Mostrar mensagens com a etiqueta filosofia de tasca. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta filosofia de tasca. Mostrar todas as mensagens

segunda-feira, janeiro 12, 2026

Inteligências

     A Inteligência Artificial é algo assustadora. A frieza impessoal com que trata de nós e dos nossos assuntos contrasta violentamente com a sua boa educação no modo como nos aborda. Nisso é semelhante a muitos seres humanos: sorriso pronto, fórmulas de abordagem correctíssimas, mel na língua, muita sonsice e, feitas as contas, uma filha-da-putice absoluta, sociopatia ou, pelo menos, indiferença para com a sorte do próximo. 

    Fico a pensar se a Inteligência Humana (vi-me obrigado a utilizar maiúsculas) terá também esta característica, se a empatia e a solidariedade serão empecilhos a um raciocínio objectivo e eficaz. Fico a pensar se seremos melhor governados por máquinas que por seres humanos.

    Estou com fome, sinto um vazio no estômago. Resolvo interromper o raciocínio e comer qualquer coisa. Talvez a mastigação me ajude a chegar a alguma conclusão diferente daquela que começa a insinuar-se dentro da minha cabeça. 

sexta-feira, dezembro 12, 2025

Permanecente

     Sinto a tentação de me fechar ao mundo como se fosse uma espécie de berbigão monstruoso. Fechar-me, vedar a frincha com indiferença pegajosa e deixar-me estar, isolado, a olhar o escuro com os olhos abertos como se estivessem fechados. Ficar assim, muito quieto, sem nada para fazer, sem fazer nada.     

    Na escuridão absoluta em que agora me encontro tento reflectir sobre quem sou, o que faço aqui, de onde venho, para onde vou, essas coisas básicas sem as quais dificilmente somos alguém ou, sequer, alguma coisa. Mas no escuro nada se reflecte, tudo é a mais profunda sombra. No escuro dificilmente sou.

    Começo a arrepender-me de ter desejado tal enormidade. Decido não ceder à tentação. Continuo aqui, a luz do sol a derramar-se sobre a minha alma; exposto à merda e à mentira, tento equilibrar o corpo sobre as pernas, tento manter alguma dignidade humana. Continuo aqui, a ser o que consigo ser ainda que não saiba bem o que isso é. Permaneço! Apesar de tudo, permaneço.

quinta-feira, novembro 06, 2025

Construtor

     Olhar para trás pode causar um torcicolo. Quando tentamos recordar o passado estamos a arriscar um torcicolo na memória (ia escrever "na alma" mas mudei de ideias quando martelei as teclas). Talvez seja por isso que costumamos ajeitar as memórias à imagem que fazemos de nós próprios, pintamos um passado bem mais bonitinho do que ele terá sido. 

    Será que essa atitude auto-complacente altera, de facto, o  tempo que ficou para trás? Ou, se ficou para trás, o tempo é imutável? O tempo desloca-se agarrado aos nossos pés, como se fosse uma sombra? Isso explicaria a atitude de Peter Pan, a tentar recuperar a sua sombra, Peter Pan a ser um menino para sempre.

    Correndo o risco de provocar à minha alma um torcicolo olho para trás mas dou com o nariz num denso nevoeiro. Não consigo andar em direcção ao passado, fico ali assim, especado, a tentar vislumbrar alguma coisa. Não é fácil. De vez em quando percebo um corpo em movimento, adivinho uma silhueta. Se, por acaso, alguma coisa se aproxima de mim ao ponto de se tornar visível depressa avalio da necessidade de a ver com clareza ou ser melhor fechar os olhos. Construo a minha história.

sábado, outubro 25, 2025

Coisa(s)

     É uma coisa estranha: agora estamos aqui, um minuto depois deixamos de existir. Agora falamos, pensamos, somos ouvidos, um minuto depois somos feitos apenas de silêncio, estamos mortos. Se porventura somos fruto de um plano e trabalho divinos o sentido da narrativa escapa-nos por completo. Não faz sentido nenhum. E os padres (pelo menos os católicos) defendem a sua posição recorrendo à problemática insolúvel dos "mistérios" e dos "caminhos do Senhor" para nos explicarem que não há explicação nenhuma que seja minimamente satisfatória. É tudo coisa lá da cabeça de Deus.

    

quarta-feira, outubro 15, 2025

Viva la muerte

     Cada vez mais penso na morte. Não penso naquilo que me espera para lá do meu corpo. Não, não penso nisso. Penso na morte enquanto ponto final. Fim da linha. Penso em coisas que nunca fiz e talvez gostasse de fazer, penso na decrepitude do corpo e evito imaginar a perda de faculdades mentais. Estes pensamentos não me deixam triste ou deprimido, pelo menos por agora.

    A morte enquanto ponto final de um livro que sou eu. Um livro que, depois de escrito, será guardado numa gaveta qualquer ou metido entre milhares de outros numa prateleira imensa de uma estante infinita. Um livro para esquecer passado algum tempo, quando aqueles que me amaram perecerem também.

    Estes pensamentos podem ganhar consistência e fazer algum sentido até que uma merda qualquer, uma mensagem sêca e mesquinha, até que alguma coisa vem esvaziá-los da poesia que quase chegaram a ter. O mundo real é demasiadas vezes uma decepção absoluta.

terça-feira, setembro 09, 2025

Tempos

     Estava aqui a pensar que as coisas nunca acontecem como podiam acontecer, acontecem sempre um bocadinho acima, um nadinha ao lado, acontecem assim mais ou menos o que faz com que aconteçam sempre de outra forma. Nunca acontecem como podiam, acontecem sempre como deviam acontecer. A Ordem acima de tudo.

    Há quem acredite no destino. Muita gente sente-se esmagada pelas previsões que as cartas revelam ou os acontecimentos que o alinhamento dos astros permite entrever, a vida a acontecer antes de ter acontecido. É como aquela adivinha estúpida da pescada que antes de ser já o era, qualquer coisa deste género que tenho fraca memória seja para o que for quanto mais para adivinhas estúpidas.

    Tenho saudades de ser criança e nem sequer pensar em merdas como estas. O futuro era tão pertinho! As coisas aconteciam ali mesmo, naquele momento e quando brincava era eu quem determinava o rumo que levavam. Conseguia fazer com que tudo encaixasse na perfeição, uma perfeição que só eu era capaz de imaginar. E não havia cá tangas.

segunda-feira, agosto 25, 2025

Não somos borboletas

     Um ser destrambelhado preso num labirinto e que devora gente jovem; um ser monstruoso com cabeça de touro e, talvez por isso, incapaz de compreender a sua relação com o mundo... será o Minotauro uma metáfora da eterna adolescência?

    Quando finalmente somos capazes de compreender que precisamos do outro para ficarmos completos, quando finalmente não devoramos aquele que nos parece apetitoso, então ultrapassamos o estado de adolescência e entramos naquilo que desajeitadamente designamos por "idade adulta". Isto pode acontecer após 14,15, 16 anos de vida ou pode acontecer aos 70 ou 80, não há uma idade específica que determine a transformação. Não somos borboletas.

quarta-feira, agosto 13, 2025

Um imenso adeus

     Pensar nem sequer provoca dor! Antes pelo contrário. Não pensar, sim, é doloroso e provoca tantas desgraças que parece bruxaria. Agir sem pensar (ou desprezando o pensamento) provoca estranha agitação nas ondas da realidade e traz para as praias deste mundo lixo variado e muito difícil, se não mesmo impossível, de reciclar. "O sono da razão engendra monstros", compreendeu Francisco de Goya, as praias da realidade estão a deitá-los por fora.

    Sempre fomos estúpidos. A nossa espécie tem a capacidade de engendrar artefactos maravilhosos à mistura com os inevitáveis monstros e isso vai disfarçando a nossa infinita estupidez enquanto espécie. Somos qualquer coisa entre o imbecil e o génio que se reinventa incessantemente sem nunca parar para pensar. Agimos de forma impulsiva e desregrada. Não pensamos o suficiente sobre as consequências das nossas acções.

    Adeus. 

quarta-feira, agosto 06, 2025

Cada mercado sua Lei

    Um gajo bem tenta fugir ao Sagrado mas o Sagrado nem se apercebe. Um gajo tenta ignorá-lo, afastá-lo, dar-lhe uma martelada, riscá-lo, metê-lo num saco e atirá-lo ao rio mas... nada! Nada resulta. O Sagrado não desaparece apenas porque alguns de nós insistem em fazer-lhe uma guerra permanente. O Sagrado é de outra dimensão, tem uma categoria muito acima das nossas capacidades cognitivas.

    Um gajo bem pode tentar fugir ao Sagrado mas o Sagrado não foge dele. Portanto está tudo lixado e nada faz sentido. Tudo lixado para o gajo que tenta fugir, porque para o Sagrado é exactamente a mesma coisa e o seu contrário. Na dimensão do Sagrado não há muito nem pouco, nem luz nem escuridão, nem certo nem errado, nem cavalo nem égua, é tudo farinha do mesmo saco, tudo serve para o alimentar continuamente de modo a que nunca sinta fome e esteja sempre saciado (se bem que, para o Sagrado, a fome e a fartura devam ser uma e a mesma coisa se bem que opostas em absoluto).

    Há neste discurso incongruências e a lógica que lhe assiste ronda perigosamente a da batata mas, como falar do Sagrado? Como estabelecer um código de linguagem que traduza a relação que estabelecemos com o Sagrado? Sim, como é que isso se faz? Há sempre um padreca ou um bispo evangélico ou outro oportunista de meia-tigela prontinho a esclarecer as tuas dúvidas, assim tenhas algo comerciável com valor determinado neste mercado de transacções.

sexta-feira, agosto 01, 2025

E etc.

    O médico diz-me que sou habitado por  comensais. Refere-se aos fungos que, pelos vistos, me habitam e de mim se alimentam. Mais tarde dou por mim a pensar: "se os fungos fossem vacas eu seria um prado verdejante". Pareceu-me um lindo pensamento.

    Mas quem está todo manchado sou eu, não são as vaquinhas microscópicas. Vermelho sobre fundo branco leitoso. Múúúúú... a puta que pariu. Que chatice, estar assim. Ainda por cima as temperaturas trepam que não é brincadeira e, dentro de um dia ou dois, vão rondar os 40 graus. Os 3 Estigmas de Palmer Eldritch.

    Não me apetece escrever, não me apetece ler, não me apetece fazer grande coisa. Será esta apatia sugerida pelo facto de agora pensar que estou a ser devorado por fungos patetas? Mas, haverá alguma coisa que exista sem que devore ou seja devorada por uma outra coisa?

    Parto do princípio que uma montanha se alimenta de tempo. E etc. 

quarta-feira, maio 28, 2025

Extraordinarice

     É assim mesmo que as coisas se passam. Temos de esgueirar-nos numa floresta de acontecimentos banais, sempre na esperança de que algo notável possa acontecer antes do final de cada dia. Convém sublinhar que muitos de nós são seres de uma fragilidade absoluta, seres construídos sobre personalidades de cristal, personalidades incapazes de suportar os tons mais agudos, sempre em risco de rachar, de quebrar, de voar em todas as direcções, estilhaçadas.

    Como perceber a excepcionalidade de um acontecimento? Sim, a questão é de suma importância apesar de nos parecer um bocado tola: então não se percebe logo quando um acontecimento é extraordinário!? Não. Nem sempre.

    Ainda hoje vi duas pombas, uma fêmea e uma macho, jogando o jogo da Primavera, e vi um senhora muito forte que se deslocava apoiada numa bengala com uma espécie de casaco comprido que esvoaçava batido pela brisa, uma figura notável, e vi um cão preto a ser amarrado à porta do supermercado e depois a latir timidamente, chamando a dona que havia ido às compras, enquanto olhava em volta a tentar perceber exactamente o que se passava. Vi todas estas coisas que me pareceram extraordinárias apesar de aparentemente ordinárias.

    Depois de escrever o parágrafo anterior fica a dançar-me na cabeça uma pergunta que poderá parecer uma pergunta de merda: haverá alguma coisa que não seja extraordinária?

sábado, abril 26, 2025

Ele

    Acontecem tantas coisas ao longo de um único dia que ele não consegue imaginar a possibilidade de imaginar "eternidade". É algo que, para ele, nunca poderá fazer o mínimo sentido. "Eternidade" está, na cabeça deste gajo, ao mesmo nível que "infinito". Não dá para sequer tentar o esboço de uma ideia. 

    Ele pensa que eternidade e infinito são coisas próprias de deuses, pelo menos. Talvez nem mesmo certos deuses tenham capacidade para conceber tais absolutos, que há deuses muito parvos, estúpidos e até mesquinhos. Bem vistas as coisas, ser um deus não é assim tão especial como nos querem fazer crer. Depende muito dos poderes que forem postos à sua disposição e as funções que possam exercer.

    Não sabe se há um deus para a merda mas admite que sim, que existe uma divindade cuja principal função é a de lidar com assuntos relacionados com a actividade intestinal. À primeira vista ele não inveja a ocupação dessa divindade mesmo que a execução da função lhe traga certos benefícios como, por exemplo, a imortalidade. Não sabe porquê mas passar a eternidade a lidar com merda a toda a hora e momento é coisa que não o seduz. Isto apesar de, como é sabido, ele não ser capaz de compreender o que possa significar "eternidade".

segunda-feira, abril 07, 2025

Para chegar à alma

     A religião é útil para a organização de sistemas sociais embrionários, enquanto os elementos que formam um grupo não têm ainda consciência do papel que poderão vir a desempenhar no todo sem imaginarem coisas um bocado difíceis de aceitar (matar, roubar, cobiçar a mulher alheia, etc). Nessas circunstâncias é razoável ameaçar toda a gente com a figura de um pai que vive para lá das nuvens ou no topo daquela montanha inacessível que virá distribuir desgraças caso não sejam cumpridas as regras impostas pela religião. É como fazemos com as crianças quando elas não se portam de acordo com os nossos desejos, ameaçamos com o papão. Deus é o papão dos animais humanos mais ou menos adultos.

    Para sociedades formadas por elementos com dois dedos de testa, a filosofia facilmente substitui a religião. Penso que podemos encontrar a felicidade para lá dos altares e das estantes de livros mas reconheço que precisamos de algo que nos possa iluminar nas horas mais escuras. Pessoalmente não estou a ver que a religião sirva para atenuar a dor (quando os meus pais faleceram não me serviu de grande coisa, na verdade não me serviu de nada) mas acredito que possa confortar quem acredite piamente em certas coisas que, aos meus ouvidos, soam a treta absoluta. Não sei se invejo essas pessoas.

    Quanto à filosofia... confesso que não pensei muito no assunto, sou mais adepto da arte como via para fortalecimento e alívio do espírito. Bem vistas as coisas talvez o sistema seja encontrar complementaridade entre as diferentes vias: religião, filosofia, arte e mais que venha.

    O cérebro é, de facto, uma máquina complicada. É uma máquina capaz de produzir uma alma que lhe faça companhia.

quarta-feira, março 12, 2025

A Máquina

     A Inteligência Artificial (IA) oferece a quem a ela recorre um padrão de pensamento, um denominador comum a toda a informação colectada em relação ao assunto que o utilizador pretende abordar. A sua capacidade para estabelecer uma rede de conexões entre tantos pontos relacionados com o tema quantos o disco rígido contém (os que lhe foram fornecidos mais os que a IA criou por osmose) e a rapidez com que executa tal tarefa conferem-lhe uma aparência de totalidade esmagadora. A máquina é como se fosse Deus e vice-versa e oferece-nos a resposta, a síntese da sua sabedoria, como quem atira um osso a um cão.

    Mas, não será isto (mais) uma ilusão? A máquina resume num sopro aquilo que sabe, e sabe imenso, mas não sabe tudo, a máquina não tem como saber tudo. Então, aquilo que dela recebemos é sempre conhecimento parcelar e circunstancial por mais vasto que seja.

    Fico com a impressão de que a única certeza que recebo da IA é a certeza de que ainda não fomos capazes de imaginar nada que chegue aos calcanhares do que imaginamos ser Deus.

sexta-feira, janeiro 24, 2025

O Jardim das Notícias

 

Em A Traição das Imagens, Magritte explicou com clareza a distância que vai de um cachimbo a uma coisa pintada. As coisas não deviam confundir-se com a sua representação. Ficámos avisados. Picasso terá dito que o desenho “é uma grande mentira que nos ajuda a compreender melhor a verdade” mas, terá acrescentado, na medida em que formos capazes de a compreender. Ficámos a pensar.

Construir uma visão do mundo em que vivemos depende muito da perspectiva a partir da qual tentamos a sua construção. Seja uma visão mais poética ou mais técnica, mais humana ou artificialmente inteligente, a recolha de informação é essencial para que a coisa possa acontecer. Fica a sensação de que a Verdade é um absoluto inalcançável que faz de nós e do ChatGPT amargas anedotas de gosto duvidoso. Na impossibilidade de sucesso vamos semeando o planeta com as nossas tentativas de o compreender, registar e retratar.

Sabemos que o mundo está povoado de monstruosidades ameaçadoras mas temos dificuldade em evitá-las. Chegamos a deixar-nos seduzir pela sua abjecta lengalenga e, como o Flautista levando crianças e ratazanas em direcção ao precipício, arrebanhados marchamos atrás das bestas com o vazio por destino. 

Vindos de Oeste, divisam-se no horizonte os cavaleiros do Apocalipse Chunga. Vêm montados em artefactos tecnológicos, agitam riquezas que seguram nas mãozinhas pequeninas e nas dentuças muito brancas, escorrendo babugem raivosa pelos cantos das fendas que lhes servem de bocas. A Nordeste um aprendiz de feiticeiro imagina-se imortal e tenta afastar a morte bebendo o sangue de povos inteiros. Lá para as bandas do Oriente alinham-se divindades ameaçadores que comandam exércitos de seres muito puros e despidos de pecado. E nós, demónios outrora poderosos, agora velhos e exauridos, aguardamos resignadamente o embate. A guerra não corre de feição mas estamos muito longe de termos sido derrotados.

sábado, janeiro 18, 2025

Paternalismo

     "Cada cabeça, sua sentença", "o mundo de cada um é os olhos que tem", "quem o feio ama, bonito lhe parece", "rebéubéu, pardais ao ninho". A ideia de que cabe a cada um de nós confrontar-se com o mundo utilizando as armas de que dispõe na luta diária pela sobrevivência parece-nos incontroversa. 

    O que será controverso é a ideia de que "cada um é como cada qual" e fica tudo dito, nada a fazer, "sou assim mesmo" e está resolvido. Errado. Acredito piamente que "só os burros não mudam de opinião". Seres assim não significa que vais morrer tal qual és agora. 

    O mundo muda, o teu corpo altera-se, os olhos perdem fulgor, o bonito pode transformar-se em algo feio ou vice-versa. Tu bem desejas que as coisas se passam como imaginas e continuem assim até à extinção do Sol; fechas a cabecinha. Lá dentro está tudo arrumadinho em prateleiras perfeitamente alinhadas e todos os dias limpas o pó de modo a que a luz não surpreenda um grãozinho que seja poisado onde não deve.

    Vivemos num mundo atulhado de estímulos, saturado de estímulos, soterrado em estímulos mas não é isso que o torna estimulante. Tens alguma responsabilidade nisso, na descoberta dos estímulos capazes de transformar a tua experiência de vida em algo mais... estimulante? "É como procurar uma agulha num palheiro", dizes tu. Eu sei. Mas, toma atenção, a propaganda tenta substituir-te nessa tarefa. Não deixes que isso aconteça, não te satisfaças com coisas oferecidas. Luta por ti, abre o teu espaço, sente-te.

segunda-feira, dezembro 16, 2024

Beber ou não beber (uma bujeca) eis uma questão

     Decerto te terá também acontecido: tiveste uma ideia luminosa, uma revelação fulgurante, o mundo ganhou um contorno mais nítido, viveste um momento de fugacíssima felicidade. Tens a sensação de teres encontrado um pequeno tesouro escondido dentro de ti. Descobriste um fragmento da Verdade, foste tu quem o descobriu!

    Iupi!

    A sensação da descoberta de algo especial faz com que te sintas igualmente raro. Por momentos és um esteta, és um profeta, um cientista da alma. Mais adiante ouves uma frase, lês um parágrafo num livro de páginas amarelentas, lembras-te de algo que há muito havias esquecido e percebes. Percebes que a tal ideia, o tal tesouro, haviam já sido encontrados ou intuídos por alguém antes de ti. Ó tristeza, ó decepção!

    A mim já isto aconteceu muito mais que  várias vezes. Afinal sou um gajo como os outros, não posso considerar-me particularmente brilhante por ter descoberto o que outros já haviam encontrado, observado e dissecado antes de mim. Isso não faz de mim uma fraude, apenas uma pessoa iludida. Mas se tudo for apenas ilusão serei pouco mais do que alguém perfeitamente integrado no nada que tudo abarca.

    Não tenho a certeza de ter chegado a uma conclusão, nem sei se isso terá alguma utilidade (a incerteza ou a conclusão). O melhor é beber uma bujeca. Ou não.

domingo, dezembro 08, 2024

O problema

     É tão difícil compreender o que quer que seja mais complexo do que "o sol nasce - o sol põe-se". Mesmo isso pode tornar-se complicado, o Mundo não se deixa capturar. De forma nenhuma. Tenta-se a matemática, tenta-se a poesia, o esoterismo e a filosofia. Seja qual for a linguagem através da qual tentemos ler os sinais que o Mundo nos vai deixando a pontuar o caminho percorrido pela nossa espécie ao atravessar a floresta do Tempo, seremos sempre pequenos polegares perdidos e aterrorizados à procura de conforto e protecção.

    O caminho individual não parece funcionar lá muito bem, precisamos de companhia. Há passarões fantasmagóricos sempre dispostos a bicarem os sinais deixados pelo Mundo, os passarões querem a nossa perdição. E nós perdemo-nos. O entendimento do Mundo é assunto tão vasto e complexo que inventámos máquinas para o entenderem por nós. Mas são máquinas, Senhor! Os resultados das suas reflexões serão sempre insuficientes, desviados do Humano, pensamentos artificiais. Não servem para nós, não resolvem o nosso problema.

    Quanto mais depressa nos desenganarmos melhor. Melhor e pior. Quanto mais depressa percebermos que estamos sós, que fomos abandonados na floresta, quanto mais depressa abrirmos os olhos para a espessa escuridão que nos envolve, mais depressa perceberemos que não existe nada que possamos designar por "salvação". Para nos "salvarmos" teríamos de nos exterminar a nós próprios e, caso o fizéssemos, nunca poderíamos confirmar ter encontrado a solução do problema.

    Somos como um cão. Um cão que tente morder a própria cauda acabada de cortar rente com uma navalha afiada.

sábado, novembro 16, 2024

Amanhã é dia do Senhor

     Celebrar o Nada, adorar o Vazio, eis a essência de todas as religiões. Ora tentamos preencher as lacunas criadas pela ausência de raciocínio, ora as ignoramos, afirmando tratar-se a ignorância de um mistério. Não fosse a religião manifestação da nossa absoluta incapacidade para compreender o mundo, poderíamos imaginá-la fruto de algum tipo de construção intelectual destinada a preencher o Nada, destinada a agitar o Vazio.

    A religião será, então, uma emanação da nossa impotência, da nossa incapacidade para encontrarmos justificação para sermos aquilo que somos (mesmo que não sejamos capazes de o compreender). 

    Estou convencido de que, sendo nós bichos como os outros, não existe o Nada, muito menos o Vazio; isto dispensa por completo Deus de ser o que imaginamos que Ele seja, o que decerto muito O aliviará. Isto porque Deus, a existir, não seria capaz de evitar esta mesma sensação de perda constante, esta angústia de não encontrar um sentido para o que quer que seja. Afinal de contas, não fomos nós criados à Sua imagem e semelhança?

quarta-feira, outubro 30, 2024

Enfartamento

     Hoje sinto-me incrivelmente farto desta merda toda. Talvez amanhã tenha perdido esta estranha sensação de vazio, de falta de motivação. Motivação para quê? - perguntarás tu, leitor amigo. Também não sei, respondo eu. Motivação para nada, motivação para tudo ou apenas para alguma coisa. Suspeito que é precisamente por não saber do que estou a falar que sinto esta espécie de náusea, esta espécie de vertigem, este desgosto em relação ao mundo. E a mim próprio.

    Sinto-me incrivelmente farto desta merda toda.