terça-feira, setembro 22, 2026

Lá vai o Jorge

     Estava eu ontem a reflectir de forma um tanto parva sobre a posteridade e eis que faleceu o Jorge Palma. Conhecia-o e estive várias vezes com ele. Um gajo mesmo fixe, um daqueles gajos de quem nos tornamos amigos por ser tão fácil. E faleceu ontem, vítima de paragem cardio-respiratória. E hoje todo o país presta merecida homenagem ao Jorge. E que fez ele para que isso aconteça? A resposta é simples e cristalina: foi o Jorge. Foi isso que ele fez para alcançar a posteridade.

    Até um dia destes, pá. 

segunda-feira, setembro 21, 2026

Promessas desejadas

     Pode um gajo preocupar-se com aquilo que os outros venham a pensar a seu respeito no dia em que patinar lá para o outro lado? Deve um gajo pensar em manter uma certa postura, cultivar aquela imagem, querer ser melhor que a galinha da vizinha, tendo em conta a posteridade?

    Verdade seja dita, estando a fazer tijolo tanto se me dará que pensem bem de mim ou mal ou mais ou menos. Esticado o pernil passo a ser banquete para minhocas ou coisa que as valha. Perdida a consciência, perdida a sensibilidade, perdida a vida, em suma, que incómodo poderei sofrer por me ter peidado a despropósito ou ter mandado aquela velhinha para a puta que a pariu? Incómodo népias!

    Há, no entanto, uma hipótese que começou a ganhar forma dentro da minha cabeça vai para coisa de um quarto de hora, talvez mais. E se a morte for a passagem de um estado de consciência para outro, no qual manteremos presentes as coisas que dissemos, as coisas que fizemos e pensámos enquanto para aqui andámos a fazer de conta que somos? Ou seja: e se o peido e o insulto à velhinha não forem apagados, se, antes pelo contrário, forem lembrados e cobrados?

    Penso que este tipo de coisas seja algo que um tipo imagina à medida que vai avançando em direcção ao tal dia. Um tipo começa a sentir saudades da vida ainda ela promete oferecer-lhe coisas que provavelmente não tem. Um tipo engana-se a si próprio e deseja ardentemente que a mentira, por mais estapafúrdia que pareça ser, tenha lá dentro de si uma sombrazinha de verdade.

domingo, setembro 20, 2026

Um livro sonhado

     Tenho meia-dúzia de boas histórias que posso contar (presunção?). São histórias de algum modo relacionadas com Artes Plásticas (escrever estas palavras com maiúsculas causa-me uma certa comichão no céu da boca). Já chega de parêntesis! 

    Desde a minha famosa teoria sobre A Fonte de Duchamp até à visão dantesca de uma sala repleta de esculturas gregas no Museu do Louvre ou a constatação de que muita gente olha sem ver, penso que poderei narrar factos, invenções e maravilhas com alguma leveza, escrevendo textos que não pesem na caixa craniana do leitor ocasional.

    Nem eu sou um erudito, nem o meu eventual leitor será versado em grego antigo ou aramaico. É um sonho que vai ganhando contornos cada vez mais definidos no meu imaginário. Serei capaz de alguma vez me atrever a fazer tal coisa? Temo que sim. Haja lata e falta de preguiça. 

segunda-feira, setembro 14, 2026

Momento exacto

     Entre uma notícia e a próxima, entre uma angústia nova e outra, velha, eis que os obituários marcam a passagem do tempo na sua cadência implacável. Morre mais um, falece mais outra. Excepto naqueles casos em que as pessoas são levadas por alguma doença repentina ou por acidente imprevisto, a morte vai-se encarregando de cumprir a função que lhe está destinada com a eficácia e a frieza dos funcionários competentíssimos. Deus só pode estar satisfeito com a sua produtividade.

    Um gajo vai envelhecendo. Cai o cabelo, cresce a barriga, umas coisas compensam outras. Instala-se uma certa saudade (não sei não é tristeza). Fico com a sensação de que poderia ter feito muito mais coisas, que poderia ter sido muito diferente, a minha vida, eu próprio, tudo muito diferente. Depois penso que se tivesse vivido essa diferença, essa vida paralela, talvez estivesse agora a suspirar por esta. Sim, porque quando pensamos que as coisas poderiam ter corrido de outra maneira, que poderíamos ter vivido uma vida que não esta, não pensamos que, estaríamos, eventualmente, a sonhar com esta que vivemos agora. É confuso? Não me parece.

    Imagino que nos vamos habituando à presença da morte. Cada vez mais vão pessoas que conhecemos mais ou menos bem, pessoas que tinham a nossa idade (era um rapaz tão novo), os nossos mais velhos. Vão morrendo um atrás do outro, a morte a cumprir o plano da burocracia da vida; este morreu por isto, aquele foi por aquilo e nós ali sentados, na fila, sabemos que haverá de chegar a nossa hora. O nosso minuto. Melhor, haverá de chegar o micro segundo, aquele momento exacto em que vamos desta pra melhor (esperamos nós que seja pra melhor).

sexta-feira, setembro 11, 2026

O chato das botas

     Pensar na vida não é recomendável. Dizendo de outra forma: não é recomendável pensar na vida. Quero dizer, seja qual for a perspectiva ou a forma de abordar a questão, pensar na vida não é pêra doce. Nem um pouco mais ou menos.

    Será que a coisa se apresentou do mesmo modo quando se insinuou nas reflexões dos nossos antepassados? Quero dizer, pensar na vida em pleno século XXI terá o mesmo peso e o mesmo sentido que teve no século XV ou no século XIX? Ou, se não o mesmo peso e o mesmo sentido, qualquer coisa semelhante? Não me apetece esclarecer esta dúvida, parece-me reflexão para levar demasiado tempo consigo e tempo que é coisa que me falece.

    Sou um homem do século XXI. Talvez coloque essa dúvida a uma chatbot

quinta-feira, setembro 10, 2026

Ai, caramba!

     Não te suicides já, espera mais um bocado. Pode ser que aconteça o que não é para acontecer, pode ser que o destino tropece. Não te suicides ainda, há esperança. A esperança pode morrer mas só quando já não houver quem a alimente. Depois de a esperança falecer nem deus resta. Nada.

quarta-feira, setembro 09, 2026

O futuro

     É uma sensação estranha esta, a de ver o mundo a desmontar-se peça por peça mesmo defronte dos meus olhos. Não falo do planeta, falo do mundo, que são coisas bem diferentes, não vale a pena estar para aqui a explicar.

     Talvez mais tarde o mundo seja de novo montado com uma organização diferente destas mesmas peças, talvez venham a ser incluídas na montagem peças até aqui inexistentes, é como naquele poema do Camões que fala de o mundo ser composto de mudança. O Futuro não pertence a ninguém, nem mesmo a Deus (seria necessário que Ele existisse).

     A civilização tal como actualmente a concebemos está por um fio. Mais dia menos dia pode cair no abismo sobre o qual balança perigosamente... 

    Durante algum tempo haverá caos e desordem, choro, saudade e lamentação. Mas, se tudo se desenrolar segundo as boas leis da existência das espécies, logo, logo haverá outra forma de se ser humano e dentro de uns milhares de anos este mundo será uma curiosidade arqueológica.