domingo, fevereiro 01, 2026

Um sonho

     Sempre te digo que se tivermos de morrer morremos. Mas se isso não chegar a ser necessário voto para que continuemos por aqui, mesmo que seja só a meter nojo. Não interessa. A verdade é que não me sinto preparado para grandes surpresas e nunca se sabe o que pode acontecer depois de estarmos mortos. 

    A minha esperança, se queres que seja sincero a 100%, é que não aconteça nada. Que um gajo pife e depois... silêncio. Silêncio infinito. Nada! Talvez seja o melhor mas, nunca se sabe, não é verdade? 

    Esta noite sonhei com os meus pais e fiquei com a sensação de ter estado com eles, efectivamente. Estive sentado entre eles, calcei umas meias vermelhas com antiderrapante à minha mãe. Que me lembre ela nunca teve nada semelhante. Talvez agora tenha uma meias assim, talvez hoje as tenha calçadas, talvez eu lhas tenha calçado de facto. Isto está a perturbar-me um pouco.

    Vou para de escrever. 

sexta-feira, janeiro 30, 2026

Percepções

    Altura, largura e profundidade ajudam à definição de um objecto. Quando estou a pintar ou a desenhar confronto-me com outro conjunto de variáveis, nessas ocasiões as 3 dimensões passam a ser: volume, distância e movimento. São dimensões espaciais, que implicam a deslocação de objectos no espaço e o próprio espaço, dimensões menos mensuráveis, menos concretas, mais dificilmente representáveis. 

    Como normalmente não tenho de me preocupar com o rigor da representação posso bem inventar uma treta qualquer que tenha consistência suficiente e não pareça demasiado parva. Se bem que isto não seja treta, antes pelo contrário, eu sei que pode soar como tal.

    Feitas as contas, o que importa é a coerência interna do objecto plástico, importa que tudo faça sentido, que cada elemento ganhe o protagonismo que lhe cabe no conjunto e na medida exacta da minha sensibilidade. Ou da tua, caso acredites naquilo que fica registado aí atrás e no que vou escrever já a seguir. 

    A percepção da realidade, a percepção do espaço, das cores, das formas, dificilmente serão exactamente as mesmas de mim para ti e para o outro. Vivemos num espaço comum que percepcionamos e interpretamos de diferentes maneiras. "O mundo de cada um é os olhos que tem", citando Saramago. 

    Nem todos registamos as nossas impressões através da arte mas aí está ela para nos ajudar compreender um pouco melhor quem somos, o que somos, o que fazemos aqui. 

quinta-feira, janeiro 29, 2026

"Realidade"

     Um tipo esgueira-se para aqui, a contemplar o Tempo pelo lado de fora da vidraça. As cenas desenrolam-se com as personagens enquadradas na totalidade, nunca falta um braço, nem falta uma perna, nunca uma personagem surge em plano americano, esse plano que nos corta as pernas.

    Há muitas imagens, recordações aparentemente distintas mas um tipo repara que certos gestos se repetem. Não há som ambiente, tudo é amalgamado pelo som que te entra directinho nos ouvidos, uma torrente de música sincopada em altos berros. É assim que recordas o passado, É assim que perspectivas o futuro.

    Um tipo não consegue manter-se deste lado por muito tempo. Chega sempre o momento em que tem de ir-se embora, regressar ao espaço que se convencionou designar por "realidade". 

quarta-feira, janeiro 28, 2026

Contacto

     Os robots de Inteligência Artificial (ou "com" IA?) personificam (ahahahah) o burocrata perfeito. Ao burocrata de carne e osso ainda podemos tentar seduzir, podemos apelar a uma réstia de humanidade que possa animá-lo a espaços, enfim, imaginamos que aquela pessoa trombuda e aparentemente inacessível possa, apesar de tudo, ser uma pessoa. E tentamos a nossa sorte. Com um robot o caso muda de figura.

    O robot é, de facto, indiferente aos nossos esgares e aos nossos suspiros, é absolutamente insensível. Não tem nem compreende emoções, é estúpido e obstinado como só uma coisa pode ser: obstinado como uma pedra ou como uma porta ou como um martelo. Com um robot não temos a mínima hipótese: se ele decide banir-nos, estamos banidos, se ele decide que somos merecedores de castigo, estamos castigados. Nada a fazer.

    Quando ele nos responde com aparentes bons modos e correcção absoluta é preciso ver que está apenas a macaquear os bons modos e a correcção absoluta que absorve da informação que flutua na rede e que ele sintetiza em milionésimos de segundo: "bom dia" ou "obrigado" dito ou escrito por um robot tem a consistência de uma nuvem e a sinceridade de uma bosta de vaca.

sexta-feira, janeiro 23, 2026

Adeus

     Sim, pois é. Já me tinhas dito. Olha, se por acaso não tiveres tempo avisa. Pode ser que vá lá eu. Se não der também não há problema, a coisa fica mesmo assim e ninguém se chateia que não é caso para tanto. 

    Quem, eu!? Deves estar a brincar comigo. Ainda tu não tinhas largado a fralda e já eu lá ia quase todos os dias. Ai não acreditas, está bem, problema teu. Isto não é uma questão de Fé, por isso... está bem abelha!

    E pronto, vou andando que já são horas. O jantar não se faz sozinho, não é verdade? E também precisa de alguém que o coma. Ahahah. Até amanhã, ó palhaço. Cumprimentos à tua mãe que mando eu. 

    Adeus.

quinta-feira, janeiro 22, 2026

O Apocalipse dos Passarinhos

     "A escuridão era total, apenas se viam as estrelas e se ouviam passarinhos. Julguei que era o Apocalipse." Foi deste modo que a minha aluna Geovanna descreveu, na aula, a sua experiência pessoal durante o Apagão que deixou a Península Ibérica às escuras aqui há uns meses (não consigo recordar quando foi exactamente).

    A ideia é engraçada, ficámos a pensar no Apocalipse dos Passarinhos. 

Sonhar que sonho

     A realidade parece capaz de abafar os sonhos que pretendo sonhar. Talvez os sonhos não sejam dóceis ao ponto de se deixarem sonhar quando assim o desejamos. Talvez a realidade seja, afinal, um sonho disfarçado de outra coisa. Talvez me sonhe a mim próprio. Posso ser uma anémona, um colibri ou outra merda qualquer e não ser capaz de perceber que sonhos posso ter por ser uma coisa dessas. Talvez eu não saiba o que sou, quanto mais saber quem sou!

    Um barquito de papel vai rua abaixo, levado no rio temporário que a tempestade gerou entre o asfalto e a berma do passeio. Não chegará ao fim do caminho que agora parece percorrer. Ou porque se desfaz antes de lá chegar ou porque se lhe acaba o rio. Este barquito tem um futuro curto.

sexta-feira, janeiro 16, 2026

Domingo que vem

     No próximo Domingo iremos votar para a eleição do Presidente da República Portuguesa, o nosso muito querido e eventualmente muito amado PRP, sigla que no Processo Revolucionário Em Curso, o célebre PREC do pós-25 de Abril, significava Partido Revolucionário do Proletariado (a que se juntava um "BR" de Brigadas Revolucionárias).

    Desta vez há mais candidatos do que tem sido habitual e, ainda por cima, fazendo fé nas sondagens, há 5 deles com capacidade para alcançarem uma segunda volta que, tudo indica, é absolutamente inevitável. Uma espécie de extravagância que só aconteceu uma vez, em 1986, quando Mário Soares descobriu que era fixe.

    Portugal corre o risco de vir a ter um presidente de direita em convivência com um Parlamento por ela dominado em maioria. Se esse presidente direitista vier a sentar o "sim senhor" no cadeirão, é provável que a facharia sinta peito feito para propor e levar por diante uma revisão constitucional capaz de pôr os palonços que os elegeram a pensar que, se calhar, não terá sido lá muito boa ideia.

    Pessoalmente tenho vindo a tentar convencer-me de que o meu voto poderá ser importante. Eventualmente será importante mas convicto... dificilmente será convicto.