Ama o próximo como se fosse o teu cão.
terça-feira, agosto 26, 2025
quarta-feira, março 05, 2025
Imprecação matinal
Havia de chegar um comboio caído do céu que atropelasse aquela cambada de filhos-de-uma-grande-puta que os pariu! Havia de existir um deus verdadeiro, um deus justo que existisse mesmo e lhes atirasse para cima uma doença, uma sarna peganhenta que lhes pusesse o corpo todo numa chaga e os obrigasse a andar pelos cantos a coçarem-se como cães sujos, Titanics de pulgas e carraças, o corpo todo aberto num sanguinolento sofrimento, que é o que eles merecem, grandes cabrões, vigaristas das dúzias! Havia de rebelar-se a Natureza e provocar-lhes mutações que mostrassem ao mundo o verdadeiro aspecto daqueles animais esbaforidos, daquelas bestas hediondas que trazem escondidas dentro: os focinhos, as dentuças, a baba malcheirosa a escorrer-lhes desde as beiças até transformar o chão que pisam em lama e pasto de minhocas.
Mas não, nada. Continuam vestidinhos nos seus fatinhos caros e gravatinhas de uma cor, penteadinhos (imagino que também perfumadinhos), como se nada de especial se passasse, como se estivessem apenas a cumprir a vontade de deus, do deus deles, um deus mesquinho e pastoso, uma coisa amorfa, pesadona e incómoda que ou se venera ou se é por ele devorado.
quinta-feira, novembro 21, 2024
Bom dia
Não deveria esquecer-me de que todos os dias podem começar como este começou. Começou com a leitura de uma das conferências de Borges publicadas em Sete Noites (esta versando a Divina Comédia). Não tanto pela imensa erudição que irradia das palavras escritas, não tanto pela beleza rítmica da forma (que mesmo na tradução para português não é perdida), não tanto pelo poço celestial do conteúdo: os dias deviam começar desta forma pois é leitura que me faz recordar o prazer que é estar vivo.
Dou por mim a pensar como seria agradável que após a hora da nossa morte pudéssemos continuar a ler; como seria agradável que o universo continuasse para lá da cortina dos sentidos, uma infindável biblioteca, como o terá sonhado Borges; dou por mim a pensar que o inferno decerto será semelhante ao silencioso deserto de ideias que imaginei ainda há pouco.
sábado, outubro 12, 2024
Dito repensado
Comeram-me a carne mas não hão-de roer-me os ossos. Os meus ossos, quem os rói sou eu!
segunda-feira, março 11, 2024
O bestunto
A ascensão da extrema-direita nas eleições legislativas de ontem deixou-me a pensar no modo como nascem os monstros. Nascem como todos os seres, aparentemente frágeis e desprotegidos até que ganham dentuça, garras nas patas e passam a cheirar mesmo mal. Ontem o fedor entrou-me de rompante pela janela entreaberta.
O mundo não acabou, apenas ficou ficou bastante mais feio e mais perigoso.
sábado, novembro 25, 2023
Qualidades indispensáveis
O segredo, dizem, é não sentir vergonha. Afirmar o necessário para o controle da narrativa do momento. Introduzir novos dados surpreendentes sem que o sangue inunde as faces do declarante. Ser capaz de sorrir quando se tem vontade de morder até as pedras da calçada. Ter nos inimigos amigos e vice-versa, conseguir que tudo pareça uma única coisa: a vontade de Deus!
Finalmente, ser Deus.
segunda-feira, julho 31, 2023
Tinham desaparecido
Saíram da porta entrando na rua. Vinham já a matraquear os queixos. Debitavam discurso de forma sincopada, como se fosse de todo inevitável que aquelas palavras fossem ditas, precisamente; ditas daquele modo. Como se as palavras tivessem sido já escritas pela mesma mão que regista no Livro o Destino de cada um e de todas as coisas.
Passaram por mim como se eu fosse espírito, coisa incorpórea ou invisível, como se fosse, pelo menos, tão discreto como papel amarrotado ou saco com merda de cão esquecido no passeio público. As palavras ganharam volume, máximo quando me passaram a rasar os ouvidos e foram perdendo nitidez com a distância, pela graça de Deus e das Leis da Física.
Continuei o meu caminho pensando, como nem sempre faço. Pensei que, quando acordamos e até que pomos os penates fora de casa, o esforço matinal será imaginarmos que a nossa vida é uma coisa interessante, que faz sentido. Pensei ainda que verbalizar essa imaginação ajuda a que se aproxime de fazer sentido, fortalecendo a possibilidade de sermos pessoas cuja vida é plena. Que isso faz de nós agentes importantes no tecido social; que esse tecido abrirá um buraquinho caso estejamos ausentes.
Voltei-me e já não vi as personagens falantes.
Terão elas ido mudar o mundo?
sábado, julho 08, 2023
Sabedoria
À interpretação do objecto artístico ajuda muito aquilo que sabemos mais o que vamos sabendo. A maior ajuda que nos pode dar a sabedoria é provocar-nos a imaginação, que mais não é que um certo tipo de conhecimento, meio selvagem, um animal que vive connosco mas difícil de domesticar. A sabedoria vive dentro de nós só que se esconde em grutas que ainda desconhecemos.
A obra de arte esconde dentro dela muitos segredos que são nossos.
Até ao dia.
quarta-feira, fevereiro 08, 2023
Sabedoria mais ou menos popular
Quando a esmola é grande o pobre desconfia, o rico pede mais. O pobre pensa que talvez não mereça tanto ou que alguém o pretenda enganar com tamanha generosidade; já o rico, ciente do seu brilho e da forma como funciona o direito divino, acha pouco o que lhe oferecem. Tudo o que possa ganhar e acumular será sempre pouco. É tudo uma questão de hábito.
sexta-feira, fevereiro 03, 2023
Da explicação do mundo aos mais jovens
A tinta encolhe-se na caneta. Tem frio. A caneta sente necessidade de raspar no papel mais do que desejava mas não há razão para que se sinta culpada. A vida dos objectos é assim mesmo, eles não foram criados por deus.
quinta-feira, janeiro 12, 2023
Visão abjecta
A Estupidez e a Ignorância passeiam sempre de mãos dadas. Quando encontram a Crueldade (nefastas ocasiões!) organizam orgias sangrentas.
quarta-feira, janeiro 04, 2023
Alegoria
Por vezes penso: a Caverna da alegoria platónica é a caverna do meu crânio. O gajo especado defronte à parede é o meu cérebro e as sombras projectadas são as imagens recebidas pela minha retina. E concluo: cada um de nós é, ele próprio, a Alegoria da Caverna.
sexta-feira, dezembro 23, 2022
Mundo maravilhoso
O mundo está tão cheio de coisas extraordinárias que é difícil perceber a reles ordinarice.
segunda-feira, fevereiro 28, 2022
Dos monstros
Os monstros não são apenas aqueles que te querem comer; os monstros são também aqueles que te desprezam mas te lambem com volúpia.
segunda-feira, janeiro 11, 2021
Viver
As portas voltam a fechar-se. Somos todos crianças que não compreendem bem as regras de convivência adequadas, fazemos asneira, somos castigados. Parece ser esta a nova ordem natural das coisas: crianças mal comportadas são confinadas. Não é brincadeira, é a vida que temos para viver a ser posta à prova e nós a a não sermos capazes de o fazer como imaginamos que gostaríamos.
domingo, abril 05, 2020
Isolado
Isolamento social não é novidade. Todos nós somos ilhéus sociais de longa data.
domingo, fevereiro 09, 2020
Paz de espírito
sexta-feira, outubro 04, 2019
A sombra
terça-feira, setembro 10, 2019
Ir indo
terça-feira, julho 30, 2019
Passeio na praia
Nesta conjuntura o pensamento espreguiça-se e vai andando mais à frente, por vezes atrasa-se, sinto-me uma espécie de autómato.
Foi então que reparei que tenho 56 anos e ainda não aprendi quase nada. Preciso de espaço para viver a minha vida mas não percebo muito bem como vivê-la. Haverá regras? Linhas gerais de orientação? Objectivos?
Sempre fui mais de fazer do que de reflectir, assim à maneira daqueles cowboys do velho Oeste, que disparavam primeiro e perguntavam depois. Vou deixando as coisas que faço, uma pista de bolinhas de miolo de pão; talvez um dia pretenda fazer o caminho de regresso.
Olho as gaivotas. Talvez elas comam as bolinhas e eu perca a noção do caminho de regresso. Não há volta a dar, resta-me avançar, ir fazendo, reflectindo... caminhei demasiado.
Quando fiz meia volta a minha atenção foi captada por outras coisas, outros pensamentos se formaram e esqueci tudo aquilo até que, sentado em frente ao teclado do computador escrevi isto.
É assim, a vida vai-se vivendo. Estou convencido de que é feita muito mais de esquecimentos que de recordações. Posso estar enganado. Na verdade nada disto interessa.