quinta-feira, novembro 05, 2026

Esperança

     Um gajo, afinal, não tem direito a ser pessimista. Demasiado pessimista, pelo menos. Um gajo não tem direito a ser demasiado pessimista. O mundo pode estar de pantanas, o clima andar maluco de todo e não ter cura nem com idas diárias ao psiquiatra, podem haver guerras infinitas e mortes desnecessárias que apenas servem para amansar a sanha do Diabo, tudo isto será verdade mas, ainda assim, um gajo não tem o direito de ser demasiado pessimista. 

    De vez em quando acende-se uma luzinha, apaga-se uma fogueira descontrolada, atira-se um papagaio de papel que voa mesmo e não cai logo mal levanta vôo. De vez em quando os maus não ganham o jogo mal começam a jogar e a verter  dinheiro nos bolsos dos menos fortes ou dos mais gananciosos. Há dias em que é possível acreditar que Deus existe, seja lá isso o que for.

    Um gajo até pode sonhar ser optimista. Desde que não se convença de que o mundo pode continuar a ser aquilo que agora é. 

terça-feira, novembro 03, 2026

Como foi?

     Seres uma criança e teres um vírus a bater-te à porta não será pêra doce. Um país, um continente, um planeta inteiro a fechar-se atrás de portas e paredes, a deixar a rua livre para pássaros,  insectos, ratazanas, as regras a serem definidas ao sabor dos acontecimentos. Mais mortos, mais vacinas, mais máscaras, mais, mais, mais, tudo mais menos a liberdade.

    Já lá vão 4, 5 anos? Para um tipo que tenha 40, 50, 60 anos, o período de confinamento foi um intervalo. Para uma criança, para um adolescente, foi uma fatia importante da vida vivida. E isso deve deixar marcas. Só pode.

    De vez em quando lembro-me de que a coisa aconteceu, a pandemia. Mas tenho alguma dificuldade em recordar como foram as coisas, o que aconteceu ao longo desse período. As privações, a doença mas também um tempo de algum conforto, eu e a minha família numa concha. A angústia de ter os meus pais longe, muito velhos. A minha mãe faleceu entretanto. Tristeza dilacerante.

    Sei que estas coisas aconteceram mas a recordação que delas guardo é tão vaga como algodão em rama.  

segunda-feira, novembro 02, 2026

Post 3000

     O Cristão Ronaldo persegue o milésimo golo como se o futuro do Universo disso dependesse. Eu vou à caça do post três mil aqui no 100 Cabeças. Sei bem que nada depende disso. Mas é aquela cena dos números redondos.

    Era o ano 1000, depois era o ano 2000, nem um nem outro trouxeram nada de especial, nada que pudesse associar-se a forças universais extremamente poderosas. Nada, nadinha. Népias! Nem sequer um buguezito que entorpecesse os computadores todos deste mundo, pelo menos, que do outro outras forças entrarão em equação. Coma o seu cão, faça ão, ão e guarde o seu portão.

    E assim vai passando o tempo, como barquito de papel lançado à voragem das águas de uma estação de tratamento de águas residuais. 

sexta-feira, outubro 30, 2026

Acontecimento

     Ao subir as escadas, a mulher ao meu lado tropeçou. O livro caiu-lhe, o corpo deu um solavanco e eu, apesar de estar a uma distância que me não permitia alcançá-la, fiz um gesto com as mãos na sua direcção. Como se a minha intenção pudesse interferir nos acontecimentos, como se o meu gesto transportasse uma espécie de magia, como se eu fosse uma poderosa personagem do universo Marvel, algo que o valha.

    A mulher esticou-se, mandou a cabeça para cima, bateu fortemente com um pé no degrau, bamboleou as ancas no esforço de evitar a perda de equilíbrio, teve sucesso e manteve a compostura. Acto contínuo recolheu o livro e lá foi, arrepanhando a saia comprida, talvez a responsabilizar a dita pela desgraça que quase acontecera.

    Foi isto. 

terça-feira, outubro 27, 2026

Formigueiro

     As formigas continuavam no carreiro como se nada de mau acontecesse. O facto de o puto se divertir a mijar-lhes em cima, a esmagar uma ou outra, a colocar meia-dúzia delas directamente na teia de uma aranha, o facto de o puto se distrair a atazaná-las parecia não as incomodar nem um bocadinho. Limitavam-se a mudar de direcção, a voltar para trás, ignoravam a maldade sádica da criança e continuavam a viver a sua vida, como fazem as formigas.

segunda-feira, outubro 26, 2026

Tragédia Global

     Terei ainda tempo de assistir a transformações significativas no modo de vida europeu, ou morrerei com fascistas no poder, ou haverá alguma guerra civil dentro das fronteiras da União? Ah, o Futuro, assim grafado com "F" soa a coisa grave, impõe respeito ao leitor. O Futuro é aquele que a Deus pertence, a mim e a gajos como eu, pertence-nos um futuro com "f", coisa mais curta e menos grandiosa. A simplicidade não nos impede de sermos figurantes na trama mais vasta e complexa que compõe a Tragédia Global do planeta.

    É certo e sabido que as personagens das tragédias são deuses, heróis, príncipes, reis, rainhas e princesas, gente importante. A escumalha, quando muito, pode aspirar a ser personagem de Comédia. Então, a tal Tragédia Global do planeta é protagonizada por figurões como Trump, Putin, Xi... homens velhos, e/ou  Musk, Bezos, Zuckerberg, homens mais ou menos jovens mas doentes, todos eles, os novos e os velhos. Enquanto personagens de Tragédia sabemos bem qual é a doença de que padecem. É a Húbris! 

    No final vem o castigo, os deuses não perdoam o orgulho desmedido entre aqueles que não habitam no condomínio fechado do Monte Olimpo. Trump vai morrer em estado de demência absoluta, a borrar-se todo, Putin será vítima de um transplante de coração que o transformará, definitivamente, num porco e Xi Jinping... Xi Jinping, não sei bem como, haverá de apaixonar-se inexplicavelmente por um potezinho de mel e terá um tigre de peluche por melhor amigo.

sábado, outubro 24, 2026

Aaaaaaaah... pois!

     

     Terá a invenção da roda resultado de uma persistente observação da lua? Terá o inventor da roda sido simultaneamente poeta e cientista? Convém recordar que uma e outra coisa, poesia e ciência, são filhas da imaginação e da criatividade. É que, pelo menos nas escolas e daquilo que conheço, a tendência é a de separar as coisas como se fossem absolutamente opostas. Não são.

    Proporcionar espaços oníricos ao pessoalzinho parece-me uma honrada ocupação. Estimular o pensamento destrambelhado será um dos objectivos principais de qualquer educador que se preze.