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domingo, janeiro 11, 2026

Robots

     Lidar com robots não é coisa fácil. Como eles não pensam, ou pensam que pensam mas não pensam, torna-se impossível o estabelecimento de uma conversa nos moldes a que estamos habituados. Assim sendo, somos obrigados a descobrir uma outra forma de raciocínio, adaptável à ausência de sensibilidade humana com que deparamos no nosso interlocutor. Não é bem como falar com uma porta ou com uma parede mas não andará assim tão longe quanto isso.

    Não deixa de ser curioso que, uma das primeiras coisas que o robot nos pede quando iniciamos uma conversa seja que provemos que não somos um robot, tal qual ele é (ou imagina ser, não tenho a certeza que uma entidade virtual possa ser considerada como existente). Isso sugere que o robot sabe que falar com um robot é uma coisa um bocado parva e, de forma razoavelmente inteligente, recusa-se a fazê-lo. Então mostra uma imagem dividida em quadrículas e pede coisas imbecis como "indique todos os quadrados que mostram um motociclo" ou outra parvoíce equivalente. O robot não terá consciência de que aquilo que nos pede é um tanto humilhante ou, se tem consciência disso, mostra uma grande capacidade para rebaixar o Ser Humano. O que é preocupante.

    Pessoalmente, não tenho grande paciência para robots. Quando alguma dessas maquinetas me atende o telefone desligo imediatamente. Aquela coisa de clicar numa tecla ou outra, tendo em conta o assunto que pretendemos abordar, leva-me demasiadas vezes ao desespero. Não tenho a certeza mas há qualquer coisa de mesquinho ou vingativo na forma como os robots lidam connosco.

domingo, dezembro 12, 2021

Tempos modernos

     O mundo virtual é uma alucinação. A afirmação anterior talvez seja exagerada para pessoas como eu ou, eventualmente, para pessoas como tu, gentilíssimo leitor. É uma afirmação que decorre do facto de ter estado com um grupo de alunos de alunos de 13/14 anos durante 45 minutos numa sala de aula onde o meu único objectivo era o de evitar que eles saíssem porta fora e pouco mais. Tratava-se de uma aula de substituição de uma colega que faltara e fui para a sala munido apenas da minha proverbial boa vontade e da experiência acumulada ao longo de algumas décadas a lidar com grupos deste género.

    Aquilo que há alguns anos atrás seria como uma descida aos infernos tornou-se, nos dias que correm, um passeio pelo Jardim das Delícias. Todos os alunos tinham à sua frente um telemóvel e rapidamente mergulharam nos ecrans passando a surfar suavemente ondas de informação. Fui falando com um ou outro sobre aquilo que lhes captava a atenção. Entre jogos, Instagram e Tik Tok, havia algo de comum a todos eles: a sucessão meio alucinada de imagens contidas em narrativas de duração extremamente curtas.

    Fiquei a saber que, no Tik Tok, um vídeo não pode exceder os 3 minutos e que, os que atingem esse limite, são uma enorme seca. Que nas Insta Stories as imagens são exibidas durante 5 segundos e os vídeos não ultrapassam os 15, sendo que, após 24 horas, tudo é dissolvido no éter virtual perdendo-se para todo o sempre. Quem viu, viu, quem não viu e gostava de ver, tivesse visto. Também os jogos vivem da imagem em movimento contínuo, da variedade de pontos de vista e do resultado imediato. Não há narrativas que se prolonguem muito para lá da seca que é uma "longa metragem" no Tik Tok.

    Este universo narrativo aliado ao da publicidade e ao dos vídeo clips constituem uma frenética cosmogonia paradoxalmente simples. É por aqui que deambulam os cérebros dos nossos alunos. Ora, uma aula ministrada por um professor, com uma duração mínima de 45 minutos recorrendo frequentemente a processos comunicacionais pré-informáticos, ganha contornos de tortura insuportável e, pior ainda, tão desinteressante quanto incompreensível. Precisamos de olhar para o mastodonte dentro da sala.

    Alguma coisa terá de mudar e mudar radicalmente se pretendermos manter algum contacto com a criançada. 

sábado, janeiro 26, 2019

Consumição

Não sei bem quando foi que aconteceu, quando foi que os electrodomésticos deixaram de ter arranjo para passarem a ter garantia? Quem diz electrodomésticos diz automóveis ou esse objecto-fetiche, tão recente, o smartphone (os inglesismos têm vindo a ser substituídos pelas expressões em inglês puro e duro).

A garantia é, por norma, de dois anos. Terminado esse período de tempo (tão curto!) nada nos garante que o objecto continue a funcionar de acordo com as características excepcionais que nos levaram a adquiri-lo. Diz-se por aí que os objectos já são fabricados de acordo com o tempo de vida mais curto, que os dois anos são uma espécie de velhice tecnológica, tão rápida é a evolução destas espécies. Talvez seja boato.

A verdade é que, nos tempos que correm, quando um objecto deixa de funcionar parece lógico depositá-lo num daqueles caixotes enormes que aparecem nos estacionamentos dos centros comerciais devidamente identificados para o efeito. Depois subimos nas escadas rolantes e vamos à loja comprar outro. É a lógica consumista.

Esta discreta alteração dos nossos hábitos trouxe consigo outra transformação insidiosa: a do cidadão que se torna consumidor. Os direitos de cidadania a serem substituídos pelos direitos do consumo. A vida a ser consumida mais do que a ser vivida?


terça-feira, janeiro 08, 2019

Tecnologia de estimação

O meu telemóvel não é dos mais faladores, por vezes passa dias inteiros que está calado. Como um rato. Mas isso não impede que me sinta ligeiramente angustiado caso me esqueça dele poisado algures, entregue à suavíssima queda do pó que encobre o mundo.

Estranha relação esta, que estabelecemos com certos objectos tecnológicos. É quase como se fossem bichos, animais de estimação. Como se tivessem caprichos, sonhos, necessidades. Como se respirassem o mesmo ar que respiramos.

No outro dia resolvi deixar o telemóvel em casa de forma premeditada. Só para ver como seria. Foi bom. A verdade é que me senti muito mais leve. Não me roeu aquela sensação de culpa pois desta feita não me esquecera dele. Também me sossegou saber que não estava a abandoná-lo, que iria voltar a casa e ele lá estaria, fiel, à minha espera. Enfim, umas horas de liberdade sabem bem.

Certos objectos tecnológicos têm uma irritante capacidade de nos tiranizarem o dia, como se fossem animais de estimação que estragámos com demasiado mimo. Nada que uma martelada não resolva.

terça-feira, maio 05, 2015

Frágil oportunidade (como a vida)

Esta nossa vida virtual deixa um rasto longo e mais pegajoso que o de uma lesma gigante. Nós morremos e continuamos a receber felicitações automáticas pelo nosso aniversário, ofertas de negócios irrecusáveis, oportunidades únicas para umas férias inesquecíveis no próximo verão. Mensagens brutalmente pujantes, a transbordar de felicidade e com promessas de um futuro muito, mas mesmo muito, melhor!

Melhor do que a morte? Promessa um tanto arriscada uma vez que a vida é coisa vagamente conhecida, já a morte...

Enfim, quando morrer gostaria de ser apagado da NET. Gostaria de ficar apenas na memória daqueles que realmente me conheceram, daqueles com quem me cruzei e dexei algum tipo de impressão ao longo da minha vida verdadeira.

Que me desculpem os amigos que conheço apenas por esta via mas: blogues fora, página no Facebook apagada, e-mail eliminado, etc. até ao mais completo olvido virtual. Haverá alguma empresa que se dedique a receber estas últimas vontades e se comprometa a levá-las a cabo?

Parece-me uma frágil oportunidade de negócio para jovens informáticos com espírito empreendedor. Frágil como a vida.

sexta-feira, julho 02, 2010

Olha eu!

Coisa máilinda!


Neste campeonato do mundo de futebol há um pormenor que me tem divertido bastante. Falo da maneira como as pessoas se comportam quando se vêem nos écrãs gigantes que se encontram nos estádios.

A coisa começa nas imagens das transmissões televisivas ainda antes de o jogo começar. As câmaras vão focando os espectadores mais vistosos, que nas bancadas há sempre quem invente personagens coloridas. Estes, quando se apercebem que estão expostos no écrã, sorriem, saltam, acenam para si próprios, num frenesim de felicidade incontrolável. Depois começa o jogo e os realizadores concentram-se no que se vai passando dentro das quatro linhas.

Aí o protagonismo é dos jogadores. Cristiano Ronaldo, só para dar um exemplo (Káká também é jeitoso), passou os jogos a olhar para cima. Quer dizer, não era bem para cima, que os olhos não procuravam o céu, era para aquele espaço intermédio, entre o céu e a terra, onde estão suspensos os écrãs. Disfarçadamente os jogadores admiram-se na sua imagem projectada. Uns mais do que outros que a vaidade humana não tem sempre o mesmo peso. Mas é engraçado verificar como não resistem ao apelo gigantesco dos écrãs.

Estou em crer que a coisa os deve desconcentrar, "Olha, tenho a sobrancelha mal depilada" e não deve dar grande confiança ao companheiro de equipa que não tem relevância mediática, "Lá está outra vez aquele palhaço a olhar para o écrã em vez de tentar perceber onde está a bola".

Nas bancadas poucos são os que não se apercebem da coisa, o que também não contribuirá para que sigam o jogo com toda a atenção. Enfim, é um fenómeno tecnológico com influência ainda por quantificar em termos de influência nos resultados finais dos desafios. A Ronaldo já ninguém lhe tira a fama de estar mais interessado em admirar a sua extraordinária beleza física do que chutar a redondinha, o que terá transformado em monstro horrível o futebol por ele praticado neste campeonato do mundo.


Se eu fosse seleccionador no próximo mundial, havia de escolher os jogadores mais feios e menos adorados pelas adolescentes. Talvez assim pudesse chegar mais longe e ganhar o campeonato, quem sabe? Vivam os feios que os lindinhos não têm vida pra isto!!!