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sexta-feira, maio 17, 2013

A Senhora

Cavaco e a sua Maria

Corria o ano de 2002 d.C. Nesses tempos longínquos em que alguns animais ainda falavam, era Paulo Portas ministro de Estado e da Defesa. Um petroleiro de nome "Prestige", sofreu um grave acidente provocando uma temível maré negra ao largo da costa portuguesa lá mais para as bandas do Norte. Durante alguns dias andámos com o credo na boca, se o crude desse à costa em território português... mas o petróleo derramado acabou por ir infernizar a vida aos nossos pobres irmãos galegos. As imagens que então nos chegaram eram dramáticas.

Paulo Portas acabou por confessar que acreditava que a salvação da costa portuguesa se devera a uma milagrosa intervenção de Nossa Senhora (recordar aqui). Esta perspectiva do nosso crónico governante mostrava a quem quisesse ver que Nossa Senhora, quando é preciso, tem tomates para lixar os galegos em benefício deste povo dócil que nós somos. É uma mulher de barba rija!

Veio-me esta fábula à memória quando vi na TV (confesso que com cara de parvo) o actual presidente de república em Portugal, o inefável Cavaco Silva, atribuir à mesmíssima Virgem o resultado favorável da 7ª avaliação da Troika às intenções dos nossos governantes actuais (ver e ouvir aqui).

Percebo agora que em situações de crise, com os governantes que o nosso povo elege, a solução que nos resta é encomendar a alma ao Criador ou a quem O represente, nem que seja por procuração. Valha-nos Nosso Senhor.

domingo, janeiro 06, 2013

O russo


Esta historieta rocambolesca da troca de nacionalidade tem feito correr mais tinta do que, se calhar, devia. Pessoalmente não sei se me espante. Na verdade nunca liguei muito a Depardieu, cuja principal qualidade sempre terá sido, a meu ver, o nariz torto e uma figura grotesca que ele equilibra com uma imagem afável. O tipo parece bonzinho.

Pelos vistos não é tão bonzinho como parece e, com um nariz daqueles, quando lhe sobe a mostarda perde a compostura.Trocar a cidadania francesa pela russa parece-me um pouco andar de cavalo para burro, mas o vil metal fala alto e cada um sabe de si.

A fazer fé numa notícia que acabei de ler num jornal desportivo online, ter-lhe-á sido oferecido o lugar de Ministro da Cultura de uma república russa, a Mordóvia. Isto é que é subir rápido na vida!

Nunca tinha ouvido falar da Mordóvia (o nome presta-se a jogos de palavras brincalhões) mas, pelos vistos, o lugar de Ministro da Cultura lá para aquelas bandas dispensa a necessidade de falar a língua local. Imagino que, tal como diz Depardieu, seja um sítio onde há uma democracia muito bonita.

Na verdade Gerard Depardieu sempre foi russo! Embora na imagem não se note, pois está caracterizado como Rasputine e, por isso, tem o cabelo escuro, o actor ex-francês tem o cabelo russo. Sempre teve.

quinta-feira, novembro 03, 2011

A Zaragata

 
A Europa precisa de uma narrativa comum que contribua para o despertar de uma consciência colectiva dos diferentes povos que a compõem. Uma narrativa épica que faça sentido e nos permita voltar a sonhar. Precisamos de qualquer coisa de utópico, uma narrativa plena de ideais humanistas que nos permita recuperar o orgulho de ser europeus. Precisamos de uma narrativa à maneira das narrativas religiosas, que elegem uma personagem central e a elevam à categoria de divindade, rodeada de uma série de proféticas personagens secundárias. Precisamos de uma narrativa como as dos inventores dos nacionalismos oitocentistas que foram remexer os baús de memórias populares; lendas, mitos e personagens maravilhosas, ressuscitando velhos heróis, maquilhando-os de modernidade para fundarem os nacionalismos que hoje enxameiam o espaço europeu e impedem o nascimento de uma consciência comum aos habitantes deste continente.

Cada povo adora os respectivos santinhos e crê na sua teia particular de acontecimentos milagrosos que lhes permite ter orgulho naquilo que putativamente são. Os impérios sempre assentaram tanto na força quanto na fé, na sua capacidade de oferecer uma ilusão aos que neles vivem. O que tem a União Europeia para nos oferecer? Qual o sonho comum a todos os europeus? Actualmente a União Europeia é pouco mais que uma teia de burocratas sustentados por uma comandita de usurários a que se dá o nome, um tanto enigmático, de “mercados”. Nos últimos tempos a União comunica com os cidadãos através de uma linguagem exclusivamente económica. A heroína desta narrativa confusa é a Economia, uma espécie de divindade volúvel, vingativa e insaciável, mais apropriada para assustar as criancinhas que não querem comer a sopa do que para inspirar sonhos de grandeza humanista. E nós, europeus, portamo-nos como crianças obedientes e um tanto imbecis. Para aqui andamos, feitos baratas tontas, a esquecer o significado da palavra solidariedade e os fundamentos básicos da Democracia, a trocar direitos por deveres que aqui há uns anos atrás nem sequer nos passava pela cabeça aceitar. 

Precisamos de um herói que nos inspire e faça renascer os nossos sonhos de grandeza. Precisamos de uma narrativa suficientemente global, que seja compreendida por todos os cidadãos, capaz de fazer que com ela nos identifiquemos. Mas, problema supremo: onde vamos nós desencantar essa personagem extraordinária? Que narrativa maravilhosa poderá unir os europeus em redor de um projecto civilizacional comum que tenha como base a Democracia e o Humanismo por fundamento? Após longa e aturada reflexão proponho que o herói seja Astérix. Tem a vantagem de ser uma personagem universal, apesar da sua origem gaulesa, compreensível para todos os escalões etários e há uma aventura desta personagem que poderá levar-nos a pensar sobre o que andamos para aqui a fazer, a tal narrativa luminosa e potencialmente unificadora. Falo de A Zaragata. Este livro genial dos geniais profetas Goscinny e Uderzo, deveria passar a ser leitura obrigatória para todas as crianças (e adultos) habitantes do território europeu. Impõe-se a vulgarização de uma hermenêutica de A Zaragata. Com urgência.

sexta-feira, janeiro 19, 2007

Crise


No seu texto de hoje no Público, Vasco Pulido Valente põe o dedo numa ferida que ando a lamber vai para bastante tempo. Reflecte acerca da "crise" que Portugal atravessa concluindo que a dita cuja não é mais que uma velhíssima tradição nacional. Concordo.
Realmente já muitas vezes tinha perguntado a mim próprio quando estiveramos num tempo que não fosse de "crise". Sim, porque para estarmos a "atravessar uma crise" isso implicaria um ponto de partida fora dela e outro ponto, de chegada, igualmente afastado da tormenta uma vez finda a travessia. Como aquelas personagens nos desenhos animados que se arrastam a suar as estopinhas ao longo de uma complicada travessia do deserto.
Pensando um pouco a nossa querida "crise" é, na verdade, um composto explosivo e altamente inflamável de uma série de "crises" mais pequenas e diferenciadas.
Ele é a crise económica (a que parece preocupar mais as cabeças pensantes), mais a crise da educação, a crise de valores, a crise cultural, a crise ecológica, enfim, tudo misturado e posto em repouso resulta na grande "crise", a mãe de todas as maleitas e dores de parto com que se dabate a nossa sociedade.
Ora isto parece-me mais feitio que defeito, verdadeiro modo de vida. Sem a "crise" não saberíamos o que fazer das nossas vidas. É a "crise" que nos faz lutar por um mundo melhor. Em última análise, a "crise" encerra o mistério último do sentido da vida e da existência humana.
Quando começou a "crise"? Quando terminará? Temo que nunca termine, que seja eterna.
Fui de súbito assaltado pela ideia de que a própria ideia, a essência de Deus (assim mesmo, com letra gorda) deriva da constatação da "crise". Deus seria simultaneamente representação do mal que nos ensombra a vida e da esperança (fé) em conseguir encontrar um modo de a ultrapassar. Até porque a saída da "crise" conduzirá decerto à porta do Paraíso. Sem "crise" estará tudo bem.
Deus queira!