segunda-feira, agosto 03, 2026

Suspense

     Descansado, lia o jornal encostado a um poste de iluminação. O facto de ser meio-dia não tem nada de relevante para a narrativa que segue nas linhas abaixo. A iluminação pública seria apenas ligada lá mais para o fim do dia, estar encostado àquele poste ou a um muro ou a um marco de correio nas imediações não alteraria em nada o desenrolar dos acontecimentos.

    O que se passou foi que um automóvel seguia em velocidade moderada no asfalto da rua pouco movimentada e uma abelha desorientada voava por ali, desesperadamente, em busca da sua colmeia. Pouco depois a abelha iria entrar pela janela aberta do automóvel (fazia um certo calor) provocando uma aflição momentânea no condutor. Mais adiante lá estava o nosso leitor de jornais, encostado ao poste de iluminação. 

domingo, agosto 02, 2026

Objectivo de vida

    Sou um gajo simples. Quero dizer, a minha inteligência não é brilhante, o que penso não ofusca, o que digo não deslumbra. Apesar da minha fraca capacidade para ler o mundo sinto uma ambição talvez estranha por não estar, aparentemente, de acordo com as minhas capacidades individuais. Quero poder, desejo ser um homem poderoso e, aviso já, tudo farei para alcançar este objectivo pois nada nem ninguém poderá jamais privar-me do meu sonho. Eu quero, eu posso! 

    Quem disse que um homem, para ser poderoso, precisa de alguma qualidade extraordinária para lá de uma ambição desmesurada? O que interessa o saber, o que interessa a cultura,  que valor poderá ter a compaixão ou o pensamento equilibrado, a noção de justiça... tudo lixo, patranhas, empecilhos que servem apenas para travar a caminhada dos homens indomáveis em direcção à grandeza a que têm direito! Ambição e capacidade de sedução. Carisma. Dinheiro. Eu quero, eu posso!

    Tudo isto e um bom cabeleireiro. 


quinta-feira, julho 30, 2026

Uma árvore

     Não é que desejasse estar morto mas, dadas as circunstâncias, estar vivo era condição que não o deixava particularmente feliz. "Deus fez-nos imperfeitos," - pensou - "entre a vida e a morte deveríamos dispor de uma terceira opção, uma espécie de estado de hibernação, como têm outros bichos." A ideia pareceu-lhe tão extraordinária que não demorou a registá-la no caderninho que sempre transportava no bolso das calças. Aquilo animou-o um pouco mas não o suficiente para que pudesse desfrutar em pleno do sol, da brisa que dançava nas árvores, nem do cão que continuamente lhe vinha depositar aos pés a bola de ténis que maquinalmente atirava uma e outra vez para não tão longe quanto isso.

    "Ainda não tinha reparado naquela árvore em forma de avião." Levantou-se, deu dois passos em frente e a árvore desapareceu. Estacou, siderado. O cão saltitava em redor do homem transformado em estátua, a bola de ténis bem presa entre os dentes, póin, póin, póin, parecia um boneco mecânico. Era como se a árvore tivesse voado dali para fora. Era como se a árvore se tivesse eclipsado por magia. Fosse o que fosse, algo acontecera que ultrapassava completamente as capacidades perceptivas daquele homem deprimido, ali especado de boca aberta, a fitar um ponto indefinido. "Deus me valha."

    O cão acabou por desistir dos saltos e está agora sentado a olhar para o homem. Ambos estão perfeitamente estáticos (o cão nem sequer abana a cauda). Um e outro tentando compreender o que se passa. Como sempre, de resto. As respostas não parecem ser satisfatórias. "Pai Nosso que estais no céu..."

quarta-feira, julho 29, 2026

A dívida

     Ouço conversas verdadeiramente estúpidas. Conversas que exalam uma manhosice pestilenta; conversas de tal modo cretinas que expõem com absoluta limpidez a ignorância de quem as mantém. Há naquilo alguma malvadez.

    A coisa desenrola-se na mesa atrás de mim, na esplanada. Por muito que não queira ouvir não consigo evitá-lo. "Era construir aqui uma mesquita para os talibans andarem aí de cu para o ar." Entretanto passa o vizinho que usa um turbante e conduz um TVDE. Com ele vêm as suas duas filhas, não terão menos de 3 nem mais de 5 anos. As crianças dirigem-se à mesa atrás de mim e o pançudo vermelhusco que perorara sobre a mesquita e os talibans sorri-lhes e faz-lhes festinhas. As crianças vão ter com o pai. Parecem felizes. Deus saberá o que vai na cabeça do homem sentado atrás de mim, eu evito pensar muito no assunto.

    A conversa prossegue nas minhas costas; desligo para escrever. 

    As pessoas ouvem umas coisas que compreendem apenas vagamente. Mais tarde, quando tentam reproduzir a informação recolhida, a tarefa revela-se demasiado complexa. Aquilo que parecia escrito na pedra transforma-se em vagas interjeições, reduz-se a grunhidos porcinos, perde-se ou confunde-se o significado da coisa. Restou uma espécie de papa comunicacional. E assim se vai disseminando a mais profunda grunhice. 

    Fico na dúvida se os cretinos têm consciência da sua cretinice. Talvez não ou, em caso afirmativo - eles sabem que são estúpidos e ignorantes - se é isso que os leva a serem tão agressivos para com tudo o que lhes cheire a intelectualidade? Será que assistimos a uma espécie de vingança de um ressentimento acumulado ao longo de séculos por milhões de cretinos, estúpidos e imbecis, que pagam a dívida em maldade e violência?

terça-feira, julho 28, 2026

El-rei Cretino

     Haverá muitas coisas estranhas na crosta da Terra mas poucas serão tão prejudiciais quanto uma pessoa estúpida convencida de que é muito inteligente. Normalmente são pessoas extraordinariamente afirmativas que se tornam com frequência agressivas; quando expõem os frutos da sua imensa sabedoria. A cretinice é óbvia mas não para este género de seres vivos. Para eles a cretinice é alimento, é modo de vida.

    Se nunca chegarem a lugares que lhes permitam o exercício do poder, não passarão daquilo que chamamos de "pobres diabos" ou, muito simplesmente, "imbecis". Quando, por qualquer razão, ascendem a lugares de liderança está o caldo entornado.

    O líder cretino vinga-se de todos os pretensiosos, intelectuais da treta, pessoas armadas em muito conhecedoras, vai tudo raso. Agora chegou a verdade verdadeira, a verdade inquestionável, chegou a lei absoluta e, o estúpido, é o seu guardião. Ele é polícia, juiz e verdugo. Põe-te a pau. O melhor será fazeres de conta que és também um cretino completo, um refinado imbecil. 

    Quanto maior a ignorância que vieres a manifestar mais próximo estarás de agradar ao poder. Isso é bom. O contrário é mau. É preto e é branco, o mundo simplifica-se de forma estonteante. Podes sempre fingir que és feliz assim. Pelo menos vais continuar inteiro durante algum tempo.

domingo, julho 26, 2026

Toc, toc

     A cor da porta era tão indefinida quanto a vontade que tinha de entrar. Levantou o punho direito e bateu. Toc, toc. Soltou-se um pouco de tinta ressequida que esvoaçou no espaço silencioso. Seguiu a lenta queda com um suspiro que lhe encheu e esvaziou o peito. Aguardou. Esticou as abas do casaco e endireitou as costas com um gesto que lhe puxou a cabeça para trás e para o alto. Sabia bem a imagem que pretendia projectar. Mas... nada. O silêncio prolongava-se de uma forma embaraçosa. Devia bater novamente, aguardar mais um pouco?

    Rodou os olhos furtivos. Para um lado. Para o outro. Ninguém, nada, nem sequer alguma coisa. Olhou as biqueiras dos sapatos e reparou que o chão estava repleto de pedaços de tinta. Quantas pessoas antes dele haviam também batido àquela porta? Os olhos saltaram-lhe fixando-se imediatamente num ponto indeterminado, dois palmos defronte ao seu nariz. Sentiu um calor incomodativo, houve um pingo de suor que lhe escorreu costas abaixo. Desejou que a porta se não abrisse, que se mantivesse fechada, que lhe desse um pretexto válido para fazer meia volta e por-se a andar dali para fora. Já não desejava ver o rosto de alguém que a abrisse, já não queria entrar, não queria saber de nada. "Socorro!", gritou. 

    E virou costas e veio-se embora.

quarta-feira, julho 22, 2026

Olhar límpido

     A simplicidade do raciocínio é boa por um lado e, por outro lado, é muito má. É boa quando proporciona processos de análise claros e eficazes que nos conduzem a conclusões cristalinas. É má quando impede que a reflexão seja informada, quando atalha caminho a direito, como uma bala em direcção ao alvo sem que perceba muito bem que alvo é aquele, que bala é aquela. Pum! No olho do touro!

    "Menos é mais" é um axioma útil e eficaz quando aplicado de acordo com aquilo que realmente significa; quando somos capazes de limpar o excesso de adorno e eliminar informação desnecessária, encontrando uma solução aerodinâmica optimizada.

    A pobreza de espírito nunca é grande espingarda. Um pobre de espírito tanto pode ser boa como má pessoa. Inteligência e informação refinada num cérebro bem oleado nunca foram garantias de empatia, humanidade ou capacidade de integração num todo social. Nem vice-versa.

    Resumindo para concluir que podemos ser simples ou mesmo simplórios, isso não é drama fatal. Podemos entregar a nossa simpatia a uma besta qualquer; se for sem querer, sem intenção de sermos tão bestuntos quanto o nosso ídolo, Deus haverá de encontrar uma forma de nos perdoar mesmo que, por via da nossa estupidez, o cabrão que elegemos venha a revelar-se o Anti-Cristo.