segunda-feira, fevereiro 16, 2026

Internacional Religiosa

     Não me parece grande ideia fechar a Deus as portas deste mundo. Deixa-se muita gente órfã a precisar de um pai que a oriente, muita ovelha a balir perdida nos baldios da vida. Sem deus há multidões frágeis como cristal à beira de caírem das alturas e muito filho-da-puta à coca, muita hiena a vaguear na mamuja das sobras que os grandes cabrões, os verdadeiramente poderosos, possam deixar espalhadas pelo chão.

    Cá pra mim o ideal seria encontrar maneira de formar uma Internacional Religiosa. Encontrar em cada religião uma elite que acredite realmente em Deus e reunis essas elites num espaço em que pudessem maravilhar-se com as possibilidades da Sua existência. Decerto seriam capazes de construir uma via global atapetada com solidariedade e boa vontade pois é disso que a maior parte dos Deuses advogam... ou não?

domingo, fevereiro 15, 2026

Idoso

     Fui verificar o conceito de idoso e encontrei isto: Segundo a Organização Mundial da Saúde, idoso é todo o indivíduo com 60 anos ou mais. Fiquei chocado! Eu tenho 63 anos!!! Passei a fronteira da idade adulta para "a cair da tripeça" sem sequer me aperceber do que me ia acontecendo. Sou idoso há 3 anos e não sabia. Estou destroçado.

    Quando o meu pai faleceu devia ter suspeitado que a coisa estava para se dar. Mas não pensei no assunto. Ver a minha filha com 32 anos devia ter feito soar algum tipo de campainha interna... mas nada. Ter cada vez menos cabelo ao ponto de ser bem mais careca do que cabeludo, ter o cabelo e a barba a embranquecer todos os dias poderiam ter sido indícios valiosos para que fizesse uma revisão do que sou (não de quem sou). Não o fiz, deixei andar.

    Agora sei que sou um idoso. Pronto, Estou informado. 

sexta-feira, fevereiro 13, 2026

Mais velho

     Actualmente cumprimentamos: bom dia! Ou então dizemos: boa tarde, ou boa noite. Depende. Vamos pela positiva, aproximamo-nos de quem não conhecemos com palavras cautelosas mas de bom tom. Somos assim educados, os mais velhos ensinam-nos a ser assim, parece-nos correcto. Quando alguém nos fala devemos manter silêncio, ouvir o que é dito, esperar a nossa vez e retrucar, se for caso disso, ou concordar, seja lá o que for, aconteça o que acontecer, somos incentivados a comunicar, a olhar nos olhos.

    Espero que estes princípios simples se mantenham, pelo menos durante mais algum tempo. Por vezes penso se não estamos às portas de um tempo de "pontapé-na-cona". Os mais velhos são demasiadas vezes considerados empecilhos e a sua forma de ver o mundo, a mensagem que têm para nós, é desvalorizada por não saberem mexer em meia-dúzia de coisitas electrónicas ou artificiais ou lá como se designam esses "gadgets" que enformam o nosso quotidiano delirante. Substitui-se a capacidade de pensar pela capacidade de mexer.

    Apercebo-me de que sou já um dos "mais velhos". Ainda não tinha pensado nisso. 

quinta-feira, fevereiro 12, 2026

IA, man

     Não será pela Inteligência Artificial que os nossos estudantes vão perder o interesse pelo conhecimento. Estou convencido que o que vai tolhendo os jovens espíritos é o excesso de informação. O acesso permanente a fontes de informação (ou a sua possibilidade) funciona como um anestésico da curiosidade. A IA apenas sintetiza, mastiga e regurgita informação que recolhe e processa a uma velocidade diabólica, não é nada de extraordinário em termos de produção de conhecimento, o que é surpreendente (e eventualmente viciante) é a velocidade com que a operação é executada.

    O problema, quanto a mim, é que a curiosidade intelectual está abananada com tanta informação a cruzar os horizontes do conhecimento em linhas rectas que se autodesenham a uma velocidade estonteante, criando uma teia que vai obliterando as nuvens, cujas formas convidam ao sonho e à imaginação. Estou a perder-me em metáforas complicadas quando aquilo que quero dizer é de uma simplicidade absoluta: a IA sufoca a curiosidade intelectual e tende a estupidificar os seus utilizadores. Cabe aos professores e à escola a função de manter a curiosidade intelectual viva e actuante, procurando estratagemas capazes de convencer os jovens a não vegetalizarem. 

    Se a IA for um meio e não um fim, teremos à nossa disposição mais uma ferramenta poderosa capaz de potenciar as nossas capacidades intelectuais. Se nos entregarmos à IA sem espírito crítico e sem curiosidade seremos a breve trecho uma imenso batatal, pasto fácil para qualquer glutão capitalista.

Mudança de tempo, mudança de vontade

     É um sufoco, uma luta, uma batalha, andamos todos à batatada pela supremacia de uma qualquer ideia que de súbito nos assalta a mioleira, vinda sabe Deus de onde. E grunhimos, rilhamos a dentuça, carregamos na sobrancelha, espetamos o dedo, levantamos a voz numa estridência digna de um tribuno romano; dos sisudos. Com a mão livre seguramos a toga.

    Eu tenho razão, o senhor é um estúpido, quando muito posso conceder que seja apenas imbecil. Os seus argumentos são merda de vaca e o seu discurso cacarejo de galinha. Simplesmente não tem capacidade para compreender os meros fundamentos daquilo que lhe digo; não passa de um ignorante, um pobre de espírito. Ao menos isso, talvez o facto de ser um simplório lhe possa abrir as portas do céu (as portas, que os portões só se abrem para almas de gente que tenha sido importante).

    É tão fácil imaginar insultos. Dizê-los na cara de um interlocutor não é tão imediato como registá-los anonimamente nas redes sociais ou nas caixas de comentários de publicações online. Mas, com algum treino, também se lá chega. Estaremos em vias de substituir a urbanidade pela grosseria, enquanto modo preferencial de contactar com o outro?

quarta-feira, fevereiro 11, 2026

Coisas do diabo

     Este mundo sempre foi pasto de aparências e mentiras. As ilusões sempre engordaram tendo por alimento a credulidade humana mas, temo bem, nunca incharam tanto como incham nos dias que correm e, tudo indica, incharão de forma descontrolada à medida que a Inteligência Artificial for crescendo e substituindo a outra inteligência: a nossa.

    Falta saber se este crescimento, esta ampliação, este incremento, esta medrança da mentira travestida, falta saber se esta coisa tem limite, se a mentira é como o sapo que fuma e, no fim, rebenta numa nuvem fedorenta.

    Já a Bíblia adverte para a capacidade de aliciamento que o diabo possui chegando mesmo Jesus a identificá-lo como "pai da mentira". Falta saber quem é a mãe que, cá na minha opinião, é a mente humana. Assim, a mentira resultaria de uma frenética fornicação do juízo humano por parte de um Lúcifer meio louco de ciúme por si próprio. Resumindo: a mentira surge sempre que o diabo nos fode o juízo. 

    Como se depreende, a mentira não precisa de um motivo mas pode ser premeditada, não precisa de um objectivo específico mas serve bem como arma de arremesso, enfim, a plasticidade da coisa é, de facto, algo com uma dimensão diabólica. 

    Esta pouco subtil reflexão dá a volta e regressa perto do ponto de partida: se a IA se alimenta da credulidade humana e serve tantas vezes ao inchaço da mentira, então a IA é (mais) uma invenção do diabo? Olha, boa pergunta! Responda quem sabe que eu não tenho nada a ver com isto. Talvez seja esta a tal Grande Substituição que certos palonços advogam, a substituição da Inteligência Humana pela artificial...

segunda-feira, fevereiro 09, 2026

Saudade da surdez

     Os miúdos no corredor gritam, grunhem, produzem sons guturais capazes de inquietar um porco. Empurram-se, lutam, correm, caem e voltam a levantar-se, tudo num torvelinho angustiante, uma inquietação sem razão nem paralelo. Que estranha força os move, que deus imbecil os anima e faz com que ajam como tolos de hospício?

    É chegada a hora de entrarem para a sala de aula e eles lá vão. Não os vejo, estou numa outra sala, sentado à secretária escrevo estas palavras no teclado de um computador. Deixo de os ouvir. Nestas ocasiões o silêncio é muitíssimo valorizado. Que sossego. Agora passo a ouvir o som da água que cai dos beirais misturada com a da chuva o que também pode ser muito irritante.

    Lamento não ter trazido comigo os auscultadores, a falta que neste momento me fazem.

    Não consigo recordar se esta sensibilidade à barulheira é recente ou é antiga. Talvez não me aperceba sempre dos sons circundantes, talvez a concentração da atenção em algum objecto (uma pintura que se pinta, um livro que se lê) me ajude a abstrair da chinfrineira. Talvez, nem sei! O que eu percebo é que tudo isto pode contribuir para destrambelhar uma pessoa.

 Nota - Ontem, ao final da tarde, noite entrada, fiquei razoavelmente feliz. O Tó Zé lá foi eleito.

domingo, fevereiro 08, 2026

Tó Zé

     Está feito. Fui votar mais uma vez na companhia da família mais próxima (ia escrever "chegada" mas hesitei e escrevi o que escrito fica). É já um hábito, uma espécie de ritual. Durante anos viajei para Viseu em dia de eleições para exercer o direito de voto na companhia dos meus pais, só pelo prazer de o fazer. Algumas vezes fiz os 300 quilómetros para lá e outros tantos para cá e votei em branco.

    Hoje há uma segunda volta tal como só havia acontecido em 1986. Nesse ano fui e vim e voltei a ir a Viseu para votar no Marocas. Tenho uma vaga memória de ter regressado a Lisboa na noite em que ele venceu o Freitas do Amaral (nem sei se é uma recordação genuína) e andar no meio de uma turbamulta  felicíssima por ter eleito o Bochechas para a Presidência da República. Não sei se esta memória feliz é verdadeira ou não mas quando a convoco sinto-me bem.

    Mais logo, quando os resultados do acto eleitoral deste dia forem conhecidos, espero ficar razoavelmente feliz. Eleger o Seguro não empolga ninguém. Nem a ele, estou em crer.