A cor da porta era tão indefinida quanto a vontade que tinha de entrar. Levantou o punho direito e bateu. Toc, toc. Soltou-se um pouco de tinta ressequida que esvoaçou no espaço silencioso. Seguiu a lenta queda com um suspiro que lhe encheu e esvaziou o peito. Aguardou. Esticou as abas do casaco e endireitou as costas com um gesto que lhe puxou a cabeça para trás e para o alto. Sabia bem a imagem que pretendia projectar. Mas... nada. O silêncio prolongava-se de uma forma embaraçosa. Devia bater novamente, aguardar mais um pouco?
Rodou os olhos furtivos. Para um lado. Para o outro. Ninguém, nada, nem sequer alguma coisa. Olhou as biqueiras dos sapatos e reparou que o chão estava repleto de pedaços de tinta. Quantas pessoas antes dele haviam também batido àquela porta? Os olhos saltaram-lhe fixando-se imediatamente num ponto indeterminado, dois palmos defronte ao seu nariz. Sentiu um calor incomodativo, houve um pingo de suor que lhe escorreu costas abaixo. Desejou que a porta se não abrisse, que se mantivesse fechada, que lhe desse um pretexto válido para fazer meia volta e por-se a andar dali para fora. Já não desejava ver o rosto de alguém que a abrisse, já não queria entrar, não queria saber de nada. "Socorro!", gritou.
E virou costas e veio-se embora.