyn"; "Nightmare in Escola Primária Street"; "O Mundo Morreu na Guerra" e "Canção de Embalar".

domingo, dezembro 29, 2013

Ver



Três magníficas obras em Veneza

Ontem vi pinturas de Tintoretto na Galleria dell'academia em Veneza. Vi outras obras de grandes artistas mas foram as pinturas de Tintoretto que me preencheram. A pintura deste gajo parece mentira, parece milagre, parece extraterrestre. É deslumbrante.
Esta figura flutua, literalmente, sobre o altar da capela

Hoje estou em Roma e fui à capela Sistina. Se esquecer o facto de me ter sentido como sardinha em lata ou ovelha num rebanho pastoreado por gajos maus (no photo, no video, go the left e sei lá que mais) posso dizer que vi outro milagre.

Diz o ditado católico que "ver é pecar", é mas é o caraças! Ver é uma dádiva divina quando se vêem coisas como as que vi ontem e vi hoje. A viagem já valeu a pena, mas isso já eu suspeitava.

segunda-feira, junho 04, 2007

Imagem alucinante

Neste sítio http://haltadefinizione.deagostini.it/ pode-se encontrar uma alucinante visão de um fresco da Renascença italiana. A possibilidade de ampliação da imagem permite ao observador compreender melhor alguns "truques" da pintura mostrando até que ponto a reprodução fotográfica através da qual contactamos as obras pode induzir-nos em certos e determinados erros de apreciação.

sábado, outubro 21, 2006

É a pintura artesanato?

http://www.sfmoma.org/images/ma/exhib_detail/bill_viola3.jpg

Estará a pintura a reduzir-se? A princesinha das belas-artes (não há que temer o kitsch, já não faz sentido, ahahahah) estará a ser traída pelos seus próprios guardiões? Nos dias que correm o vídeo tem vindo a chegar o rabiosque ao trono e já há quem lhe preste vassalagem com maior devoção que à pintura. Ai, ai, atrás dos tempos vêm tempos e outros tempos hão-de vir. Então que venham!

Lá vai o tempo da escultura. Os grandes escultores clássicos, gregos, renascentistas, o imortal Bernini (http://www.artchive.com/artchive/B/bernini.html) talvez o maior de todos os tempos, foram postos a um canto pela versatilidade dos pintores do século XIX/XX que puseram a sua arte no centro da reflexão estética. Pensar a arte era fazer pintura. A escultura parecia coisa demasiado pesada, demasiado objectual para poder ilustrar conceitos puros acerca da arte. Bons tempos para os artistas pintores. Mesmo o grande Duchamp se dividiu entre pensar, pintar, fazer, inventar um novo sentido para a criação artística. Ah, o Grande Vidro (http://www.beatmuseum.org/duchamp/bride.html)! O espaço envolvente sugado pelo objecto plástico, a revolução total no ser artista, fazer arte a partir do nada. Caramba, deve ter sido demais!

Reinventar uma linguagem milenar, criar novas fronteiras no espaço sideral do pensamento humano, os pintores incharam como o sapo que fuma, convencidos que na pintura estava tudo o que poderia interessar ao discurso estético, como se a pintura fosse "a" arte (a tal princesinha). E, tal como o sapo, PUM! Rebentaram (rebentámos) deixando um jacto de fumo que estabiliza em nuvem passageira e começa já a sturar-se na paisagem.

Depois da composição "Branco sobre Branco" de Malevitch (http://www.a-r-t-asso.org/ully/malevitch_blanc/presentation.htm) não restou mais nada para inventar. A pintura tornou-se um infindável processo de citação. As pinturas mais agressivas que já vi em dias de vida foram deste russo maluco numa exposição intitulada Malevitch e o Cinema, no CCB, que visitei com o Fernando Ribeiro já nem sei quando.

É estranho como a pintura à medida que vai anulando o objecto da sua superfície gera mais e mais ideias, palavras, textos e reflexão. Quanto menos referências ao mundo circundante mais falatório, maior necessidade de dizer aquilo que não está lá e que, em boa verdade, a maioria dos mortais não vê se ninguém lhe contar a história daquilo que vê e deve pensar. A pintura é então substituída pela crítica e morre um pouco. Deixa de ser o que é suposto ser para se transformar em reflexão pura, conceito.

Já Cézanne (http://www.expo-cezanne.com/2.cfm) advogava a ideia de que o pintor deveria evitar a literatura no seu trabalho para se dedicar a uma arte baseada nos elementos básicos da linguagem visual. Sinceramente, as pinturas deste mestre parecem-me sempre demasiado presas e pouco estimulantes. O seu valor é, a meu ver e tal como Malevitch, mais conceptual do que objectual. Qualquer obra de Ingres é bem mais espectacular!

Resumindo: de tanto reflectir sobre si própria, a pintura acabou por sugerir um certo esgotamento vendo-se, nos dias que correm, ultrapassada pelo vídeo nas preferências dos novos artistas. Pintar é quase como fazer artesanato. É um trabalho sujo, difícil, um trabalho que exige demasiado do artista. Num tempo em que tudo tende a ser normalizado, embalado e pronto a consumir, o tempo de aprendizagem e de realização exigido pelas técnicas pictóricas parece, cada vez mais, um arcaísmo. O tempo, agora, é muito mais rápido.

A vida não está fácil para a pintura que se chega ao campo do artesanato por oposição às novas tecnologias da imagem luminosa e em movimento.
Será tanto assim, ou estarei a exagerar?