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sexta-feira, janeiro 02, 2026

O Deus do mar

     Começo 2026 a recordar algo que aconteceu muito recentemente, no ano passado. Eu e a Ana íamos iniciar uma viagem com Atenas por destino. Comprei um livro, "O Louco de Deus no Fim do Mundo" de Javier Cercas, para ler no avião e lá pela Grécia. Mas pus-me a olhar para o volume de quatrocentas e tal páginas e pensei "isto é pesado, ocupa muito espaço, vou procurar um livrinho para levar". Assim fiz.

    Subi ao sótão, subi à escadinha que encosta às prateleiras e fiquei com o nariz ao nível de uma fileira de livros de Jorge Luís Borges. Esbeltos, pequeninos, livros perfeitos para ler em viagem tal como já havia feito anteriormente. Peguei em Atlas, um volumezinho que não me lembrava de ter lido. O livro tinha uma marca. Abri-o. No topo da página o título do texto: O templo de Poseidon. 

    Caraças! Mais uma daquelas coincidências que podem deixar um gajo confuso e a acreditar que alguma força, poderosa e extraterrestre, está a estabelecer contacto, a enviar sinais evidentes de que um gajo não está só no Universo. Fechei o livro e, como é evidente, foi o que levei comigo. Li-o (ou tê-lo-ei relido?) na viagem de regresso.

    Entre uma coisa e outra visitámos o referido templo. Estava um frio de rachar! 

    Bom Ano Novo. 

sexta-feira, julho 28, 2023

Regresso ao passado

     Reli "Matadouro 5 ou A Cruzada das Crianças" de Kurt Vonnegut. Tinha comprado o livro em 1990 e, decerto, lera-o nessa altura. Reli-o mas foi como se tivesse pousado nele os olhos pela 1ª vez. Vonnegut é um autor brilhante no modo desembaraçado como expõe as suas linhas narrativas e cria personagens tão evidentemente verdadeiras. Lê-lo é pura diversão.

    Este regresso ao "Matadouro 5" deveu-se ao facto de a minha sobrinha ter oferecido ao meu irmão uma edição recente da obra e eu, por absoluta coincidência, estar a ler outro livro de Vonnegut, "Barba-Azul", que encontrara por acaso na prateleira da nossa casa em São Miguel do Outeiro. Qual a possibilidade estatística de tal coincidência?

    Pareceu-me um sinal. E eu segui-o como um rei mago a trotar no seu camelo seguindo a estrela errante que há-de travar na chegada ao presépio. Não encontrei o Deus Menino mas fartei-me de curtir na companhia de Billy Pilgrim. Assim foi.

quarta-feira, outubro 05, 2016

Releitor

Ontem concluí a releitura de Cem Anos de Solidão.

Quando fechei o livro tive a estranha sensação de que aquele livro nunca acaba. Podemos fechá-lo mas ele está sempre aberto dentro da nossa cabeça. A narrativa é um imenso e magnífico círculo, um estanho círculo limitado por uma circunferência repleta de centros.

Seja qual for o ponto onde colocamos o bico do compasso, quando o rodamos, o desenho da circunferência coincide uma e outra vez com o traçado anterior, contrariando todas as leis da geometria que tanto nos custaram a aprender e tão pouco nos custaram a aceitar, uma vez compreendidas.

Essa magnífica sensação encorajou-me a deixar de ser leitor, por uns tempos, para me transformar em releitor.

Fui à estante namorar as lombadas dos livros. Ali estavam, alinhadas, inúmeras paixões mais ou menos antigas. Tirei um livro de Roberto Bolaño: Estrela Distante. Estou a relê-lo. E estou a gostar de o fazer.