sexta-feira, maio 29, 2026

Perante a morte

     Um dia destes um gajo liga o jornal no telemóvel e lê: "Faleceu Anselm Kiefer..." ou "... Laurie Anderson faleceu ontem..." ou Mick Jagger, ou outro figurão qualquer da arte mais ou menos popular e pensamos... nada. Quando muito vem-nos à memória aquela pintura (!?) monumental, aquele tema extraordinário, aqueles saltos de gafanhoto (velho como as casas), mas o que pensamos nós? Pomos um "smiley" triste vertendo lagriminhas (um sadley?) no Facebook, escrevemos uma frase de merda, epitáfio pretensioso, mostramos o quanto ficámos combalidos com a recepção da notícia e... siga a marinha que tristezas não pagam dívidas. Somos muito assim, somos fogo de vista.

    Isto, partindo do princípio que iremos sobreviver a estas personagens que andam todas na casa dos oitentas e picos. Amanhã posso muito bem não ligar jornal nenhum, o meu telemóvel pode tornar-se um objecto inútil mais dia menos dia.

    A dor é intensa na razão directa da proximidade animal. Quero dizer, quando é alguém da família a coisa magoa à séria. Quando é um amigo chegado magoa um bocadinho. Quando morre um ídolo, sejamos sinceros, aquilo não chega bem a ser dor ou não chega a ser dor de forma nenhuma. Fico-me por aqui, evito ser malcriado ou, muito simplesmente, evito ser estúpido. Se é que ainda não fui.

quinta-feira, maio 28, 2026

É a felicidade uma coisa que se veja?

     A felicidade pode ser coisa que se veja, que se sinta, que se cheire, que se ouça, que possa saborear-se? A felicidade manifesta-se de algum modo que nos permita apreendê-la, medi-la, sopesá-la? Podemos ser mais ou menos felizes neste dia do que fomos num outro? Como podemos responder se não estamos sequer seguros de que o motivo da questão exista?

    Quando tento reflectir sobre a felicidade toda a reflexão me surge na forma de perguntas. Respostas, se as consigo verbalizar, são sempre conversas mais ou menos poéticas.

    Ontem fiz uma descoberta pouco extraordinária. Tive a sensação muito forte de que a felicidade é como são as fadas e as bruxas, que existem se acreditarmos nelas. No caso das fadas verbalizando a nossa crença (acredito em fadas, acredito em fadas, acredito em fadas), no caso das bruxas temendo-as embora admitindo que não existem mas tendo consciência plena de que as há. As há!

    Pensei ainda que as fadas são metáforas da felicidade. Convém que afirmemos alto e bom som que a felicidade existe (acredito na felicidade, acredito na felicidade, acredito na felicidade) caso contrário as bruxas ficam com caminhos abertos em direcção a este mundo que habitamos.

quarta-feira, maio 27, 2026

Estupefacção infinita

     A nossa relação com a Eternidade é do mais simples e puro pavor. Mesmo aqueles de entre nós que imaginam a Eternidade como algo potencialmente positivo, após alguma reflexão mais demorada encontram sempre motivos para ficar, no mínimo, apreensivos. Sendo nós essencialmente perecíveis como podemos encarar uma existência inesgotável?

    O Tempo está para lá da nossa capacidade de percepção. Alguém pode afirmar sinceramente ser capaz de compreender o Infinito? Alguém é capaz de imaginar algo que não seja contido por alguma coisa? O Universo em expansão dá cabo de mim.

segunda-feira, maio 25, 2026

Notas muito soltas

     A mera existência de uma coisa é o seu principal fundamento. Penso que o espelho seja um exemplo do que pretendo dizer. Ou um lápis, ou um automóvel, ou a lâmina de uma faca a brilhar numa noite de lua quase, quase cheia. Amanhã sairão os licantropos e a navalha, hoje ameaçadora, será absolutamente inofensiva.

    "A transformação de um homem num artista e, depois, do artista em arte." Um homem que muda para ser um outro homem, para vir a ser um objecto, um homem que dispersa a sua alma no mundo, ora perdido, ora por outros homens encontrado. Um homem pendurado na parede, erigido em torre de marfim, apontado às nuvens nas montanhas da Babilónia. Um homem que não quer ser a escultura que liberta do bloco de mármore mas não tem como evitá-lo.

    Por qualquer razão que me escapa, quando procuro imagens que ilustrem a sensação de felicidade surgem personagens de braços abertos, uma perna esticada e outra flectida ou com as duas pernas no ar elevadas num pinote. O fundo pode ser um céu muito azul ou uma espécie de pôr-do-sol (neste caso a figura resume-se a uma silhueta), a coisa varia muito pouco. E quando faço a pesquisa num motor de busca, mesmo variando a língua (experimentei português, ucraniano, persa, japonês, etc) o resultado é sempre semelhante. 

    

Fantasmas apaixonados por formosas fantasias

     Fantasmas apaixonados por formosas fantasias: esta frase parece o título de um episódio de um podcast dos Gato Fedorento mas não deixa de ter uma certa cadência musical, um ritmo que não sei especificar. Talvez pudesse contar sílabas e essas coisas que se fazem para se saber se um frase é isto ou, pelo contrário, se é aquilo, mas não sei como o fazer nem sei se alguma coisa do que escrevi faz algum sentido.

    Fantasmas apaixonados por formosas fantasias: terminei o post anterior com esta frase e, por gostar da forma como ela se desloca no meu cérebro, dei por mim a fazê-la título deste post. Muito bem, tenho um título mas não sei ao certo o que fazer com ele. Como tal, acabo a escrever isto.

    Fantasmas apaixonados por formosas fantasias: somos nós, os seres humanos. 

domingo, maio 24, 2026

Morel

     O que inventou Morel? Inventou uma maquineta tenebrosa, capaz de fritar a existência de todos (de tudo?) aqueles que ficassem ao alcance dos seus sensores e sistemas de registo. Na ânsia de preservar eternamente a felicidade proporcionada pela convivência entre pessoas que se amam (ou que, pelo menos, são unidas por sentimentos de amizade), Morel mumificou todos e cada um dos que elegeu para o acompanharem naquela aventura insensata.

    Morel pretendeu imitar o Criador mas deu-se mal. Aliás, bem vistas as coisas, o Criador também não se saiu lá muito bem. Somos nós o resultados dos Seus esforços criativos? Morel e Deus, um par de falhados.

    O narrador da novela de Bioy Casares está vivo? De certeza? Pode muito bem ser um fantasma, uma alma penada, alguém que deixou de existir e passou a pairar num Purgatório sem saída. Nem Paraíso nem Inferno, o narrador de Casares está para sempre esquecido, perdido no labirinto de incongruências construído por Morel, apaixonado por um reflexo, nutre sentimentos profundos por uma coisa que os não tem.

    Seremos nós, todos nós, como o narrador de A Invenção de Morel? Fantasmas apaixonados por formosas fantasias? 

sexta-feira, maio 22, 2026

Existir

     Existir é isso mesmo: é estar, ficar, permanecer. Existir é sinónimo de ser (tinha escrito um pequeno texto justificando esta minha opinião mas confirmei que estas palavras são, de facto, sinónimas, portanto é uma boa oportunidade para ficar calado a esse respeito).

    Existir é isso mesmo: ficar, estar, permanecer como as florestas, como as montanhas ou o céu que as envolve. Já os outros seres vivos (são as montanhas seres vivos ou nunca chegam a ultrapassar a categoria "divindade"?), os seres que têm capacidade de deslocação, os seres que hoje estão aqui e amanhã estão ali, esses, que não páram quietos, acabam por ter existências mais fugazes e menos completas. Consomem-se nas vitórias diárias que alcançam quando vencem a distância entre dois pontos cumprindo desse modo trajectos e destinos. Nascimento, vida e morte, locais diferentes, quase sempre.

    Uma floresta também morre (tal como os deuses, as florestas não são eternas) mas as razões que levam ao seu desaparecimento são de categoria diversa. Quando o cão morre acaba o universo para as pulgas que o parasitam? Não tenho bem a certeza mas, estou em crer, que as pulgas encontrarão solução adequada que lhes permita perdurar. Outro bicho.

    Existir é também imaginar, é também ser o que não se é. Ser potência, fantasma, possibilidade. O imaginado permanece. Enquanto habitar a mente humana Dom Quixote não morrerá nunca. Nem Ulisses, nem Jeová, nem o Snoopy. Poderão ser um dia substituídos mas permanecerão algures, num limbo qualquer, aguardando oportunidade de regresso. Existir também é isso.

quinta-feira, maio 21, 2026

Um desenho

     A felicidade é uma viagem. O importante não é tanto de onde vimos ou para onde vamos, o que importa, de facto, é o que nos vai acontecendo. Sabemos que vimos do ventre da nossa mãe e que vamos na direcção do imenso adeus e, em princípio, aspiramos à felicidade.

    Fazemos o trajecto como se fazem aqueles desenhos com uma só linha contínua, sem levantar o riscador da superfície de suporte. Marcamos no mapa da vida a forma da nossa felicidade. Quando algo de ruim acontece e nos vemos obrigados a suspender o gesto, a levantar o riscador da superfície onde riscamos a nossa felicidade, vivemos momentos de angústia, momentos de incerteza: ai Jesus, valha-me Nossa Senhora!

    É suposto que à medida que vamos vivendo sejamos capazes de um maior comprometimento com a felicidade que nos permita adquirir uma certa sageza, uma certa gravitas, tudo coisas associadas ao embranquecer das cabeleiras. Isso pode ou não acontecer e, eventualmente, influenciar a nossa forma de estar no mundo. Podemos tornar-nos animais perigosos ou nem por isso, depende do grau de loucura que o mundo nos vai injectando na alma.

    A felicidade é um desenho.

quarta-feira, maio 20, 2026

Made in China

     Um desenho em formato A3 isolado é uma coisa. Integrado numa muralha de 100 desenhos com o mesmo formato transforma-se noutra. Terá algo a ver com o indivíduo e a multidão, a árvore e a floresta e por aí fora?

    A percepção que as pessoas têm dos objectos artísticos é uma coisa extremamente variável, volúvel e escorregadia; plástica? É a plasticidade de significados a razão para designarmos certas artes como sendo plásticas? Ou tem a ver com a maleabilidade dos materiais aplicados?

    Seja como for tenho sempre a impressão de que a palavra "plástica", quando surge associada às artes, está relacionada com a reacção do plástico a uma fonte de calor. O derretimento, a alteração da forma conforme certas forças aplicadas de determinada maneira, o jogo com os materiais como o gato que joga com o cadáver do pardal ou do rato antes de os abocanhar, antes de os comer, antes de os transformar em algo que, mais do que seu, passa a fazer parte do seu corpo, energia vital. O que não for aproveitado há-de ser cagado.

    São plásticos os materiais, são plásticos os significados, é plástico o nosso corpo. Plástica a vida, plástico o mundo, enfim, tudo é plástico e o plástico tende a ser tudo. Um dia todo o Universo terá sido transmutado em plástico. Made in China.

terça-feira, maio 19, 2026

Julian Barnes

     Julian Barnes, Julian Barnes... o que dizer de Julian Barnes? Eu sei lá, tanta coisa pode ser dita que não faço a mínima ideia do que possa dizer. Afinal de contas é alguém que não conheço minimamente. Lá porque li dois ou três, ou meia dúzia de livros por ele escritos... a verdade é que não sei nada sobre ele. Claro que não. Não sei nadinha de nada.

    Julian Barnes é um escritor cujas obras me fazem sentir um pouquinho mais inteligente quando as leio, um pouquinho mais inteligente do que normalmente sou. Não será nada de extraordinário mas é tudo o que tenho a dizer a seu respeito, Julian Barnes. 

sexta-feira, maio 15, 2026

Selfie

     Estão sérios como carapaus no gelo da peixaria. Manipulam o telemóvel (inteligente, decerto) até o pendurarem num gesto que o deixa à altura do nariz, palmo e meio de distância e, de súbito, vindo do nada, um rasgão abre-lhes a tromba na horizontal. Dizem que é um sorriso mas não é. É uma mentira. É uma pose, um esgar.

    Os autorretratos com telemóvel (as selfies) implicam uma espécie de auto-consciência dolorosa. Cada um lá sabe o que lhe vai na alma quando segura o objecto com a finalidade de se registar. Clique. Já está. A sincronia é perfeita, no momento do clique abre-se o rasgão, expõe-se a ferida provocada pelo simulacro de felicidade. Como se precisássemos de mostrar a dentuça ao telemóvel, talvez para não o ofendermos; pedimos-lhe uma selfie, somos obrigados a colaborar. Aquele esgar é o pagamento exigido pela máquina.

    Uma selfie leva-nos a tomar atitudes mecânicas, aproxima-nos do telemóvel, fundimo-nos por um momento fugaz, humano e telemóvel irmanados num registo, uma memória, uma atitude salutar de partilha de inteligências.

quarta-feira, maio 13, 2026

O amor

     O amor é uma tisana, um placebo, um auxiliar, uma prótese da alma. Uma bengala.

terça-feira, maio 12, 2026

Fôssemos nós o que não somos

     Fôssemos nós como os cães, teríamos a ira do dono a recear . Fôssemos nós como os gatos,  teríamos apenas de recear a morte, caso dela tivéssemos alguma consciência. Fôssemos nós como os melros.

    Fôssemos nós como os pássaros, talvez o vôo fosse alegria completa; talvez sonhássemos ser como os mamíferos. Fôssemos nós como as lesmas. 

    Fôssemos nós como as árvores. Existir, contemplar o espaço em volta, o tempo todo dedicado ao pensamento. Fôssemos nós carvalhos, pinheiros, sobreiros, tivéssemos nós tanto tempo que não soubéssemos o que o tempo é. Fôssemos nós como a terra.

    Fôssemos nós como céu, como as nuvens, fôssemos nós espaço sideral.

    Deus não nos criou à Sua imagem e semelhança.

segunda-feira, maio 11, 2026

Rotina extraordinária

    A vida das personagens que habitam um filme, tomemos Blade Runner como exemplo, é uma metáfora da rotina total e absoluta. São vidas suspensas que se animam de cada vez que um espectador entra em contacto com elas. E repetem exactamente a mesma sequência de acontecimentos, no tempo exacto que tinham durado na anterior ocasião em que tudo aquilo voltou a acontecer. 

    Por muito extraordinária que tenha sido e continue a ser a vida de Roy Batty, ela repete-se sempre da mesma forma, sob a mesma luz, as mesmas frases grandiosas, o mesmo final melancólico. Entretanto Rutger Hauer faleceu mas Batty perdura. A personagem é aparentemente imortal.

    Blade Runner é uma rotina extraordinária. Uma narrativa é sempre uma suspensão à espera de uma alma que a contacte e reponha em movimento, todas as personagens são fantasmas, todos os espectadores (ou leitores, ou ouvintes, seja lá qual for o processo que permita o contacto entre alguém e alguma coisa) são animadores de coisas que hibernam.

domingo, maio 10, 2026

Dúvida existencial

     De vez em quando acontece. Vem de um lado ou do outro, é coisa disparada de tão perto que nem se percebe de onde vem e atinge-me mesmo, mesmo no meio da testa, pelo lado de dentro.

    Plóóóóóófe!

    O som produzido pelo impacto daquilo com o meu humor é assim, prolongado, indefinido, como se fossem caixotes de pão-de-ló a caírem lá ao fundo, num armazém acolchoado. 

    Talvez pluuuuuuuuf seja uma onomatopeia mais adequada.

    Aquilo bate e deixa-me meio perplexo, deprimido. Talvez por não perceber o que se passa. Talvez essa seja a razão para que tantos de nós tomem anti-depressivos de modo a conseguirem aguentar-se à bronca: não percebermos o que se passsssssa. Talveeeeeeez...

    

sábado, maio 09, 2026

Profecia

     Aparentemente estamos bem arranjados! Estamos fritos, não cozidos, fritos em azeite a ferver, temperados com malaguetas arrepiantes e umas rodelinhas de cebola para puxar ao sentimento, libertar a lágrima hesitante.

    Cada vez mais ouço opiniões de seres humanos que, como eu, perspectivam um fim próximo para a nossa espécie tal como ela se nos apresenta nos dias de hoje. Concordo quase sempre. Ouvi aqui há dias um (penso que era inglês ou seria cidadão dos EUA?) gajo qualquer a dizer exactamente aquilo que me parece, irá acontecer, uma profecia do caraças!

    Não será a nossa espécie que acaba mas sim esta civilização, este modelo de organização capitalista que enforma a sociedade global. Haverá sempre algumas bolsas de sobrevivência, pequenas comunidades agrárias que irão prevalecer, sementes de Humanidade. Decresceremos brutalmente em número mas ficaremos por aí, à espera que o tempo faça o seu trabalho e, tal como um vírus paciente, possamos voltar a declarar-nos a espécie dominante; até que, alguns séculos depois, a coisa dê outra vez para o torto.

    Quantas vezes terá isto acontecido na História do nosso planeta? Quando esta civilização colapsar restará dela alguma memória activa? Nunca o saberei. Nem tu, amigo leitor. O futuro a Deus pertence. 

quinta-feira, maio 07, 2026

Viajante intelectual

    As coisas raramente são aquilo que parecem. Mesmo uma pedra, até uma folha em branco. O mundo é uma metáfora do camaleão. E o camaleão, já se sabe, move-se lentamente e tem uma língua muito rápida. E pegajosa.

    Desejas estar só, logo surge uma turba animada e barulhenta para te fazer companhia. Desejas companhia... pois, está-se mesmo a ver. O Pateta! Sim, o Pateta é a verdadeira imagem, quero dizer, o mundo é uma metáfora do Pateta. Eventualmente do Super-Pateta. 

    Agora sim, fico satisfeito com o resultado da reflexão que me ocupou durante tantos anos. Finalmente consigo aproximar-me de uma conclusão, o meu pensamento faz sentido. Sou marxista, facção Groucho.

    Arrumo as ideias na maleta onde normalmente transporto o enfado e preparo-me para abandonar este lugar. Imagino-me um pateta camaleónico incapaz de concluir uma narrativa, incapaz de traçar uma linha de pensamento que conduza a algum local que não seja um súbito precipício. Arrumo também o espelho. A maleta continua leve. Decido seguir viagem.

quarta-feira, maio 06, 2026

Verdade e realidade

     A coisa aconteceu, foi o que se viu e tu estavas bem no meio da confusão. Assististe a tudo, soubeste porquê, estiveste envolvido. Veio-te ao nariz o perfume ácido da violência, o sangue a deslizar-te nas veias como se fosse lava, como se fosses vulcão. Não há cliché neste mundo que te possa incomodar, tens uma história e vais contá-la. Tu és o herói.

    A cena tem potencial, as pessoas interessam-se. Há um momento prévio que envolve vagas sugestões de sedução, um vislumbre de sexo é sempre um bom acelerador da curiosidade alheia. Depois entras tu: vinhas animado por uns copos valentes, disseste umas coisas brutalmente espirituosas; está lançada a narrativa .

    De cada vez que a contas, a história ganha consistência, faz mais sentido. É como se a passagem do tempo lhe conferisse credibilidade, como se lhe varresse o chão e limasse as arestas. As frases que não compreendeste, as coisas que não ouviste ou das quais nem sequer te apercebeste, ganham contornos definidos, são fixadas pela repetição, melhoradas pela arte da palavra. É como se tivesses pintado um quadro que retocas de cada vez que voltas a expô-lo, convencido de que as alterações o tornam melhor, mais nítido, mais verdadeiro!

    Agora percorres o país, promoves colóquios, és convidado para conferências. És a estrela do teu próprio filme. Aceitas convites com um misto de vaidade e enfado, recusas outros com alguma sobranceria, há um certo prazer em dizer "não". Sentes-te maior a cada novo dia. Os factos da tua história são coisas já tão longínquas que passaste a acreditar piamente na narrativa que fixaste e repetes até à náusea. É a mais pura de todas as verdades.

    Olhas a plateia e mais uma vez te apercebes de que a realidade é algo que não existe. Sorris, aclaras a garganta, verificas se o microfone está "on": "naquela noite desci a rua a cambalear..."

domingo, maio 03, 2026

Havemos de comer todas as pedras

    Uma a uma, irmanados em gloriosa jornada de luta entusiástica, havemos de comer todas as pedras.

    Assim mataremos a fome que muitos julgavam infinita. 

    Comidas as pedras pouco restará do planeta.

    Pouco restando do planeta não tardará que a dor e o sofrimento percam o fulgor que hoje têm.

    "Mas como, irmão, como será isso possível?" grita a multidão desorientada.

    Sem planeta não há Humanidade: eis a cruel e definitiva resposta.

    Sem Humanidade dor e sofrimento terão de expressar-se de outro modo.

    "Oxalá não tenham para tanto imaginação suficiente!", gritamos em uníssono. 

    Havemos de comer todas as pedras. - repete o sacerdote.

     

sábado, maio 02, 2026

Odiar ou amar?

     Um gajo começa a estar farto desta merda. O tempo passa e as condições de vida não ficam melhores, antes pelo contrário. As promessas feitas são tão evidentemente extravagantes que um gajo nem lhes liga. Deixar um mundo melhor para os que vierem depois de nós? Esqueçamos tal objectivo. A vida perde sentido.

    É tão fácil odiar. Quando odiamos alguém ou alguma coisa encontramos razões e motivos para alimentarmos o nosso ódio a cada passo que damos. É tão fácil. Já amar revela-se  algo bem mais difícil. Do mesmo modo, é tão fácil dizer mal do mundo, encontrar e apontar-lhe os evidentes defeitos, fazer o discurso azedo dos derrotados da vida. Difícil, difícil, é construir uma visão construtiva do que nos rodeia mesmo quando tudo para desfazer-se em merda. Muito sinceramente, não estou a ser capaz de o fazer.

    Não consigo odiar; o máximo que alcanço é o desprezo. Tenho dificuldades em amar quem não seja do meu círculo familiar mais estreito; o máximo que alcanço é um certo perfume de afeição. 

terça-feira, abril 28, 2026

Loucura

     Aproximou-se coxeando de uma forma impossível. As pernas muito largas, enfaixadas nos tornozelos, moviam-se pesadamente mal afastando do chão as solas dos sapatos. Não consigo explicar porquê, mas aquilo parecia resultado de laboriosa encenação. Ao mesmo tempo era absolutamente plausível que alguém com tal corpulência arrastasse os pés e coxeasse como aquela mulher fazia, ainda que um leve sorriso lhe surgisse e fugisse dos cantos da boca como se provocado por discretas descargas eléctricas.

    Aproximou-se e parou à distância de uma curta conversa. 

    "Tenho pessoas pequeninas dentro da cabeça que, vai-não-volta, me contam anedotas que não sou capaz de compreender." Disse isto de um fôlego sem despegar de mim uns olhos arregalados que não pestanejaram nunca, como se me estudasse atenta e alucinadamente. Sustentei a coisa o melhor que pude o que lhe permitiu abertura suficiente para concluir: "não compreendo as anedotas mas acho-lhes graça." Fiquei a olhá-la, os dois ali especados no meio do passeio, no meio da calçada, o sol ainda dócil por vir longe o meio-dia.

    Pensei em sair dali para fora, para longe do incómodo que aquela situação me provocava, pensei em afastar-me do que imaginei ser loucura absoluta. A mulher inclinava-se ligeiramente sobre o seu lado direito; talvez o manquejar não fosse mentiroso. Tenho uma imaginação capaz de me pregar certas partidas. Talvez ela compreendesse muito bem o que se passava dentro da minha cabeça. Talvez ela percebesse o que eu estava a pensar naquele preciso momento. Ou talvez não fosse nada disso o que a levou a declarar entre soluços: "quando choro, as minhas lágrimas vêm todas sujas de raiva."

    Virei costas e fui à minha vida. 

segunda-feira, abril 27, 2026

A Revolução da Primavera

     Passou mais um dia 25 de Abril e, mais uma vez, eu e a Ana fizemos a Avenida da Liberdade por ali abaixo. Participar no desfile, se bem que de forma muito discreta, faz parte das nossas vidas. É uma festa, uma coisa bonita e comovente. As pessoas sentem-se felizes, são milhares e milhares de pessoas felizes que exteriorizam sentimentos positivos. É mesmo bonito de ver e de viver.

    De manhã tinha assistido na TV ao discurso do André fascista na Assembleia da República. O contraste não poderia ser maior. O gajo é só fel e sentimentos retorcidos. Vontade de proibir, de impor regras porque sim e regras porque não. Quer ajustar contas que nem sequer são dele. Chega a meter dó, com o seu cravozito verde tricotado sabe-se lá por quem.

    O espírito de Abril, com o passar do tempo, é cada vez mais primaveril. A Revolução é como a Primavera.

quarta-feira, abril 22, 2026

O bicho

     Não sei  bem se possa considerar como problema o facto de nunca ter ambicionado nada muito mais além do que aquilo que vejo, nada muito maior do que aquilo que possuo, não tenho a certeza de que a ausência de ambição possa ser classificada deficiência de carácter. 

    Há dias, como o dia de hoje, em que sinto um bicho cá dentro, encostado ao meu coração, a pressioná-lo, a aproximá-lo um pouco da garganta provocando uma leve falta de ar que me obriga a um suspiro. Profundo. Logo depois já me anda a esgravatar as circunvoluções da massa encefálica, procura alguma coisa que desconheço, é um bicho inconveniente, convocado vá-se lá saber por que forças abstrusas, animado por estranhos e secretos desígnios.

    O bicho faz-me desejar algo maior, algo mais grandioso, algo mais longínquo, o bicho desassossega-me. Ou se vai embora ou ainda transforma um dia que se previa calmo e rotineiro numa coisa angustiante, algum desejo megalómano a desabar vindo lá do alto dos meus sonhos. A cair, a cair, o precipício dentro de mim é infinito.

    Há dias, como o dia de hoje, em que gostaria de encontrar as bruxas que lixaram Macbeth. Ouvi-las, ansioso por saber se o escuro destino me reserva algo mais do que aquilo que sou capaz de imaginar. 

terça-feira, abril 21, 2026

A guerra é a guerra

     A pressão é enorme, o escrutínio é constante, um gajo diz uma merda qualquer, deixa uma graçola imbecil numa rede social e... já foste! Um pacóvio tão pacóvio como ele repara na coisa e está feito ao bife. A partir de agora acabou-se-lhe a paz. É A GUERRA!

    Um gajo recebe mensagens parvas a toda a hora. Acorda indignado, toma doses cavalares de sarcasmo ao pequeno almoço e passa o resto da manhã a dar respostas manhosas enquanto continua a suportar saraivadas de comentários ácidos. Almoça e, durante a tarde, a coisa não amaina nem melhora. Tungas, tungas, tungas, aqueles camelos a baterem no ceguinho como se não houvesse amanhã! E depois chega a noite. Um gajo deitado na cama, as luzes apagadas, apenas iluminado pelo écrãzinho maravilhoso, pela janelinha aberta sobre o mundo virtual, esse lugar mágico onde tudo acontece. Responde, responde, responde.

    O sono acaba por vencer, o telemóvel fica sem bateria, a imaginação nunca foi muito abundante. Um fiozinho de baba escorre do canto da boca para a almofada. O mundo está em repouso, o guerreiro descansa. Amanhã será um outro dia, um dia muito parecido com aquilo que este foi, outra jornada intensa repleta de batalhas, lutas e escaramuças. A guerra é a guerra. Qual foi a razão que despoletou isto tudo? Um gajo já nem se lembra... e isso interessa?  

segunda-feira, abril 20, 2026

Estar frito

     Ao que consta, os EUA estão a um passinho de bebé de virem a declarar-se um Estado Cristão. Pois, tal como qualquer Estado Islâmico ou coisa que o valha. Uma coisa é sê-lo, outra parecê-lo e, agora, outra coisa ainda é declará-lo. A declaração oblitera por completo o parecer e confunde um pouco o ser. Seja lá como for, teremos mais um Estado que irá reclamar a vontade de Deus quando for necessário justificar os desmandos alucinados dos seus líderes (enviados a este mundo por Deus, obviamente).

    O facto de os EUA possuírem o maior arsenal nuclear do planeta fica ainda mais incómodo. Agora esse arsenal passa a estar à disposição do Deus que pôs Donald Trump a cumprir um plano qualquer que ninguém compreende. Escolher Trump diz muito a respeito desse Deus e não inspira a mínima confiança aos que ainda não tomaram o ácido da crendice fundamentalista. 

    Temo que o Deus de Trump não seja o mesmo que os iranianos adoram e tenha algumas diferenças em relação ao Deus de Israel. Se estes três deuses são o mesmo, há uma evidente falha de comunicação entre o Outro Mundo e este, que habitamos. Se, pelo contrário, forem três deuses diferentes capazes de disputar a atenção e as almas de todos os seres humanos, então estamos fritos.

    Pessoalmente, há muito que desconfio da existência de Deus (ou de deuses). Mas, no entanto, desejo ardentemente estar enganado e torço para que exista apenas um Deus e que uma Revelação aconteça, mais dia menos dia. E torço também que, a existir, o verdadeiro e único Deus não seja Jeová. Se é ele, estamos fritos. 

domingo, abril 19, 2026

Um dia destes vai chover

    Várias personagens aguardam maior definição. Duas estão sentadas, outra fica em pé e uma quarta encosta-se a uma das duas primeiras. Há ainda uma quinta personagem na penumbra de uma abertura que poderá ser uma porta. Aguardam, como disse, maior definição mas já se sabe mais ou menos o que fazem ali. Aparentemente não fazem nada mas é esse o aspecto de quem espera alguma coisa.

    As personagens estão calmas, não dão sinais de inquietude ou de impaciência. São, talvez, um pouco fatalistas. Elas não sabem o que vai na mente de cada uma das outras, podem apenas responder por si. Nem têm consciência de serem criações de um artista mais ou menos indiferente ao que elas são ou possam vir a ser. Ao artista interessa-lhe apenas que aquelas personagens ali estejam com arzinho de quem contempla o vazio e reflecte em conformidade.

    Um dia destes ainda vai chover merda. 

quinta-feira, abril 16, 2026

Circuito fechado

     Ler um texto escrito por um pensador francês traduzido para português quando as ideias que veicula são tudo menos ideias simples, pode revelar-se uma tarefa desopilante. Um gajo pode não estar a perceber muito bem aquilo que vai lendo, pode ter que voltar atrás uma e outra vez, reler, parar um pouco, pensar melhor e perceber um bocadinho. Ou pode abstrair-se enquanto vai decifrando as palavras e dar por si a não ler, lendo. As palavras entram pelos olhos mas parecem apenas deslizar quando chegam ao cérebro. Ficam para ali  tentando marchar meio esquecidas.

    E pronto, parar a leitura e escrever um texto no qual tentas explicar o que te aconteceu aqui há uns minutos atrás pode ser uma boa forma de recuperares uma certa vitalidade que ias perdendo com o livro entre as mãos. É o que faço, o que fiz, o que lês e, daqui a nada, o que leste. Dou por mim a pensar que o passado não tem fim (título do último desenho que fiz). E assim fecho o circuito. 

domingo, abril 12, 2026

Invejoso

     Ontem tive outra vez aquela sensação um pouco azeda de não ter reconhecimento merecido pela arte que produzo. É uma espécie de despeito, quase desprezo pelo "sistema", pelo mundo da arte, pelo mundo todo, porque eu sou genial e ninguém parece reparar. Deixam-me aqui na beira da estrada a fazer figura de urso, a pedir boleia a manadas de elefantes, a aviões que passam lá no alto, deixam-me aqui a imaginar que sou coisas que não sou. E porquê? Porque a necessidade de ser relevante é um ferrão que se nos espeta no cérebro e nos deixa a sofrer a vida toda, provoca uma dor que só é atenuada com atenção e elogios. Nunca ultrapassamos a primeira infância, somos eternamente aquele bebé a quem as tias apertam a bochechinha enquanto dizem: coisa mailinda! É aí que nasce a nossa necessidade insaciável de atenção e carinho que depois não pára de crescer ao longo das nossas vidas.

    Ontem lá tive de resistir mais uma vez àquela sensação um tanto incomodativa que vem agarrada à vaidade e se transforma em inveja, uma inveja difusa e não direccionada, uma inveja injusta, como toda a inveja é. Lá tive de racionalizar as coisas, limpar-lhes o pó, abaná-las um pouco, voltar a colocá-las no devido lugar. E lá recordei aquela frase que escrevi já várias vezes por aí, algures no 100 Cabeças: eu sei que não existo mas, no entanto, estou aqui. 

sexta-feira, abril 10, 2026

Casa

     Primeiro foi a minha Mãe. Depois faleceu o meu Pai. A partir daí deixei de ter Casa. Apercebo-me agora de que os meus avós também entravam na minha concepção de ter uma casa própria, um lugar de abrigo onde o amor era incondicional e nunca posto em questão. Por vezes cai uma certa nostalgia como se neve fosse. O falecimento daqueles que amamos não reduz o amor que transportamos no peito mas este tende a diluir-se no espaço-tempo. 

    Agora tento preservar esse amor construindo uma Casa para a minha mulher e a minha filha. Deus me dê alento. 

segunda-feira, abril 06, 2026

Senhor Calmante

     "Não faz mal, não se passa nada, afinal não é assim tão importante". A mão esquerda treme-lhe como se tivesse alguma doença degenerativa mas é tudo nervos. Nem mais, nem menos, sé nervoso miudinho, daquele que nem deixa mazelas no sistema nem nada. "Não faz mal, não é assim tão importante". Afinal de contas o que pode significar mais uma morte no meio de tantas mortes que todos os dias nos anunciam, com aparente satisfação, nos diferentes canais de TV? Nada! "Nadinha de nada", digo-lhe eu ao ouvido com a voz mais aveludada com que sou capaz de atapetar a garganta. "Vais ver que ninguém dá por nada."

    Sou assim mesmo: um gajo fixe e muito cool. É por isso que me chamam tantas vezes quando se trata de acalmar alguém que esteja à beira de cagar o esqueleto. Na maior parte das situações já não há nada a fazer e, por isso mesmo, é mais ou menos pacífico dar a volta ao culpado no sentido de lhe mostrar um lado mais luminoso da questão. Uma perspectiva mais optimista, um vislumbre do que poderia ser o mundo se ele não tivesse feito merda da grossa. Como era este o caso. Grande merdalhona!

    Envolvo-lhe os ombros num abraço caloroso, um abraço que aprendi com o meu pai e pratiquei afincadamente com o meu irmão, a minha mulher e a minha filha; um abraço fixe como o caraças! Isso deixa-o um pouco mais descontraído. O que é bom. A merda está feita, só falta limpá-la para debaixo do tapete. Com a mão livre seguro a minha ponta-e-mola favorita, uma navalha que o meu velho comprou em terras de Espanha quando por lá andou a contrabandear boas vontades. É uma navalha elegante; leve, esguia e consistente.

    Em menos de um daqueles piscar-de-olhos está o problema resolvido. 

domingo, abril 05, 2026

Bosch é bom

     Não se compreende, porque o verbo "compreender" não é o adequado quando contemplamos um tríptico de Bosch. Como poderíamos compreender algo tão complexo, tão anguloso, tão abstruso, tão repentino na forma como muda de direcção e se desvia da parede sobre a qual se lançou em vertiginosa velocidade no derradeiro e precioso momento? Deixarmo-nos esborrachar de encontro ao muro de complexos significados formado pelo quadro também é uma opção a ter em conta. E não será menos agradável que qualquer outra que possamos tomar.

    Não se compreende porque vivemos no século XXI, porque temos artefactos electrónicos e nos basta accionar um interruptor para que se faça luz a qualquer hora do dia. Não se compreende porque em vez de burros montamos automóveis e no lugar dos sonhos que eram sonhados olhando o céu temos agora aviões a jacto cortando a imensidão em fatias.

    Não se compreende porque o nosso Deus veste fato e gravata e foi transformado em burocrata. 

sexta-feira, abril 03, 2026

A traição das palavras

    Há quem diga que a piada de "A Traição das Imagens" reside no facto de não ser bem uma piada. Que Magritte queria vincar com nitidez a diferença entre um objecto e a sua representação, que um cachimbo serve para fumar e aquele, na pintura, nunca poderia servir para cumprir uma tal função. 

    Também acontece que, por vezes, aquilo que escrevemos vem inquinado por aquilo em que acreditamos ainda que o mundo aconselhasse menos vinagre nas ideias. E quando não temos nada de substancial para dizer podemos sempre remoer uma tolice qualquer nem que seja só para irritar os burgueses. Lá no fundo, todo o texto é uma espécie de "Traição das Palavras".

    Certas leituras, de Filosofia em particular, tornam-se, para mim, impenetráveis. Por vezes vislumbro a ideia, quase sou capaz de captar o conceito, logo tudo se me enrola e cola à sola dos sapatos do pensamento e aí vou eu, a penca veloz e deireitinha ao asfalto da estrada onde passam camiões carregados de sabedoria e autocarros repletos de eloquência fornecida em pequenas doses com duas patas, veículos característicos e imprescindíveis à definição de um certo ambiente intelectual.

    Se as imagens são traidoras, então as palavras, convenhamos, não merecem a mínima confiança. 

terça-feira, março 31, 2026

Ter dono

     A mão pousou sobre a cabeça despenteada do animal. 

    Sentiu o peso da manápula, curvou-se um pouco mais, a língua quase, quase a lamber o chão. A tijoleira. Deixou que o olhar lhe caísse, que lhe escorresse dos olhos para a cor alaranjada da tijoleira e ali ficasse, a alastrar com lentidão como se fosse água derramada, um olhar vazio e inexpressivo como é sempre o olhar dos condenados ou dos doentes de alzheimer. Não se atrevia a levantar os olhos, a encarar o dono daquela mão opressiva e ameaçadora.

    A mão  afagou-lhe a cabeça mas aquela carícia era como um soco. Era uma carícia que apenas exprimia a superioridade de quem a praticava, como acontece com as senhoras caridosas e os mendigos à porta da igreja. O animal não tinha ânimo sequer para odiar, sentia-se derrotado, incapaz de morder, incapaz de fugir, incapaz de ficar. Naquele momento, a morte seria por ele abençoada. E deitou o queixo no chão, a tijoleira era agora como uma planície, o degrau que marcava o início das escadas a linha do horizonte.

    A mão, privada do apoio oferecido pela cabeça do animal, ficou pendente, pensativa, oscilando entre cá e lá. 

    A mão.

sábado, março 28, 2026

Outra espera

     Todas as pessoas andam à procura de uma situação à qual se possam ajustar, um lugar, um grupo, um sonho, e vão fazer tudo o que lhes for possível e lhes parecer necessário para alcançarem os seus objectivos (a rapariga que vai pondo rímel nas pestanas sentada no banco da carruagem do Metro).

    Pequenas situações permitem complexas reflexões - as personagens ora observam, ora encarnam e se tornam pessoas de verdade (embora sejam falsas). Observam, descrevem, participam, mas não podem tomar decisões que alterem o rumo dos acontecimentos. Só "ele" pode tomar essas decisões mas "ele" está ausente e as personagens aguardam pacientemente que "ele" se digne a aparecer.

    "Ele" não veio, não vem, o mais certo é que nunca venha a comparecer naquele espaço iluminado. 

quinta-feira, março 26, 2026

Borges

    Uma história é contada e abre espaço a uma reflexão. Essa reflexão leva a uma outra história que por sua vez permite imaginar o que aconteceria caso a história anterior não tivesse aquele desfecho; se as coisas não tivessem assim acontecido o mundo seria muito diferente e o espectador seria outra pessoa, não a pessoa que imagina ser e está sentada aí, no seu preciso lugar.

    Estas histórias tão diversas formam uma narrativa única, mais ampla. São como espelhos que são como labirintos que são como uma imensa biblioteca frequentada por um único leitor. Um cego que se desloca com a ajuda da sua bengala. 

    A biblioteca é o mundo e todas as pessoas são personagens ficcionadas, são fantasmas, produtos de uma imaginação infinita. A vida de cada fantasma é um volume guardado na prateleira que lhe foi destinada e tudo está maravilhosamente organizado. Desde o início dos tempos até ao longínquo dia do esquecimento absoluto.

quarta-feira, março 25, 2026

Já foste!

     Já alguma vez tiveste a sensação de que pensaste uma coisa que decerto mais ninguém havia jamais imaginado? Já alguma vez tiveste o peito tão cheio de não-sei-quê que até parecia que eras a materialização da felicidade absoluta? Já alguma vez olhaste para algo que acabaste de fazer, algo que trouxeste de um outro mundo até este, e pensaste que era uma coisa mesmo muito muito fixe que merecia ser admirada, analisada e colocada no pedestal onde se acotovelam as obras-primas da Humanidade inteira? Já alguma vez sentiste de repente um arrepio na coluna vertebral porque te apercebeste de que afinal a tua ideia, a tua felicidade, a tua obra, tu próprio, não passam de falhanços, pequeníssimos rasgos no tecido infinito da Realidade? Que, se calhar, nada disto existe, tudo isto é triste, tudo isto é Fado?

    Caramba, isto é o que em linguagem futebolística se chama "uma entrada a pés juntos"! Um tipo vem lá de trás a correr feito maluco e, sem avisar, sem dizer àgua-vai, completa e absolutamente de surpresa, entra de carrinho e leva tudo à frente. Vai relva, vão botas, vão pernas e caneleiras, o adversário a voar pelo ar aos trambolhões. Catrapunfas! Já foste!

terça-feira, março 24, 2026

Guerra

     Ter a sensação de que tudo e cada coisa se encontra no lugar exacto, eis o princípio fundamental da felicidade. Ver as coisas encaixadas umas nas outras como se o tempo e o espaço formassem um continuum sobre o qual tudo é paz, harmonia e equilíbrio; beleza!

    Imagino que fosse isso o que me levava a ficar dias inteiros deitado no chão a imaginar universos habitados por bonequinhos de plástico enquanto os movia de um lado para o outro, falando por eles, falando com eles, amigos e inimigos que habitavam comigo aquele mundo em constante mutação e no qual eu era Deus, sem sombra para dúvidas. Naquele mundo tudo dependia de mim e eu encarregava-me de fazer com que tudo decorresse dentro da maior das naturalidades, sendo eu a expressão viva da Natureza.

    A memória não consegue ir buscar situações e enredos concretos das aventuras que vivi com os bonecos, recordo apenas uma vaga sensação de felicidade absoluta. Ter o "coração cheio", o corpo todo satisfeito e consciente, pertencer e possuir em simultâneo; é difícil explicar por palavras aquilo que ainda agora fui capaz de sentir, que me fez suspirar, aquilo que eu sei o que é mas não consigo passar com clareza para o teclado, para o ecrã, para ti, a menos que construa uma forma verbal confusa e periclitante, prestes a desabar a cada sílaba.

    Acho que já fui feliz em muitas ocasiões. Imagino que o número de vezes que ri até às lágrimas, as vezes que ri sinceramente a sentir o peito abrir-se para o mundo oferecendo aquilo que sou a quem possa ou queira ver, essas gargalhadas todas poderiam servir para fazer uma contabilidade da alegria que senti ao longo desta minha vida. E depois há a infância, essa espécie de Atlântida, Idade de Ouro, Tempo de Vinho e Rosas, Paraíso... eu sei lá, esse tempo, esse espaço, esse mundo esquecido o qual me oferece esta memória, agora vaga, da felicidade absoluta.

    Olho para a televisão. Vejo mas preferia não ver. Crianças assustadas tentam esconder-se numa folha de papel riscando sobre ela com vigor. O olhar concentrado não esconde a angústia que as rói por dentro. Têm no peito um bicho mau a incomodá-las, um mundo circundante que as ameaça, um céu que desaba constantemente sobre elas, um céu que cai e explode com a brutalidade dos monstros indestrutíveis, dos monstros totais e absolutos, um céu e uma terra que juntos formam a imagem da guerra. Uma guerra com crianças dentro é a coisa mais horrível que consigo imaginar.

    

domingo, março 22, 2026

Tédio

     Há dias assim, em que as coisas parecem não ter brilho. Há dias em puxamos o lustro às coisas mas elas teimam em permanecer baças. Dias assim podem ser uma chatice. Deus nos livre! Mas contra o tédio nem mesmo Deus pode grande coisa. Apesar da sua tão gabada omnipotência, o Criador também sucumbe ao tédio com bastante frequência. Ser pastor e olhar constantemente pelo rebanho... vai lá, vai! Estamos juntos, meu irmão.

    Um gajo tenta combater o tédio mas encontra algumas dificuldades difíceis de ultrapassar. A mais complicada talvez seja aquela que se prende com o facto de não sabermos exactamente com o que lidamos, quero dizer: o que é o tédio, como é ele, onde posso agarrá-lo para lhe torcer uma parte daquilo que o constitui (o nariz por exemplo, ou puxar-lhe os cabelos)? O tédio tem nariz? O tédio tem cabelos? Não sei se me estás a compreender, entediado leitor (ou leitora, não quero parecer algo que não sou).

    Talvez por não sabermos que formas pode o tédio tomar, a gente tenta várias remédios, mezinhas e tratamentos de choque que podem ir da leitura à música, da corrida à contemplação. Vale tudo no combate contra o tédio, alguma coisa haverá de se revelar eficaz.

    Esta plasticidade absoluta, esta identidade secreta, os rumores desencontrados sobre o aspecto, a forma ou as vontades que podem animar o tédio, aparentam-no ao Diabo, esse velho conhecido que também provoca a cada um de nós visões distintas do que é, de quem é, o que quer ou para onde vai. Ninguém sabe e, na verdade, ninguém quer realmente saber. Não existisse o Diabo e a vida correria o risco de vir a transformar-se num imenso e infindável tédio.

quarta-feira, março 18, 2026

Antes do Apocalipse

     Não há volta a dar-lhe, dançamos alegremente em direcção ao abismo. Dançamos como as ratazanas, dançamos como as crianças, o flautista é um fantasma tremendamente real. Vamos hipnotizados, conscientes do mal que nos arrasta de forma irresistível. Como drogados viciados, sabemos o que nos espera mas, mesmo assim, avançamos sem hesitação. Talvez tenhamos esperança que algo aconteça durante a queda que possa ainda resgatar-nos a um futuro de apagamento total.

    Entretanto temos uma vida para viver. Pequenas coisas para tratar, outras para resolver: um dente cariado, uma intimação da repartição de finanças, um cretino a quem temos de afiambrar um valente par de tabefes pelas trombas abaixo, coisinhas assim, o tal quotidiano delirante que não se compraz com o incerto futuro da Humanidade. Antes do Apocalipse tenho de aparar o bigode, lavar os dentes e deixar o despertador para as oito da manhã. Não pretendo chegar atrasado, muito menos pretendo chegar adiantado.

segunda-feira, março 16, 2026

A ampulheta e a clepsidra

     Até pode parecer que estou a ficar meio paranóico. Ou completamente! Pode parecer que estou a ficar meio xéxé e que não me lembro do que disse num post aqui plantado há poucos dias atrás. Pode parecer mas "nem tudo o que parece é" como diz o outro, o Povo. O Povo diz coisas.

    Isto porquê? Cá pra mim, se ainda estás a ler esta coisa não deves estar a perceber nada do que para aqui vou semeando. Mas, dizia, isto porquê? "Mas isto o quê?" pensas tu, desorientado leitor (ou leitora), já com a paciência a escorrer-te do cérebro. - Isto, isto de estar a ficar meio paranóico. - responderia eu, caso estivéssemos a conversar face to face. "Aaaaaah, hóquei..." suspiras tu, mortinho para que esta merda de conversa acabe ou para que, pelo menos, faça algum sentido.

    Pode parecer que estou a ficar meio paranóico pois esta manhã apercebi-me de que penso constantemente na morte embora não pondere com seriedade a possibilidade de vir a morrer dentro de pouco tempo. "E o que consideras tu como sendo pouco tempo?" - perguntas. E eu penso: "Rai's parta este leitor (ou leitora) que já começa a chatear!", e continuo, agora em voz alta - Sei lá. Tenho 63 anos, se viver mais 15, 20 anos, acho justo e, talvez, suficiente.

    E pronto, é um bocado isto. Nos últimos posts tenho reflectido um pouco sobre velhice e envelhecimento. Pelo menos por enquanto a coisa ainda não me deprime mas não tenho a certeza de ser capaz de manter toda esta fleuma durante muito mais tempo... lá está, é tudo uma questão de tempo!?

quinta-feira, março 12, 2026

Meia dúzia de anos

     As pessoas envelhecem muito. Um gajo está meia dúzia de anos sem ver um amigo e quando o reencontra, catrapunfas! Está ali um velho à nossa frente. Entretanto também nós envelhecemos (o amigo poderá estar a pensar exactamente a mesma coisa que nós, numa espécie de simetria mental absoluta) mas como nos olhamos ao espelho com frequência, assistimos ao lento trabalho da força da gravidade sobre os nossos corpos. Cada um de nós só é surpresa para os outros.

    Um gajo olha para o amigo, tão transformado ele está, um gajo pensa: que mudança extraordinária! Qual quê!? Na verdade não haverá muitas coisas tão ordinárias como o envelhecimento. O envelhecimento é da ordem do quotidiano de todas as coisas. Das pedras às formiguinhas, dos planetas aos carapaus, tudo envelhece constantemente. Não há nada que não esteja sujeito às leis do tempo (não do tempo dos relógios mas do outro tempo, o absoluto) e é assim.

    Um gajo está meia dúzia de anos sem ver um amigo e quando o reencontra tem muitas histórias para partilhar com ele. Talvez mais histórias antigas, daquelas que viveram juntos e agora recordam de maneiras diferentes, mais dessas histórias que de outras, novas, vividas separadamente. Seja lá o que for, aconteça o que acontecer, reencontrar um amigo passada meia dúzia de anos é sempre um acontecimento!

quarta-feira, março 11, 2026

Vacas mornas

     O que espera cada um de nós daqueles que nos representam e governam? Que sejam aquilo que neles projectámos, que sejam exactamente aquilo que imaginámos que iriam ser quando deixámos o papelinho a morrer na urna de voto? 

    Haverá aqueles que tentam corresponder ao que deles se espera (pobres diabos) e outros que, uma vez investidos dos poderes que lhes são conferidos pela Constituição, passam a pôr em prática o plano de usufruto do poder que haviam previamente elaborado. Não poderiam ser atitudes mais antagónicas. Duas faces da mesma moeda nunca cruzam o olhar, o que não é o caso, por isso a expressão aqui não se aplica.

    A meu ver há os políticos honestos (o que não significa que sejam bons políticos ou sequer eficazes) e os desonestos (o que não quer dizer que sejam ineficazes mas talvez queira dizer que não são bons políticos). Não há políticos mais ou menos honestos ou corruptos assim-assim. Nesta actividade a ambiguidade ética não é admissível, outros campos da acção humana admitirão alguma imaterialidade de carácter mas não a política.

    Voltando à vaca antes que arrefeça demasiado: António José Seguro é Presidente da República. O que espera dele cada um de nós? Uns não gostam do senhor por ser demasiado à direita, outros odeiam-no por ser socialista, por ser mosca-morta, por ter uma boca estranha, houve até que o apodasse de Tó-Zero. Mas ele lá está, a ser aquilo que é. Ser honesto não é excitante, como me parece ter sido sugerido por Cotrim de Figueiredo quando se tornou evidente que Seguro iria ser eleito? 

    Tantas perguntas, tantas perguntas, pareço uma criança a perguntar na idade dos porquês. Para não me ir embora demasiado depressa aqui deixo mais uma: vivemos um tempo de vacas mornas?

terça-feira, março 10, 2026

Tempos modernos

     Alarvidade e javardice: eis duas palavras mágicas desconhecidas dos adoradores de tiquetoques que, no entanto, definem o universo em que movem as suas mentes. Nota-se um ambiente cada vez mais agreste e menos limpo nos pátios da escola, uma coisa entre a barba por fazer e a mão suja por ter com ela limpado o rabo.

    Os putos crescem no meio da javardice e transformam-se em autênticos alarves. Não me lembro bem se, quando fui puto, as coisas aconteceram do mesmo modo. Não me lembro dos pormenores mas penso poder afirmar que a coisa também não era particularmente limpa. Talvez que crescer na porcaria faça parte da condição humana, o estrume alimenta as raízes das flores mais coloridas e faz as delícias dos escaravelhos mais reluzentes.

    O que nos choca talvez seja o facto de esta alarvidade não ser a nossa e de esta javardice nos parecer exagerada (por estarmos já um bocado velhotes), talvez a coisa não seja assim tão radical. Se pensarmos bem, o mundo que agora construímos e nos parece adequado, fruto do nosso labor, haveria de parecer extraordinariamente agressivo e peludo aos olhos nossos avós, um mundo repleto de alarvidades e muita javardice.

quinta-feira, março 05, 2026

Dizer o óbvio

     Ucrânia, Gaza, Irão. A guerra está por todo o lado. O Grande Imbecil queria o Prémio Nobel da Paz. Como não lho atribuíram amuou e desatou a provocar guerras em todo o lado embora se gabe de que trabalha para lhes pôr fim. Será apenas estúpido ou é absolutamente tolo? O Impostor Laranja não tem noção do que diz, do que faz, não sabe sequer quem é, o Impostor Laranja é um dejecto.

quarta-feira, fevereiro 25, 2026

Animal

     É inquestionável, o presidente dos EUA é um maluco a precisar de medicação urgente e, eventualmente, uma daquelas camisas cujos braços compridíssimos se atam atrás das costas. Um doido varrido!

    Quando era miúdo havia aquelas personagens, os sábios loucos ou os facínoras desalmados que sonhavam dominar o mundo. Eram normalmente representados com um ou outro atributo físico exagerado e uma gargalhada que disparavam ao menor sinal de sucesso nos seus propósitos alucinados. No fim perdiam sempre.

    Trump é uma dessas personagens. Mesmo o seu cabelo, os seus gestos, as danças que executa, a maneira como movimenta os lábios quando fala, fazem dele uma caricatura de um ser humano. É um velhaco. 

    O que surpreende verdadeiramente é a forma como o mundo tende a vergar a mola perante este palhaço mau. A verdade é que tipos como Saddam Hussein ou Kadafi também inspiravam terror e respeito e acabaram de forma triste e miserável. Como será o fim deste animal?

segunda-feira, fevereiro 23, 2026

Da pintura

     A arte de pintura é um Universo. Fazer e pensar, pensar e fazer, a ordem das parcelas não é aleatória, configura momentos muito diferentes, atitudes específicas e resultados que nunca ficam completos, antes se expandem para lá do imaginável; a arte da pintura é um Universo em expansão, como é de bom tom entre os membros da Confraria dos Universos.

    Nos dias que correm, a leitura de qualquer texto relacionado com pintura é capaz de me fazer reflectir sobre questões que me parecem excelentes. Seja a prosa de Francisco de Holanda ou um texto sobre pintura contemporânea, tudo me parece clarinho como água, o que não compreendo à primeira depressa me chega por via do raciocínio; sabe bem.

    Quando frequentei a Escola Superior de Belas-Artes estas leituras seriam mais ou menos como espetar agulhinhas nos olhos ou torcer a mioleira como se de um trapo encharcado se tratasse. A idade proporciona espantosas transformações ao ser humano.

quinta-feira, fevereiro 19, 2026

Pessimismo

    Andamos tão perdidos! A questão é: alguma vez tivemos um objectivo concreto que compreendêssemos e perseguissemos conscientemente? Continuo a acordar de manhã obrigando-me a pensar de vez em quando no sentido da vida. Continuo a pensar (quando penso, obrigado por mim próprio a pensar) que o sentido da vida é deixar um mundo melhor aos que virão depois de mim.

    Por estas e por outras, por vezes compreendo que o melhor é não pensar. Quero dizer, melhor, melhor, talvez não seja, talvez devesse dizer "o mais cómodo"; o mais cómodo é não pensar. Deixar que alguém pense por nós, deixar que alguém actue em nosso nome, alguém que faça merda. Assim, depois, poderemos culpar esse alguém pelo fracasso, poderemos barafustar, gritar, cuspir na porcaria que nos é oferecida. E tudo fica na mesma ou um pouco pior do que estava.

    Talvez não andemos perdidos. Talvez não andemos, de todo. Talvez estejamos parados; com sorte estamos apenas parados, à espera que aconteça alguma coisa que não seja uma desgraça. Com azar estamos a cair desamparados. Até batermos no fundo.

terça-feira, fevereiro 17, 2026

Menu

     O mundo é uma coisa muito traiçoeira, ora parece fixe, ora parece insuportável; ora docinho, ora avinagrado como vinho deixado ao léu. Vá-se lá saber o aspecto que o mundo vai ter amanhã ou depois. Não se pode confiar nesta coisa, esta bola a rodar no vazio, a rodar sobre si própria enquanto lhe durar a corda. Se ao menos fosse uma coisa estável, estática e plana!

    As pessoas precisam de quem lhes indique o sentido correcto, quem lhes mostre o caminho iluminado nas bermas por leds bem potentes, daqueles capazes de deixar a escuridão intimidada. 

    Uma pessoa isolada à procura da estrada que deverá trilhar é presa fácil para o lobo do desejo, para a hiena do vício ou o escorpião da loucura. É ir logo buscá-lo, trazê-lo para junto de nós, os simples e puros, os escolhidos por Deus. Bem-vindo irmão, estávamos mesmo à tua espera para podermos jantar. És o prato principal.

segunda-feira, fevereiro 16, 2026

Internacional Religiosa

     Não me parece grande ideia fechar a Deus as portas deste mundo. Deixa-se muita gente órfã a precisar de um pai que a oriente, muita ovelha a balir perdida a vaguear pelos baldios da vida. Sem Deus há multidões frágeis como cristal à beira de caírem das alturas e muito filho-da-puta à coca, muita hiena a vaguear na mamuja das sobras que os grandes cabrões, os verdadeiramente poderosos, possam deixar espalhadas pelo chão.

    Cá pra mim o ideal seria encontrarmos maneira de formar uma Internacional Religiosa. Encontrar em cada religião uma elite que acredite realmente em Deus e reunir essas elites num espaço em que pudessem maravilhar-se com as possibilidades da Sua existência. Decerto seriam capazes de construir uma via global atapetada com solidariedade e boa vontade pois é disso que a maior parte dos Deuses advogam... ou não?

domingo, fevereiro 15, 2026

Idoso

     Fui verificar o conceito de idoso e encontrei isto: Segundo a Organização Mundial da Saúde, idoso é todo o indivíduo com 60 anos ou mais. Fiquei chocado! Eu tenho 63 anos!!! Passei a fronteira da idade adulta para "a cair da tripeça" sem sequer me aperceber do que me ia acontecendo. Sou idoso há 3 anos e não sabia. Estou destroçado.

    Quando o meu pai faleceu devia ter suspeitado que a coisa estava para se dar. Mas não pensei no assunto. Ver a minha filha com 32 anos devia ter feito soar algum tipo de campainha interna... mas nada. Ter cada vez menos cabelo ao ponto de ser bem mais careca do que cabeludo, ter o cabelo e a barba a embranquecer todos os dias poderiam ter sido indícios valiosos para que fizesse uma revisão do que sou (não de quem sou). Não o fiz, deixei andar.

    Agora sei que sou um idoso. Pronto, estou informado. 

sexta-feira, fevereiro 13, 2026

Mais velho

     Actualmente cumprimentamos: bom dia! Ou então dizemos: boa tarde, ou boa noite. Depende. Vamos pela positiva, aproximamo-nos de quem não conhecemos com palavras cautelosas mas de bom tom. Somos assim educados, os mais velhos ensinam-nos a ser assim, parece-nos correcto. Quando alguém nos fala devemos manter silêncio, ouvir o que é dito, esperar a nossa vez e retrucar, se for caso disso, ou concordar, seja lá o que for, aconteça o que acontecer, somos incentivados a comunicar, a olhar nos olhos.

    Espero que estes princípios simples se mantenham, pelo menos durante mais algum tempo. Por vezes penso se não estamos às portas de um tempo de "pontapé-na-cona". Os mais velhos são demasiadas vezes considerados empecilhos e a sua forma de ver o mundo, a mensagem que têm para nós, é desvalorizada por não saberem mexer em meia-dúzia de coisitas electrónicas ou artificiais ou lá como se designam esses "gadgets" que enformam o nosso quotidiano delirante. Substitui-se a capacidade de pensar pela capacidade de mexer.

    Apercebo-me de que sou já um dos "mais velhos". Ainda não tinha pensado nisso.