terça-feira, outubro 27, 2026

Formigueiro

     As formigas continuavam no carreiro como se nada de mau acontecesse. O facto de o puto se divertir a mijar-lhes em cima, a esmagar uma ou outra, a colocar meia-dúzia delas directamente na teia de uma aranha, o facto de o puto se distrair a atazaná-las parecia não as incomodar nem um bocadinho. Limitavam-se a mudar de direcção, a voltar para trás, ignoravam a maldade sádica da criança e continuavam a viver a sua vida, como fazem as formigas.

segunda-feira, outubro 26, 2026

Tragédia Global

     Terei ainda tempo de assistir a transformações significativas no modo de vida europeu, ou morrerei com fascistas no poder, ou haverá alguma guerra civil dentro das fronteiras da União? Ah, o Futuro, assim grafado com "F" soa a coisa grave, impõe respeito ao leitor. O Futuro é aquele que a Deus pertence, a mim e a gajos como eu, pertence-nos um futuro com "f", coisa mais curta e menos grandiosa. A simplicidade não nos impede de sermos figurantes na trama mais vasta e complexa que compõe a Tragédia Global do planeta.

    É certo e sabido que as personagens das tragédias são deuses, heróis, príncipes, reis, rainhas e princesas, gente importante. A escumalha, quando muito, pode aspirar a ser personagem de Comédia. Então, a tal Tragédia Global do planeta é protagonizada por figurões como Trump, Putin, Xi... homens velhos, e/ou  Musk, Bezos, Zuckerberg, homens mais ou menos jovens mas doentes, todos eles, os novos e os velhos. Enquanto personagens de Tragédia sabemos bem qual é a doença de que padecem. É a Húbris! 

    No final vem o castigo, os deuses não perdoam o orgulho desmedido entre aqueles que não habitam no condomínio fechado do Monte Olimpo. Trump vai morrer em estado de demência absoluta, a borrar-se todo, Putin será vítima de um transplante de coração que o transformará, definitivamente, num porco e Xi Jinping... Xi Jinping, não sei bem como, haverá de apaixonar-se inexplicavelmente por um potezinho de mel e terá um tigre de peluche por melhor amigo.

sábado, outubro 24, 2026

Aaaaaaaah... pois!

     

     Terá a invenção da roda resultado de uma persistente observação da lua? Terá o inventor da roda sido simultaneamente poeta e cientista? Convém recordar que uma e outra coisa, poesia e ciência, são filhas da imaginação e da criatividade. É que, pelo menos nas escolas e daquilo que conheço, a tendência é a de separar as coisas como se fossem absolutamente opostas. Não são.

    Proporcionar espaços oníricos ao pessoalzinho parece-me uma honrada ocupação. Estimular o pensamento destrambelhado será um dos objectivos principais de qualquer educador que se preze. 

sexta-feira, outubro 23, 2026

Receios

     Confesso ter um certo receio de me não enxergar devidamente. Receio inchar com um sapo que fuma, convencer-me de que sou mais inteligente do que a realidade me permite e depois... pum, rebentamento! - uma nuvem de fumo a esfumar-se (que é o que fazem as nuvens de fumo). 

    Receio sonhar demasiado alto. Receio até imaginar-me uma espécie de Ícaro porque isso implicaria ter adquirido de forma extraordinária a capacidade de voar, que é coisa muito para lá dos meus horizontes que são os de um gajo de um metro e setenta com os pés normalmente assentes no solo. Ainda para mais, sei bem que se tivesse as asas do dito jovem voador nunca me atreveria a voar tão perto do sol. Não seria assim tão temerário.

    Espero nunca perder esta modéstia doentia que faz de mim uma espécie de sonho sempre adiado, que me impede de afirmar o que imagino ser por não saber se sou aquilo que imagino. Podemos renegar uma educação católica mas o catolicismo dificilmente nos renegará a nós. 

segunda-feira, outubro 19, 2026

Ciência divina

     Há alguma diferença entre Deus e a Ciência? Talvez sim ou talvez não. 

    Os cientistas tendem a separar as coisas tal como tendem a fazê-lo também os padres  da igreja ou os crentes, de um modo geral. Vagamente inspirados naquela cena do Novo Testamento do "a Deus o que é de Deus, a César o que é de César", acham que com a Ciência a coisa não haverá de andar muito longe disso. É uma maneira prática de encarar o suposto problema e que corta caminho por atalhos mais ou menos sombrios na floresta cerrada que é a existência humana. Vale tudo quando toca a procurar um raiozinho de luz, uma clareira, um vislumbre do céu, qualquer coisinha, por favor. Muito obrigado.

    Embora não tenha pensado no assunto por aí além não vejo que venha grande mal ao mundo se cagar aqui a minha sentença. 

    Pensei que talvez Deus e a Ciência pudessem ser exactamente a mesma coisa. Uma espécie de Quimera, um ser impossível que padece de algumas maleitas por isso mesmo (por ser impossível). E este mundo seria a sua criação e nós, as suas criaturas, sentimos a presença do tal ser mas não conseguimos compreendê-lo (isso acontece com a maioria dos deuses). Daí que nos dividamos: uns acham que somos filhos de Deus, uma cena a dar mais para o etéreo, outros que somos filhos da Ciência, são de entre nós os mais focados nas cenas como elas tendem a ser na realidade. Ou que acreditam que conseguem provar essa tendência e não acreditam facilmente nas outras cenas, as que escapam à sua capacidade de medição do Mundo.

    Andamos para aqui entalados. Deus, gritam uns, Ciência, berram outros, e siga a marinha, tudo como dantes, quartel-general em Abrantes! Fica na tua que eu continuo na minha. Não estou para te ouvir, obrigadinho.

    De nada.

domingo, outubro 18, 2026

Senhores porcos

     O problema é o "senhor". O Senhor Deus, o Senhor Presidente, o Senhor Doutor, o Senhor Senhor. A veneração que devotamos aos "senhores", aos donos da terra, aos donos dos animais, aos donos do dinheiro, todos eles senhores de alguma coisa. 

    Não és um senhor não vales grande coisa. Os senhores apropriam-se, detêm, possuem, organizam, governam, dispõem. O resto do pessoal, a populaça, venera e obedece. É nisto que se baseia o estado a que chegámos.

    E se reclamas, se respingas e exiges alguma coisinha para ti, se achas que tens direitos e um lugar no mundo que não seja a um canto da pocilga, toma cuidado. Não grites muito nem grites alto que podes vir a dar-te mal. Na pocilga governam os porcos, os senhores porcos.

terça-feira, outubro 13, 2026

La vida loca!

     Preencher a vida com acontecimentos extraordinários, aproveitar ao máximo todos os momentos, viver cada dia como se fosse o último, construir castelos com as pedras que se vão encontrando no caminho, enfim, imaginar a vida deste modo já me cansa, vivê-la assim deve ser extenuante. 

    Por mim a contemplação serve muito bem, a concentração numa tarefa longa de objectivo difuso também não me parece desagradável. Começar a fazer uma coisa e esquecer-me de que estou a fazê-la, magnífico! Embora por vezes possa parecer preocupante. Estarei a esquecer-me da vida ou a esquecer-me de que estou vivo? Se me esquecer de que estou vivo vou morrer? É assim que se morre, por esquecimento? Acho que não, mas, até esticar o pernil, será esta uma dúvida plausível. 

    A vida pode ser uma coisa muito chata e muito longa, tal qual a espada de Dom Afonso Henriques, como dizia o meu pai. Pode ser assim e merecer cada minuto, cada segundo, cada acontecimento aborrecidíssimo, cada momento que passa apenas uma hora depois de ter acontecido. A vida é para ser vivida de acordo com o ritmo a que estamos dispostos e a que aprendemos a vivê-la. Quero lá saber do glamour da vida dos famosos! Quero lá saber das coisas que estou a perder por pensar desta maneira! Já agora, como podemos nós perder uma coisa que nunca tivemos?