quarta-feira, março 18, 2026

Antes do Apocalipse

     Não há volta a dar-lhe, dançamos alegremente em direcção ao abismo. Dançamos como as ratazanas, dançamos como as crianças, o flautista é um fantasma tremendamente real. Vamos hipnotizados, conscientes do mal que nos arrasta de forma irresistível. Como drogados viciados, sabemos o que nos espera mas, mesmo assim, avançamos sem hesitação. Talvez tenhamos esperança que algo aconteça durante a queda que possa ainda resgatar-nos a um futuro de apagamento total.

    Entretanto temos uma vida para viver. Pequenas coisas para tratar, outras para resolver: um dente cariado, uma intimação da repartição de finanças, um cretino a quem temos de afiambrar um valente par de tabefes pelas trombas abaixo, coisinhas assim, o tal quotidiano delirante que não se compraz com o incerto futuro da Humanidade. Antes do Apocalipse tenho de aparar o bigode, lavar os dentes e deixar o despertador para as oito da manhã. Não pretendo chegar atrasado, muito menos pretendo chegar adiantado.

segunda-feira, março 16, 2026

A ampulheta e a clepsidra

     Até pode parecer que estou a ficar meio paranóico. Ou completamente! Pode parecer que estou a ficar meio xéxé e que não me lembro do que disse num post aqui plantado há poucos dias atrás. Pode parecer mas "nem tudo o que parece é" como diz o outro, o Povo. O Povo diz coisas.

    Isto porquê? Cá pra mim, se ainda estás a ler esta coisa não deves estar a perceber nada do que para aqui vou semeando. Mas, dizia, isto porquê? "Mas isto o quê?" pensas tu, desorientado leitor (ou leitora), já com a paciência a escorrer-te do cérebro. - Isto, isto de estar a ficar meio paranóico. - responderia eu, caso estivéssemos a conversar face to face. "Aaaaaah, hóquei..." suspiras tu, mortinho para que esta merda de conversa acabe ou para que, pelo menos, faça algum sentido.

    Pode parecer que estou a ficar meio paranóico pois esta manhã apercebi-me de que penso constantemente na morte embora não pondere com seriedade a possibilidade de vir a morrer dentro de pouco tempo. "E o que consideras tu como sendo pouco tempo?" - perguntas. E eu penso: "Rai's parta este leitor (ou leitora) que já começa a chatear!", e continuo, agora em voz alta - Sei lá. Tenho 63 anos, se viver mais 15, 20 anos, acho justo e, talvez, suficiente.

    E pronto, é um bocado isto. Nos últimos posts tenho reflectido um pouco sobre velhice e envelhecimento. Pelo menos por enquanto a coisa ainda não me deprime mas não tenho a certeza de ser capaz de manter toda esta fleuma durante muito mais tempo... lá está, é tudo uma questão de tempo!?

quinta-feira, março 12, 2026

Meia dúzia de anos

     As pessoas envelhecem muito. Um gajo está meia dúzia de anos sem ver um amigo e quando o reencontra, catrapunfas! Está ali um velho à nossa frente. Entretanto também nós envelhecemos (o amigo poderá estar a pensar exactamente a mesma coisa que nós, numa espécie de simetria mental absoluta) mas como nos olhamos ao espelho com frequência, assistimos ao lento trabalho da força da gravidade sobre os nossos corpos. Cada um de nós só é surpresa para os outros.

    Um gajo olha para o amigo, tão transformado ele está, um gajo pensa: que mudança extraordinária! Qual quê!? Na verdade não haverá muitas coisas tão ordinárias como o envelhecimento. O envelhecimento é da ordem do quotidiano de todas as coisas. Das pedras às formiguinhas, dos planetas aos carapaus, tudo envelhece constantemente. Não há nada que não esteja sujeito às leis do tempo (não do tempo dos relógios mas do outro tempo, o absoluto) e é assim.

    Um gajo está meia dúzia de anos sem ver um amigo e quando o reencontra tem muitas histórias para partilhar com ele. Talvez mais histórias antigas, daquelas que viveram juntos e agora recordam de maneiras diferentes, mais dessas histórias que de outras, novas, vividas separadamente. Seja lá o que for, aconteça o que acontecer, reencontrar um amigo passada meia dúzia de anos é sempre um acontecimento!

quarta-feira, março 11, 2026

Vacas mornas

     O que espera cada um de nós daqueles que nos representam e governam? Que sejam aquilo que neles projectámos, que sejam exactamente aquilo que imaginámos que iriam ser quando deixámos o papelinho a morrer na urna de voto? 

    Haverá aqueles que tentam corresponder ao que deles se espera (pobres diabos) e outros que, uma vez investidos dos poderes que lhes são conferidos pela Constituição, passam a pôr em prática o plano de usufruto do poder que haviam previamente elaborado. Não poderiam ser atitudes mais antagónicas. Duas faces da mesma moeda nunca cruzam o olhar, o que não é o caso, por isso a expressão aqui não se aplica.

    A meu ver há os políticos honestos (o que não significa que sejam bons políticos ou sequer eficazes) e os desonestos (o que não quer dizer que sejam ineficazes mas talvez queira dizer que não são bons políticos). Não há políticos mais ou menos honestos ou corruptos assim-assim. Nesta actividade a ambiguidade ética não é admissível, outros campos da acção humana admitirão alguma imaterialidade de carácter mas não a política.

    Voltando à vaca antes que arrefeça demasiado: António José Seguro é Presidente da República. O que espera dele cada um de nós? Uns não gostam do senhor por ser demasiado à direita, outros odeiam-no por ser socialista, por ser mosca-morta, por ter uma boca estranha, houve até que o apodasse de Tó-Zero. Mas ele lá está, a ser aquilo que é. Ser honesto não é excitante, como me parece ter sido sugerido por Cotrim de Figueiredo quando se tornou evidente que Seguro iria ser eleito? 

    Tantas perguntas, tantas perguntas, pareço uma criança a perguntar na idade dos porquês. Para não me ir embora demasiado depressa aqui deixo mais uma: vivemos um tempo de vacas mornas?

terça-feira, março 10, 2026

Tempos modernos

     Alarvidade e javardice: eis duas palavras mágicas desconhecidas dos adoradores de tiquetoques que, no entanto, definem o universo em que movem as suas mentes. Nota-se um ambiente cada vez mais agreste e menos limpo nos pátios da escola, uma coisa entre a barba por fazer e a mão suja por ter com ela limpado o rabo.

    Os putos crescem no meio da javardice e transformam-se em autênticos alarves. Não me lembro bem se, quando fui puto, as coisas aconteceram do mesmo modo. Não me lembro dos pormenores mas penso poder afirmar que a coisa também não era particularmente limpa. Talvez que crescer na porcaria faça parte da condição humana, o estrume alimenta as raízes das flores mais coloridas e faz as delícias dos escaravelhos mais reluzentes.

    O que nos choca talvez seja o facto de esta alarvidade não ser a nossa e de esta javardice nos parecer exagerada (por estarmos já um bocado velhotes), talvez a coisa não seja assim tão radical. Se pensarmos bem, o mundo que agora construímos e nos parece adequado, fruto do nosso labor, haveria de parecer extraordinariamente agressivo e peludo aos olhos nossos avós, um mundo repleto de alarvidades e muita javardice.

quinta-feira, março 05, 2026

Dizer o óbvio

     Ucrânia, Gaza, Irão. A guerra está por todo o lado. O Grande Imbecil queria o Prémio Nobel da Paz. Como não lho atribuíram amuou e desatou a provocar guerras em todo o lado embora se gabe de que trabalha para lhes pôr fim. Será apenas estúpido ou é absolutamente tolo? O Impostor Laranja não tem noção do que diz, do que faz, não sabe sequer quem é, o Impostor Laranja é um dejecto.

quarta-feira, fevereiro 25, 2026

Animal

     É inquestionável, o presidente dos EUA é um maluco a precisar de medicação urgente e, eventualmente, uma daquelas camisas cujos braços compridíssimos se atam atrás das costas. Um doido varrido!

    Quando era miúdo havia aquelas personagens, os sábios loucos ou os facínoras desalmados que sonhavam dominar o mundo. Eram normalmente representados com um ou outro atributo físico exagerado e uma gargalhada que disparavam ao menor sinal de sucesso nos seus propósitos alucinados. No fim perdiam sempre.

    Trump é uma dessas personagens. Mesmo o seu cabelo, os seus gestos, as danças que executa, a maneira como movimenta os lábios quando fala, fazem dele uma caricatura de um ser humano. É um velhaco. 

    O que surpreende verdadeiramente é a forma como o mundo tende a vergar a mola perante este palhaço mau. A verdade é que tipos como Saddam Hussein ou Kadafi também inspiravam terror e respeito e acabaram de forma triste e miserável. Como será o fim deste animal?