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quarta-feira, julho 06, 2022

Murmúrios

     Como aceitar a insignificância da vida que vivemos? Mesmo os maiores de entre os grandes, aqueles que têm carros de luxo e fotos nos jornais e milhões de seguidores no Instagram e vidas assombrosas, mesmo esses, cagam e mijam como nós e, no fim, morrem como todos. Poderemos alguma vez aceitar que a nossa vida vale tanto como a de um caracol?

    A Filosofia e a Religião, a Arte e, até, a Economia, tentam provar que a nossa vida é mais valiosa que a de um pardal ou a de uma suricata. E conseguem fazê-lo, provam que a vida humana é algo excepcional, uma coisa maravilhosa que só pode ter saído da imaginação insondável de Deus. Podemos almoçar sem remorso.

    Quando se trata de decidir sobre o usufruto do planeta somos juízes em causa própria e deliberamos sempre a nosso favor. A consequência deste sistema legal de ocupação da Terra é que a nossa espécie prolifera como uma doença incurável, carraças alapadas à crosta terrestre. 

    Começam a surgir vozes dissonantes, discursos ecologistas vão irrompendo aqui e ali mas, sejamos honestos, alguém lhes dá ouvidos?

quinta-feira, março 31, 2022

Sombria profecia

     A guerra faz com que tudo o mais se torne quase, quase irrelevante. Na sua voracidade, a besta da guerra, engole tudo o que encontra pelo caminho e mesmo as coisas que não lhe passam à frente apressam-se a precipitar-se-lhe na profundíssima garganta. A guerra tem na pança montanhas de ossadas e de coisas esquecidas.

    As questões ambientais serão das vítimas mais notáveis e menos notadas nos últimos tempos. Envolvidos em lutas encarniçadas e na habitual vertigem consumista (a inflacção ainda é apenas um fantasma em construção) parecemos esquecer-nos das juras de amor que vínhamos fazendo ao Planeta. Qual o significado e o impacto desta guerra descabelada relativamente à Natureza?

    Um dia que se faça o rescaldo da coisa (se esse dia chegar) haveremos de somar esta desgraça a todas as outras que temos vindo a acumular ao longo das últimas décadas. Talvez esse dia amanheça sobre um planeta de horizontes sombrios, ruínas infinitas e ventos inóspitos.

terça-feira, março 16, 2021

Casa nossa

O sol atrai as pessoas para o exterior das suas casas. O calorzinho de uma Primavera anunciada (a Primavera está quase quase aí) aconchega e faz o corpo relaxar. Assinamos um armistício com o Planeta apesar da pandemia. Juramos amor à Terra, prometemos que tudo faremos para a proteger... de nós próprios!?

Espera lá, ecologista leitor, quando juramos tudo fazer para tornar o Planeta sustentável estamos a ser suficientemente sinceros? Haverá nesta postura um pingo que seja de altruísmo? Quer-me parecer que é uma atitude algo interesseira. O Planeta interessa-nos enquanto espaço habitável para a espécie humana. Sim, é disso que se trata, fazer obras de manutenção na nossa casa por forma a garantirmos condições de habitabilidade por um período de tempo mais alargado.

Na verdade, se metermos a mão na consciência, a Terra estaria bem melhor se a espécie humana fosse menos preponderante, mais incapaz de interferir em tão larga escala com a saúde planetária. Se fosse o Planeta a nossa principal preocupação deveríamos de encarar a possibilidade de um honroso hara-kiri à Humanidade deixando a Natureza na paz do Senhor. Ou então, num extraordinário gesto de auto-reflexão, sermos capazes de prescindir de grande parte das nossas "conquistas civilizacionais", revertendo o modo de pensarmos a vida para níveis pré-industriais. Fauna e flora haveriam de agradecer. 

Como tudo isto nem utópico é, já sabemos, vamos continuar a alargar o sexto continente, o do plástico, a envenenar a atmosfera, a produzir gado numa escala incomportável, etc.e tal. Seja como for, o calorzinho está aí e a primavera irá proporcionar-nos a trégua habitual, iludindo por momentos os fantasmas que nos atormentam.

sexta-feira, setembro 27, 2019

O coração da Coisa

Começam a ouvir-se algumas vozes que admitem termos ultrapassado o ponto de não-retorno. Pessoas que falam alto nos media, que afirmam que não há volta a dar-lhe, que, apesar de estarmos a empurrar o nosso sistema de sociedade global em direcção ao abismo esse mesmo sistema permitiu reduzir (e muito) a pobreza. Apesar de aumentar as desigualdades, as diferenças entre ricos e pobres, apesar disso reduzimos muito a pobreza. Estamos de parabéns?

Estas pessoas compreendem a angústia, a fúria e o desvario dos que se revoltam contra a crescente poluição ambiental mas, dizem, e dizem-no alto, nos mass media, é impensável mudar o que quer que seja assim de um momento para o outro, sem provocar uma convulsão social e política de tal magnitude que o mundo, tal como o habitamos, acabasse por se devorar a si próprio. Não é bonito de ser visto mas tem de ser assim. Tem muita força.

Compreendo. Compreendo que os jovens se revoltem, compreendo que os tipos de meia-idade se acomodem e compreendo os velhos agarrados à saudade que têm da juventude perdida, parece-me que sou capaz de compreender esta malta toda. Ok, podem ficar tranquilos, todos têm razões suficientemente fortes, razões suficientemente válidas que justifiquem essas ideias que lhes estão a passar pela cabeça. Todos os seus actos são aceitáveis apesar de contraditórios. Vivemos numa sociedade livre... vivemos, não vivemos?

A reflexão fica por aqui, salto directo para a conclusão: estamos a trabalhar arduamente para a extinção, não da espécie humana mas do sistema capitalista enquanto paradigma sócio-económico. Enquanto a coisa foi mais ou menos localizada, mais ou menos parcial (a Coisa é a exploração capitalista, exploração dos seres vivos e dos recursos naturais com o fim absoluto do enriquecimento de uma casta de cabrões enxertados numa outra, de filhos da puta) o mundo apenas vacilou. A partir do momento em que a Coisa se globalizou, já fomos! Não há retrocesso nem , como dizem as tais vozes que referi lá mais atrás, volta a dar a isto sem que tudo acabe a ruir à nossa volta.

Assim, o melhor, é deixarmos andar, ir aproveitando enquanto pudermos viver como vivemos, os que vierem depois de nós é que se fodem.

segunda-feira, maio 13, 2019

Profecia óbvia

Li algures que estamos a viver tempos de uma militância sem esperança. Uma militância desesperada, portanto. Concordo.

A questão central prende-se com a constatação de que o crescimento económico, característico do sistema capitalista globalizado, consome tudo com uma voracidade inaudita e já teremos ultrapassado o ponto de não-retorno (começo a tornar-me repetitivo?). É simplesmente impossível imaginar que os nossos netos, para já não falar dos nossos filhos, possam viver numa sociedade semelhante a esta.

Aquilo que designamos por níveis de bem-estar são, em grande parte, resultado do consumo excessivo dos recursos planetários e, pior do que esse consumo, provocam níveis descontrolados de poluição. Poluição atmosférica, dos solos, das águas, poluição sonora, das mentes e, digo eu, da própria ideia de Humanidade.

Imaginámos que a Humanidade evoluiria em direcção a uma espécie de estado de semi-divindade. Não pensámos que poderia existir um ponto na curva evolutiva que marcasse o início da sua descida, o início do declínio. Talvez estejamos a viver próximos, muito próximos mesmo, desse ponto.

Com o declínio da Humanidade virão outros tipos de degradação em diferentes graus: social, civilizacional, "you name it". Os nossos descendentes passarão a viver em condições muito diferentes daquelas em que nasceram, eventualmente diferentes para pior... ou talvez não.

Como já disse em muitos posts neste 100 Cabeças: "a esperança é a última coisa a morrer", mas também morre.

segunda-feira, abril 29, 2019

Arrastando a asa

Quanto mais reflicto sobre as designadas questões ambientais pior vejo o futuro; e não o vejo nada luminoso, antes pelo contrário. A cada dia que passa tenho a sensação (sensação cada dia mais vincada ainda que no dia anterior, vincada até ser um sulco na minha mente, uma ruga profunda na esperança que me resta) de que nos afastamos do Ponto de Não-Retorno. A oportunidade de salvarmos a Humanidade de si própria já passou há tanto tempo que nem vale a pena procurá-la. Está perdida.

Esta sensação é já uma certeza.

O pior de tudo é que todos os dias convivo com dezenas, centenas de crianças que, como todas as crianças, têm aquela energia vital extraordinária, aquela maravilhosa capacidade de serem felizes como bichinhos selvagens. E eu tento acompanhá-los nessa corrida que fazem em direcção ao seu futuro, tento influenciá-los positivamente, fazê-los acreditar... em quê, exactamente? Que irão ter uma vida boa? Não gosto nada de mentir.

Ando para aqui a arrastar a asa.