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sábado, junho 16, 2018

Notas para uma reflexão


Os professores perderam autoridade na sala de aula e os encarregados de educação perderam-na na sala de jantar. Há um desprezo generalizado pela experiência de vida, cada vez mais substituída pelo Google, esse oráculo infalível capaz de todas as respostas em fracções de segundo. Os velhos são descartáveis, são chatos e não encontram um lugar confortável na hierarquia social do mundo contemporâneo.

Por outro lado, a voracidade consumista alcandorou os putos à categoria de consumidores. Desde que são capazes de influenciar os hábitos de consumo passaram a ser levados a sério. Na maior parte das situações passaram a ser levados demasiado a sério. As sociedades actuais tendem a valorizar os designados direitos do consumidor em detrimento dos direitos de cidadania. São coisas diferentes e nem sempre compatíveis. Não é nada extraordinário ver putos a berrar porque sim, a falarem por cima dos pais, a reclamarem tudo e nada só porque lhes apetece. E porque podem. Educamos as criancinhas num vazio de valores que tudo relativiza. E os encarregados de educação, muitas vezes porque perderam o pé, encontram nos professores os bodes expiatórios perfeitos para diluírem as suas próprias insuficiências.

Vivemos na sociedade da casa dos segredos e dos brunos de carvalho; uma sociedade boçal, carente de valores que possam irmanar-nos. Perdemos a religião enquanto factor unificador e não fomos capazes de a substituir por nada. A Ética não faz sentido sem uma divindade capaz de castigar os maus e premiar os bons. Ficou o consumismo. O resultado é o que está à vista. Mais adiante nem daremos conta que já não somos livres. Nem nada que se pareça.

terça-feira, abril 11, 2017

La vida loca



As viagens de finalistas ao sul de Espanha funcionam como uma espécie de ritual contemporâneo de passagem à idade adulta da juventude lusitana. Tal como noutras épocas e noutras culturas, os nossos jovens são colocados à prova numa situação em que, muitos deles, estão pela primeira vez entregues a si próprios, longe do ambiente familiar, confrontados com a sua capacidade de responder a preceito a questões desafiantes. Talvez aquilo a que vamos assistindo nestas viagens, ano após ano, seja um reflexo da sociedade que construímos. O excesso, a boçalidade, a ausência de espírito crítico, a vontade de explodir, de ultrapassar os limites, sejamos justos, não são exclusivos desta geração, sempre fizeram parte da condição da adolescência. Apenas têm crescido de intensidade.

Desde que se tornaram um alvo para as campanhas publicitárias que excitam a vontade de consumir, os jovens são bombardeados com mensagens cada vez mais excessivas. O apelo à plenitude absoluta do prazer, a associação do prazer a situações extremas, são factores corriqueiros no quotidiano mediático, há uma idolatria da loucura que potencia comportamentos esquizoides. A coisa vai-se entranhando num crescendo ansioso, as expectativas da viagem de finalistas vão sendo colocadas em patamares altíssimos, a necessidade de viver tudo o que ainda não foi vivido no curto período de uma semana faz com que os filtros sociais sejam desligados; aqueles dias têm de valer a pena, têm de ser experienciados como se não houvesse amanhã!

Depois há a amplificação mediática (outra característica do tempo actual) e as notícias são marteladas em ritmo de hip-hop, a toda a hora, uma e outra vez, com especial ênfase na espectacularidade alarmista. Os meios de comunicação comportam-se como aqueles jovens: pintam manchetes com frases bombásticas, atiram os factos para dentro de serviços noticiosos que os mastigam como se fossem chiclete, todos os jornais se transformam em correios da manhã. Dentro de alguns dias tudo será esquecido, outros escândalos irão ocupar o espaço mediático, os jovens regressarão à vida académica, agora pressionados pela aproximação dos exames nacionais. Se tudo tiver corrido bem, as memórias destes dias loucos irão contribuir para que se entreguem com maior afinco ao estudo. Afinal de contas agora são adultos, já cumpriram o ritual.

quarta-feira, junho 01, 2016

Amarelices

Pode a educação ser um negócio? Sim, pode, tal como a produção e comercialização de carne de porco, a venda de indulgências ou o tráfico de estupefacientes. Tudo se pode produzir, colocar no mercado e ser passível de proporcionar lucros aos comerciantes. É uma questão de "olho para o negócio". Simplicíssimo.

Deve o Estado investir no negócio da educação? Alto e pára o baile! Num estado que se pretende democrático, o Estado não deve investir na educação enquanto negócio. Quem quiser arriscar uma tentativa de comercialização no campo da educação que o faça por sua própria conta e risco. Tal como fazem outros comerciantes e empresários, seja no campo da agropecuária, das drogas leves e pesadas ou no comércio dos favores divinos.

Num estado que se pretende democrático, as instâncias do poder têm outros deveres quando se trata de educação. Os amarelos que se lixem.

domingo, janeiro 17, 2016

Educação


Quando o tema é o futebol, sabemos bem, surgem milhentos “treinadores de bancada”, entendidos, capazes de engendrar as estratégias mais imprevistas e criativas que teriam impedido a derrota, que teriam potenciado a vitória à quinta casa ou seriam capazes de engalanar o empate com credenciais de feito extraordinário, o empate como sucesso último de uma inquestionável visão de futuro. Somos um país de poetas e de treinadores de futebol.

Mas, pasmemos cidadãos, há outro tema capaz de espevitar em todos nós uma inteligência adormecida, uma inteligência que aguarda indolentemente a mais leve oportunidade para espreitar a luz ofuscante de um prometido dia solarengo; falo da educação.

Quando o tema é “educação”, os especialistas, os profetas, os entendidos, saem debaixo das pedras a um ritmo próximo da alucinação. Sejam professores, catedráticos (ou nem por isso), comentadores mediáticos anquilosados, chefes de redacção sem assunto, políticos entediados, presidentes de junta, gente de maiores ou menores vistas, cidadãos anónimos chateados com a nota do seu educando no último teste realizado em contexto escolar, meros repórteres a quem foi distribuída a tarefa, ficamos confusos perante a insana capacidade de emitir opinião demonstrada pela sociedade portuguesa em tão complexo tema. Talvez por isso, a política de educação em Portugal continua a fugir para a frente de si mesma, sempre em passo acelerado, capaz das cabriolas mais estonteantes, aos saltos para trás, aos saltos para a frente, qual cabrito-montês perdido numa imensa planície.

O novo ministro da coisa veio desembestado, em sintonia com o seu predecessor, na linha de Maria de Lurdes Rodrigues: desfazer o que foi feito, fazer o que já tinha sido experimentado, numa confusão de gestos e intenções que, verdade seja dita, não traz nada de novo, apenas sublinha a proverbial confusão em que mergulham as mentes mais iluminadas quando o tema é “educação”. Acredito nas boas intenções de Tiago Brandão Rodrigues, tal como acreditei, à partida, em Nuno Crato. Mas, tal como o anterior ministro, também este tropeça nas próprias intenções, uma e outra vez, vem cambaleante ameaçando estatelar-se ao comprido.


A Educação não é coisa que se resolva de um dia para o outro. Qualquer medida implementada precisa de tempo para ser testada. Será isto difícil de compreender? Poupem os professores a esta girândola maluca que é a produção de legislação educativa. Até se me torce a língua, mas apetece dizer: “deixem-nos trabalhar”! Não façam de nós os palhaços deste vosso triste circo.

terça-feira, maio 20, 2014

Admirável país novo

Continuamos a tratar os nossos alunos como animaizinhos de circo. Treinamo-los na repetição de tarefas, oferecemos-lhes um doce quando cumprem com sucesso o comando que lhes é dado e ficamos todos satisfeitos (pais, professores, ministro, técnicos especialistas, auxiliares de educação, pessoal administrativo, tios, primos, avós, padrinhos e demais encarregados de educação) quando nos momentos de maior pressão, na realização de testes de exame, a maioria dos meninos alcançam médias a rondar a fronteira da negativa. 

É um triunfo, a marca do sucesso do nosso sistema educativo. Se a coisa funcionar assim, poucos cidadãos irão ficar incomodados com o facto de que a maioria dos meninos não seja capaz de argumentar a sustentação de um ponto de vista de forma lógica e fundamentada. 

Não é que eles não tenham essa capacidade, simplesmente não são estimulados a fazê-lo porque não há tempo. Há um programa a cumprir, muitos meninos na sala, alguma confusão, muito açúcar ao pequeno-almoço, não sobra espaço para grandes conversas que não se cinjam estritamente à “matéria”, preferencialmente a “matéria” de exame. 

Eles são treinados: primeiro para copiar o que o professor escreve no quadro e decorar os textos dos manuaizinhos, depois para perceber a melhor forma de debitar tal e qual a informação retida no local correcto. 

A coisa resume-se muito a isto; trabalha-se com os meninos como se trabalha com macaquinhos acrobatas ou leões anestesiados, faz-se da escola uma arena de circo, os professores são como domadores. Um dia mais tarde os meninos serão adultos e, com alguma sorte, continuarão a ser acríticos, a torcer o nariz sempre que lhes cheira a discussão de ideias, dóceis como carneiros de cada vez que os chefes e os poderosos lhes abram os olhos e os mandem obedecer. 

É este o desígnio do nosso sistema de ensino? Assim se constrói um admirável país novo.

sexta-feira, setembro 20, 2013

Desabafo

Ai caramba, ando com a cabeça feita em papas e não pára de andar à roda, como uma ventoínha!
Os primeiros dias de trabalho num novo ano lectivo nunca foram tão complicados de organizar. O que se passa? Porque é tudo tão confuso, tão pesado? Ponho-me a pensar no assunto e tenho as minhas suspeitas.

O ministério da educação tem reduzido brutalmente o número de professores nas escolas. Paralelamente continua a exigir o mesmo tipo de serviço burocrático, aumenta o número de alunos por turma e multiplica ordens e contra-ordens a uma velocidade que merecia multa por nítido excesso. As reuniões sucedem-se, os alunos enchem as salas, as aulas começam e têm de ser preparadas.

O corpo docente emagrece, muitos de nós pedem reforma antecipada apesar dos cortes nos ordenados (pensões) por já não suportarem tanta burocracia, tanta gente dentro da sala, tanta acção descabelada e sem sentido.

Menos professores para mais trabalho. Deve ser por isso que tenho a sensação de trazer um oceano a chocalhar-me dentro do crânio.

No meu caso particular torna-se quase impossível pensar em desenhar, pintar, trabalhar no Photoshop, postar nos blogues. Sou professor, não sou artista profissional (quase não tenho tempo para ser amador, quanto mais...).

Talvez dentro de uma ou duas semanas a coisa estabilize. Talvez. Até lá vou tentar manter a cabeça à tona. Preciso de respirar.

quarta-feira, abril 03, 2013

Tabelas, escalas e outras patranhas

Acabo de tentar explicar a um grupo de alunos a ideia de que os objectos não possuem um valor próprio. Uma mala não vale, "na realidade" 25 euros, é um valor que lhe é atribuído. A partir daí poderemos estabelecer uma escala de valores diferentes para diferentes tipos de malas, mas isso não faz com o preço seja uma qualidade do objecto.

Esta complexa teia de reflexões surgiu, como sempre acontece, a propósito do valor de mercado das obras da arte. Quem os estabelece, quais os critérios, porque-é-que-o-Picasso-faz-aquelas-coisas-e-valem-tanto-dinheiro-e-eu... e tu, nada, porque tu não és ninguém embora saibas que isso é mentira.

Após quatro horas nisto, com dois grupos diferentes de adolescentes, estou mais cansado do que se tivesse feito o Santuário de Fátima de gatas e a lamber o chão. Tenho a boca seca e sinto alguma frustração.

Com o 1º grupo penso que fui capaz de estabelecer um clima de debate interessante e teremos chegado a algumas conclusões bastante razoáveis. Já com o 2º a coisa não terá resultado tão bem. Tentei repetir a aula que, na minha óptica, tão bons resultados me havia proporcionado, esquecendo uma verdade verdadeira de tão indesmentível: uma aula é um acto de criatividade. Repetir fórmulas está longe de ser garantia de sucesso.

Cansei-me mais e consegui menos. Ou, pelo menos, é essa a minha impressão. E se, na verdade da realidade, a 2ª aula até foi mais eficaz do que a 1ª? Quem estabelece o valor de uma aula? Qual a escala a partir da qual podemos comparar resultados? Como posso eu tirar conclusões? Fazendo um teste? Estou em crer que, nesta situação, não chegaria a grandes conclusões com um teste. Para poder compreender o alcance das reflexões que fizemos será necessário viver a vida, deixar o tempo correr.

É para viver a vida que serve a educação artística. Na próxima aula vamos recortar, colar e desenhar, o resto... o resto é conversa.

quinta-feira, agosto 16, 2012

Merceeiros e bombistas


Dizem por aí que há menos crianças em Portugal logo é natural que haja menos professores, menos escolas, menos investimento na educação. Há quem queira reduzir o problema a uma questão de números. Regressa o velho espírito merceeiro que caracterizou a política nacional durante o tempo da Outra Senhora.

Quando Salazar governou não consta que houvesse falta de crianças. Nesses tempos, que tantos de nós recordam com um suspiro saudosista, havia muitas crianças. As aldeias do interior pululavam de vida, os portugueses não necessitavam de incentivos governamentais para se reproduzirem. 

Na época dourada do fascismo saloio ter filhos era uma riqueza familiar. Mal pudessem com a sachola, as crianças estavam aptas a entrar na idade adulta, cavando terra, semeando miséria. Não faltavam crianças nem faltavam professores ou escolas. O ditador sabia bem que a ignorância lhe facultava os cidadãos necessários à implementação da sua visão socioeconómica. Vivemos 48 anos de aposta contínua na pobreza, fosse pobreza material ou de espírito. 

Depois da Revolução acreditámos que o conhecimento e a educação seriam factores determinantes para equilibrar uma sociedade que se pretendia democrática. A Escola Pública passou a ser um direito e a qualidade do sistema educativo uma paixão declarada por sucessivos ministros pouco dados a investir nas coisas do amor. Com o passar dos anos começamos a compreender que nem a Escola Pública é encarada como um direito por aqueles que nos governam, nem Portugal conseguiu ultrapassar o estigma salazarista de gerações de crianças a quem sonegaram a infância. 

Ainda hoje a Educação é por muitos considerada mera ferramenta de ascensão social. Não interessa o Saber ou o Conhecimento, interessa, isso sim, o título de Doutor. Valoriza-se o “parecer”, dá-se muito pouca importância ao “ser”. Os nossos governantes parecem inteligentes. Afinal de contas não são, todos eles, doutores?

As medidas educativas que vão sendo largadas sobre a Escola Pública têm o efeito de um bombardeamento da 2ª guerra mundial ordenado por um general meio louco a quem faltasse também o mapa da zona a bombardear. Não se vislumbra um plano, uma estratégia, um objectivo. Quando um dia as bombas se esgotarem não vai haver pedra sobre pedra mas haverá sempre escolas privadas. Podem estar descansados.

quarta-feira, julho 04, 2012

Um parlapatão


A meu ver, o curso instantâneo do ministro Relvas em Ciência Política até se justifica (ver aqui) e não percebo o espanto nem a indignação que está a provocar. Basta olhar o seu percurso na vida partidária: dirigente da Jota, jovem deputado, elemento influente na máquina do partido, que mais se pode exigir a alguém que pretende ser cientista político?

Já a mediocridade constante de Relvas enquanto estudante, incapaz de conseguir classificações acima do 11 ou do 12, fosse no secundário ou no ensino superior, a justificação é evidente e só um cego não consegue ver. Como pode um cidadão ser cientista político num partido tão complicado como o PSD e, em simultâneo, conseguir resultados académicos a um nível suficiente? Mesmo o Super-Homem iria ter dificuldades, quanto mais Miguel Relvas, reconhecidamente um cidadão do mais comum que podemos encontrar.

Acho bem que o governo acabe com a mama dos oportunistas que pretendem fazer o ensino básico em apenas um ano à sombra do programa das Novas Oportunidades. Era o que mais faltava! Querem um diploma do 9º ano? Suem, estudem e trabalhem para isso que a coisa não se consegue num ano apenas!

Miguel Relvas tem demonstrado, na prática, que o seu grau académico é mais do que merecido, independentemente da forma como foi obtido. O homem é um portento na manipulação de informação e um governante assustador, qualidades que mais do que justificam o grau de licenciado em ciência política (ver exemplo das suas habilidades aqui). 

Na minha humilde opinião, observando a forma como Relvas tem arrumado com toda a limpeza as situações problemáticas em que se tem visto envolvido (ver aqui e aqui), deveria ser-lhe atribuído um doutoramento, quanto mais não fosse, Honoris Causa. Só assim poderia fazer-se justiça a sua excelência e à sua honra.

sábado, junho 16, 2007

Adeus, ó vai-t'embora!

Não era necessáro saber a decisão do Tribunal Constitucional sobre a trapalhada abjecta dos exames de Física e Química do ano passado. Qualquer cidadão com um mínimo de cultura democrática percebeu, desde o 1º minuto, que a medida imposta pelo secretário de estado fedia, de tão ilegal. Só mesmo o governo e a ministra são capazes de continur a defender a bondade da situação que provocaram. Mas já nada é de admirar, vindo dos cadeirões do poder em Portugal. O comportamento da maioria dos membros do governo é lamentável, diria mesmo, salazarista!
Querem, podem e mandam e, mesmo quando chamados à atenção pelos tribunais, não desistem e insistem em fazer de nós parvos de forma tão descarada que sou levado a concluir que parvos são eles. E dos grandes! Se não percebem a enormidade de certas medidas que nos impingem então é porque são mais que parvos. Ou são estúpidos inocentes ou malvados sem escrúpulos.
É inconcebível que a equipa do ministério da educação se mantenha intocável. Se tivessem a mínima noção do que andam a fazer já se tinham enfiado num buraco. Bem fundo.

quinta-feira, maio 31, 2007

Notas mais ou menos soltas

A informação circula pelo mundo a uma velocidade estonteante. Num momento estamos ligados ao outro lado do planeta. Abrimos uma página de um jornal de Hong Kong com a mesma facilidade que podemos ler a imprensa chilena. As questões são imensas, variadas, repletas de dramatismo ou bom humor. O mundo nunca foi tão complexo, apesar de sempre o ter sido.

No meio de tal catadupa informativa tentamos descobrir uma linha narrativa, algo que faça sentido para a nossa capacidade de compreensão. Construimos um ponto de vista pessoal de acordo com as nossas perspectivas. Escolher essa linha (ou descobri-la) é tarefa árdua e depende mais de nós, enquanto indivíduos, do que própriamente da "verdade" que nos é oferecida pelos meios de comunicação de massas. Nós próprios construímos o nosso modelo particular da realidade que nos envolve.

O mais complicado para muitos de nós é a capacidade de aceitarmos que aquilo em que acreditamos não é, necessariamente, a Verdade, mesmo que tenhamos provas irrefutáveis de que as coisas "são mesmo assim". A validade do nosso ponto de vista depende, na maior parte das ocasiões, da nossa capacidade de os expormos e defendermos perante as dúvidas que sobre ele se levantem. Quantas vezes uma pessoa cheia de razão acaba por perdê-la ao não conseguir passar eficazmente a mensagem aos outros?

Olhamos o mundo dentro de écrans, como se estivessemos a observar um aquário. A rua, o bairro, a cidade em que habitamos parecem-nos fastidiosas e desinteressantes, andamos enamorados de um mundo virtual. Mas, se repararmos bem, ali na rua, aqui no bairro, dentro desta cidade, está um mundo maior e mais real, repleto de pessoas de carne e osso, um mundo que tendemos a desprezar.

Preferimos construir a "verdade" a partir dos sinais da "realidade" que nos são fornecidos pelas agências noticiosas internacionais. Tentamos compreender o imenso "mundo exterior" para depois podermos enquadrar o mundo mais pequeno em que nos deslocamos quotidianamente. Fará isso sentido? De que modo a questão dos refugiados palestinianos no norte do Líbano pode afectar a minha existência? A Globalização é assim tão radical? Ou não?

Vou para a escola. Vou dar aulas a dois grupos de crianças que preferem ser consideradas pré-adolescentes. Têm entre 12 e 13 anos. Têm o mundo todo à sua frente. Espero ajudá-las a encontrar a sua narrativa particular na selva visual em que nos movemos. É para isso que trabalhamos só que a maior parte dessas crianças ainda não percebeu bem o nosso objectivo. Vou tentar explicar-lhes tudo, mais uma vez. Oxalá um dia compreendam.

quinta-feira, maio 17, 2007

Reformar a Reforma

Ele há coisas do arco da velha! Coisas que acontecem de modo tão abrupto e inesperado que parecem saídas de um conto absurdo ou da tola de um maluquinho qualquer a gozar férias vitalícias num hospício do Estado.

Em matéria de Educação, no nosso querido Portugalzinho, o hospício é o Ministério e, ainda assim, a nossa sorte é que os locatários não estão lá por toda a vida, antes se sucedem a um ritmo cadenciado de acordo com os ciclos políticos ditados nos actos eleitorais.

Cada novo titular da pasta costuma vir com ímpetos reformistas, ideias iluminadas por ciência certa e espírito arguto, características próprias dos génios e dos predestinados. Vai daí encomendam estudos, rodeiam-se das mais caras luminárias que possam encontrar em solo pátrio e, todos juntos, cozinham novas reformas, planos infalíveis e decretam.

Todos e cada um deles está firmemente convencido que conhece a natureza da maleita que emperra sistemáticamente o futuro de sucessivas gerações de portugueses e lhes passa certificados das mais variadas habilitações que mais não são que papeis vazios de sentido, sem qualquer significado.

A última Reforma do Ensino Secundário foi aprovada e despachada pelo ex-ministro David Justino no longínquo ano lectivo de 2004/2005. Apesar de se terem levantado e feito ouvir as mais variadas vozes entre os actores do sistema educativo, alertando para os erros crassos e evidentes que a dita Reforma trazia no seu ventre, o Ministro, animado pelo sopro da suprema visão que lhe toldava a vista, fez ouvidos de mercador e a coisa avançou apesar de todos os defeitos que lhe eram apontados.

Nós, meros professores, reles servidores das luminárias de serviço, tivemos de acatar as ordens e trabalhar sobre premissas que sabíamos de antemão serem ridículas e fruto de uma vaidade soberba sem consistência nem razão.

Agora, volvidos dois anos, um Grupo de Avaliação e Acompanhamento da Reforma, descobriu-lhe mais incongruências que no discurso do Chapeleiro Louco. Então não é que a Reforma está a precisar de... outra Reforma!!?? E pronto, lá vêm novas ordens e desordens, virar à esquerda, travar à direita, fazer marcha-atrás ganhando balanço para um salto em frente. Adivinha-se novo trambolhão mas que importa isso? Esta Ministra talvez já lá não esteja quando for preciso concluir que afinal continua tudo errado, que as coisas assim não fazem qualquer sentido. O problema passará para outro que não ela.
Nós, os professores que não estamos apenas a aquecer o lugar e fazemos disto a nossa profissão, teremos de engolir uma e outra vez este veneno que nos põem à frente do nariz garantindo-nos que se trata do mais fino néctar.É veneno que não mata... mas amolenta pra caraças!!!

quarta-feira, maio 09, 2007

Educação infantil








Japão, Palestina, States... 3 exemplos de como, afinal de contas, andamos todos preocupados com a merda que fazemos.

terça-feira, maio 08, 2007

Projecto Educativo

Ao que parece começamos a chegar à conclusão que "progresso" não é só crescimento económico e auto-estradas a cortarem o horizonte às postas.
Quando digo "nós", estou a referir-me aos cidadãos comuns, aqueles cuja capacidade de intervenção nos destinos da república se limitam ao voto, quando a isso são chamados ou então a dizerem alto e bom som aquilo que pensam uma vez que a liberdade de expressão é um bem adquirido que ainda ninguém conseguiu limitar, embora haja quem tente fazê-lo.
Quando verificamos que nos programas escolares a Filosofia perde terreno para as chamadas "ciências exactas" e a Literatura perde o pé na piscina das "novas tecnologias" percebemos que nos corredores do poder o "progresso" continua a ser medido em gráficos de barras e balanças comerciais mal amanhadas.
Para os nossos dirigentes um cidadão é, cada vez mais, uma peça da máquina. Não precisa de pensar mas sim de produzir eficazmente. Não lhe faz falta capacidade de abstracção poética, antes lhe será necessária capacidade de abstracção vazia de conteúdo, para poder concentrar-se melhor nas suas tarefas mecânicas do dia-a-dia. Nada de distracções ou evasões sonhadoras que isso só prejudica a paz de espírito necessária aos actores na comédia que é esta marcha do "progresso".
Com mais Matemática e menos Literatura teremos uma sociedade mais plástica, por assim dizer, mais moldável de acordo com os grandes desígnios da Economia. Um cidadão exclusivamente preocupado com a sua conta bancária tende a ignorar as questões sociais. Um cidadão consumidor será menos solidário. As escolas e os agentes educativos de base, professores e encarregados de educação, terão de abrir os olhos e decidir enquanto é tempo. É necessário definir um Projecto Educativo Global de acordo com um ideal de Sociedade assumido e não apenas dissimulado nas entrelinhas dos programas escolares impostos pela tutela.
É uma reflexão urgente que todos temos de fazer!



quinta-feira, março 15, 2007

Há luta?

Vem hoje no Público (página 11) uma noticiazinha assinada por Isabel Leiria com o sugestivo título: Estudos e ocupação dos pais determinam acesso ao superior.
Ao longo de duas singelas colunas a jornalista cita um estudo de duas investigadoras que se deram ao trabalho de evidenciar uma evidente evidência: o acesso da juventude portuguesa ao ensino superior continua relacionado com as habilitações académicas, o rendimento e a ocupação (profissional ou outra) dos pais.
Só mesmo quem tenha passado uma temporada valente a viajar pelo espaço exterior em busca de vida inteligente para lá da Colunas de Hércules poderia imaginar que a democratização, encetada após a revolução de Abril de 1974, havia esbatido em definitivo o fosso que separa o castelo dos mais ricos da rua mal calcetada dos mais pobres. Nem em sonhos.
Não só temos vindo a assistir a um alargamento daquele fosso como parece estar cada vez mais profundo. A pobreza manifesta-se das mais variadas formas e a de espírito também entra nestas contas. Note-se que a simples condição económica não se traduz em elevada capacidade académica. É necessário juntar-lhe uma capacidade cultural ligeiramente superior à média (pelo menos) que entre nós nem sequer é particularmente elevada.
Sendo assim, as classes dominantes continuam a dominar e as dominadas debatem-se com a ferocidade possível para sairem do buraco onde tendem a afundar-se. Podem sempre tentar a via mediática através de um Big Brother qualquer e aparecer nas capas das revistas chunga, mas isso é tão efémero como um peido de cão.
Não querendo alongar-me demasiado na análise de tal evidência gostaria de finalizar com uma perguntinha meio inocente, meio maldosa: a luta de classes deixou de existir?
Talvez tente uma resposta noutro post, tenho cá umas ideias acerca do assunto.
Para já fico-me por aqui, com um sorrisinho cínico a dançar-me na testa.

sábado, março 03, 2007

Silêncio de chumbo


A notícia é discreta. Vem na edição do Público de 2 de Março: “Ministério da Educação foi condenado em mais três casos do exame de Química do 12º ano”. Pronto, ficamos assim. Afinal de contas são já 10 casos de condenação do Ministério, não deve ser nada de preocupante uma vez que da 5 de Outubro nos chega um tremendo e pesado silêncio. Um silêncio de chumbo!
Onde está Maria de Lurdes Rodrigues? O que tem andado a fazer a Ministra mais assertiva dos primeiros tempos da governação socrática e o que pensa ela sobre este assunto? Não pensa nada? Não tem autorização para pensar? Ou será que, desta feita, não lhe convém sequer pensar, nem um bocadinho que seja? E o responsável máximo por uma das maiores pedradas assestadas nos mais básicos dos princípios democráticos a que pudemos assistir nos últimos anos, ao decretar tamanha anormalidade que tanta censura tem merecido nos tribunais, quem foi? Tem nome? Responsabilidades? Não terá sido um tal Valter Lemos? Se bem me lembro, tanto ele como a senhora que o mantém no cargo (é Secretário de Estado!) garantiram que não havia nada de extraordinário no facto inacreditável de se alterarem as regras dos exames a meio da época. Era coisa normal, coisa plena de bondade e límpida como água da chuva.
Afinal, ao que parece, a coisa não é assim tão pacífica e 10 condenações em 12 casos julgados já vão fazendo alguma mossa na credibilidade do Ministério, de um modo geral, e dos responsáveis directos, de um modo específico e particular. Só mesmo num país onde a política é uma área de self-service para carreiristas sem aproveitamento se pode aceitar que não rolem cabeças num caso como este.
Valter Lemos já deveria ter tido coragem para pedir a demissão do cargo que ocupa e, uma vez que ele não tem capacidade para avaliar a enormidade do seu gesto, a Ministra teria a obrigação de lha exigir. Mas não! Após meses de tremenda gritaria ministerial contra a classe docente, enxovalhada em praça pública por tudo e, sobretudo, por nada, chega-nos dos obscuros gabinetes do Ministério da Educação um silêncio incomodado e incómodo. Um silêncio de chumbo. Até quando?


Carta enviada ao Director do Público

sexta-feira, janeiro 12, 2007

A saga continua

O caso da repetição dos exames de Física e Química do 12º ano é exemplar. Uma decisão aberrante do Ministério (de que cabeça terá saído a ideia?) veio subverter por completo as regras a meio do "jogo". Os alunos lesados têm visto coroados de êxito os seus recursos aos tribunais. Um após outro repetiram a prova e as Universidades deparam com a necessidade de os aceitar. Sob o ponto de vista académico estamos perante outra aberração; estes alunos irão entrar na Universidade com o comboio em andamento o que me parece, no mínimo, complicado. Espantoso? Nem por isso.

A prática do Ministério tem sido esta. Atira às cegas e vai depois verificar os estragos. A inépcia dos "pistoleiros" é tal que já não lhes devem sobrar mais pés para continuarem a praticar o seu perigoso passatempo.
Vi a ministra afirmar na televisão que não tem medo dos protestos. Esta afirmação mostra bem a falta de compreensão que a senhora tem das regras de uma sociedade supostamente democrática. Mal de nós se um ministro tivesse medo dos protestos! Não tem que ter medo, tem apenas que tentar compreender a razão de tais protestos e agir em conformidade. Pelo que se tem visto, Maria de Lurdes Rodrigues não só não compreende essas razões como parece não compreender nada que seja proposto fora do seu círculo restrito de colaboradores e conselheiros que são bem piores do que ela. O que não é nada fácil.

Na sua actuação o Ministério confunde bom senso com autoritarismo e ponderação com uma leviandade própria de um adolescente. A leveza com que foi tomada a decisão que conduziu à caricata situação actual deveria ser um toque de alarme aos ouvidos do 1º ministro. Uma equipa capaz de espezinhar assim os mais básicos direitos democráticos, favorecendo uns em detrimento de outros só porque os resultados obtidos na 1ª chamada dos exames foram abaixo do esperado, revela a face. Estão lá preocupados em premiar a excelência e castigar a preguiça! Se assim fosse teriam mais pudor nas decisões (pelo menos).

Os seres viventes e pensantes que encabeçam o Ministério ou são simplesmente nabos ou então são mal intencionados. Num um noutro caso só lhes restaria uma saída, caso tivessem um pingo de dignidade. Mas nem isso eles percebem e mantêm-se em funções como se fosse o resto do mundo que não conseguisse compreendê-los. Demitam-se, porra. Não prestam para nada.

quinta-feira, dezembro 21, 2006

Cabeças de cartaz















O que têm em comum todas estas personagens (e mais uma boa mão-cheia delas que não fui capaz de pescar na memória nem na NET)? Pois, acertaste, todas elas foram, à vez, cabeças de cartaz no circo ministerial da educação indígena (esta última não sei bem, não tenho a certeza quem é, mas pode muito bem ter sido ministra da educação... ou não?).

A coisa está caótica? Pois está! Mas nenhum deles tem culpa nenhuma uma vez que todos fizeram o melhor que sabiam e podiam para cuidar da educação com carinho e profissionalismo.

Quantos ministros da educação tivemos, pelo menos, nos últimos 30 anos?

Entretanto fui dar com este lugar http://www.sg.min-edu.pt/museu_3_2.htm que recomendo vivamente a todos os que se interessam pelo fenómeno educativo e são possuidores de um estômago forte e nervos de aço.

Estive a contar os bonecos e, desde o 25 de Abril de 1974, tivemos 25 ministros da educação!!! É uma média de fazer inveja a qualquer país civilizado e mostra bem a quantidade de gente com qualidades excepcionais que por aí escondida das luzes da ribalta e que, se fosse chamada a ocupar uma pasta ministerial, era bem capaz de voltar a meter a nação nos eixos! Muitos deles andam a conduzir táxis em Lisboa.

Como tivemos, decerto, muitos milhares de professores está bom de ver e fácil de calcular quem são os principais responsáveis pelo caos a que chegámos. Agora até os tribunais se metem ao barulho e vão condenando... o ministério

Primeiro por causa da repetição fraudulenta dos exames de Física e de Química, agora por não reconhecer o direito a remuneração dos professores que têm leccionado aulas de substituição. Será má vontade dos tribunais ou a equipa do ministério é, verdadeiramente, um comboio de incompetentes puxado por uma estranha locomotiva?

terça-feira, dezembro 19, 2006

Coisa estranha (ou nem por isso?)


"O Ministério da Educação promete tomar uma "decisão final e definitiva" sobre o futuro da Terminologia Linguística para os Ensinos Básico e Secundário (TLEBS) quando terminar o actual ano lectivo, não excluindo para já "qualquer cenário", desde a generalização dos novos termos gramaticais ao seu abandono ou reconversão total."


DN digital


Mais uma vez o que impressiona não é a excelência científica do projecto mas o autismo de quem o tenta implementar. Não discuto a qualidade do trabalho dos linguistas que nos querem fazer reviver os prazeres das universidades medievais, quando a gramática era considerada uma arte. Não discuto a necessidade de ensinar e aprender essa antiga arte nas escolas de hoje. Nada disso está em causa.

O que arrepia é imaginar um professor de Português do ensino básico a ter de ensinar a TLEBS a uma turma de 28 alunos dos quais 14 sabem ler e os restantes são capazes, apenas, de escrever. Os currículos do Ensino Básico são de uma megalomania babilónica mesmo sem terem a TLEBS no topo, a enfeitar o bolo.

O que arrepia é perceber que as decisões são tomadas por personagens de ficção e não há ninguém, no mundo real, que lhes ponha travão.

sábado, dezembro 16, 2006

Paraíso incómodo

O facto de os exames nacionais de Filosofia para os 10º e 11º anos do Ensino Secundário deixarem de existir em 2008 e de a disciplina passar a ser opcional no 12º ano está a provocar alguma apreensão entre as elites do pensamento indígena.
As orientações do Ministério da Educação são, mais uma vez (já cansa!), postas em causa tanto pelo senso comum como pelo senso menos comum e mais elaborado.

Talvez as cabeças falantes do Ministério tenham chegado à conclusão que pensar menos diminui o sofrimento.

Um parvo despreocupado e trabalhador parece ser mil vezes preferível a um pensador, eventualmente torturado pela visão de um mundo cada vez mais obviamente injusto e pouco democrático o que lhe poderá provocar um défice de produção.
Um parvo acredita facilmente que vive em democracia desde que alguém, vestido de fato e gravata, lho garanta com o rigor próprio de um tom de voz adequado. Já um cidadão habituado a questionar a mais simples evidência terá dificuldades em engolir toda a merda que lhe queiram enfiar goela abaixo pelo funil dos meios de comunicação de massas.

O mundo está a mudar. No futuro não será melhor nem pior do que alguma vez já foi. Será diferente. Se for um mundo habitado por cidadãos que pensem menos do que os de hoje, haverá menos sofrimento para os que sofrem e menos remorso para aqueles que provocam esse sofrimento. Isso é potencialmente bom, embora à primeira vista possa parecer uma coisa má e cruel. É o ovo de Colombo do economicismo neoconservador, a porta que se entreabre para o Paraíso dos mongas em que estamos a transformar a nossa sociedade. Um paraíso incómodo.