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segunda-feira, novembro 06, 2017

Bom tempo

O sol brilha, faz calor, a cidade vive mais um dia sossegado. Está bom tempo.

Chove a cântaros, as pessoas passam encolhidas debaixo dos guarda-chuva, os carros circulam com dificuldade. A cidade vive um dia difícil. Está mau tempo.

É assim que consideramos o estado meteorológico: sol é bom, chuva é mau. Nada mais estúpido do que esta apreciação egoísta e inconsciente.

Sem chuva não tarda a faltar água. Aliás, o país vive há anos em situação de seca mais ou menos severa, extrema em certas zonas do território. Apesar de ainda não sentirmos essa escassez nas torneiras das nossas casas, quem vive fora das cidades e precisa de água para a agricultura ou para satisfazer as necessidades dos animais que cria sente uma angústia crescente.

Fiz uma viagem até à Beira Alta. Depois de sair da A1, entrando pela IP3 dentro, comecei a ver os efeitos devastadores dos incêndios que assolaram o país, naqueles dias em que, na cidade, fez um tempo maravilhoso. Ali, no interior do país, foram dias infernais, dias de muito mau tempo.

Talvez devêssemos pensar um pouco mais quando classificamos o tempo que faz. Nos dias que correm, para que o tempo seja bom, estamos desesperadamente necessitados de chuva. Precisamos de muita chuva, imensa chuva, para que os próximos dias sejam esplendorosos. 

sábado, julho 29, 2017

Heroísmo

E se o problema dos incêndios descontrolados fosse potenciado por um excesso de voluntarismo heróico por parte de bombeiros nem sempre bem preparados para o combate? E se os nossos heróis fossem demasiado corajosos e pouco cerebrais?

Esta possibilidade é terrível. Levantá-la é uma atitude arriscada. Eu posso fazê-lo aqui pois a minha voz dificilmente chegará ao Céu, mas que essa hipótese tem fundamento, lá isso tem.

Temos muitos bombeiros voluntários, problemas na coordenação de acção de combate a incêndios e o país vai ardendo. E arde (percentualmente) mais que os outros países europeus. Somos o Inferno na Europa mas temos dificuldade em debater a proveniência do Diabo que preside a esta devastação. Porque arde mais Portugal do que arde Espanha, do que arde França, do que ardem todos os restantes?

Haverá alguém interessado em debater este "pormenor", para lá da questão das listas de nomes das vítimas, do populismo ou não populismo, do raio que os parta? Hércules, o maior de todos os heróis, foi empurrado para o heroísmo por razões sórdidas.

segunda-feira, junho 19, 2017

Terrível beleza

Sinto-me incomodado com a estilização da catástrofe. Imagens editadas num serviço noticioso mostram a estrada da morte no incêndio de Pedrógão em artísticos planos e graciosos movimentos de câmara. Uma música em fundo dramatiza ainda mais a peça (noticiosa?) e contribui para conferir ao cenário desolador uma esmagadora beleza. Como se fosse um filme, como se fosse uma obra de ficção.

Nestas ocasiões o coração confunde-se de tal modo com a razão que não percebemos muito bem as sensações que nos rolam na mente. Desligo a TV, tento não pensar no inferno. Mas isso é muito complicado. O calor sufocante que paira na rua e me entra em casa não permite que a abstracção seja eficaz.

A dor, o drama humano, a violência descontrolada das forças que a Natureza é capaz de convocar para nos reduzir à nossa insignificância, tudo isto, em conjunto, me confunde. Acho que vou regressar à leitura. Estou a ler, pela primeira vez, Moby Dick.

domingo, junho 18, 2017

Ter coragem

Ontem morreu tanta gente! Foi o inferno. Mais um, outro inferno, um novo inferno. Após o inferno na torre de apartamentos em Londres vimos o inferno nas florestas e estradas de Pedrógão. Dezenas de cadáveres carbonizados, centenas de famílias em pranto, milhares de pessoas aterrorizadas, milhões a lamentar no espaço virtual estas ocorrências.

Não podemos fazer nada. Vivemos o desespero da impotência, desesperamos com a percepção da fragilidade da vida. "Quando um gajo não tem sorte até os cães lhe mijam em cima". Quando um gajo não tem sorte arde como uma folha de papel. É terrível.

Que podemos fazer? Ter coragem. Penso que é a única coisa que nos resta: ter coragem e continuar a viver.

sexta-feira, abril 20, 2012

Purificação

Chega-nos a notícia de que um artista plástico que fundou e dirige um museu de arte contemporânea em Casoria, perto de Nápoles, começou a queimar obras de arte em sinal de protesto contra as políticas culturais do governo italiano.
Antoni Manfredi ameaça continuar a queimar obras, à razão de 3 por semana, caso a situação de míngua se mantenha. Parece coisa de sequestrador em conversações com a polícia que ameaça executar reféns caso as suas exigências não venham a ser atendidas. Ameaçador.

Segundo Manfredi, as obras acabarão por desaparecer de qualquer modo, votadas ao abandono pelas forças vivas do poder e dos poderosos. A fogueira apenas acelera o processo (e atrai a atenção dos mass media).

A notícia é um pouco mais complexa e tem outras variantes mas, o que me deixa a pensar nesta coisa, é a fogueira.

Porque queima Manfredi as obras? Qual o simbolismo de tal gesto? Podia rasgá-las com uma faca ou disparar sobre elas uma pistola metralhadora. Poderia enterrá-las (vivas) ou atirá-las a um poço, mas não: ele queima-as.

Quererá imitar os autos de fé, esses actos extremos de máxima purificação? A fogueira traz consigo algo de bárbaro e primitivo, a redução a cinzas não permite sonhar com qualquer tipo de regresso do objecto incinerado.

Manfredi está a enviar obras de arte para lá do esquecimento em sinal de protesto contra aquilo que ele considera um desrespeito para com a Arte: o esquecimento da governo italiano. Não consigo decidir qual o acto mais reprovável.

Talvez Manfredi esteja a pensar naqueles activistas que, desesperados, se imolam na praça pública, chamando a atenção para as injustiças que os atormentam. Foi assim que começou a Primavera Árabe.

Terá o fogo tanto poder que seja capaz de transformar um mundo de injustiças em revolução redentora? A Santa Inquisição parecia acreditar em algo semelhante.