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domingo, junho 25, 2017

Confusão

A exposição mediática é uma coisa monstruosa. Qualquer assunto que caia na malha apertada das redes dos pescadores de desgraças que distribuem o seu produto aos serviços noticiosos, corre o risco de crescer subitamente, uma lombriga transmutada em anaconda num abrir e fechar de olhos.

A catástrofe de Pedrógão Grande é mais um entre mil casos de consumo mediático, tão característicos da era digital e da TV por cabo.

Mesmo as questões mais graves, os momentos mais significativos, incham como um tumor e esvaziam-se de conteúdo quando submergidas por maremotos opinativos que tudo levam na enxurrada. É uma confusão, um fastio, um tédio infinito.

Consumimos a dor e a miséria como se fossem iogurtes ou bebidas frescas numa tarde quente. Todos se aproveitam, muitos exploram, mas, no fim e lá no fundo, ninguém sai completamente limpo de uma cena destas: nem os que mostram, os que oferecem, nem os que vêem, os que consomem.

Tudo isto me parece extremamente complexo e me deixa extraordinariamente confuso.


sexta-feira, maio 06, 2016

Da vaidade

Folheio as páginas do suplemento cultural do "meu" jornal. Leio aqueles títulos em letras mais gordas que a vénus de Willendorf, frases magníficas, sugestões enigmáticas, descrições com elevado teor poético elogiam escritores, músicos e outros artistas, disparam-nos em direcção à categoria de pequenos deuses neste Olimpo de papel impresso. E sinto inveja, confesso que sinto inveja.

A inveja que arranha o interior do meu peito faz-me sentir que não sou digno daquele panteão da cultura. Um deus, mesmo um deus de papel impresso, decerto é superior a sentimento tão mesquinho, tão pequenino, tão provinciano, como esta inveja que aqui exponho. Inquieto-me, roo as unhas: não sou um artista? Sou um mero professorzeco, não sou um intelectual, sou um... nem sei o que sou.... um Joseph Merrick, na melhor das hipóteses.

Oh, como eu gostava de um dia ser página de suplemento cultural (página dupla levar-me-ia ao Paraíso!), como eu gostava de ver o meu nome elogiado por alguém com o dom da escrita e argúcia suficiente para ver nos meus trabalhos aquilo que nem eu serei capaz de perceber. Oh, como seria feliz se, por uma vez, pudesse despejar na gamela onde a minha vaidade chafurda e se alimenta substância suficiente que lhe saciasse a fomeca.

Foi em Narciso e Goldmund, de Herman Hesse, que li, há largos anos, uma frase que nunca esqueci (decerto a transformei, a memória é traiçoeira). Numa das conversas entre as personagens centrais deste romance, uma dizia à outra qualquer coisa como "a arte arrisca-se a ser apenas uma expressão de vaidade individual". Se não é isto, peço desculpas a Hesse, mas foi isto que me ficou gravado a ferro e fogo nos recessos do cérebro.

Hesse é bem capaz de ter ali fixado um ponto importante, digno de profunda reflexão.

sexta-feira, setembro 28, 2012

Indignações

Muito se fala dos muçulmanos que cospem fogo dos olhos e da boca de cada vez que alguém se lembra de lhes mostrar uma imagem considerada ofensiva para os seus princípios sagrados. Que não sabem o que é a liberdade expressão, que não são capazes de conviver pacificamente num mundo livre de preconceitos e o diabo a quatro.

De imediato há vozes que se levantam dentro das fronteiras do chamado mundo livre a avisar os muçulmanos que por cá vivem da necessidade de mostrar respeito pelos princípios sagrados das democracias ocidentais. A liberdade de expressão é um desses princípios e, como tal, respeitinho ou então que se ponham a milhas de distância.

Quando a coisa queima os olhos e a fé das seitas cristãs, sejam a católica, as evangélicas ou outras que agora me não acorrem à memória, como podemos lidar com a fúria dos fiéis? É que Cristo é o herói cá deste lado (Maomé é o herói dos "outros") e, na terra dos livres, à partida, não há limites para a expressão de ideias e convicções.

Pessoalmente já não tenho pachorra para aturar as virgens ofendidas, sejam cristãs ou muçulmanas. Um símbolo é um símbolo e não passa disso. Se não gostam das imagens que vão por aí surgindo não olhem ou então tapem a boca com a mão para que ninguém ouça o palavrão que estas lhes sugerem. E peçam perdão a Deus por terem dito uma coisa tão suja. O assunto fica resolvido.

quinta-feira, março 18, 2010

Sangue


Os vampiros estão na moda. Séries de televisão, filmes, livros, artigos, revistas, o mundo parece enternecido com as intermináveis variações a partir da figura do conde Drácula. Não tarda haverá vampiros em peluche para ajudar a adormecer criancinhas, embaladas por sonhos arrepiantes de seres sobrenaturais com dentinhos proeminentes.

A apropriação do monstruoso vampiro pelos exploradores do universo adolescente parece-me abusiva. O monstro perde em carisma o que ganha em vulgaridade e falta de espessura. A figura hiper-romântica do Drácula de Bram Stroker, aquele que morre na contemplação da mulher amada, adaptado às sagas novelescas para consumo das massas acaba coberta de ridículo e presta-se a variações verdadeiramente apalhaçadas. O vampiro perde a aura de ser extraordinário e único para se transformar numa personagem digna daqueles filmes impossíveis com o Elvis Presley a protagonizar jovens palonços por quem todas as rapariguinhas desfalecem.

Esta vaga sangrenta que tem coberto os mass media de subprodutos intragáveis guardava um desenvolvimento inesperado,este no palco do mundo real. As recentes manifestações de rua em Banguecoque, capital da exótica Tailândia, arrasaram de vez o imaginário popular, deixando os vampiros de ficção em muito maus lençóis. Os manifestantes oferecem aos repórteres de imagem de todo o mundo um autêntico festim macabro quando recolhem e derramam nas ruas centenas de litros de sangue humano em sinal de protesto contra os governantes locais.

É uma espécie de auto-vampirismo contestatário e sacrificial carregado de um simbolismo abstruso que, decerto, é lido de forma diferente conforme o país ou o continente onde as imagens são mostradas.

Retiradas do contexto tailandês, as imagens ganham outras dimensões quando lidas na Europa urbana ou na China rural. Um habitante da Amazónia decerto verá naqueles rios de sangue um augúrio diferente do que um camponês das estepes russas. O espectáculo do sangue a correr nas ruas asfaltadas de Banguecoque é uma coisa estranha que merecia um estudozinho iconológico sobre o impacto das imagens televisivas no mundo globalizado.

Os vampiros reais, aqueles que vivem dissimulados entre nós, decerto ficam a salivar perante tamanho desperdício.

sexta-feira, fevereiro 26, 2010

Uma merda!


Muito se tem falado ultimamente de falta de liberdade de imprensa em Portugal. Supostamente, o primeiro ministro terá utilizado repetidamente meios pouco correctos tentando evitar a publicação de notícias pouco abonatórias da sua imagem pública. Os partidos da oposição, com o PSD à cabeça, clamam por justiça, eriçam-se na discussão e passam um atestado de torpeza democrática aos que estão actualmente no poder. Balelas.

O verdadeiro problema não está na atitude deste primeiro ministro, que está muito longe de ser flor que se cheire. O problema está na forma insidiosa como a comunicação social vai sendo, cada vez mais, apenas um outro negócio, comparável ao negócio da venda a retalho ou ao da criação de gado porcino. Os jornalistas são vistos como solícitos empregados de balcão cujo dever é manter um sorriso na face e fazer da felicidade dos clientes uma realidade lucrativa.

A profissão de jornalista está a descer vertiginosamente na consideração do público. Aparentemente, ser jornalista nos tempos que correm, é mais ou menos o mesmo que ter sido operário nos tempos fuliginosos da Revolução Industrial. Ou bem que cumprem as directivas dos capatazes de serviço ou arriscam ser atirados borda fora, pois há mais quem deseje ocupar os seus lugares apresentando o perfil de carneiro mal morto, tipo criado para todo o serviço.

Os meios de comunicação social são propriedade privada e respondem à voz do dono. Os grupos económicos que investem nos jornais, nas revistas, nas estações de rádio ou nas televisões têm o lucro como principal objectivo. É a economia e nós não somos estúpidos. Percebemos muito bem que certas notícias não saem em determinados meios de comunicação por não contribuírem para a imagem limpinha que os seus donos pretendem vender ou porque podem vir a embaraçar algum accionista maioritário com negócios pouco recomendáveis.

Aquilo a que temos assistido não é tanto a falência da liberdade de imprensa mas mais o lento definhar de todo o sistema democrático. A partidocracia reinante é sabuja e cheira muito mal da boca. Os meios de comunicação social, salvo raras e honrosas excepções, estão de cócoras, reféns da capacidade para atrair anunciantes e da necessidade vertiginosa de vender, vender, vender. Na ânsia de serem campeões de vendas chegam mesmo a negociar a própria alma e, depois, não resta nada que se aproveite. Uma merda!

segunda-feira, maio 07, 2007

Reconciliação

Vanessa Fernandes cortando a meta no Pavilhão Atlântico perante uma multidão no mais completo delírio. Heidi Grimm havia de chegar mais de 15 minutos depois...


Disputou-se ontem em Lisboa mais uma prova da Taça do Mundo de Triatlo. Como se esperava, Vanessa Fernandes foi a vencedora da prova feminina, ascendendo à liderança do ranking. Foi a apoteose desta atleta extraordinária com o povão a entrar em delírio numa festa bem portuguesa, a transbordar de emoção, com lágrimas misturadas nos sorrisos rasgados pela gritaria vitoriosa, à beira da histeria. É disto que o meu povo gosta e eu também.



Mas o motivo deste post e da minha reconciliação com o sol que enegrece as sombras do dia que agora fenece tem a ver com uma notazinha publicada no Público, juntamente com a notícia da retumbante vitória de Vanessa. Filipe Escobar de Lima, o repórter de serviço na Taça do Mundo de Lisboa, oferece-nos um pormenor que, na minha óptica, diz muito do que é ser português. Ora vejamos:

Heidi Grimm foi aplaudida como vencedora

O prazer de ser última (ou antepenúltima)

"Só à segunda passagem pelo pavilhão é que percebi que as palmas eram para mim", contou Heidi Grimm. Cada vez que a norte-americana do Colorado entrava pela porta em direcção à passadeira azul estendida lá voltavam os aplausos. Sem ironia e com todo o calor humano. "Foi incrível, senti-me uma portuguesa a correr em casa." A triatleta de 39 anos, agora a viver em Nova Iorque, passou quase toda a corrida no último lugar e foi a mais aplaudida a seguir às portuguesas.
Foi uma espécie de catarse. Quando Grimm irrompeu no recinto, descalça e a pingar a água do rio, [o Triatlo é uma prova composta por natação, ciclismo e corrida a pé] correu para a sua bicicleta - era a única que restava, num deserto de fatos de mergulho e toucas espalhadas pelo chão - e os olhos de todos fixaram-se naquele corpo esguio. Ela, indiferente; o público, acabrunhado, foi-se soltando em incentivos. Era a última, sem hipótese de lutar por nada e, mesmo assim, teimosa, montou no aparelho para se fazer à prova de ciclismo. Tanto empenho para quê? Quando voltou para a primeira de oito voltas, [a prova realizou-se em circuito com passagem pelo interior do espectacular pavilhão Atlântico, sobre a tal passadeira azul] o público levantou-se e aplaudiu-a. Ela, 46ª do ranking, respondeu com sorrisos e acenos [pronto, ela sorriu para uma turba de portugueses eufóricos pela liderança de Vanessa, nem sabia no que se estava a "meter"!] Foi assim até à "cavalgada" final. Ultrapassou quatro ou cinco... Na parte de atletismo, entrava de braços abertos, acenava para as bancadas, os adeptos respondiam. A chegada foi triunfal. Como triunfante foi o 49º lugar... em 51 atletas! Mais de duas horas de puro esforço (duas horas e dezanove minutos a lutar com uma francesa e uma romena).
"Gosto de desporto e assim também aproveito para viajar. Vou agora à África do Sul [próxima prova da Taça do Mundo], diz, de sorriso contínuo. Abraçou as portuguesas. "Nem acreditei. Senti que estava a correr em casa. Foi muito boa esta estreia em Taças do Mundo. Eu respondi ao entusiasmo do público", explicou a atleta. O público perfilhou-a. Quis tê-la como um dos seus. Ela não se importou."

Esta narrativa derreteu-me o coração. Não estive no Pavilhão Atlântico. Vi as imagens pela TV da extraordinária festança que foi a entrada de Vanessa Fernandes para cortar a meta. Arrepiante! Não imaginava que houvesse uma Heidi Grimm, quem se lembra de referir a 49ª classificada em nota de destaque? Lembrou-se Filipe Escobar de Lima que realizou, assim, um excelente trabalho de reportagem. No jornal desportivo que folheei ao fim da tarde não havia lugar para a saga de Grimm, apenas referências aos feitos dos atletas portugueses envolvidos.
Escobar de Lima mostra-nos aquilo que sabemos ser de vez em quando. Na nossa incondicional admiração pelos que não desistem podemos tornar-nos tão humanos, tão humanos que só temos emoção à flor da pele e mais nada interessa. Gritamos, esbracejamos, choramos e rimos ao mesmo tempo. Como animais ou lá que é isso. E é tão bom!!!
Obrigadão, ó Filipe, fizeste-me regressar à Terra com algo melhor dentro de mim e a dançar-me nos lábios.

domingo, janeiro 14, 2007

1.44 gramas

O episódio da condenação de Luisão a 40 dias de trabalho comunitário por ter sido apanhado a conduzir embriagado (1.44 grams de álcool por litro de sangue é obra de trabalho aturado a verter copos na garganta!) é elucidativo.

Talvez estivessem apenas benfiquistas na sala de audiências onde foi decidida tal enormidade, quem sabe? A sentença não passa ainda de uma proposta que terá de ser confirmada noutra instância judicial. Aguardemos para ver o resultado desta infâmia.

No mesmo dia foram "catados" mais uma série de cidadãos em condições semelhantes. Uns mais embriagados, outros menos, outros ainda, acredito, nem por isso. O caso mais mediático foi o de um actor da nossa praça (não me lembro agora do nome mas estou mesmo a ver quem ele é) a quem foi, de imediato, apreendida a carta de condução. Será escusado tentar saber o que aconteceu aos outros. A maioria (talvez mesmo todos) ficaram a andar a pé e de transportes públicos durante uma temporada.

O que tem Luisão de especial? O facto de ser jogador do Benfica será atenuante num caso desta natureza? Se a carta de condução não for apreendida a este cidadão estaremos perante nova prova da merda de justiça que temos. E, mesmo que isso venha a acontecer, já ninguém limpa mais esta mancha malcheirosa ao seu manto esburacado nem convence o pessoal que a venda dela não é transparente.