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quarta-feira, abril 22, 2026

O bicho

     Não sei  bem se possa considerar como problema o facto de nunca ter ambicionado nada muito mais além do que aquilo que vejo, nada muito maior do que aquilo que possuo, não tenho a certeza de que a ausência de ambição possa ser classificada deficiência de carácter. 

    Há dias, como o dia de hoje, em que sinto um bicho cá dentro, encostado ao meu coração, a pressioná-lo, a aproximá-lo um pouco da garganta provocando uma leve falta de ar que me obriga a um suspiro. Profundo. Logo depois já me anda a esgravatar as circunvoluções da massa encefálica, procura alguma coisa que desconheço, é um bicho inconveniente, convocado vá-se lá saber por que forças abstrusas, animado por estranhos e secretos desígnios.

    O bicho faz-me desejar algo maior, algo mais grandioso, algo mais longínquo, o bicho desassossega-me. Ou se vai embora ou ainda transforma um dia que se previa calmo e rotineiro numa coisa angustiante, algum desejo megalómano a desabar vindo lá do alto dos meus sonhos. A cair, a cair, o precipício dentro de mim é infinito.

    Há dias, como o dia de hoje, em que gostaria de encontrar as bruxas que lixaram Macbeth. Ouvi-las, ansioso por saber se o escuro destino me reserva algo mais do que aquilo que sou capaz de imaginar. 

domingo, fevereiro 01, 2026

Um sonho

     Sempre te digo que se tivermos de morrer morremos. Mas se isso não chegar a ser necessário voto para que continuemos por aqui, mesmo que seja só a meter nojo. Não interessa. A verdade é que não me sinto preparado para grandes surpresas e nunca se sabe o que pode acontecer depois de estarmos mortos. 

    A minha esperança, se queres que seja sincero a 100%, é que não aconteça nada. Que um gajo pife e depois... silêncio. Silêncio infinito. Nada! Talvez seja o melhor mas, nunca se sabe, não é verdade? 

    Esta noite sonhei com os meus pais e fiquei com a sensação de ter estado com eles, efectivamente. Estive sentado entre eles, calcei umas meias vermelhas com antiderrapante à minha mãe. Que me lembre ela nunca teve nada semelhante. Talvez agora tenha uma meias assim, talvez hoje as tenha calçadas, talvez eu lhas tenha calçado de facto. Isto está a perturbar-me um pouco.

    Vou para de escrever. 

quinta-feira, janeiro 22, 2026

Sonhar que sonho

     A realidade parece capaz de abafar os sonhos que pretendo sonhar. Talvez os sonhos não sejam dóceis ao ponto de se deixarem sonhar quando assim o desejamos. Talvez a realidade seja, afinal, um sonho disfarçado de outra coisa. Talvez me sonhe a mim próprio. Posso ser uma anémona, um colibri ou outra merda qualquer e não ser capaz de perceber que sonhos posso ter por ser uma coisa dessas. Talvez eu não saiba o que sou, quanto mais saber quem sou!

    Um barquito de papel vai rua abaixo, levado no rio temporário que a tempestade gerou entre o asfalto e a berma do passeio. Não chegará ao fim do caminho. Ou porque se desfaz antes de lá chegar ou porque se lhe acaba o rio. Este barquito tem futuro curto.

quinta-feira, fevereiro 20, 2025

Sonhos

    Acabo de me aperceber que os sonhos não morrem, apenas deixam de ser sonhados. Mesmo que abandonados os sonhos lá permanecem, no espaço mágico onde eternamente se desenrolam, independentes daqueles que primeiro os sonharam.

    Há sonhos que são exclusivos do sonhador e outros que são sonhados por mais gente. Uns e outros feitos da mesma substância, prontos a entrar rompendo nossas noites sem aviso. Sonhos furiosos, sonhos lânguidos, fracos ou fortes sonhos, todos podem vir a ser nossos, assim aconteça que nos cruzemos nas imensidões do acaso de que é tecido a Existência.

    Os sonhos não morrem, esmorecem se deixados de sonhar. Mas não desaparecem! Os sonhos não se esfumam, pairam eternamente, esperando. Como animais esfomeados, esperam voltar a ser sonhados.

terça-feira, janeiro 21, 2025

Uma certeza (quase) absoluta

     O aspirador fazendo o seu trabalho substitui o som áspero que ouvias no Spotify; Jack White e a sua guitarra tão eléctrica. Procuras as ideias que se escondem de cada vez que voltas a cabeça da alma. São esquivas, as filhas-da-puta. Já se te mostraram claramente, à luz do que quer que seja que te ilumina o interior, lá, onde a tua vida paralela se desenrola dia após dia. Contas de outro rosário.

    Lá dentro costuma estar tudo silencioso. Não há aspiradores nem automóveis nem aviões a grunhir ao longe nas alturas. Lá dentro só tu és próximo de qualquer coisa que possas relacionar directamente com a realidade. Tudo o mais são ideias, sensações, coisas ainda não nomeadas. Assim, como aquelas ideias que ainda agora sentiste a deslizar lá ao fundo, sob o que poderia corresponder à entrada de uma gruta, à soleira de uma porta, lugar sombrio capaz de esconder tudo o que possa e o que não possa ser escondido. Ali a sombra é como tinta da China.

    O aspirador continua a trabalhar e tu desistes. Melhor, tu adias a busca das ideias furtivas, pequenos diabretes malvados. A ocasião há-de oferecer-se e tu vais deitar-lhes a mão. Tão certinho como seres quem és!

segunda-feira, setembro 09, 2024

Melodrama

     Procurava uma máscara que pudesse adaptar ao terror absoluto que lhe assaltava o sono. Todas as noites eram para ele lugares de tremenda insegurança. O sono vinha acompanhado de sonhos que eram, quase sempre, pesadelos. Ao acordar encharcado em suor sentia ténue alívio por adivinhar que se seguiria um dia inteiro a viver mais ou menos sossegado consoante se aproximava a noite. Na escuridão do seu modesto quarto  resistia como podia ao peso do sono que adivinhava outra vez tremendo. O cansaço acabava sempre por vencer. Fechados os olhos regressava o melodrama.

terça-feira, julho 09, 2024

Gravidade

     Por vezes dou por mim muito longe de mim próprio. Logo a seguir é como se acordasse subitamente de um vôo planante sobre o meu corpo e nele caísse vertiginosamente, por ele sugado como só o nosso corpo nos pode sugar quando, por momentos, o havíamos esquecido. Slurp! Estou de regresso.

    É difícil explicar por palavras estas coisas que parecem não acontecer mas que acontecem. É como quando estou a desenhar ou a pintar. Nessas ocasiões é bastante comum perder-me na floresta dos minutos. Entro na floresta e logo me deixo envolver pelo silêncio, pela frescura, pela doce escuridão do seu espaço. E pinto como se caminhasse, sonho como se escrevesse, divago como se alma e corpo fossem coisa única; ocasiões houve em que tive a sensação de sermos coisa universal, ínfima parte do Todo.

    A lista das maravilhas é mais extensa, sei que é, mas de momento estou incapaz de acrescentar mais o que quer que seja. A realidade é a força da gravidade do espírito.

segunda-feira, fevereiro 19, 2024

Ser como o cuco

     Reflectir sobre o tempo é uma actividade perfeitamente dispensável. Para quê matar neurónios a tentar compreender os segredos do tempo quando temos o relógio incrustado no interior da cabeça, no interior do peito, nas palmas das mãos e nas solas dos pés? 

    Transformamo-nos em relógios. Desde o dia em que nascemos até ao dia em que vamos a enterrar trabalhamos laboriosamente nesse sentido, o nosso sonho é virmos a ser mecanismos complexos e exactos. Se virmos bem, a cegonha não traz os bebés vinda de Paris mas sim de algures em território suíço. 

    Somos como os cucos: cúcú, cúcú! Deitamos a cabeça de fora a horas certas e fazemos um sorriso de circunstância. Avançamos e recuamos, ensaiamos uma rotina diária ordenada. Cúcú, cúcú. Havemos de nos transformar em algo que não nos dê o trabalho insano de pensar. Cúcú, cúcú.

    Os cucos insinuam-se, põem os seus ovos nos ninhos alheios e depois vão meter nojo para outro lado. Os cucos são como os fascistas e os fascistas são como os cucos. Os cucos põem ovos nos ninhos alheios, os fascistas põem mentiras nos cérebros alheios. Ovos de medo que, quando eclodem, trazem ao mundo o terror.

    Nunca pensei poder pensar o que acima escrevi. Ou ter-me-ei limitado a escrever estas palavras, de um modo mecânico, quase automático, numa atitude surrealista? As ideias que ficam expressas não eram minhas, andavam por aí a pairar e, quando escrevi o texto, desceram à Terra na única forma possível: esta. Exactamente esta!

    As ideias são como ovos de cuco...

sábado, maio 13, 2023

Ser quase nada

     Não sei se também te acontece, não sei se, por vezes, tens aquela incómoda sensação de que pouco mais és que o teu número de contribuinte (o célebre NIF), que a tua identidade é mais fiscal do que humana. Sabes bem que, mesmo depois de morto e enterrado, os que por cá ficarem e sejam ecos do que foste, vão continuar a debitar aquele número que te identifica, como se o tivesses tatuado na alma e ele continue por aí, a pairar como se fosse um fantasma, o que resta de ti.

    Não sei se também te acontece tremer um bocadinho quando pensas que além do NIF tens o número da Segurança Social, o do Sistema de Saúde, o da Carta de Condução, o do telefone, o da porta de casa e do Código Postal... e o teu nome? A tua pessoa? Há alguém dentro de ti?

    Não sei se também te acontece mas eu, tem dias que penso que sou uma ficção na cabeça de alguém que tem a paranóia dos números e por vezes sonho um pesadelo em que esse alguém muda de registo (transforma-se em poeta) e eu fico reduzido a quase nada. Ás vezes sonho este pesadelo em que não sou nada apesar de saber que sou alguém. E transpiro como se tivesse rios inteiros a rebentarem-me nas veias.

terça-feira, abril 18, 2023

Frustrações

     Não devo nada ao mundo real mas nunca viverei tempo suficiente para saldar a minha dívida com mundos que não existem. A cada dia que passa sinto o meu corpo a pedir com maior veemência que me deixe de merdas; a pedir que me deixe ir, que desligue, que seja sonho ou, pelo menos, que me deixe ser imaginado. A vontade de compreender o mundo a que chamamos real não encontra correspondência na minha capacidade de o fazer. Fico frustrado.

    A frustração é como uma pequena pessoa impertinente, inconveniente como um canito mimado que ladra a tudo o que passa e não deixa ninguém sossegado. Preferia deixar-me andar à boleia na barca de Caronte, acompanhá-lo de um lado para o outro levando corpos, cobrando óbulos, conversando com as almas hesitantes. Mas não posso pertencer simultaneamente a dois mundos que mal se tocam. É frustrante.

    Concluo que a vida me obriga a ferrar um calote valente, a não ter como pagar esta dívida difusa que apenas sei que vai crescendo. O que me vale é que o Sonho não cobra quando estou acordado e dos pesadelos resta o suor matinal: está pago? O que me vale é que o Absurdo se vai contentando com as coisas que desenho, que escrevo e com tudo aquilo que me passa pela cabeça e esqueço quase de imediato. 

    Na verdade (seja isso o que for), contas feitas, só posso dizer, como terá dito Picabia: não compreendes o que digo? Pois bem, eu compreendo ainda menos.

sexta-feira, fevereiro 18, 2022

Em fuga do jardim do Marajá

      Fugir da normalidade ou fugir em direcção a ela? Onde está a fronteira, não a vejo!? Vagas sensações semelhantes a recordações de sonhos assaltam-me o peito, enrolam-se-me no cérebro. Não sei se também te acontece, acordado leitor, estar por vezes assim, num momento em suspensão, nem cá nem lá, talvez nem mais nem menos. Não sei se também sentes esta semelhança entre o sono e a vigília, talvez mesmo entre a vida e a morte.

    Estes momentos têm uma duração tão curta, são de tal modo escorregadios, que não consigo nunca enquadrá-los devidamente. Não sou capaz de perceber se aquilo aconteceu num sonho, se foi facto ocorrido neste mundo, mas tenho a certeza que aconteceu. Aquilo aconteceu algures no tempo, em algum espaço.

    Fugir da normalidade ou fugir em direcção a ela? Porquê fugir? Sentir-me-ei acossado? Receio eu alguma coisa? Estas perguntas terão respostas adequadas mas, talvez, demasiado incómodas; evito procurá-las. Por vezes penso que quando desenho ou pinto, mesmo quando escrevo, estou a tentar fixar aqueles tais momentos indefinidos da melhor maneira que sou capaz de fazer. Raramente (nunca!?) consigo.

sexta-feira, outubro 29, 2021

Fome e sede

    Continuamos a necessitar de alguém que exija o impossível. Se ficarmos pela reivindicação daquilo que o mundo está disposto a oferecer-nos, se nos conformarmos a esperar a benevolência dos coiotes sociais, então estamos fritos, amigo leitor. Estamos fritos.

    Há muito que aprendi a pedir 1000 se espero obter 100 ou mesmo 10. Lutar pela mais tremenda das utopias é a única forma que temos de nos abeirarmos de um mínimo de justiça social. Ser modesto na exigência é coisa de católico alienado, é coisa de quem espera retribuição na outra vida, quem espera recompensa depois da morte. Eu estou vivo e interessado em viver o melhor que possa.

    Peço desculpa, Senhor, mas não acredito na bondade dos ricos, não acredito na magnanimidade dos poderosos. Acredito apenas na fome e na sede de justiça.

sexta-feira, março 12, 2021

Ingenuidade

Há uma certa esperança de que o futuro possa vir a ser melhor do que aquilo que designamos por passado. Essa esperança é o combustível dos sonhos, alimenta mil razões para que não desistamos de ser, que não desistamos de viver. Mas sabemos também que esse tal futuro alberga o dia e a hora da nossa morte. 

Assim, pode parecer paradoxal que ansiemos o tempo do nosso fim, esperando que, algures entre o momento que vivemos e aquele em que seremos coisa morta, haja um tempo de redenção, de concretização de projectos mais ou menos grandiosos que, de algum modo, haverão de nos satisfazer. Fosse a vida coisa eterna e a alegria de atingir um determinado objectivo de vida seria como explodir infinitamente no gozo de continuarmos a ser.

Como resolver esse paradoxo de querermos aproximar-nos do nosso fim enquanto perseguimos as quimeras que inventamos para preenchermos o tempo que vivemos? Continuo a tentar convencer-me que a vida que vivo só faz sentido se contribuir para a construção de uma Humanidade mais completa, mais capaz de conviver com o planeta e consigo própria numa lógica de liberdade individual plasmada no bem comum. Isto exige alguma ingenuidade, mas permite-me continuar a sonhar.

terça-feira, fevereiro 09, 2021

O mundo fede

Por vezes imagino um mundo sem catástrofes: borboletas, céu azul, prados imensos com ovelinhas tosando no remanso de um dia ameno e bem educado. Um mundo lindo: crianças sorridentes, os velhinhos todos com dentadura, um ou outro unicórnio e casas com ar condicionado.Um mundo limpo: baleias azuis, verdes e vermelhas nadando num mar límpido, sem continentes de dejectos plásticos, abelhinhas trabalhando sem parar, zzzz, zzzzzz, zzzzzzz.

Poderia continuar a efabular esse mundo de sonho mas acho que não vale a pena. Cada um pode acrescentar o parágrafo que mais lhe convier que a coisa só pode ficar mais e mais bonita até rebentar de tanta beleza.

Depois caio em mim, olho a TV; arrasta-se o noticiário. Coisa tão feia! Desgraça sobre desgraça. Mortes, desastres, vigarices. Não há notícia que se aproveite. O mundo fede.

segunda-feira, outubro 28, 2019

Batalha final

É um rumor, um som distante, uma batida, tum-tum-tum, uma batida que se aproxima, tum-tum-tum, cada vez mais próxima, marcial, uma batida que marca o presente, obstinada na marcação do futuro, tum-tum-tum...

Impossível ignorar esta marcha implacável. Os marchantes não se vislumbram ainda mas é com angústia (e talvez algum terror) que se adivinham. Já vejo a poeira que levantam erguendo-se acima da linha do horizonte, eles estão aí. Tum-tum-tum, são tambores guerreiros anunciadores dos exércitos que se aproximam.

Do lado contrário chega-me aos ouvidos um outro rumor, ban-ban-ban, outra batida, não menos marcial, se vai afirmando e se aproxima. Inexoravelmente. Ban-ban-ban, de um lado, tum-tum-tum do outro. Dois exércitos em marcha sincopada movimentam-se na direcção exacta do local onde me encontro.

Olho o pulso. O relógio está parado. É hora.

segunda-feira, outubro 07, 2019

Sonho de uma manhã de Outono

Será possível a um país sobreviver no mundo globalizado sem obedecer de forma canina às (pouco) subtis orientações economicistas que orientam  a generalidade das opções políticas e sociais tomadas pelos vários governos? Será possível organizar as nossas vidas tendo como foco central o ser-se humano? Talvez...

Não será fácil pensar nas pessoas e no meio ambiente antes de pensarmos no consumo ou pensarmos no consumo em função das pessoas e do meio ambiente. A relação directa entre consumismo e riqueza monetária é o cancro que corrói as nossas vidas e faz um inferno do espaço que habitamos. Temos uma tendência doentia para valorizarmos o enriquecimento sem olharmos às consequências por ele potenciadas.

Segundo o senso comum instalado é melhor possuir do que ser, impingem-nos essa perspectiva a toda a hora e nós acreditamos porque, quando funcionamos em manada, somos estúpidos. Se cada um de nós parar para pensar um pouco sobre aquilo que está a fazer, se cada um de nós compreender a compulsão que o impele a ser um destruidor e não um construtor, decerto ficará apreensivo com as conclusões a que chegou. Agarremos essa apreensão e façamos com ela uma ideia nova.

Uma ideia nova é algo completamente diferente.


domingo, junho 03, 2018

Pesadelo fôfo

Tudo treme. Abrem-se brechas enormes nas paredes. O telhado começa a ceder. Mas eu estou concentrado. Leio o meu livro, bebo o meu café, sinto os pés frios e isso preocupa-me. Não quero constipar-me.

Entretanto a casa desaba. Acabei de me levantar para ir buscar as pantufas.

sexta-feira, dezembro 08, 2017

Mundo profundo

Pensamentos disparados por um cupido velho cruzam o horizonte dominado por um batatal que ninguém se deu ao trabalho de colher. Estou sentado na carapaça de uma tartaruga inerte. Crianças brincam displicentemente com objectos que, vistos daqui, me parecem ossos esbranquiçados pelo uso. É um sonho que me esqueci de ter sonhado.

quarta-feira, junho 14, 2017

Um sonho

Esta noite tive um sonho de que me recordo. Sonhei que caminhava calmamente rua abaixo.  Era a rua em que moro mas não era, compreendes-me? Nunca te aconteceu sonhar que passeias num espaço que te é familiar mas onde não reconheces nada?

Mas, o que interessa para o caso, é que eu caminhava sem dor nem esforço nem muletas: nada! Durante o sonho isso era algo perfeitamente adequado (ia escrevendo "natural") e não me obrigou a pensar muito nos gestos vigorosos que o corpo me permitia executar.

Foi um sonho particularmente bizarro devido ao encontro inesperado com uma amiga que já não via há muito, muito tempo e que, num flash, desatou a cabecear um muro repetindo insistentemente a frase "sou boa pessoa". Espero que ela esteja a passar bem, cá fora, fora do mundo dos sonhos.

Entretanto acordei com o ruído vibrante do berbequim ou lá o que é aquela merda que os operários vêm utilizando na obra que decorre no andar de baixo. Acordei e apercebi-me que ainda não recuperei da lesão muscular que me mantém fechado em casa.

Aqui estou, sentado, perna esticada, enquanto tento fazer durar o tempo de escrever estas palavras. Um dia destes vou poder sair de novo e caminhar, calmamente, rua abaixo. Se encontrar a minha amiga...

sábado, setembro 03, 2016

Trindade

Um gajo enfia-se dentro da sua cabeça e encontra uns quantos macacos a divertirem-se, enquanto vão fingindo que lhe limpam o pó às ideias e as arrumam mais ou menos em prateleiras húmidas e moles. Um gajo fica espantado por encontrar tantos macaquinhos no sótão. É uma surpresa.

Um gajo desce as escadas que levam ao seu próprio pedestal. Desce-as com panache, um pé após o outro, a pose é triunfal, os degraus escorregadios. Não há ninguém a olhar, ninguém aplaude, ninguém está extasiado com  o espectáculo daquela brilhantíssima descida. Ninguém, a não ser o próprio. É uma tristeza.

Um gajo tenta evitar uma incómoda sensação de abandono. A solidão não quer deixá-lo sonhar com a glória que julga merecer mais do que qualquer outro ser vivo. Um gajo sorri ao espelho mas a imagem reflectida não lhe devolve os dentes amarelos. É a vida.

Surpresa, tristeza, vida: santíssima trindade de uma existência fantasmática, quase humana.