quinta-feira, setembro 24, 2026

Metáforas baratuchas

     Termos noção do espaço que ocupamos no universo é tarefa dura. Alguns de nós encontram obstáculos dificilmente transponíveis quando se trata de encarar com um mínimo de rigor aquilo que somos, quando avaliados como elementos isolados do colectivo animal a que pertencemos. Há hierarquias diferenciadas, aplicáveis conforme as situações.

    Um gajo pode ser a maior vedeta do mundo mas, no funeral de um pai dificilmente terá primazia no coração do filho do defunto quando colocado numa fila constituída pela mãe, pela irmã, pela tia (que é peixeira) ou pelo tio. Nessa hierarquia o vedetismo embaça, o estatuto  reordena-se, o mundo é outro. A vedeta terá de perceber que não é dela aquele palco. No mundo real os corações batem de facto.

    O passar do tempo coloca curvas apertadas no caminho do auto-conhecimento. Nem todos temos mãozinhas para segurar o volante e manter o veículo da nossa existência a rolar no asfalto da vida sem que sofra sobressaltos. Há pessoal que despenca a cada curva e se esbardalha contra tudo o que seja obstáculo. São normalmente pessoas que se distraem com o reflexo da própria testa no retrovisor. A verdade é que há muitos acidentes nessa estrada. Talvez demasiados.

terça-feira, setembro 22, 2026

Lá vai o Jorge

     Estava eu ontem a reflectir de forma um tanto parva sobre a posteridade e eis que faleceu o Jorge Palma. Conhecia-o e estive várias vezes com ele. Um gajo mesmo fixe, um daqueles gajos de quem nos tornamos amigos por ser tão fácil. E faleceu ontem, vítima de paragem cardio-respiratória. E hoje todo o país presta merecida homenagem ao Jorge. E que fez ele para que isso aconteça? A resposta é simples e cristalina: foi o Jorge. Foi isso que ele fez para alcançar a posteridade.

    Até um dia destes, pá. 

segunda-feira, setembro 21, 2026

Promessas desejadas

     Pode um gajo preocupar-se com aquilo que os outros venham a pensar a seu respeito no dia em que patinar lá para o outro lado? Deve um gajo pensar em manter uma certa postura, cultivar aquela imagem, querer ser melhor que a galinha da vizinha, tendo em conta a posteridade?

    Verdade seja dita, estando a fazer tijolo tanto se me dará que pensem bem de mim ou mal ou mais ou menos. Esticado o pernil passo a ser banquete para minhocas ou coisa que as valha. Perdida a consciência, perdida a sensibilidade, perdida a vida, em suma, que incómodo poderei sofrer por me ter peidado a despropósito ou ter mandado aquela velhinha para a puta que a pariu? Incómodo népias!

    Há, no entanto, uma hipótese que começou a ganhar forma dentro da minha cabeça vai para coisa de um quarto de hora, talvez mais. E se a morte for a passagem de um estado de consciência para outro, no qual manteremos presentes as coisas que dissemos, as coisas que fizemos e pensámos enquanto para aqui andámos a fazer de conta que somos? Ou seja: e se o peido e o insulto à velhinha não forem apagados, se, antes pelo contrário, forem lembrados e cobrados?

    Penso que este tipo de coisas seja algo que um tipo imagina à medida que vai avançando em direcção ao tal dia. Um tipo começa a sentir saudades da vida ainda ela promete oferecer-lhe coisas que provavelmente não tem. Um tipo engana-se a si próprio e deseja ardentemente que a mentira, por mais estapafúrdia que pareça ser, tenha lá dentro de si uma sombrazinha de verdade.

domingo, setembro 20, 2026

Um livro sonhado

     Tenho meia-dúzia de boas histórias que posso contar (presunção?). São histórias de algum modo relacionadas com Artes Plásticas (escrever estas palavras com maiúsculas causa-me uma certa comichão no céu da boca). Já chega de parêntesis! 

    Desde a minha famosa teoria sobre A Fonte de Duchamp até à visão dantesca de uma sala repleta de esculturas gregas no Museu do Louvre ou a constatação de que muita gente olha sem ver, penso que poderei narrar factos, invenções e maravilhas com alguma leveza, escrevendo textos que não pesem na caixa craniana do leitor ocasional.

    Nem eu sou um erudito, nem o meu eventual leitor será versado em grego antigo ou aramaico. É um sonho que vai ganhando contornos cada vez mais definidos no meu imaginário. Serei capaz de alguma vez me atrever a fazer tal coisa? Temo que sim. Haja lata e falta de preguiça. 

segunda-feira, setembro 14, 2026

Momento exacto

     Entre uma notícia e a próxima, entre uma angústia nova e outra, velha, eis que os obituários marcam a passagem do tempo na sua cadência implacável. Morre mais um, falece mais outra. Excepto naqueles casos em que as pessoas são levadas por alguma doença repentina ou por acidente imprevisto, a morte vai-se encarregando de cumprir a função que lhe está destinada com a eficácia e a frieza dos funcionários competentíssimos. Deus só pode estar satisfeito com a sua produtividade.

    Um gajo vai envelhecendo. Cai o cabelo, cresce a barriga, umas coisas compensam outras. Instala-se uma certa saudade (não sei não é tristeza). Fico com a sensação de que poderia ter feito muito mais coisas, que poderia ter sido muito diferente, a minha vida, eu próprio, tudo muito diferente. Depois penso que se tivesse vivido essa diferença, essa vida paralela, talvez estivesse agora a suspirar por esta. Sim, porque quando pensamos que as coisas poderiam ter corrido de outra maneira, que poderíamos ter vivido uma vida que não esta, não pensamos que, estaríamos, eventualmente, a sonhar com esta que vivemos agora. É confuso? Não me parece.

    Imagino que nos vamos habituando à presença da morte. Cada vez mais vão pessoas que conhecemos mais ou menos bem, pessoas que tinham a nossa idade (era um rapaz tão novo), os nossos mais velhos. Vão morrendo um atrás do outro, a morte a cumprir o plano da burocracia da vida; este morreu por isto, aquele foi por aquilo e nós ali sentados, na fila, sabemos que haverá de chegar a nossa hora. O nosso minuto. Melhor, haverá de chegar o micro segundo, aquele momento exacto em que vamos desta pra melhor (esperamos nós que seja pra melhor).

sexta-feira, setembro 11, 2026

O chato das botas

     Pensar na vida não é recomendável. Dizendo de outra forma: não é recomendável pensar na vida. Quero dizer, seja qual for a perspectiva ou a forma de abordar a questão, pensar na vida não é pêra doce. Nem um pouco mais ou menos.

    Será que a coisa se apresentou do mesmo modo quando se insinuou nas reflexões dos nossos antepassados? Quero dizer, pensar na vida em pleno século XXI terá o mesmo peso e o mesmo sentido que teve no século XV ou no século XIX? Ou, se não o mesmo peso e o mesmo sentido, qualquer coisa semelhante? Não me apetece esclarecer esta dúvida, parece-me reflexão para levar demasiado tempo consigo e tempo que é coisa que me falece.

    Sou um homem do século XXI. Talvez coloque essa dúvida a uma chatbot. 

quinta-feira, setembro 10, 2026

Ai, caramba!

     Não te suicides já, espera mais um bocado. Pode ser que aconteça o que não é para acontecer, pode ser que o destino tropece. Não te suicides ainda, há esperança. A esperança pode morrer mas só quando já não houver quem a alimente. Depois de a esperança falecer nem deus resta. Nada.