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quinta-feira, fevereiro 01, 2024

Trabalhar como Adão

    Tenho a sensação que há em Portugal uma ideia perversa relacionada com o trabalho. Entre nós, trabalhar está associado a sofrimento. Se não sofres com a actividade que desenvolves, então é porque aquilo que fazes não pode ser considerado na categoria de trabalho. Trabalho é sinónimo de sofrimento.

    Estará esta perversão relacionada com o mito da expulsão do Paraíso? Afinal de contas Adão foi condenado a sofrer para o resto dos seus dias, regando o solo com o suor do seu rosto num esforço infinito para sobreviver. Ninguém o mandou trincar o Fruto Proibido. 

    Assim, quem não sofre com o trabalho não é flor que se cheire por não honrar o desgraçado que serviu de semente à espécie que somos. O verdadeiro descendente de Adão é aquele que pena neste mundo como se penasse no Inferno.

sexta-feira, maio 27, 2022

Narciso ao fundo

    O mundo em que vivemos não me parece muito nosso amigo. São demasiadas as ocasiões em que fico com a sensação de que o mundo nos está a empurrar para o lado, a por-nos à beira do prato, como se fôssemos coisas intragáveis. E não é apenas o mundo inteiro, aquilo a que também chamamos planeta, é o mundo por nós construído para nele vivermos.

    Criamos leis, traçamos fronteiras, damos nomes específicos a espaços virtuais e dizemos que aquilo são nações. Plantamos um orgulho imbecil no peito cada indivíduo que regamos com discursos inflamados e histórias-de-ir-ao-cu, fazemo-los acreditar que a sua honra e a sua felicidade dependem do grau de entusiasmo com que entregam a sua alma à tal nação. O extraordinário é que a maioria das pessoas acredita nestas patranhas. E temos o mundo entornado.

    Gostamos de nos imaginar melhores do que somos. Narciso é que sabia! Ele compreendeu a essência das coisas todas ao olhar-se no espelho das águas. Acabou afogado na morbidez do seu desejo. Não acabamos todos? Não é esse o atroz destino da Humanidade?

quarta-feira, janeiro 26, 2022

Tocar como Midas

     O tão celebrado "toque de Midas" mostra bem a estupidez que reina sobre os nossos destinos. A maravilhosa capacidade de transformar em ouro tudo aquilo que a mão toque é, na verdade, uma tremenda maldição para quem a possua. O "toque de Midas" é uma sentença de morte para o seu portador e um risco terrível para quem dele se aproximar. Comer ouro não é possível, conviver com estátuas de ouro um infinito aborrecimento. O "toque de Midas" é um toque mortal.

    O próprio Midas implorou aos deuses que o livrassem daquela maldição mas a nossa sociedade continua a valorizar o dito toque. Somos burros? Sim, somos. Muito burros mesmo. Perante o brilho do ouro tendemos a ficar embrutecidos, a ganância devora-nos a razão. 

    A moral deste mito poderá estar relacionada com a voracidade infinita dos poderosos e a sua infinita capacidade para querer mais e nunca se darem por satisfeitos, mesmo que detenham uma fortuna impossível de quantificar. O mundo está cheio de reis Midas cujo toque transforma as vidas de milhões de pessoas em calvários de miséria.

    Midas não transforma em ouro tudo o que toca. Midas transforma tudo numa mistela de merda, dor e miséria. Este é o verdadeiro dom dos que tocam como Midas.

segunda-feira, dezembro 06, 2021

À beira-rio

     Todos os anos sinto algo diferente quando se aproxima o Natal. Desta vez estou a ser suavemente assaltado por uma espécie de nostalgia pela vida. Como? Nostalgia pela vida? Isso faz algum sentido!? Não sei, não me parece que faça grande sentido mas as coisas que sentimos não precisam de fazer sentido, pois não?

    Cheguei mesmo a consultar o dicionário. Nostalgia pela vida é, de facto, algo forçado, mais do campo da poesia que do espaço real, mais do campo da invenção que do verdadeiro. Mas a fronteira entre o real e o imaginado, entre o inventado e o verdadeiro, é, como no espaço geográfico, uma linha virtual, uma fria abstracção. As fronteiras não existem de facto.

    Este Natal não promete grandes coisas, talvez prometa pequenas coisas, não estou seguro. Aliás, este é um dos pequenos mistérios que me vão empoeirando o cérebro: à medida que o tempo passa sinto cada vez menos segurança em relação aos factos da vida, como se tudo fosse cada vez mais relativo e menos concreto. É o encurtamento inexorável do tempo de vida que produz esta liquefação do espaço? É a proximidade da morte que transforma o ar que respiro num imenso Estige? Apuro o olhar, fixo a neblina, parece-me ver uma mancha que avança na minha direcção. Será Caronte navegando a sua escura barca? Revolvo o fundo da algibeira e não encontro uma moeda que seja. Caronte vai ter que esperar.

quinta-feira, julho 11, 2019

Toque de Midas

É estranho. Quanto maior é a capacidade de difusão de informação menos claro se torna o "diálogo". Na verdade não é tão estranho assim. Estava a dramatizar. De que estávamos nós à espera? A verdade é que imaginámos que a Internet seria algo muito diferente daquilo que, na verdade, é.

Aconteceu algo vagamente semelhante com a televisão. À partida acreditou-se que se tornaria um veículo de difusão cultural mas depressa caímos na realidade e percebemos que é, preferencialmente, um difusor de lixo variado.

A nossa sociedade de consumo tem esta espécie de toque de Midas, transformando em merda tudo aquilo que toca. 

domingo, maio 13, 2018

Aparição

Hoje é dia de celebrar um milagre dos antigos.

Quantos anos faltarão até que a Virgem Maria se lembre de visitar o pessoal outra vez? Agora é que era! Com todos os telefones espertos que por aí andam não haveriam de faltar imagens em directo no Facebook nem selfies com a Senhora a brilhar levitando uns quantos palmos acima do chão.

Sim, sim, agora é que uma aparição havia de fazer autêntico furor! Convenhamos que os pastorinhos nos deixaram uma narrativa pouco eficaz. Coitadinhos.

A Virgem não teve sentido de oportunidade, faltou-lhe couching. Impõe-se uma aparição digna dos tempos que correm.

sexta-feira, abril 17, 2015

Hélder e Helder

Quem não cria arte facilmente mete o pezinho na poça manhosa do mito romântico do artista. O ser arrebatado, vestido de negro, vivendo no alto de uma torre de marfim rodeada por um fosso repleto de crocodilos metafísicos; um ser soturno, constantemente atormentado por grandiosas visões nas quais o mundo lhe é revelado tal qual ele é (insuportável visão para o mortal comum que o génio se vê obrigado a carregar qual besta albardada calcorreando os caminhos da eternidade); artista tristonho, cara fechada, cara pálida, lilases e brilhantes olheiras, a carne prestes a ser rasgada por ossos pontiagudos: assim é um artista que merece ser admirado! 

É este ser misterioso e pouco dado ao calor do contacto humano, este ser habitante das longas sombras que a solidão projecta sobre a aridez do mundo, este ser de nevoeiro feito, este monstro da sensibilidade inteligente, este génio inalcançável, que olhamos com uma expressão de contido espanto, é uma coisa mais ou menos com esta forma de assim que nos habituamos a imaginar ser “o” artista.

Um artista será tudo e isso e, precisamente, o oposto absoluto ou, mais concretamente, uma incerta mistura de ambos e mais um ou outro que não consigo agora imaginar como seja. Resumindo: um artista é uma pessoa tão vulgar como as outras e tão invulgar como as demais. É abusivo pretender que o artista se confunda com a sua obra e vice-versa. Pode acontecer mas não é uma constante obrigatória. Já os conheci chatos como o caraças com obras espantosas e excitantes; extremamente interessantes, de verbo fácil e conhecimento vasto com obras mais enfadonhas que a biqueira de um sapato; convencidos, arrebatados, modestos, altos, baixos, magros, de todos os sexos, alguns nem uma coisa nem outra, nem um pouco mais ou menos. As suas obras, por vezes a carinha chapada do autor, outras vezes surpresas absolutas (Nunca imaginaria que eras capaz de fazer uma cena como essa!).


Tal e qual os meus amigos que trabalham nas mais variadas profissões, que vivem as mais diferentes vidas. Uns sofrem, outros são felizes e estas condições são flutuantes. Nem todas as pessoas extraordinárias são artistas, nem todos os artistas são pessoas extraordinárias. Lá no fundo todos somos pessoas. É só isso. 

quarta-feira, dezembro 03, 2014

Húbris para que te quero!?

"Aquele a quem os deuses querem destruir, primeiro deixam-no louco." A frase de Eurípides é terrível mas revela-nos uma certa perspectiva da existência humana.

Quantas vezes não pensamos para nós próprios que o mundo está louco, querendo dizer que toda a gente que pisa este mundo é completamente louca? Talvez seja obra dos deuses.

Indo um pouco mais fundo; sabemos bem quem é responsável pela existência dos deuses. Logo não é de admirar que, sendo os criadores loucos, as criaturas o sejam igualmente. A tendência suicida da espécie humana terá também passado para os deuses?

Esta hipótese é inquietante. Talvez devêssemos pensar em retirar certos poderes às divindades que inventamos. 

quarta-feira, novembro 26, 2014

A doninha e a galinha

É complicado aceitar que não haja ninguém capaz de governar um país sem meter as mãos na merda. A rectidão e a honestidade são, cada vez mais, assuntos de fábula, coisas próprias de um tempo em que os animais falavam.

Como pode um homem honesto resistir às forças e tentações que lhe caem no colo mal senta o rabo na cadeira do poder? Como pode ele ignorar o canto insidioso das criaturas que pairam, sobrevoando nos ares, em volta da cabeça dos poderosos? Será necessária uma força de carácter apenas ao alcance de alguns heróis mitológicos.

Precisamos de um Ulisses ou de um Hércules para nos governar. Como podemos confiar numa doninha como Passos Coelho ou uma galinha como Paulo Portas?

terça-feira, novembro 04, 2014

Da estupidez

A arrogância pretensiosa de um ignorante é dos espectáculos mais irritantes que a Natureza inventou para nos distrair. Aquela segurança vazia, aquele olhar indolente, o meio sorriso escondido no canto da boca... ha, a estupidez!

O mais espantoso é a forma como os ignorantes são incapazes de pôr em causa a sua visão imbecil sobre o que quer que seja. Para um estúpido a estupidez funciona no lugar da inteligência. Uma pessoa inteligente consegue desconfiar do que lhe vai na alma, um estúpido ignorante vive soterrado em certezas.

A maioria das pessoas passa por uma fase na vida em que patinha perigosamente no pântano da estupidez. Ninguém nasce ensinado, à partida somos todos ignorantes.

Não é um espectáculo bonito de se ver, um adolescente burro como uma porta, seduzido pela imagem que faz de si próprio. A paixão por nós próprios é uma das mais temíveis armadilhas da existência humana.

Narciso sem Eco olha-se numa poça de lama.

segunda-feira, novembro 03, 2014

Midas

A passagem mais famosa do mito do rei Midas é aquela em que ele consegue de Dioniso o dom de transformar em ouro tudo aquilo em que toca. O pormenor de Midas ser pessoa de raciocínio lento, um estúpido, se não estivermos com rodeios, nem sempre é devidamente salientado.

Após se ter apercebido da enormidade do dom que obtivera, Midas beneficia da compreensão de Dioniso (teve sorte!) e a coisa resolve-se com um mero banho na nascente de um rio. Mas a tacanhez de espírito de Midas vai valer-lhe as célebres orelhas de burro, presente de um Apolo irritado.

O mito é daqueles bem conhecidos mas o que me impressiona é a burrice da personagem. Como se a concupiscência decorresse de uma notória incapacidade para compreender o mundo. Midas, estúpido como um calhau, é a imagem da ambição desumana. As orelhas de burro o símbolo da sua glória.