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sexta-feira, março 14, 2014

Numeração humana

Os nazis tatuavam nos judeus que mastigaram em Auschwitz aqueles numerozinhos sinistros como factor de identificação. Uns no braço, outros no peito, estavam todos escritos para não haver confusões.

A nós tatuam-nos uma série de numerozinhos no cartão de cidadão: identificação fiscal, utente de saúde, segurança social e mais uns quantos, um pouco menos perceptíveis mas, decerto, individualizados.

Há também os números das contas bancárias (que alguns de nós tatuam na memória), além dos números dos cartões de débito ou de crédito que funcionam como aquelas tatuagens que saem como brinde nas guloseimas das crianças; aquelas que se "tatuam" com água e vão desaparecendo com o tempo.

Estamos todos escrevinhados, riscados e carimbados, identificados, numerados e chipados. Somos como pombos com anilha electrónica, não damos um passo que não possa vir a ser reconstituído no futuro caso seja necessário alguma autoridade saber onde fomos, por forma a poder decidir o que andámos a fazer.

Virá o dia em que todo e cada ser humano será chipado à nascença, um chip enfiado algures, num lugar de onde seja inamovível. Todos os números guardados bem fundo do ser, o sonho de qualquer sistema burocrático contemporâneo.

Estamos marcados para a vida e, decerto, um dia que nos enfiem num caixote e nos enterrem algures, haveremos de ter um numerozinho qualquer que nos identifique, individualize e permita saber com exactidão onde foram depositados os nossos restos mortais.

segunda-feira, maio 07, 2007

Bom tempo

Chiça penico, quanto mais brilha o sol mais negra é a sombra!

Afinal de que falamos nós quando falamos de "bom tempo"? É o tempo do solinho e das areias da praia, das mangas-curtas e dos óculos escuros? Quando vemos sol forte pela manhã já ganhámos o dia! É o bom tempo em todo o seu esplendor. Mesmo que as pessoas continuem a ser tratadas como montes de merda com 2 olhitos e que o trabalho seja visto como um mal a suportar e não se dê o mínimo valor ao esforço de quem o faz. Mesmo que os tiranetes de opereta se riam do alto das suas barrigas ou os cães vadios continuem a ganir e a rosnar pelos cantos da cidade, haja sol, temos bom tempo.

Ou será que o "bom tempo" verdadeiro é aquele que já passou, aquele de que só restam vagas recordações que nos fazem saudosistas e desconfiados perante o momento que estamos a viver? "No meu tempo é que era!" ouço dizer e, quando volto a cabeça para encarar o autor do desabafo, vejo sempre um velho a tentar puxar para mais perto os tais "bons velhos tempos".
Pois é, é aí que reside o pormenor que faz a diferença. Quando falamos no singular e dizemos "bom tempo", é do sol que falamos. No plural, "bons tempos", é do passado, de quando fomos felizes, mesmo que isso não seja bem verdade nem tão-pouco mentira, apenas uma ilusão polida e aprimorada pela distância do Tempo (esse aí, com "T" já mete mais respeito mas não quero pensar Nele agora).

Isto a propósito de estarem a passar-se coisas incómodas e injustas e nítidamente mal intencionadas a toda a hora e momento, mesmo à frente dos olhos de todos nós. Mas, como o sol está ali mesmo a dourar a caca, nós dizemos, resignados, que está um belíssimo dia e um sol glorioso. Não está nada.
Está a ser um dia de merda!