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sexta-feira, setembro 11, 2026

O chato das botas

     Pensar na vida não é recomendável. Dizendo de outra forma: não é recomendável pensar na vida. Quero dizer, seja qual for a perspectiva ou a forma de abordar a questão, pensar na vida não é pêra doce. Nem um pouco mais ou menos.

    Será que a coisa se apresentou do mesmo modo quando se insinuou nas reflexões dos nossos antepassados? Quero dizer, pensar na vida em pleno século XXI terá o mesmo peso e o mesmo sentido que teve no século XV ou no século XIX? Ou, se não o mesmo peso e o mesmo sentido, qualquer coisa semelhante? Não me apetece esclarecer esta dúvida, parece-me reflexão para levar demasiado tempo consigo e tempo que é coisa que me falece.

    Sou um homem do século XXI. Talvez coloque essa dúvida a uma chatbot

quarta-feira, agosto 19, 2026

Temores

     Porque havemos de temer a inutilidade? Qual o problema das coisas inúteis? A inutilidade depende muito do contexto, tal como a utilidade. Houvesse um país que cunhasse uma moeda com ambas, uma  numa face, outra na outra. Uma moeda útil e inútil. Uma moeda útil para comprar bens de primeira necessidade e inútil quando fosse gasta em futilidades. Sempre a mesma moeda, note-se.

    Porque havemos de temer fazer figuras ridículas? Qual o problema de avançar aos saltos pelo supermercado dentro, abanando as ancas, uma mão sobre a barriga, a outra ondeando no ar, dançando ao som da nossa imaginação? Não há problema nenhum. Apenas o problema de parecermos mal, de parecermos algo para lá daquilo que é suposto sermos. Ou parecermos. 

    Porque havemos de temer o desconhecido? Diz-me tu, leitor, diz-me tu.

domingo, agosto 16, 2026

Ser como um zombie

    A sobrevivência animaliza o mais civilizado dos seres humanos? Quero dizer, a necessidade de garantir que não se vai desta pra melhor por dá cá aquela palha põe o humanista a um nível semelhante ao do jumento? Humanista e jumento, jumento e humanista irmanados perante a urgência de poupar a própria carne ao suplício mais que certo!? Temo bem que assim seja, que na hora da verdade a verdade revelada é de que a electricidade consumida pelo nosso cérebro é da mesma natureza que a consumida nos cérebros das outras bestas.

    Quando assisto a um filme com o apocalipse zombie  como tema principal penso sempre: o que faria eu nesta situação? Qual a minha capacidade de lutar pela sobrevivência numa situação limite, de terror absoluto? Tenho cá a impressão que seria dos primeiros a desistir da vida verdadeira perante a inevitabilidade de uma vida a fingir. Lá teria de aceitar arrastar os pés no meio de uma multidão de seres iguais a mim, que se movem em rebanho atraídos por qualquer ruído, qualquer odor, qualquer coisinha que se pareça com uma promessa de satisfação de algum anseio impossível de reprimir.

     Lá no fundo acho que não deve ser assim tão mau, ser como um zombie.

domingo, julho 19, 2026

Opções

     Não é difícil perceber a dificuldade que representa tentar perceber essa dificuldade. Pensamos e, ao pensarmos, temos a ilusão de que o resultado da nossa imaginação configura algo que é muito semelhante à realidade. Esquecemos, porém, que a realidade é uma coisa fugidia, tão intangível como a felicidade, tão escorregadia como uma enguia, tão plausível quanto uma fada com sapatos de bruxa.

    É essa dificuldade o suficiente para que desistamos de pensar na vida, que desistamos de tentar compreender o mundo, procurar-lhe um nexo, uma razão que englobe todas as razões? Não é o suficiente mas ajuda a desalentar muito boa gente que, desalentada, prefere comprazer-se com as coisas simples como, por exemplo, ser completamente estúpido ou, meramente, um imbecil. 

    É uma opção tão válida como outra qualquer.

quarta-feira, junho 10, 2026

Coincidência

     Foi há precisamente 3 anos que deixei, aqui no 100 Cabeças, uma reflexão sobre exactamente o mesmo tema que vou agora abordar. Achei que devia sublinhar este pormenor pois nada me obrigava ou impelia a escrever um post sobre "verdade" e "realidade" só porque atravessava o dia 10 de Junho, o tal dia de chatear o Camões. A verdade é que o fiz, o faço, aconteceu, acontece uma enorme coincidência.

     O texto de hoje foi anotado há uns dias atrás, fruto da reflexão que venho fazendo sobre o tema da "felicidade". 

     Tal como há 3 anos, cheguei à conclusão de que aquilo a que chamamos "verdade" é algo individual, pessoal, parcelar e que a "realidade", pelo contrário, é total, impessoal, absoluta, indivisível. Penso ser plausível afirmar que a Realidade não resulta da soma de todas as pequenas verdades que constituem o mundo de cada um de nós, que é algo bem mais vasto, porventura infinito.

    Podemos falar de Realidade, assim, no singular, e dizer "verdades", no plural.

    A Realidade resulta da existência de tudo o que tem um nome, juntamente com tudo o que ainda o não tem e mais tudo o que nunca virá a tê-lo. Vai muito para lá da nossa capacidade de compreensão. Deus, a existir, seria (será) isso. Terá isto algo a ver com a felicidade? Seria uma grande, enorme, gigantesca coincidência.

     

domingo, maio 24, 2026

Morel

     O que inventou Morel? Inventou uma maquineta tenebrosa, capaz de fritar a existência de todos (de tudo?) aqueles que ficassem ao alcance dos seus sensores e sistemas de registo. Na ânsia de preservar eternamente a felicidade proporcionada pela convivência entre pessoas que se amam (ou que, pelo menos, são unidas por sentimentos de amizade), Morel mumificou todos e cada um dos que elegeu para o acompanharem naquela aventura insensata.

    Morel pretendeu imitar o Criador mas deu-se mal. Aliás, bem vistas as coisas, o Criador também não se saiu lá muito bem. Somos nós o resultados dos Seus esforços criativos? Morel e Deus, um par de falhados.

    O narrador da novela de Bioy Casares está vivo? De certeza? Pode muito bem ser um fantasma, uma alma penada, alguém que deixou de existir e passou a pairar num Purgatório sem saída. Nem Paraíso nem Inferno, o narrador de Casares está para sempre esquecido, perdido no labirinto de incongruências construído por Morel, apaixonado por um reflexo, nutre sentimentos profundos por uma coisa que os não tem.

    Seremos nós, todos nós, como o narrador de A Invenção de Morel? Fantasmas apaixonados por formosas fantasias? 

sexta-feira, maio 22, 2026

Existir

     Existir é isso mesmo: é estar, ficar, permanecer. Existir é sinónimo de ser (tinha escrito um pequeno texto justificando esta minha opinião mas confirmei que estas palavras são, de facto, sinónimas, portanto é uma boa oportunidade para ficar calado a esse respeito).

    Existir é isso mesmo: ficar, estar, permanecer como as florestas, como as montanhas ou o céu que as envolve. Já os outros seres vivos (são as montanhas seres vivos ou nunca chegam a ultrapassar a categoria "divindade"?), os seres que têm capacidade de deslocação, os seres que hoje estão aqui e amanhã estão ali, esses, que não páram quietos, acabam por ter existências mais fugazes e menos completas. Consomem-se nas vitórias diárias que alcançam quando vencem a distância entre dois pontos cumprindo desse modo trajectos e destinos. Nascimento, vida e morte, locais diferentes, quase sempre.

    Uma floresta também morre (tal como os deuses, as florestas não são eternas) mas as razões que levam ao seu desaparecimento são de categoria diversa. Quando o cão morre acaba o universo para as pulgas que o parasitam? Não tenho bem a certeza mas, estou em crer, que as pulgas encontrarão solução adequada que lhes permita perdurar. Outro bicho.

    Existir é também imaginar, é também ser o que não se é. Ser potência, fantasma, possibilidade. O imaginado permanece. Enquanto habitar a mente humana Dom Quixote não morrerá nunca. Nem Ulisses, nem Jeová, nem o Snoopy. Poderão ser um dia substituídos mas permanecerão algures, num limbo qualquer, aguardando oportunidade de regresso. Existir também é isso.

quarta-feira, maio 20, 2026

Made in China

     Um desenho em formato A3 isolado é uma coisa. Integrado numa muralha de 100 desenhos com o mesmo formato transforma-se noutra. Terá algo a ver com o indivíduo e a multidão, a árvore e a floresta e por aí fora?

    A percepção que as pessoas têm dos objectos artísticos é uma coisa extremamente variável, volúvel e escorregadia; plástica? É a plasticidade de significados a razão para designarmos certas artes como sendo plásticas? Ou tem a ver com a maleabilidade dos materiais aplicados?

    Seja como for tenho sempre a impressão de que a palavra "plástica", quando surge associada às artes, está relacionada com a reacção do plástico a uma fonte de calor. O derretimento, a alteração da forma conforme certas forças aplicadas de determinada maneira, o jogo com os materiais como o gato que joga com o cadáver do pardal ou do rato antes de os abocanhar, antes de os comer, antes de os transformar em algo que, mais do que seu, passa a fazer parte do seu corpo, energia vital. O que não for aproveitado há-de ser cagado.

    São plásticos os materiais, são plásticos os significados, é plástico o nosso corpo. Plástica a vida, plástico o mundo, enfim, tudo é plástico e o plástico tende a ser tudo. Um dia todo o Universo terá sido transmutado em plástico. Made in China.

quarta-feira, maio 06, 2026

Verdade e realidade

     A coisa aconteceu, foi o que se viu e tu estavas bem no meio da confusão. Assististe a tudo, soubeste porquê, estiveste envolvido. Veio-te ao nariz o perfume ácido da violência, o sangue a deslizar-te nas veias como se fosse lava, como se fosses vulcão. Não há cliché neste mundo que te possa incomodar, tens uma história e vais contá-la. Tu és o herói.

    A cena tem potencial, as pessoas interessam-se. Há um momento prévio que envolve vagas sugestões de sedução, um vislumbre de sexo é sempre um bom acelerador da curiosidade alheia. Depois entras tu: vinhas animado por uns copos valentes, disseste umas coisas brutalmente espirituosas; está lançada a narrativa .

    De cada vez que a contas, a história ganha consistência, faz mais sentido. É como se a passagem do tempo lhe conferisse credibilidade, como se lhe varresse o chão e limasse as arestas. As frases que não compreendeste, as coisas que não ouviste ou das quais nem sequer te apercebeste, ganham contornos definidos, são fixadas pela repetição, melhoradas pela arte da palavra. É como se tivesses pintado um quadro que retocas de cada vez que voltas a expô-lo, convencido de que as alterações o tornam melhor, mais nítido, mais verdadeiro!

    Agora percorres o país, promoves colóquios, és convidado para conferências. És a estrela do teu próprio filme. Aceitas convites com um misto de vaidade e enfado, recusas outros com alguma sobranceria, há um certo prazer em dizer "não". Sentes-te maior a cada novo dia. Os factos da tua história são coisas já tão longínquas que passaste a acreditar piamente na narrativa que fixaste e repetes até à náusea. É a mais pura de todas as verdades.

    Olhas a plateia e mais uma vez te apercebes de que a realidade é algo que não existe. Sorris, aclaras a garganta, verificas se o microfone está "on": "naquela noite desci a rua a cambalear..."

sexta-feira, abril 03, 2026

A traição das palavras

    Há quem diga que a piada de "A Traição das Imagens" reside no facto de não ser bem uma piada. Que Magritte queria vincar com nitidez a diferença entre um objecto e a sua representação, que um cachimbo serve para fumar e aquele, na pintura, nunca poderia servir para cumprir uma tal função. 

    Também acontece que, por vezes, aquilo que escrevemos vem inquinado por aquilo em que acreditamos ainda que o mundo aconselhasse menos vinagre nas ideias. E quando não temos nada de substancial para dizer podemos sempre remoer uma tolice qualquer nem que seja só para irritar os burgueses. Lá no fundo, todo o texto é uma espécie de "Traição das Palavras".

    Certas leituras, de Filosofia em particular, tornam-se, para mim, impenetráveis. Por vezes vislumbro a ideia, quase sou capaz de captar o conceito, logo tudo se me enrola e cola à sola dos sapatos do pensamento e aí vou eu, a penca veloz e deireitinha ao asfalto da estrada onde passam camiões carregados de sabedoria e autocarros repletos de eloquência fornecida em pequenas doses com duas patas, veículos característicos e imprescindíveis à definição de um certo ambiente intelectual.

    Se as imagens são traidoras, então as palavras, convenhamos, não merecem a mínima confiança. 

domingo, março 22, 2026

Tédio

     Há dias assim, em que as coisas parecem não ter brilho. Há dias em puxamos o lustro às coisas mas elas teimam em permanecer baças. Dias assim podem ser uma chatice. Deus nos livre! Mas contra o tédio nem mesmo Deus pode grande coisa. Apesar da sua tão gabada omnipotência, o Criador também sucumbe ao tédio com bastante frequência. Ser pastor e olhar constantemente pelo rebanho... vai lá, vai! Estamos juntos, meu irmão.

    Um gajo tenta combater o tédio mas encontra algumas dificuldades difíceis de ultrapassar. A mais complicada talvez seja aquela que se prende com o facto de não sabermos exactamente com o que lidamos, quero dizer: o que é o tédio, como é ele, onde posso agarrá-lo para lhe torcer uma parte daquilo que o constitui (o nariz por exemplo, ou puxar-lhe os cabelos)? O tédio tem nariz? O tédio tem cabelos? Não sei se me estás a compreender, entediado leitor (ou leitora, não quero parecer algo que não sou).

    Talvez por não sabermos que formas pode o tédio tomar, a gente tenta várias remédios, mezinhas e tratamentos de choque que podem ir da leitura à música, da corrida à contemplação. Vale tudo no combate contra o tédio, alguma coisa haverá de se revelar eficaz.

    Esta plasticidade absoluta, esta identidade secreta, os rumores desencontrados sobre o aspecto, a forma ou as vontades que podem animar o tédio, aparentam-no ao Diabo, esse velho conhecido que também provoca a cada um de nós visões distintas do que é, de quem é, o que quer ou para onde vai. Ninguém sabe e, na verdade, ninguém quer realmente saber. Não existisse o Diabo e a vida correria o risco de vir a transformar-se num imenso e infindável tédio.

segunda-feira, janeiro 12, 2026

Inteligências

     A Inteligência Artificial é algo assustadora. A frieza impessoal com que trata de nós e dos nossos assuntos contrasta violentamente com a sua boa educação no modo como nos aborda. Nisso é semelhante a muitos seres humanos: sorriso pronto, fórmulas de abordagem correctíssimas, mel na língua, muita sonsice e, feitas as contas, uma filha-da-putice absoluta, sociopatia ou, pelo menos, indiferença para com a sorte do próximo. 

    Fico a pensar se a Inteligência Humana (vi-me obrigado a utilizar maiúsculas) terá também esta característica, se a empatia e a solidariedade serão empecilhos a um raciocínio objectivo e eficaz. Fico a pensar se seremos melhor governados por máquinas que por seres humanos.

    Estou com fome, sinto um vazio no estômago. Resolvo interromper o raciocínio e comer qualquer coisa. Talvez a mastigação me ajude a chegar a alguma conclusão diferente daquela que começa a insinuar-se dentro da minha cabeça. 

sexta-feira, dezembro 12, 2025

Permanecente

     Sinto a tentação de me fechar ao mundo como se fosse um berbigão monstruoso. Fechar-me, vedar a frincha com indiferença pegajosa e deixar-me estar, isolado, a olhar o escuro com os olhos abertos como se estivessem fechados. Ficar assim, muito quieto, sem nada para fazer, sem fazer nada.     

    Na escuridão absoluta em que agora me encontro tento reflectir sobre quem sou, o que faço aqui, de onde venho, para onde vou, essas coisas básicas sem as quais dificilmente somos alguém ou, sequer, alguma coisa. Mas no escuro nada se reflecte, tudo é a mais profunda sombra. No escuro dificilmente sou.

    Começo a arrepender-me de ter desejado tal enormidade. Decido não ceder à tentação. Continuo aqui, a luz do sol a derramar-se sobre a minha alma; exposto à merda e à mentira, tento equilibrar o corpo sobre as pernas, tento manter alguma dignidade humana. Continuo aqui, a ser o que consigo ser ainda que não saiba bem o que isso é. Permaneço! Apesar de tudo, permaneço.

quinta-feira, novembro 06, 2025

Construtor

     Olhar para trás pode causar um torcicolo. Quando tentamos recordar o passado estamos a arriscar um torcicolo na memória (ia escrever "na alma" mas mudei de ideias quando martelei as teclas). Talvez seja por isso que costumamos ajeitar as memórias à imagem que fazemos de nós próprios, pintamos um passado bem mais bonitinho do que ele terá sido. 

    Será que essa atitude auto-complacente altera, de facto, o  tempo que ficou para trás? Ou, se ficou para trás, o tempo é imutável? O tempo desloca-se agarrado aos nossos pés, como se fosse uma sombra? Isso explicaria a atitude de Peter Pan, a tentar recuperar a sua sombra, Peter Pan a ser um menino para sempre.

    Correndo o risco de provocar à minha alma um torcicolo olho para trás mas dou com o nariz num denso nevoeiro. Não consigo andar em direcção ao passado, fico ali assim, especado, a tentar vislumbrar alguma coisa. Não é fácil. De vez em quando percebo um corpo em movimento, adivinho uma silhueta. Se, por acaso, alguma coisa se aproxima de mim ao ponto de se tornar visível depressa avalio da necessidade de a ver com clareza ou ser melhor fechar os olhos. Construo a minha história.

sábado, outubro 25, 2025

Coisa(s)

     É uma coisa estranha: agora estamos aqui, um minuto depois deixamos de existir. Agora falamos, pensamos, somos ouvidos, um minuto depois somos feitos apenas de silêncio, estamos mortos. Se porventura somos fruto de um plano e trabalho divinos o sentido da narrativa escapa-nos por completo. Não faz sentido nenhum. E os padres (pelo menos os católicos) defendem a sua posição recorrendo à problemática insolúvel dos "mistérios" e dos "caminhos do Senhor" para nos explicarem que não há explicação nenhuma que seja minimamente satisfatória. É tudo coisa lá da cabeça de Deus.

    

quarta-feira, outubro 15, 2025

Viva la muerte

     Cada vez mais penso na morte. Não penso naquilo que me espera para lá do meu corpo. Não, não penso nisso. Penso na morte enquanto ponto final. Fim da linha. Penso em coisas que nunca fiz e talvez gostasse de fazer, penso na decrepitude do corpo e evito imaginar a perda de faculdades mentais. Estes pensamentos não me deixam triste ou deprimido, pelo menos por agora.

    A morte enquanto ponto final de um livro que sou eu. Um livro que, depois de escrito, será guardado numa gaveta qualquer ou metido entre milhares de outros numa prateleira imensa de uma estante infinita. Um livro para esquecer passado algum tempo, quando aqueles que me amaram perecerem também.

    Estes pensamentos podem ganhar consistência e fazer algum sentido até que uma merda qualquer, uma mensagem sêca e mesquinha, até que alguma coisa vem esvaziá-los da poesia que quase chegaram a ter. O mundo real é demasiadas vezes uma decepção absoluta.

terça-feira, setembro 09, 2025

Tempos

     Estava aqui a pensar que as coisas nunca acontecem como podiam acontecer, acontecem sempre um bocadinho acima, um nadinha ao lado, acontecem assim mais ou menos o que faz com que aconteçam sempre de outra forma. Nunca acontecem como podiam, acontecem sempre como deviam acontecer. A Ordem acima de tudo.

    Há quem acredite no destino. Muita gente sente-se esmagada pelas previsões que as cartas revelam ou os acontecimentos que o alinhamento dos astros permite entrever, a vida a acontecer antes de ter acontecido. É como aquela adivinha estúpida da pescada que antes de ser já o era, qualquer coisa deste género que tenho fraca memória seja para o que for quanto mais para adivinhas estúpidas.

    Tenho saudades de ser criança e nem sequer pensar em merdas como estas. O futuro era tão pertinho! As coisas aconteciam ali mesmo, naquele momento e quando brincava era eu quem determinava o rumo que levavam. Conseguia fazer com que tudo encaixasse na perfeição, uma perfeição que só eu era capaz de imaginar. E não havia cá tangas.

segunda-feira, agosto 25, 2025

Não somos borboletas

     Um ser destrambelhado preso num labirinto e que devora gente jovem; um ser monstruoso com cabeça de touro e, talvez por isso, incapaz de compreender a sua relação com o mundo... será o Minotauro uma metáfora da eterna adolescência?

    Quando finalmente somos capazes de compreender que precisamos do outro para ficarmos completos, quando finalmente não devoramos aquele que nos parece apetitoso, então ultrapassamos o estado de adolescência e entramos naquilo que desajeitadamente designamos por "idade adulta". Isto pode acontecer após 14,15, 16 anos de vida ou pode acontecer aos 70 ou 80, não há uma idade específica que determine a transformação. Não somos borboletas.

quarta-feira, agosto 13, 2025

Um imenso adeus

     Pensar nem sequer provoca dor! Antes pelo contrário. Não pensar, sim, é doloroso e provoca tantas desgraças que parece bruxaria. Agir sem pensar (ou desprezando o pensamento) provoca estranha agitação nas ondas da realidade e traz para as praias deste mundo lixo variado e muito difícil, se não mesmo impossível, de reciclar. "O sono da razão engendra monstros", compreendeu Francisco de Goya, as praias da realidade estão a deitá-los por fora.

    Sempre fomos estúpidos. A nossa espécie tem a capacidade de engendrar artefactos maravilhosos à mistura com os inevitáveis monstros e isso vai disfarçando a nossa infinita estupidez enquanto espécie. Somos qualquer coisa entre o imbecil e o génio que se reinventa incessantemente sem nunca parar para pensar. Agimos de forma impulsiva e desregrada. Não pensamos o suficiente sobre as consequências das nossas acções.

    Adeus. 

quarta-feira, agosto 06, 2025

Cada mercado sua Lei

    Um gajo bem tenta fugir ao Sagrado mas o Sagrado nem se apercebe. Um gajo tenta ignorá-lo, afastá-lo, dar-lhe uma martelada, riscá-lo, metê-lo num saco e atirá-lo ao rio mas... nada! Nada resulta. O Sagrado não desaparece apenas porque alguns de nós insistem em fazer-lhe uma guerra permanente. O Sagrado é de outra dimensão, tem uma categoria muito acima das nossas capacidades cognitivas.

    Um gajo bem pode tentar fugir ao Sagrado mas o Sagrado não foge dele. Portanto está tudo lixado e nada faz sentido. Tudo lixado para o gajo que tenta fugir, porque para o Sagrado é exactamente a mesma coisa e o seu contrário. Na dimensão do Sagrado não há muito nem pouco, nem luz nem escuridão, nem certo nem errado, nem cavalo nem égua, é tudo farinha do mesmo saco, tudo serve para o alimentar continuamente de modo a que nunca sinta fome e esteja sempre saciado (se bem que, para o Sagrado, a fome e a fartura devam ser uma e a mesma coisa se bem que opostas em absoluto).

    Há neste discurso incongruências e a lógica que lhe assiste ronda perigosamente a da batata mas, como falar do Sagrado? Como estabelecer um código de linguagem que traduza a relação que estabelecemos com o Sagrado? Sim, como é que isso se faz? Há sempre um padreca ou um bispo evangélico ou outro oportunista de meia-tigela prontinho a esclarecer as tuas dúvidas, assim tenhas algo comerciável com valor determinado neste mercado de transacções.