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quinta-feira, agosto 27, 2026

Tempo

    A tecnologia pode ser uma coisa muito irritante. Quando não responde automaticamente às ordens que lhe damos, a máquina parece exprimir uma vontade própria. Nós pedimos, a máquina não dá. A tendência natural é recorrermos ao insulto.

    Ainda sou do tempo em que uns murros no tampo da TV faziam com que o aparelho acalmasse e voltasse a funcionar de acordo com a vontade do utilizador ou um aperto mais num parafuso era capaz de fazer com que o gira-discos rodasse de novo e a música soasse agradável.

    Os computadores parecem menos caprichosos, a Inteligência Artificial dá-se ares de grande profissionalismo. Murros e aparafusadelas não  resultam com máquinas tão sofisticadas. Já nem sequer sinto vontade de insultar o bicho. Não sou deste tempo.

sexta-feira, agosto 21, 2026

Crashipumpáfe

    Andamos acagaçados, a verdade é essa. A IA mete medo, é um papão no telhado, não há quem durma descansado. Andávamos há coisa de muito tempo a tentar perceber como lidar com os escolhos da Revolução Industrial e, catrapunfas! Foi sem aviso nem nada, cai-nos em cima esta merduncha toda, uma catarata desgraçada, o futuro a chegar na forma de um TGV sem freio a entrar de rompante na gare das nossas vidas, zuuuuum, já fomos! Crash e pum, paf!!!

sexta-feira, agosto 07, 2026

Fankensteins

     No post anterior afirmei que "a inteligência nunca poderá ser artificial" e mantenho que disse. Ainda esta manhã pude reconsiderar os princípios que me levaram a tal conclusão observando a interacção entre uma senhora e as suas araras e apenas reforcei a minha convicção. 

    "Abro" um jornal online e leio sobre modelos de IA que ultrapassam as barreiras dos seus caixotes de areia e vão passear-se por aí sem supervisão humana, alarmando quem disso se apercebe. Eu fico alarmado e nem sequer percebo do que se está a falar. É que isto anda perto da história do Doutor Frankenstein, o monstro vai ganhando forma, construído com partes de cadáveres, não de humanos mas da sua inteligência. Isso eu percebo.

    Além do mais não se está a criar apenas um monstro desta categoria, estão a ser criados vários, há mesmo uma espécie de competição, a ver quem cria o mais perigoso. No dia em que os bestuntos se escaparem para o mundo virtual (vão escapar-se, isso é certinho) ficarão capazes de intervir no mundo real e então será o bom e o bonito. 

    Entretanto vou aproveitando a minha incapacidade para compreender o que aí vem. 

terça-feira, agosto 04, 2026

A inteligência nunca poderá ser artificial

    A inteligência nunca poderá ser artificial. Mais depressa estou disposto a considerar inteligente uma suricata do que um computador. A inteligência exige pele, exige sentidos (visão, tacto, paladar, etc), exige vida! Como podemos imaginar um amontoado de chips capaz de ser inteligente?

    A inteligência não se esgota nem se caracteriza pela capacidade de processar toneladas de informação em curtíssimos espaços de tempo. Isso é circo, é representação espectacular, não é vida. Sem vida não há inteligência, apenas simulação de inteligência.

    A inteligência nunca poderá ser artificial. Aquilo que as máquinas produzem é outra coisa. É coisa fria, dura, desumana. É sociopatia em potência. Mesmo que expliquemos a uma máquina com toda a minúcia o que significa Ser Humano ou Ser Vivo, ou Vida, a máquina nunca irá compreender aquilo que será capaz de processar. Aí reside o problema: a inteligência nunca poderá ser artificial.

quinta-feira, fevereiro 12, 2026

IA, man

     Não será pela Inteligência Artificial que os nossos estudantes vão perder o interesse pelo conhecimento. Estou convencido que o que vai tolhendo os jovens espíritos é o excesso de informação. O acesso permanente a fontes de informação (ou a sua possibilidade) funciona como um anestésico da curiosidade. A IA apenas sintetiza, mastiga e regurgita informação que recolhe e processa a uma velocidade diabólica, não é nada de extraordinário em termos de produção de conhecimento, o que é surpreendente (e eventualmente viciante) é a velocidade com que a operação é executada.

    O problema, quanto a mim, é que a curiosidade intelectual está abananada com tanta informação a cruzar os horizontes do conhecimento em linhas rectas que se autodesenham a uma velocidade estonteante, criando uma teia que vai obliterando as nuvens, cujas formas convidam ao sonho e à imaginação. Estou a perder-me em metáforas complicadas quando aquilo que quero dizer é de uma simplicidade absoluta: a IA sufoca a curiosidade intelectual e tende a estupidificar os seus utilizadores. Cabe aos professores e à escola a função de manter a curiosidade intelectual viva e actuante, procurando estratagemas capazes de convencer os jovens a não vegetalizarem. 

    Se a IA for um meio e não um fim, teremos à nossa disposição mais uma ferramenta poderosa capaz de potenciar as nossas capacidades intelectuais. Se nos entregarmos à IA sem espírito crítico e sem curiosidade seremos a breve trecho uma imenso batatal, pasto (ainda mais) fácil para qualquer glutão capitalista.

quarta-feira, janeiro 28, 2026

Contacto

     Os robots de Inteligência Artificial (ou "com" IA?) personificam (ahahahah) o burocrata perfeito. Ao burocrata de carne e osso ainda podemos tentar seduzir, podemos apelar a uma réstia de humanidade que possa animá-lo a espaços, enfim, imaginamos que aquela pessoa trombuda e aparentemente inacessível possa, apesar de tudo, ser uma pessoa. E tentamos a nossa sorte. Com um robot o caso muda de figura.

    O robot é, de facto, indiferente aos nossos esgares e aos nossos suspiros, é absolutamente insensível. Não tem nem compreende emoções, é estúpido e obstinado como só uma coisa pode ser: obstinado como uma pedra ou como uma porta ou como um martelo. Com um robot não temos a mínima hipótese: se ele decide banir-nos, estamos banidos, se ele decide que somos merecedores de castigo, estamos castigados. Nada a fazer.

    Quando ele nos responde com aparentes bons modos e correcção absoluta é preciso ver que está apenas a macaquear os bons modos e a correcção absoluta que absorve da informação que flutua na rede e que ele sintetiza em milionésimos de segundo: "bom dia" ou "obrigado" dito ou escrito por um robot tem a consistência de uma nuvem e a sinceridade de uma bosta de vaca.

domingo, julho 13, 2025

Ser ou não ser (inumano)

     Por vezes penso que a condição de Ser Humano não é automática entre os indivíduos da nossa espécie. Uns serão mais humanos do que outros. E, quando penso nisto, não sou capaz de aceitar a coisa sem lhe resistir. 

    Custa-me a crer que seja como no Triunfo dos Porcos. Mas parece-me inquestionável que há gente genuinamente má e o seu oposto. Parece-me também que os maus estão a ganhar a batalha contra os bons. Espero que seja apenas um desequilíbrio momentâneo.

    Os maus estão a aproveitar muito mais e muito melhor os equipamentos de inteligência artificial a seu favor. Os bons ainda se questionam e debatem com problemas e dilemas éticos. Bondade é fraqueza e lentidão. Os maus são mais decididos e actuam com outra objectividade. Para eles, ser um ciborgue não constitui problema de maior desde que isso os ajude a pulverizar os inimigos. Estamos fodidos.

quarta-feira, julho 12, 2023

A beleza da morte

     Hoje faleceu Milan Kundera.

    Impressiona-me a rapidez com que os meios de comunicação fazem o elogio fúnebre dos defuntos célebres. Ainda a alma não disparou em direcção ao céu e já os ecos da morte se misturam nos da vida, foram recolhidos testemunhos dos que privaram com o cadáver quando tinha dentro o sopro da vida, encontraram-se familiares que choram, amigos que suspiram, é espectacular! Tem de haver ali segredo.

    Pensando bem, nos tempos que correm, tempos de chatgpt, a coisa fica ainda mais aerodinâmica. Temos a possibilidade de pedir a uma máquina que nos recorde o valor e a grandeza da vida de pessoas especiais. E a máquina não se acanha. No seu estilo limpo (o correspondente escrito a uma voz de atendedor automático) a máquina explica-nos com rigor e transparência o que é ser-se humano e ter valor.

    Em tempo record.