Mostrar mensagens com a etiqueta cinema. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta cinema. Mostrar todas as mensagens

sexta-feira, fevereiro 10, 2017

Notas sobre "O Laço Branco"

Os culpados são aqueles que estão ausentes.
Os que não fazem parte do grupo são cruelmente castigados.
O conhecimento procura a verdade que a fé teima em esconder ou, pelo menos, que teima em ignorar.
O padre recusa-se a ver (ver é pecar) e permite que o monstro diabólico cresça livremente.
Tudo acontece por detrás das portas e das paredes. Nós, enquanto espectadores, não temos acesso visual ao horror mas, no entanto, ele está presente e acontece.
A nova geração incuba o nazismo.
Moral da história: se fecharmos os olhos estamos feitos ao bife!

sexta-feira, setembro 09, 2016

Cartas de Guerra

Assisti a "Cartas de Guerra", o filme de Ivo Ferreira a partir de textos de António Lobo Antunes. Enquanto estava na sala de cinema várias vezes pensei que "este filme é o mais belo que já vi". À medida que a coisa foi avançando reformulei esta ideia e ficou mais ou menos "este filme é um dos mais belos que vi ultimamente".

Quando saí estava seguro de que "Cartas de Guerra" é, seguramente, um dos mais belos filmes que vi ao longo da vida. Agradou-me a fotografia a preto e branco, fui surpreendido pelas engenhosas soluções narrativas que entrelaçam voz off com diálogos, memória das personagens com o momento do presente que vivem no filme, deixei-me embalar pelo ritmo geral da coisa.

Como é possível fazer um filme de guerra assim? Muito bom. Recomendo vivamente.

domingo, fevereiro 14, 2016

Domingo

Os últimos dias têm sido complicados. A chuva cai furiosa acompanhada por ventos doidos como gatos com cio. Portugal está meio submerso; cheias, derrocadas, árvores que resolvem ir passear sem avisar ninguém, o mar que parece querer entrar terra dentro.

Hoje resolvi ir ao cinema ao centro comercial. Fui à sessão das 12h45m ver os "Oito Odiados" de Quentin Tarantino. Filme estiloso, duraço, com sangue q.b., diálogos cheios de humor e um argumento razoavelmente imaginativo. Enfim, um filme de Tarantino no registo seguro a que o cineasta nos tem habituado.

Quando o filme acabou (por volta da 16 horas) saí da sala com a intenção de passar pelo supermercado e comprar umas provisões que me fazem falta na despensa. Assustei-me! As filas para entrar nas salas de cinema tinham dimensões bíblicas, a quantidade de gente que serpenteava nos espaços de circulação deixou-me ansioso.

Desci a escada rolante decidido a sair dali para fora, as compras podiam esperar... tanta gente! Lá fora o sol surpreendia pelo vigor do seu brilho. Desloquei-me rapidamente me direcção ao meu carro e vim embora. Que susto.

A chuva regressou, com ela o vento dançante. O céu escureceu tremendamente. No centro comercial decerto continua tudo na mesma. As pessoas parecem ter ido todas para dentro daquele lugar, as ruas estão quase desertas e brilhantes de água que escorre pelas costas do mundo.

sexta-feira, maio 29, 2015

Ir ao sonho

"Ex Machina" e "Birdman", os dois últimos filmes que vi que merecem referência especial, muitas estrelas, elogios variados, fotos a cores, aplausos, tudo o que possamos imaginar oferecer a um objecto que, por ser um objecto, habita aquele estranho limbo da quase existência.

"Birdman" foi largamente reconhecido e arrecadou prémios e Oscars e tudo o que um realizador pode desejar como resultado do seu trabalho. É, realmente, um filme extraordinário. A realidade e a possibilidade da magia coexistem no espaço e no tempo da narrativa deixando o espectador sempre em suspenso, agarrado, mergulhado, profundamente interessado, diria.

"Ex Machina" tem um ritmo diferente. Levados para o interior de uma propriedade isolada, habitada por um génio da Inteligência Artificial e algumas estranhas criaturas, acompanhamos uma inquietante narrativa que, no final, deixará a pensar o mais incapaz de se interessar pelas coisas do pensamento.

Dois filmes que têm em comum excelentes (extraordinárias!) interpretações: que actores, que actrizes, que directores!!! E também o facto de nos conduzirem em direcção a mundos de sonho e realidade, de nos fazerem esquecer a sala, o lugar onde fica o nosso corpo, ao ponto de acreditarmos no que estamos a ver.

Grande cinema!

sexta-feira, fevereiro 28, 2014

Uma alegoria

Her (uma História de Amor, na versão portuguesa) é um filme que nos coloca perante uma estranha história de paixão assolapada.

A acção evolui num ambiente moderadamente futurista onde as calças dos homens são demasiado subidas na cintura e a maioria anda de mala a tiracolo pelas ruas da cidade. É um mundo tecnológico e os computadores rondam o interior das cabeças das personagens.

A narrativa desenrola-se num tom melancólico, oscilando entre momentos de comédia e momentos de alguma tensão dramática. Joaquin Phoenix tem um desempenho excelente, como é seu hábito, Amy Adams e a voz de Scarlett Johansson cumprem os respectivos papéis com brilhantismo. Banda sonora a preceito e realização impecável de Spike Jonzee. Deve dar para perceber que gostei bastante do filme.

A história é de amor, como o subtítulo em português sublinha a traço grosso, um amor improvável entre um ser humano e outro que não se percebe muito bem o que é. Parece-me uma alegoria, por vezes quase pueril, sobre o que somos e aquilo em que nos estamos a transformar.

Uma visão plausível do futuro (do presente?) das relações entre seres humanos  e outros... objectos. Ou talvez vice-versa...




domingo, outubro 27, 2013

Um filme de acção

Gravidade é um atípico filme de acção. O espectador assiste a uma sucessão de situações e imagens espectaculares, num ambiente visual exuberante, sem se aperceber que o tempo vai passando. Os diálogos são mínimos, o espaço é tão protagonista quanto Sandra Bullock ou o fugaz George Clooney.

É, sem dúvida, um filme diferente (diferente de quê, exactamente?) que me fez dar por muito bem empregue o tempo que estive sentado na sala de cinema.

Assisti a uma sessão em ecran "normal". Há a versão 3D, com os oculinhos mas, para alguém que, como eu, usa óculos para ver dois palmos à frente do nariz, usar aqueles sobre estes provoca um certo incómodo.

A ver, sem hesitações.


sábado, setembro 21, 2013

Lavagem

Ontem postei aqui um desabafo com laivos de lamechice. Sentia-me cansado de trabalhos que me parecem descabidos, sentia-me tristonga, precisava de choramingar a ver se a coisa aliviava. Mas não aliviou. Sentia-me, sobretudo, vazio.

Sentado em frente ao computador precisava de executar certas tarefas que exigem de mim alguma criatividade e não saía (não saiu) nada. Quando isso acontece fico um pouco aterrorizado. Insisti, insisti e nem porcaria fui capaz de criar.

À noite fui ao cinema. Fui ver o mais recente filme de Woody Allen, Blue Jasmine. Quando saí da sala estava regenerado (Cate Blanchet é uma actriz estratosférica!). O filme até que é bastante deprimente. Muito deprimente, mesmo. Mas hoje sinto-me muito melhor, lavado por dentro. Talvez seja capaz de criar algo satisfatório.


segunda-feira, agosto 26, 2013

Redesign

Aqui há dias fui ao cinema com a minha filha. Estávamos em Viseu, a oferta cinematográfica não é mais entusiasmante. Insisti no filme "O Mascarilha". Um pouco contrariada a rapariga lá acedeu. Afinal de contas, férias são férias e não custa nada fazer a vontade ao velho.

A personagem preencheu parte do meu imaginário juvenil através dos livros de quadradinhos. Apesar de não ter grandes expectativas em relação ao filme penso que queria matar saudades da minha infância. Lá fomos.

O filme é desopilante. As cenas de acção têm momentos de grande espectáculo e divertimento. As personagens surpreendem com atitudes inesperadas e há pormenores de uma violência cruel que, no contexto, provocam o riso apesar de tudo. Ao contrário do que eu esperava, a narrativa não era tão linear quanto seria de esperar numa coisa deste género. Talvez por isso o filme tenha sido um fracasso de bilheteira nos Estados Unidos (ver aqui).

É de salientar o "redesign" da personagem de Tonto, o índio, interpretada por Johnny Depp. Os maus são muito maus e os bons... nem por isso. À saída vínhamos com um sorriso estampado no rosto. Afinal valera a pena.

sexta-feira, agosto 16, 2013

Distopia

Hoje fui ao cinema (há muito tempo que não ia ver um filme na sala de cinema) ver Elysium, o mais recente filme do realizador sul-africano, Neil Blomkamp. Quando me sentei sabia muito pouco acerca do filme. Tinha visto ontem à noite uma entrevista com Matt Damon, que interpreta a personagem central desta distopia (wiki) de Ficção Científica. A coisa pareceu-me bem, fui ver.

A sinopse de entrada e os planos iniciais de uma cidade futurista que parece feita de lixo amontoado fizeram-me pensar imediatamente nos contos de Phillip K. Dick. Mais um ou dois minutos de filme e não me saía da cabeça como tudo aquilo era semelhante a Distrito 9.  Tudo agradável para um espectador como eu.

No intervalo abri o jornal e procurei a crítica ao filme. Lá estava, Elysium é do mesmo realizador que Distrito 9 e Jorge Mourinha, o autor daquelas linhas, referia também o universo de Phillip K. Dick (falar apenas de Blade Runner é limitativo mas compreende-se quando se fala de cinema). Ok, as minhas referências funcionavam na perfeição, fiquei contentinho comigo próprio. Estas pequenas vaidades...

Ao chegar aqui, defronte do teclado onde matraqueio estas palavras, procurei no Dicionário do Aurélio online a palavra "distopia". Para minha surpresa não consta no referido dicionário. Um salto à inevitável Wikipédia forneceu-me dados interessantes quanto à origem da expressão que desconhecia por completo (ver link mais acima que tem uma curiosa lista de exemplos de distopias cinematográficas).

Procurei noutros dicionários de português e encontrei esta descrição em "antiutopia" que pode servir de sinopse a Elysium: "representação ou descrição de uma sociedade futura caracterizada por condições de vida alienantes ou extremas, que tem como objetivo criticar tendências da sociedade atual, ou alertar para os perigos de determinadas utopias

antiutopia In Infopédia [Em linha]. Porto: Porto Editora, 2003-2013. [Consult. 2013-08-16].
Disponível na www: http://www.infopedia.pt/lingua-portuguesa/antiutopia>."

O filme, não tendo nada de extraordinário nem sendo particularmente inovador, é, no entanto, suficientemente cativante e merece uma ida à sala para ser visto.


sexta-feira, maio 24, 2013

Uma coisa muito bela

Cena do filme "A Infância de Ivan" de Andrey Tarkovsky.

quarta-feira, janeiro 30, 2013

Morrer aos bocadinhos

A notícia é triste: Fecho de salas da Castello-Lopes deixa Açores, distrito de Viana e cinco cidades sem cinema. Além de significar mais umas dezenas de pessoas no desemprego representa uma espécie de regresso ao passado ou mais atrás ainda que o passado.

Desde que me lembro sempre houve uma sala de cinema perto de mim. Pelo menos uma, como era o caso do velhinho Cine Rossio que preencheu o meu imaginário ao longo da mais tenra infância e adolescência, quando vivia na cidade de Viseu. Depois (não sei bem quando) surgiu o Cineclube de Viseu que funcionava em salas mais ou menos improvisadas, com condições de projecção um tanto manhosas mas que passava filmes magníficos (foi numa dessas sessões, sentado numa vulgar cadeira de sala de jantar que vi, pela primeira vez, Andrei Rubliov, talvez o filme da minha vida).

É evidente que o mundo mudou, o acesso a filmes tornou-se algo banal. Primeiro com as cassetes de VHS, depois com os DVD e agora com a imensidão do mundo virtual online a relação dos indivíduos com a 7ª arte transformou-se; democratizou-se mas também perdeu qualidade.

Toda a gente sabe que não há nada como ver um filme numa sala de cinema. Vê-lo em casa, sentado no sofá ou deitado na cama com um laptop nos joelhos não tem comparação. É como ver uma pintura de Ingres ao vivo ou numa reprodução fotográfica, na melhor das hipóteses ficamos com uma vaga ideia sobre a qualidade do objecto.

O fecho de uma sala de cinema é sempre triste. É como ver o mundo a morrer aos bocadinhos. Já agora penso que seria de criar uma situação de excepção nestas zonas, cinematográficamente empobrecidas. Enquanto não houver possibilidade de a população ter, de novo, acesso a salas de cinema, ao menos que se permita a pirataria e o download ilegal seja legalizado. É o mínimo que se pode fazer pelos cidadãos.

domingo, janeiro 27, 2013

Porquê?

Enquanto assistia a "Django Libertado", o mais recente filme de Mr. Tarantino, ia perguntando a mim próprio: "Porquê?" Qual a razão do falatório, da polémica, da discussão? O que tem este filme que outros de Tarantino não tiveram? Estão lá o sangue aos baldes, a violência súbita e desconcertante, as personagens carismáticas, os diálogos geniais, as citações ao cinema que Tarantino gosta de citar. Nem mais nem menos, exactamente assim, e, no entanto...

Talvez a polémica seja uma jogada de marketing. Deve ser isso. Sempre que um filme vem rotulado como polémico há mais espectadores interessados em ver... deve ser isso.

"Django Libertado" é um filme bastante razoável mas não chega aos calcanhares de "Sacanas sem Lei". É um filme que se vê com agrado e tem uma das melhores cenas que vi nos últimos tempos (a discussão entre os membros de um bando do Ku Klux Klan sobre as deficiências no fabrico dos capuzes com que cobrem as cabeças).

Fez-me recordar os western spaghetti, mostrou mais uma vez a mestria de Tarantino na encenação e trabalho de câmara... um bom filme, pronto, é bom, não apenas razoável como disse lá mais para trás mas não é uma obra-prima. Digo eu mas... quem sou eu para o dizer?

quinta-feira, janeiro 24, 2013

Opinião nublada

Aqui há dias fui, finalmente, ver "Cloud Atlas" a uma sala de cinema perto de casa. Fui com um pé atrás devido a críticas pouco elogiosas ou, no mínimo, críticas pouco entusiásticas. Não sei bem, parecia-me haver algum frio em volta do filme, uma ligeira sensação de desconforto.

Na sala, durante o visionamento, posso dizer que as baixas temperaturas que eu receava não se confirmaram, antes pelo contrário. É um filme visualmente muito interessante e com um ritmo narrativo estranho mas envolvente.

A caracterização das personagens tem apontamentos muito interessantes (no final é aconselhável ficar na sala para ver a apresentação de todas as personagens e respectivos intérpretes) e o constante cruzamento de tempos diferentes não chega a desconcertar. No final tudo se concretiza com razoável sentido.

Resumindo: um filme a ver com olhos limpos e sem preconceitos. Penso que a experiência valerá a pena.

A terminar, uma curiosidade: na China o filme está a ser exibido com cortes significativos (40 minutos menos). Ao que parece, certas cenas de cariz mais sexual (o filme é, nesse aspecto, bastante pueril!) foram retiradas por ordem dos censores do Império do Meio (ver aqui).

terça-feira, janeiro 08, 2013

Saúde!

Manoel de Oliveira está de regresso a casa. Com 104 anos de idade o velho cineasta continua a desenvolver projectos ininterruptamente e não parece haver maleita que o atrase.

Fascina-me a longevidade lúcida de certas pessoas. Continuar a dirigir projectos cinematográficos aos 104 anos de idade mostra que não há prazo de validade para as nossas capacidades criativas. O exemplo de Manoel de Oliveira é inspirador: a paixão pelo trabalho é como água da Fonte da Juventude.

Este homem dá sentido à esperança.


segunda-feira, dezembro 17, 2012

A morte como Bela-arte

"Mata-os suavemente" é um filme que tenta fixar uma estranha forma narrativa, sobrepondo duas camadas, duas linhas narrativas, em simultâneo.

Por um lado seguimos os acontecimentos que vão constituindo o quotidiano sombrio das personagens, por outro acompanhamos, através da TV e de um ou outro "outdoor" a campanha eleitoral que marcou o fim do reinado de Bush e a ascensão de Obama à presidência dos EUA.

Há sempre uma espécie de eco, um eco da realidade histórica, que se sobrepõe ao fio narrativo e ficcional do argumento. O resultado é, por vezes, elegante, noutras ocasiões resulta num grosseiro sublinhar daquilo que está, evidentemente, retratado perante os nossos olhos.

Talvez resida aqui alguma fragilidade, uma certa incapacidade de manter um discurso equilibrado, como se o realizador ora considerasse o espectador como alguém inteligente ora estivesse a dirigir-se a um imbecil, incapaz de compreender certas subtilezas narrativas.

Em termos formais pareceu-me muito bom. Os enquadramentos e as sequências visuais têm momentos perfeitos. Quando a cena exige contenção e simplicidade, ela está lá, quando o realizador sente necessidade de estilizar a acção ao ponto de a transformar em mero artifício não hesita em fazê-lo. A violência tem momentos de uma beleza pungente, quase comovente, que divide com situações de uma crueza selvagem.

Uma última palavra para os desempenhos dos actores, merecendo destaque a prestação de James Gandolfini, um assassino a perder a mão e o jeito. Os outros, com Brad Pitt à cabeça, vão todos em grande estilo.

Enfim, um filme a ver com o agrado que formos capazes de sentir perante um objecto predominantemente sombrio.

quarta-feira, julho 11, 2012

Cinema fotográfico

Vi recentemente o filme "Moonrise Kingdom" de Wes Anderson.

Tal como os outros filmes deste realizador que vi (os outros vi todos em casa, em DVD), trata-se de um estranho objecto cinematográfico.

O argumento não é, à partida, nada de muito espectacular mas a forma como a história se desenrola é muito característica, tem um ritmo hipnótico.

A aparente banalidade de tudo o que se passa no écrã é transformada em algo de extraordinário pelo cuidado extremo com que Anderson cria cada plano que nos oferece num trabalho de fotografia, por vezes, assombroso.

"Moonrise Kingdom" tem um elenco de luxo, mesmo nos mais insignificantes papéis. Este facto ajuda, e muito, a que a qualidade global do filme seja acima de Bom.

Um filme para toda a família (gato, cão e periquito incluídos). A ver com agrado.

quinta-feira, junho 14, 2012

Prometeu

Ridley Scott realizou muitos filmes mas guardo na memória dois mais um. Os restantes nem por isso. Os dois que guardo são, quanto a mim, os filmes que lançaram as bases mais sólidas do género "ficção científica": Alien e Blade Runner. Neles Scott criou, pela 1ª vez, ambientes cinematográficos convincentes, dando corpo e forma a mundos impossíveis e, até aí, nunca antes vistos. O outro (aquele "mais um") é "The Duellists", não recordo o título em português. Um épico pesadão que se desenrola na época das invasões napoleónicas com uma atmosfera e uma recriação histórica que me agradam. Nada que se chegue aos calcanhares de um Barry Lyndon, de Kubrick mas, ainda assim, um filme que se vê com uma dose de fascínio q.b..

Vem este pequeno exercício de memória a propósito do recentemente estreado Prometeu ou Prometheus, já que o título deste filme não é adaptado à língua de Camões. Se em Alien ou em Blade Runner, Scott e as suas equipas conseguiam criar ambientes de ficção recorrendo a truques, muitas vezes, quase pueris, em Prometeu a coisa sobe uma escadaria de 500 degraus em direcção à espectacularidade.

Além dos efeitos especiais, de uma eficácia cristalina, o filme conta com um elenco de luxo onde se destaca Michael Fassbender no papel de David, o andróide.


Naoomi Rapace constrói também uma personagem bastante credível que, na cena final, deixa tudo em aberto para uma nova investida do realizador nesta trama de argumento. Não vou estar para aqui a contar a história deste filme que, mais uma vez, se situa sobre aquela ambígua linha que une mais do que separa o filme de terror do filme de ficção científica. A não perder para quem gosta do género. A evitar por quem não está disponível a deixar-se levar até planetas distantes habitados por seres capazes de fazer chorar de pavor o mais empedernido dos deuses do Olimpo.

sábado, maio 19, 2012

Suspensões



Tenho visto uns filmes.

Do chato ao banal, passando pelo estonteante, o perturbante e o extraordinário, de tudo um pouco tenho absorvido na escuridão luminosa do cinema.

Ontem fui apanhado de surpresa.
Fui ver Nana e Rafa, dois filmes, o primeiro mais ou menos longo, o segundo decididamente curto. O segundo passou antes do primeiro.

Quando Rafa segura ternamente o sobrinho e tudo está por desvendar (ou não?) o filme de João Salavisa, vencedor do Urso de Ouro para melhor curta-metragem na edição de 2012 do Festival de Berlim, fica em suspenso, o ecrã enegrece e... o espectador fica com muita história por contar, muita história para inventar.

Um filmezinho estranho que, tal como eu e tantos outros, vive nas costas do Cristo Rei e viaja para a sordidez das ruas da capital para ali não acabar.

Ainda o espectador não está refeito da súbita suspensão da narrativa de Rafa, já se encontra perante Nana, uma menina tão pequenina que mais parece um milagre a acontecer porque tem de ser.

Entrado no mundo rural do filme francês, senti-me a planar (não sei porquê, ou talvez saiba mas não diga, lembrei-me de A Árvore da Vida, de Terrence Malick) e por ali fiquei.

A narrativa é errática, a sequência das acções estrambólica, o filme desprende uma estranha magia que nos mantém expectantes até que... tudo fica em suspenso e, mais uma vez, dou por mim a tentar contar uma história a mim próprio.

Sinceramente, quando saí da sala, vinha meio anestesiado. Mais nada. Não sei se ainda estou sob o efeito da anestesia.

quarta-feira, maio 02, 2012

O bom e o bonito

Já foi na semana passada, se bem me lembro, que assisti à projecção deste filme. Uma experiência muito reconfortante, posso dizer sem que me trema a alma nem se me descaia a postura intelectual. A fotografia a preto e branco cria sempre em mim a sensação de estar a assistir a cinema verdadeiro, mais do que o incomodativo 3D da moda, dos óculos de plástico e da bela pipoca. Talvez seja como diz Paul Auster em O Livro das Ilusões, talvez o preto e branco crie a sensação de estarmos perante algo que recria a realidade ou lhe confere uma outra dimensão, algo que não a imita simplesmente, como acontecerá com a cor e (acrescentamos nós em pleno século XXI) com o 3D da moda, dos óculos de plástico e da bela pipoca. Ao invés de pretender trazer a realidade para dentro da sala de cinema, Tabu oferece-nos cinema. É tão simples! E essa oferta é feita com tal plenitude e de modo tão sincero que damos por nós mergulhados num imaginário de tremenda beleza. Muito sinceramente, recomendo a todos os que tenham a oportunidade. Ver Tabu, o filme de Miguel Gomes, limpa muita porcaria que possamos ter agarrada aos olhos. Vão por mim, caríssimos, acreditem e vejam para poderem acreditar naquilo que vêem.

quinta-feira, abril 05, 2012

Nostalgia


Aqui há uns dias fui ver o filme "John Carter de Marte". Pura nostalgia. Quando era um adolescente apaixonado por Banda Desenhada (Histórias em Quadrinhos) e coleccionava várias revistas do género, as aventuras de John Carter foram publicadas, durante algum tempo, no Mundo de Aventuras.

As historietas de John Carter, criadas por Edgar Rice Burroughs, o autor de Tarzan, fizeram-me sonhar e passar bons bocados. Subitamente o herói marciano desapareceu e nunca mais ouvi falar dele ou sequer dele me lembrei. Como tantas outras coisas, perdeu-se no esquecimento.

Agora, ao que parece para celebrar o centenário da publicação das primeiras aventuras escritas por E. R. B., a Disney lançou este filme em 3D com grande alarido e baldes de pipocas. Não pude resistir ao apelo nostálgico e lá fui.

É um filme daqueles, de aventuras, seres abstrusos e muita moral. Um filme para toda a família, como a Disney gosta de fazer. Fui sozinho, sem pipocas mas com uns óculos 3D para colocar sobre os meus óculos de lentes progressivas.

Quando lia o Mundo de Aventuras estava longe de imaginar que um dia iria usar óculos para, simplesmente, poder ver e muito menos imaginava óculos e filmes em 3D ou uma técnica digital capaz de tornar reais os monstros mais extraordinários que a mente humana possa inventar.

Mas assim é. A realidade tecnológica encarregou-se de transformar em objectos quase tangíveis coisas que apenas fui capaz de sonhar olhando fixamente desenhos sem movimento. As coisas transformavam-se dentro da minha cabeça, ao ler as pranchas de Banda Desenhada. Agora, além do deslumbramento do 3D e das pipocas em baldes, as crianças ainda hão-de ter um jogo de computador à sua disposição.

Se não sentes esta nostalgia, caro leitor, não valerá a pena ires ao cinema ver esta coisa. O esforço sublime de imaginar o maravilhoso é cada vez mais servido como um pronto-a-comer que te oferecem já devida e previamente mastigado. Há quem considere isso aborrecido.