Todos sabemos quem é Edward Snowden. Perseguido pelo longo (mas torto) braço da justiça norte-americana, Snowden acabou por encontrar na Rússia um buraquito onde se esconder, pelo menos, durante um ano (ver aqui, por exemplo).
Como na Rússia nada se faz sem o consentimento de Putin, fica a sensação de que o desfecho deste episódio resulta da sua vontade de irritar um pouco o amigo americano. Quem vir no gesto deste ditador democrático (eu sei que isto é uma contradição) a concretização de uma qualquer visão altruísta provocada pelo amor à liberdade de expressão só pode estar a precisar de uma operação aos olhos e à mioleira. Com urgência.
A notícia de que o pintor russo Konstantin Altunin fugiu da Rússia a sete pés após ter exposto uma obra em que Putin e o seu alter ego Medved surgem em lingerie (ver aqui em português), lança uma luz clara sobre o buraco onde se esconde Snowden.
Com Putin não se brinca. Só ele pode brincar, os outros, quando muito, têm apenas direito a sorrir sorrisos bem amarelos. A obra de Altunin pode ter desrespeitado várias leis russas que defendem a imagem dos governantes e reprimem a apologia da homossexualidade. Por via das dúvidas o pintor achou que o melhor era mesmo por-se ao fresco.
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sexta-feira, agosto 30, 2013
quinta-feira, agosto 16, 2012
Merceeiros e bombistas
Dizem por aí que há menos crianças em Portugal logo é
natural que haja menos professores, menos escolas, menos investimento na
educação. Há quem queira reduzir o problema a uma questão de números. Regressa
o velho espírito merceeiro que caracterizou a política nacional durante o tempo
da Outra Senhora.
Quando Salazar governou não consta que houvesse falta de
crianças. Nesses tempos, que tantos de nós recordam com um suspiro saudosista,
havia muitas crianças. As aldeias do interior pululavam de vida, os portugueses
não necessitavam de incentivos governamentais para se reproduzirem.
Na época
dourada do fascismo saloio ter filhos era uma riqueza familiar. Mal pudessem
com a sachola, as crianças estavam aptas a entrar na idade adulta, cavando
terra, semeando miséria. Não faltavam crianças nem faltavam professores ou
escolas. O ditador sabia bem que a ignorância lhe facultava os cidadãos
necessários à implementação da sua visão socioeconómica. Vivemos 48 anos de
aposta contínua na pobreza, fosse pobreza material ou de espírito.
Depois da
Revolução acreditámos que o conhecimento e a educação seriam factores
determinantes para equilibrar uma sociedade que se pretendia democrática. A
Escola Pública passou a ser um direito e a qualidade do sistema educativo uma
paixão declarada por sucessivos ministros pouco dados a investir nas coisas do
amor. Com o passar dos anos começamos a compreender que nem a Escola Pública é
encarada como um direito por aqueles que nos governam, nem Portugal conseguiu
ultrapassar o estigma salazarista de gerações de crianças a quem sonegaram a
infância.
Ainda hoje a Educação é por muitos considerada mera ferramenta de
ascensão social. Não interessa o Saber ou o Conhecimento, interessa, isso sim,
o título de Doutor. Valoriza-se o “parecer”, dá-se muito pouca importância ao
“ser”. Os nossos governantes parecem inteligentes. Afinal de contas não são,
todos eles, doutores?
As medidas educativas que vão sendo largadas sobre a Escola
Pública têm o efeito de um bombardeamento da 2ª guerra mundial ordenado por um
general meio louco a quem faltasse também o mapa da zona a bombardear. Não se
vislumbra um plano, uma estratégia, um objectivo. Quando um dia as bombas se
esgotarem não vai haver pedra sobre pedra mas haverá sempre escolas privadas.
Podem estar descansados.
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