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terça-feira, junho 23, 2020

Discurso indirecto

Há gajos a quem se dá um bocadinho de corda e vão por aí fora: falam, falam, falam, principalmente se o tema forem eles próprios. Falam do que sabem e do que não sabem desde que isso lhes sirva para polirem um bocadinho mais a ponta do seu nariz. Há gajos deslumbrados consigo próprios. Emproados, vaidosos, convencidos de que há dentro deles um poço sem fundo prestes a ficar pleno de sabedoria. Mas, não o somos todos? Deslumbrados com a imagem que fazemos de nós próprios? Sábios incompreendidos? Sei que alguns têm baixa auto-estima mas esses são uma minoria. Serão? Espera aí, paciente leitor, que faço eu? Estou com a corda toda! E falo, falo, falo, pouco dizendo que se aproveite. Ainda por cima o tema não sou eu próprio... ou serei? Escrevo estas coisas para me convencer de que há algo de substancial no meu pensamento? Isto é o meu pensamento? Se não me ponho a pau dou tal polimento à ponta do meu nariz que ainda fico ofuscado pelo reflexo da luz a incidir sobre ele. Calo-me. Paro de escrever. O melhor será reflectir sobre o assunto. Calado.

domingo, junho 18, 2017

Ter coragem

Ontem morreu tanta gente! Foi o inferno. Mais um, outro inferno, um novo inferno. Após o inferno na torre de apartamentos em Londres vimos o inferno nas florestas e estradas de Pedrógão. Dezenas de cadáveres carbonizados, centenas de famílias em pranto, milhares de pessoas aterrorizadas, milhões a lamentar no espaço virtual estas ocorrências.

Não podemos fazer nada. Vivemos o desespero da impotência, desesperamos com a percepção da fragilidade da vida. "Quando um gajo não tem sorte até os cães lhe mijam em cima". Quando um gajo não tem sorte arde como uma folha de papel. É terrível.

Que podemos fazer? Ter coragem. Penso que é a única coisa que nos resta: ter coragem e continuar a viver.

sexta-feira, junho 09, 2017

Frágil

Como na canção de Jorge Palma, "sinto-me frágil". Ontem, ao atravessar uma rua movimentada, fiz um gesto qualquer, daqueles que não chegamos a perceber que fazemos e logo senti um músculo na barriga da perna a abrir-se como um folha de papel a ser rasgada. A dor foi forte e de imediato tive de me sentar. Ainda caminhei um pouco, coxeando muito mas tive de parar e procurar ajuda.

Uma ida ao hospital de Almada e uma consulta médica de urgência atiraram-me para aqui, para o sofá, com a perna esticada e apoiada na mesa, isto por um período nunca inferior a uma semana. Num momento um gajo está descontraído e confiante até à inconsciência de si próprio, no momento seguinte está incapacitado de se movimentar livremente e muito mais consciente do seu corpo do que  desejaria.

Ok, estás de férias, dirias tu, angelical leitor, numa tentativa de elevares o meu ânimo. O caraças, responderia eu, prefiro trabalhar que nem um cão mas manter a mobilidade e poder levantar-me e caminhar quando me apetecer sem necessitar de deitar mão a um par de muletas.

É quando ficamos assim, frágeis, que percebemos aquele desejo que normalmente é formulado pelos mais velhos quando nos dizem: "saúdinha!"