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sábado, julho 29, 2017

Heroísmo

E se o problema dos incêndios descontrolados fosse potenciado por um excesso de voluntarismo heróico por parte de bombeiros nem sempre bem preparados para o combate? E se os nossos heróis fossem demasiado corajosos e pouco cerebrais?

Esta possibilidade é terrível. Levantá-la é uma atitude arriscada. Eu posso fazê-lo aqui pois a minha voz dificilmente chegará ao Céu, mas que essa hipótese tem fundamento, lá isso tem.

Temos muitos bombeiros voluntários, problemas na coordenação de acção de combate a incêndios e o país vai ardendo. E arde (percentualmente) mais que os outros países europeus. Somos o Inferno na Europa mas temos dificuldade em debater a proveniência do Diabo que preside a esta devastação. Porque arde mais Portugal do que arde Espanha, do que arde França, do que ardem todos os restantes?

Haverá alguém interessado em debater este "pormenor", para lá da questão das listas de nomes das vítimas, do populismo ou não populismo, do raio que os parta? Hércules, o maior de todos os heróis, foi empurrado para o heroísmo por razões sórdidas.

segunda-feira, maio 15, 2017

Um gajo esquisito



Finalmente Portugal conseguiu um objectivo muito antigo (na época contemporânea 53 anos corresponde à quase totalidade do tempo bíblico) e um cantor luso venceu o célebre Festival da Canção ou da Eurovisão, não tenho bem a certeza da designação actual.

Quando eu era puto o Festival era um acontecimento do caraças. A família reunia-se na expectativa de que alguém pudesse reparar no nosso artista, rezando para que, pelo menos os espanhóis, votassem na nossa cançãozinha. Por favor senhores...

Mas a coisa nunca resultava e o pessoal ficava a matutar nas razões que estariam na base de tanta indiferença para com os nossos artistas da cantoria: que o problema era esta nossa língua (demasiado bela ou demasiado complexa, conforme as opiniões), que o problema era o arranjo musical, demasiado antiquado, que a gente não era nunca capaz de acompanhar o ar dos tempos, mil e uma explicações que seriam esquecidas no ano seguinte durante um bocadinho, o bocadinho que durava a tal esperança de sermos notados.

Fui crescendo e deixei de ver a coisa. Para um jovem amante de boa música o Festival era algo execrável: uma merda! E quem quer enfiar merda pelos ouvidos dentro?

Agora que estou... crescido, por assim dizer, já não temo que me caiam os parentes na lama só por prestar atenção ao dito concurso musical. Em boa hora pois, por uma vez na vida, Portugal, através de Salvador Sobral, conseguiu superar todas as expectativas vencendo a coisa.

O rapaz, que é um anti-herói, tornou-se um herói nacional. Já tudo foi dito e redito sobre tão feliz desenlace mas o que me deu especial prazer foi que o tão ambicionado troféu foi conseguido por alguém que se distinguiu da massa através de uma original estranheza.

Sempre que se tentou copiar as formas consideradas canónicas para parir um objecto musical capaz de ombrear com os "estrangeiros" o resultado foi pouco menos que patético, horripilante na maior parte das ocasiões.

Quando Salvador venceu o Festival cá do burgo houve logo quem gozasse com o aspecto dele, com a forma esquisita como interpretava a canção. Habituados ao fracasso imaginavam mil e uma maneiras de minimizar a personagem que iria representar, mais uma vez, a desgraçada miséria nacional.

Mas, desta vez, não foi assim. Salvador venceu e mostrou que ser um gajo esquisito não é, obrigatoriamente, um factor negativo. Antes pelo contrário.

quarta-feira, abril 13, 2016

3 dos meus heróis



Após concluir a montagem da exposição que vou inaugurar na próxima sexta-feira contemplei os trabalhos nas paredes da galeria e senti aquela coisa quentinha que nos é proporcionada pela sensação de um trabalho concluído.

Sentei-me um pouco a pensar naquilo que fiz e pude constatar a forte influência de 3 artistas do passado.

Por ordem cronológica: Hyeronimus Bosch, pela delirante imaginação que muito me sugestiona; Francisco de Goya y Lucientes, pela desenvoltura no tratamento dos materiais e pela forma profunda como olhou o ser humano; Max Ernst, o glorioso Dadamax, pela inventividade extraordinária nas propostas de tratamento dos materiaise nas técnicas que trouxe à luz do espírito.

Outros haverá que me guiam a mão e a mente quando trabalho mas estes 3 são, sem dúvida, os meus maiores heróis. Os meus 3 heróis.

segunda-feira, janeiro 11, 2016

Bowie

Hoje de manhã entrei no meu carro e liguei o rádio. Eram 8 horas e o noticiário na TSF abriu com  Space Oditty de David Bowie. Estranhei: "que raio de coisa, o homem edita um novo álbum e abrem o noticiário com um tema tão antigo..."

Estacionei e ouvi até ao fim para tomar conhecimento que Bowie morrera durante a madrugada (acho eu). PORRA!!!

Há pessoas que não imaginamos mortas.
Há pessoas que, imagino eu, não morrem.

sexta-feira, novembro 01, 2013

Artista (mais ou menos) imortal

Terminou ontem a residência artística de Banksy nas ruas de Nova Iorque. Os trabalhos realizados foram sendo expostos aos olhos do resto do mundo neste site (clica aqui).

Banksy já se tornou o maior fenómeno da chamada street art e é conhecido um pouco por todo o lado onde houver meios de comunicação de massas que ultrapassem as notícias sobre a lingerie sexy de artistas pimba e os pensamentos profundos de dirigentes e jogadores de futebol. A cada dia que passa Banksy vai-se transformando numa autêntica lenda urbana.

O facto de manter uma identidade secreta faz dele uma espécie de super-herói de banda desenhada. Tal como o Batman ou o Homem-aranha, Banksy está a ser colocado num pedestal  na sala do museu da cultura Pop. Ele é um dos primeiros artistas a garantir que o seu nome fará parte da História da Arte do século XXI. Isto partindo do princípio que haverá alguém para virar a página do calendário para o século XXII.

Banksy já é um artista mais ou menos imortal (como todos os outros). O problema é que a imortalidade já não tem condições de garantir aos que dela gozam o triunfo definitivo sobre a morte. Só um bocadinho.

domingo, setembro 08, 2013

Pensamento vespertino

Há pessoas que nos parecem extraordinárias. Há ou não há?

Tu, caríssimo, que lês estas linhas perfeitamente alinhadas, de imediato pensaste em, pelo menos, uma ou duas pessoas. Pensaste ou não pensaste? Claro que pensaste, todos temos os nossos heróis, não há que enganar.

Os heróis podem ser reais, imaginários ou reais-imaginários. Seja qual for a sua espécie (dentre estas três) são por nós construídos. É evidente que os nossos heróis nos dão uma ajudinha na construção que fazemos deles. Por esta razão ou por aquela, uma coisa leva a outra e... pliiiiiim, temos um herói!

Sejam actos, sejam frases, seja apenas um "look" que se encaixa na imagem que corresponde ao nosso ideal seja lá do que for, vários são os materiais de que se fazem os heróis.

Quando nos chegamos a eles (estejam vivos, mortos ou assim-assim) as coisas podem mudar de figura. Na verdade, os heróis podem revelar-se tão banais quanto nós próprios e, as mais das vezes, é isso mesmo que eles são: pessoas banais que, aos nossos olhos se tornaram extraordinárias.

segunda-feira, julho 29, 2013

Ir à guerra

Estava a ler uma banda desenhada com o Super Homem a desancar uns mauzões vindos de outro planeta numa batalha sem quartel nas ruas de Metropolis. A coisa metia sopapo de meia noite, figurões a trambulhar de encontro aos prédios que abriam fendas nas paredes e automóveis a levar piparotes que os deixavam de rodas para o ar.

A luta era brava e o Super Homem, como sempre, acabou por vencer e os mauzões ficaram cobertos de nódoas negras e orgulho ferido. Tudo está bem quando acaba bem. Mas...

Dei por mim a pensar naqueles cidadãos que, apanhados no calor da refrega, ficaram com as paredes do apartamento de buraco aberto sobre a rua, os outros que seguiam dentro dos tais automóveis, amassados e bons para a sucata. Ninguém se feriu? Quem paga os estragos? O Super Homem salva a cidade, a nação, salva o planeta, mas isso tem efeitos colaterais que os argumentistas desprezam.

Eu sei que o Super Homem é bom e quando parte tudo em volta é porque não tem alternativa.

Quem escreve as histórias do Super Homem nem sempre dá grande atenção aos cidadãos anónimos. Os figurantes deviam ter direito a uma atençãozinha particular. Quando não, estão ali apenas para justificar os grandes feitos dos heróis e motivar as acções dos vilões. Quanto ao resto: que se lixem! Ou talvez nem tanto... enfim...

terça-feira, maio 21, 2013

Memória do futuro

Durante a minha infância vivi em estado semi-selvagem. O máximo de tecnologia a que tive acesso era um velho aparelho de televisão a preto e branco que de vez em quando se recusava a funcionar e a minha avó paterna arranjava com uns valentes murros na caixa.

Quando cheguei à adolescência foi com alguma emoção que recebi (já não sei de onde terá vindo) um leitor de cassetes, daqueles mono, como os que usavam os repórteres dos anos 70 para fazer entrevistas. As cassetes que tocava nesse aparelho primitivo eram todas dos Doors.

Ouvia as cassetes tantas vezes que as fitas se partiam e tinha de as arranjar com pedaços de fita-cola. E voltavam a rodar e a rodar e a fazer-me sonhar já não me lembro com quê. Aquela música hipnotizava-me. Nos dias de hoje tenho vários dos discos dos Doors na minha prateleira e, de vez em quando, regresso a eles mas falta-me a frescura da adolescência para nadar até à lua.

Ontem faleceu Ray Manzarek. Lá se foi mais um pedaço do tempo. É estranho quando recordamos uma destas personagens. Ray tinha 74 anos mas, para mim, será sempre aquele jovem com grandes patilhas, óculos sem aros e longo cabelo escorrido e louro, debruçado sobre o órgão; genial, absolutamente extraordinário.

Um homem assim nunca morre de verdade enquanto não morrer o mundo em que viveu.

sábado, janeiro 12, 2013

Heróis

Nietzsche declarou a morte de Deus, Fukuyama proclamou o fim da História. Os Stranglers cantaram o fim dos heróis.

Procurando um herói no firmamento das estrelas mediáticas da actualidade é, de facto, complicado encontrar alguém que se enquadre no conceito. É como se o heroísmo fosse da categoria dos milagres bíblicos ou do tempo em que os animais falavam.

Sem heróis é difícil exemplificar a universalidade dos valores e sem valores só há bandidos.

Um herói não é obrigatoriamente uma pessoa inteligente. Se o não for terá de compensar essa falha aparente com uma fé determinada ou com sensibilidade suficiente que lhe permita discernir entre aquilo que é universal e aquilo que é vulgar, mesquinho, particular e interesseiro.

O herói bate-se pelo bem comum, derrota os bandidos que pretendem impor a sua visão totalitária fazendo triunfar os valores universais.

Dêem-me um herói para os nossos tempos, apontem-mo, indiquem-no ao mundo. Ou será que os Stranglers tinham razão?

terça-feira, maio 01, 2012

Um comentário a um comentário

A propósito do post anterior o Rui Sousa deixou um comentário que me pareceu digno de passar para este lado do 100 Cabeças (não é a primeira vez que o Rui deixa um comentário com esta qualidade mas é a primeira que eu faço isto) . O Rui comentou assim:

Esta onda que se levantou de proximidade ao Miguel Portas tem-me feito pensar numa coisa que já me venho apercebendo há alguns anos a esta parte. Na vida existem dois tipos de pessoas, os que ficam e os que partem. Os que ficam são a estrutura e os pilares do edifício, aqueles que acreditam nos valores da “construção” e lutam pela sua eternidade. São conservadores e reacionários ao que é novo porque é uma forma de preservarem as estruturas do edifício. Fazem trabalho de sapa, são repetitivos na sua forma de vida e por isso cinzentos e sem magia, fazendo da sua força, determinação e teimosia, as suas armas. Depois, do outro lado estão aqueles que partem, que não suportam a repetição da vida, a rotina e vivem a vida num constante vai e vem. Aparecem quando menos se espera para desestabilizar as almas bem comportadas e conservadoras e desaparecem na primeira oportunidade quando estão mais próximos da vitória e da conquista. São recorrentemente amantes à solta que espalham a sedução e contaminam os que se aproximam com o seu doce veneno, que é no fundo o seu fascínio. Os primeiros erguem, os segundos derrubam, os primeiros acreditam no “fazer”, os segundos acreditam no “viver”, os segundos precisam dos primeiros, precisam das suas almas carentes para incendiá-las com a sua paixão e para legitimar a sua vida, os primeiros precisam dos segundos para se convencerem a si próprios das razões da sua convicção. Uns desestabilizam, outros estabilizam. Uns vivem uma vida cinzenta, outros espalham a cor pela vida e nós, ávidos que estamos sempre de cor, nunca resistimos ao glamour nem ao fascínio de quem vive em detrimento de que faz. Os irmãos Portas são a incarnação real deste exemplo. Será que se fosse o Paulo a morrer o país se emocionaria tanto? E se fossemos todos como o Miguel seria possível construir um país? E se fossemos todos como o Paulo seria possível viver neste país?

Na minha perspectiva das coisas, quando alguém falece logo se nos revela diferente daquilo que foi enquanto esteve vivo. Como diz uma canção dos Stranglers, "everybody loves you when you're dead". Fico com a sensação de que tememos mais a presença do corpo físico do que a permanência das ideias, o que não será uma atitude particularmente avisada. 


Nem Paulo Portas é o diabo nem Miguel se transmutou subitamente em anjo. A vida é para ser vivida e, quando morremos, a nossa memória poderá ter alguma utilidade para os que cá ficam. Talvez seja neste ponto, após a nossa morte, que a vida ganha algum sentido.

segunda-feira, dezembro 06, 2010

Em fuga no espaço virtual


O amigo Assange está feito num oito. Realmente não sei bem do que estava ele à espera ou de que estavamos nós à espera que lhe acontecesse a ele e ao seu terrível site da Wikileaks. Após os verdadeiros assaltos à imagem da administração norte americana e aos abanões que as revelações da Wikileaks têm dado à credibilidade (ou, pelo menos, à seriedade) de uma parte dos dirigentes mundiais, o que poderia Assange esperar da vida?

Perseguições, é bom de ver. Perseguições a ele e ao seu site que vem sendo empurrado e apagado aqui e ali, pelo espaço virtual fora. O que a Wikileaks faz não é particularmente elegante. A discussão em torno dos métodos e dos conteúdos tem sido grande. Mas, não sendo elegante, tem a eficácia de uma martelada no dedo grande do pé.

Assange anda por aí, em fuga. Martelou demasiados dedões e com demasiada força. Esperemos que consiga continuar a escapar-se e  a dar marteladas a torto e a direito.

sexta-feira, março 19, 2010

Traduções

O velho Errol, o Robin da minha infância (era a preto e branco, aqui está num belo cinemacolor)


Um dos meus heróis favoritos era o Robin dos Bosques. O meu avô autorizava-me sempre a comer a perna de frango "à Robin dos Bosques"; ou seja, permitia-me comer com as mãos o que, na minha infância, era um gesto de extrema liberdade; poder fazer tal coisa na companhia de adultos... e era isso que Robin significava: liberdade. Ele personificava o eterno lutador, alguém que defende uma causa pondo em risco a própria vida. Os alegres companheiros do herói completevam-no em qualidades e defeitos. Havia o abade, gordo e beberrão ou João Pequeno, um gigante hercúleo capaz de extraordinárias proezas físicas. Para lá de tudo isto Robin era ainda um homem apaixonado o que sublinhava o romantismo da personagem e da sua história. Quantas vezes revi Robin e Lady Mariam de mãos dadas, apertadas de encontro ao peito, olhando-se como se estivessem a contemplar as profundezas de um oceano escarlate?

Robin dos Bosques, quanta saudade...

Recentemente apercebi-me de um pormenor que me havia escapado ao longo de todos estes anos. No original trata-se de Robin Hood. Hood? Soava-me mais como Wood. Que raio de coisa significa Hood? Consultado o dicionário dá-se a revelação: "hood" significa "capuz". Então... Robin dos Bosques é, na verdade, o Robin do Capuz!? Ai, que susto! Como foi possível engolir este erro durante tantos anos? Claro, como Robin e os companheiros vivem escondidos numa floresta, não é difícil aceitar o nome de Robin dos Bosques. O tempo, a distância e uma tradução retorcida, podem construir uma imagem aparentemente intocável que, na verdade, é uma quase-mentira.

Tudo isto me fez recordar aquela primeira cena do filme "Snatch", quando um grupo de assaltantes disfarçados de judeus comentam uma anedota que diz que o cristianismo é uma religião fundada num erro de tradução. Os falsos judeus riem dizendo que a palavra que esteve na origem da designação de Maria nos evangelhos actuais significava, no original, mulher jovem (ver aqui explicação clara e objectiva).

Este tipo de erros só podem ser ultrapassados quando atingimos a idade adulta e começamos a questionar certas situações que, enquanto andamos a brincar e a saltar pela vida fora, não sentimos necessidade de pôr em causa. Isto mostra bem como uma mentira repetida até à exaustão acaba por se confundir com a verdade. Mesmo que a mentira seja (aparentemente)involuntária e de contornos (eventualmente) inocentes, é preciso ter muito cuidado com ela pois nunca se sabe quando poderá vir a estar na base de todo um culto religioso.

sábado, junho 16, 2007

Globalização


15-06-2007 - 17:53
Violência em Gaza Um jovem palestiniano vestido com uma camisola da selecção portuguesa de futebol com o nome de Cristiano Ronaldo tira uma fotografia com o seu telemóvel a um veículo da polícia incendiado, em Gaza. Dois civis morreram e pelo menos dez ficaram feridos nos combates travados hoje entre o Hamas e a Fatah. Foto: Ahmed Jadallah/Reuters
Texto e imagem "roubados" ao Público online.

sábado, junho 09, 2007

Campeões


Não há memória de tantos heróis destruídos num tão curto espaço de tempo. Cada dia que passa surge mais um ciclista a confessar o seu crime: sim, consumi substâncias proibidas! Meu Deus, não escapa um? Sem as "tais" substâncias poderão estes atletas aguentar as circunstâncias tenebrosas em que disputam certas etapas?

Aqui há uns anos atrás fui à Serra da Estrela assistir à célebre subida da Torre, a mais desumana das etapas da Volta a Portugal em bicicleta. É o ponto mais alto de Portugal e, até de carro, cansa lá chegar, quanto mais montado numa bicicleta, a tentar pedalar mais, com mais força e mais depressa que todos os outros!

Os espectadores alinhavam-se nas bermas por ali acima, procurando sombras onde as houvesse, beberricando aguinhas ou belas cervejolas refrescantes, mantidas no frio de características geleiras de plástico azul. O calor apertava e o sol rebentava num céu tão brilhante que nenhuma nuvem se aventurava a incomodá-lo. Lá estavamos nós, os espectadores, à espera que surgissem os heróis das bicicletas.

Quando surgiu o primeiro foi uma festa. O povo enlouqueceu batendo palmas e gritando. Uns atiravam água, outros, vermelhos de excitação, faziam caretas horrendas de incentivo, grunhindo palavras indecifráveis. O ciclista puxava a sua máquina numa imagem de esforço como nunca antes tinha visto. Era todo músculos, esforço e potência. Quanta força! Devagar, que a subida é ali muitíssimo íngreme, passou por mim e quase lhe senti o bater do coração, um bombo a troar-lhe no peito, a fazer tremer o solo de emoção. Impressionante.

Mais atrás outro, mais outro e por ali fora, espaçados, sós ou em pequenos grupos, os gloriosos corredores sucediam-se. Máscaras inacreditáveis, esgares impossíveis, pareciam retratos de Bacon com vida, sobre corpos sem limite. As veias, grossas como amarras de navio, saltavam dos braços, dos pescoços, das pernas, nunca vira nada assim na minha vida e não me lembro de ter voltado a ver nada semelhante. Havia quem implorasse um empurrãozinho, outros agarravam-se discretamente nas janelas dos carros de apoio. Os últimos eram os mais extraordinários, à beira da explosão, literalmente, pareciam desejar que o mundo se evaporasse de súbito, que aquele ar quente e denso como uma tigela de sopa se abatesse sobre a Serra e a fizesse desaparecer para sempre.

Depois daquela exibição de inumanidade, descemos uns quilómetros para assistirmos à descida dos corredores. Se tudo o que sobe desce pode dizer-se que uma bicicleta desce ainda mais depressa. A descida era simplesmente alucinante. Os corredores vinham numa velocidade perigosa por ali a baixo, gritando a plenos pulmões para as pessoas que assistiam nas curvas da estrada. Vuuuum, passavam como bólides animais numa gritaria insana, o povo excitado saltava e gritava também, batendo palmas, esperneando e esbracejando, como se executasse uma estranha dança ritual, como se tudo aquilo fizesse parte de uma celebração pagã cujos contornos mais particulares me escapavam completamente. Fiquei exausto só de assistir. Não repeti a experiência mas nunca mais esqueci as caras daqueles homens ao chegarem ao topo da Torre.

Nos dias que correm estes heróis confessam que tiveram de consumir drogas maradas para conseguirem realizar aqueles feitos extraordinários. Do primeiro ao último classificado imagino que todos eles tivessem necessidade de tomar algo que os levasse até ao fim. Um simples ser humano não tem capacidade de fazer aquilo. O ciclismo, em si, não me parece possível sem o recurso a drogas. Drogas potentes, ainda por cima.
Os maiores campeões eram, afinal, trapaceiros que consumiam substâncias proibidas para poderem ser assim, campeões. Uns após outros vêem os títulos serem-lhes retirados. Os que antes os aplaudiam olham-nos agora de soslaio. Apeados dos seus pedestais tornaram-se mortais comuns, perderam a aura divina. Será isto justo? Afinal de contas pedia-se-lhes que fossem sobrehumanos e eles foram-no. Sabe Deus a que preço.
A pressão para serem melhores, para baterem recordes, para brilharem nas televisões e nas revistas com fotos coloridas do seu esforço, levou-os a cometer actos meio loucos. Mas, a maior loucura, foi sempre a de se sentarem naquelas maquinetas e lançarem-se para a frente, numa corrida para super-homens.

terça-feira, março 06, 2007

The Guns of Brixton



The Clash (heróis da minha juventude)



Arcade Fire (heróis de outras juventudes)

"The Guns of Brixton"

When they kick at your front door
How you gonna come?
With your hands on your head
Or on the trigger of your gun

When the law break in
How you gonna go?
Shot down on the pavement
Or waiting on death row

You can crush us
You can bruise us
But you'll have to answer to
Oh, the guns of Brixton

The money feels good
And your life you like it well
But surely your time will come
As in heaven, as in hell

You see, he feels like Ivan
Born under the Brixton sun
His game is called survivin'
At the end of the harder they come

You know it means no mercy
They caught him with a gun
No need for the Black Maria
Goodbye to the Brixton sun

You can crush us
You can bruise us
Yes, even shoot us
But oh-the guns of Brixton

When they kick at your front door
How you gonna come?
With your hands on your head
Or on the trigger of your gun

You can crush us
You can bruise us
Yes, even shoot us
But oh-the guns of Brixton

Shot down on the pavement
Waiting in death row
His game is called survivin'
As in heaven as in hell

You can crush us
You can bruise us
But you'll have to answer to
Oh, the guns of Brixton

quinta-feira, janeiro 18, 2007

Obikwelu

Obikwelu recebe «leão de ouro»
Francis Obikwelu, campeão europeu de 100 e 200 metros e melhor atleta europeu, foi hoje homenageado pelo Sporting com a entrega do «leão de ouro».


Este atleta é português. Não nasceu em Portugal mas é português.
Por muito que isso custe aos puristas da "raça", mesmo que faça torcer narizes mais sensíveis a coisas como a cor da pele, não há nada a fazer. Ainda por cima e para orgulho dos que se orgulham com estas coisas, foi considerado o melhor atleta europeu de 2006!

Os nacionalistas bacôcos que imaginam um mundo escortanhado por fronteiras e marcado por folclores mal amanhados terão de rever a História consultando manuais menos emporcalhados pelos ideais salazarentos que ensombraram as suas aprendizagens.

Obikwelu revelou que tem como objectivo marcar presença nos Jogos Olímpicos de 2008, em Pequim, ao mesmo tempo que manifestou o «sonho» de criar uma Academia destinada a jovens sem família. «Será uma forma de retribuir a Portugal. Quando isso acontecer, sentir-me-ei realizado.»

Caso consiga realizar o objectivo acima citado, Obikwelu mostrará a quem quiser ver quanto vale viver com o espírito aberto. Nacionalistas e outros seres viventes lá terão de meter a viola no saco e ir destilar o seu veneno para outra freguesia.
Ah grande Obikwelu!

terça-feira, outubro 10, 2006

Futebol, cultura Pop


Cristiano Ronaldo como Super-Homem


Se há tema de conversa universal, do Iraque ao México, da China à Austrália, no campo, na cidade, na fábrica, na escola, na cama e na sanita, onde e quando quer que seja, tema ao alcance de milhões de cidadãos por esse mundo fora, é o futebol.

Toda a gente pode opinar sem precisar de fazer grandes investimentos nem estudos. O jogo, em si, é suficientemente simples. Toda a gente pode jogá-lo desde que tenha uma bola. Com a globalização o futebol tornou-se um verdadeiro fenómeno.

A mediatização trouxe também uma nova exposição dos jogadores mais habilidosos ao ponto de os transformar em verdadeiros ícones populares. As revistas de mexericos interessam-se por pormenores até aqui impensáveis relacionados com os hábitos e a vida quotidiana das personagens principais e a sobre-exposição do jogo, omnipresente nos écrãs de televisão, fazem da mais pequena banalidade motivo de notícia e de momentos fugazes acontecimentos históricos.

Uma coisa verdadeiramente estranha pela sua dimensão.
As telenovelas são fenómenos localizados, as fronteiras oferecem-lhes alguma resistência. Entre Hollywood e Bollywood há uma inultrapassável barreira cultural, as vedetas de uma não se misturam com as de outra. No campo das artes plásticas nem vale a pena falar. Mas o futebol... senhores!

Os ídolos do pontapé na chincha são pessoas comuns que saem do anonimato graças a uma espécie de dom maravilhoso e ascendem ao estrelato como que por magia. São fenómenos de uma cultura popular a nível planetário gerados de forma espontânea, reconhecidos em todo o mundo por ser tão fácil de compreender o que fazem e por despertar tantas paixões impossíveis.

O futebol é a materialização actual de uma verdadeira cultura Pop.

Estranha coisa, esta conversa.