Entretanto, a notícia é a de que ainda não morremos todos. Vamos morrendo. Um hoje, outro amanhã e enquanto por aqui andamos podemos continuar a comover-nos com a beleza, a lacrimejar um pouco quando ouvimos The Tower of Song, a sorrir de espanto quando olhamos um tríptico de Bosch, a sentir a pele arrepiar-se perante um filme magnífico. Como somos nós capazes de produzir tanta beleza e, na sombra dessa glória, produzimos tanta merda miserável. Não sou capaz de me decidir se isto faz ou não faz sentido.
Entretanto, a notícia é a de que ainda somos capazes de amar. Vamos amando. Hoje amamos, amanhã odiamos. Odiamos verdugos e tiranos, a mentira e a trafulhice, amamos a justiça e o sopro de uma brisa qualquer capaz de nos refrescar os sonhos. Como somos nós capazes de odiar tão sinceramente e amar em simultâneo. Somos animais esquizofrénicos!?
Entretanto escrevo estas palavras. Não sei para quê, mas escrevo-as. Não reconheço grandes qualidades a este texto, não sou capaz de me decidir se era preciso escrevê-lo ou se teria sido melhor ficar quieto. Vou escrevendo, tal como vou vivendo, tal como odeio, como amo. Tudo isto me parece fruto da respiração, da batida cardíaca, de um corpo que vai funcionando, coisa quase mecânica. Mas não sei o que é, não sei o que seja, o que venha a ser. Não sei.