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segunda-feira, novembro 06, 2017

Bom tempo

O sol brilha, faz calor, a cidade vive mais um dia sossegado. Está bom tempo.

Chove a cântaros, as pessoas passam encolhidas debaixo dos guarda-chuva, os carros circulam com dificuldade. A cidade vive um dia difícil. Está mau tempo.

É assim que consideramos o estado meteorológico: sol é bom, chuva é mau. Nada mais estúpido do que esta apreciação egoísta e inconsciente.

Sem chuva não tarda a faltar água. Aliás, o país vive há anos em situação de seca mais ou menos severa, extrema em certas zonas do território. Apesar de ainda não sentirmos essa escassez nas torneiras das nossas casas, quem vive fora das cidades e precisa de água para a agricultura ou para satisfazer as necessidades dos animais que cria sente uma angústia crescente.

Fiz uma viagem até à Beira Alta. Depois de sair da A1, entrando pela IP3 dentro, comecei a ver os efeitos devastadores dos incêndios que assolaram o país, naqueles dias em que, na cidade, fez um tempo maravilhoso. Ali, no interior do país, foram dias infernais, dias de muito mau tempo.

Talvez devêssemos pensar um pouco mais quando classificamos o tempo que faz. Nos dias que correm, para que o tempo seja bom, estamos desesperadamente necessitados de chuva. Precisamos de muita chuva, imensa chuva, para que os próximos dias sejam esplendorosos. 

quarta-feira, novembro 01, 2017

Afectos

Muito se tem por aí falado de afectos nos últimos tempos. A questão da forma como os políticos reagiram à tragédia contínua dos incêndios e das mortes por eles provocadas é uma questão muito pantanosa.

Costa não mostrou consternação adequada, já Marcelo foi autêntica Madalena  e muito comoveu o nosso povo. Encontrou-se ali uma nesga de oportunidade para desenvolver duvidosa narrativa com os afectos como pano de fundo.

Nunca gostei de velórios nem de funerais. Talvez porque não tenho a certeza de como é suposto comportar-me nesses momentos de dor. Tenho lágrima fácil e comovo-me com facilidade perante a dor alheia mas não sei medir se é muita dor ou se é poucochinha.

Quer-me parecer que esta história é coisa que mete muita lágrima de crocodilo. Não confio em pessoas que choram com excelência e no momento exacto. Os crocodilos usam gravata preta.

segunda-feira, junho 19, 2017

Terrível beleza

Sinto-me incomodado com a estilização da catástrofe. Imagens editadas num serviço noticioso mostram a estrada da morte no incêndio de Pedrógão em artísticos planos e graciosos movimentos de câmara. Uma música em fundo dramatiza ainda mais a peça (noticiosa?) e contribui para conferir ao cenário desolador uma esmagadora beleza. Como se fosse um filme, como se fosse uma obra de ficção.

Nestas ocasiões o coração confunde-se de tal modo com a razão que não percebemos muito bem as sensações que nos rolam na mente. Desligo a TV, tento não pensar no inferno. Mas isso é muito complicado. O calor sufocante que paira na rua e me entra em casa não permite que a abstracção seja eficaz.

A dor, o drama humano, a violência descontrolada das forças que a Natureza é capaz de convocar para nos reduzir à nossa insignificância, tudo isto, em conjunto, me confunde. Acho que vou regressar à leitura. Estou a ler, pela primeira vez, Moby Dick.

domingo, agosto 14, 2016

Vergonha

A história repete-se todos os anos. Verão é sinónimo de desgraça.

Os incêndios florestais saltitam um pouco por todo o território nacional, continente e ilhas atlânticas não escapam a esta estúpida fatalidade do destino. É em ocasiões como esta que podemos concluir em definitivo que o destino é mera consequência dos acontecimentos diários e que o destino dos homens e das suas coisas depende do que os homens fazem, não fazem ou poderiam ter feito.

O aproveitamento vampírico que os meios de comunicação de massas fazem desta desgraça é nojento. Não há acontecimentos mais importantes nem mais dignos de nota do que a miséria simbolizada pela bestialidade dos incêndios e a desolação das cinzas fumegantes.

Sinto vergonha.


quarta-feira, junho 08, 2016

Novos líderes

Donald Trump será candidato à presidência dos Estados Unidos da América.

No Perú assiste-se a uma luta acesa entre dois candidatos, sendo que Keiko Fujimori é filha do ex-ditador que se encontra a cumprir uma pena de prisão efectiva de 25 anos. Keiko poderá vir a ser eleita caso a diferença de 47 mil votos que a separa de Pedro Pablo Kuczynski venha a ser superada quando todos os votos forem contados.

Outra disputa eleitoral acesa aconteceu entre um representante da extrema-direita austríaca e um antigo elemento do Partido dos Verdes que acabou por ser eleito presidente com uma margem de diferença tão magrinha como aquela que separa a menina Fujimori do seu adversário. América e Europa, as posições políticas extremam-se, radicalizam-se e os povos dividem-se ao meio, irmãmente.

Nas Filipinas foi eleito Rodrigo Duterte, um político agressivo mais semelhante a um justiceiro de bairro que a um Presidente de República tal como o imaginamos na Europa. Mas, como imaginamos nós um Presidente?

No Brasil, Dilma Roussef foi impedida de continuar a presidir aos destinos da nação num processo que, aos olhos de um europeu, teve aspectos incompreensíveis, destapando uma lei que parece ter sido elaborada por um grupo de crianças a inventarem um jogo de faz-de-conta.

Donald Trump é candidato à presidência dos Estados Unidos da América.

A lista de acontecimentos perigosos para a Humanidade poderia continuar por aí fora. Se observarmos com atenção, os casos expostos têm qualquer de comum, há um traço grosseiro que os une. Personagens tresloucadas (ecos de Hitler? Ecos de Staline?) emergem do meio da merda como se fossem anjos anunciadores do Apocalipse.

São lideres eleitos através de campanhas televisivas emitidas entre um anúncio da McDonald's e outro da Coca-cola, eleitos entre um cagalhão e um arroto. São líderes eleitos não para construir algo (que não sejam muros) mas sim mandatados para destruirem alguma coisa.

Assistimos sentados ao fim da Democracia.




terça-feira, maio 31, 2016

Nojo

Já nem se nota. Morreram mais umas mãos cheias de pessoas afogadas no Mar Mediterrâneo mas os jornais já quase não ligam. As pessoas já quase não ligam. É uma fatalidade, uma nova lei da natureza. Que se há-de fazer?

A comunidade ocidental já se fartou de chorar por estes mortos. A comunidade europeia já mostrou que não está disposta a recebê-los vivos. Até é preferível que morram no caminho. Assim poupam-se à desilusão dos campos de refugiados improvisados, aos insultos xenófobos, à angústia de estarem tão perto do sonho e perceberem que, afinal, é apenas um outro pesadelo... enfim, resta-lhes a consolação de morrerem esperançados num futuro melhor.

Isto mete nojo.

segunda-feira, fevereiro 22, 2010

Medo da chuva


A Natureza não é para brincadeiras. Os últimos dias têm feito muitos corações bater mais depressa do que o esperado e outros parar definitivamente. É a chuva que cai com a força de mil demónios e bate no chão como um baterista maluco a desfazer os tambores. Cada vez que o céu se fecha e desaba sobre nós nas mais variadas formas; água, granizo, neve, dispara a imaginação dos mortais, a tentarem perceber onde pretendem os deuses chegar com tal loucura e exagero.

A Madeira está destroçada. A ilha parece feita de plástico barato e os desmandos urbanísticos das últimas décadas têm a sua quota parte de responsabilidade na tragédia que sobre ela se abateu. As pessoas estão desorientadas. Os crentes dividem-se entre os que se agarram ainda mais à sua fé e aqueles que começam a questionar a bondade dos que habitam para lá do chumbo cinzento das nuvens.

As imagens que nos chegam da ilha põem à prova a nossa capacidade de sequenciação da realidade. A terra faz-se mar e não há mar que se faça terra. A ilha parece coisa de um episódio de Perdidos. Morreu muita gente, há dezenas de mortos que são desaparecidos. Cá no "contenente" as pessoas andam com medo da chuva. Lá na ilha não posso sequer imaginar.