quinta-feira, fevereiro 05, 2026

Fuga à banalidade

    Imaginou o que o dia lhe poderia ainda oferecer e não lhe pareceu que fosse grande coisa. Apesar de o sol romper com gentileza as nuvens pesadonas que lhe haviam ensombrado os dias anteriores, apesar de o vento ter amainado até ao ponto do adormecimento, apesar de as notícias matinais não augurarem nada de terrível nem apocalíptico, ele sentia-se meio vazio, muito mais que meio cheio. Alisou os cabelos que lhe restavam no topo da cabeça e pensou: "Não sou a porra de um copo!" e, de facto, não era a porra de um copo, ainda era um ser humano.

    Desceu as escadas sentindo dores no joelho esquerdo ("uma porra do caraças!"). O eco dos passos ora o perseguia ora se lhe adiantava. A banalidade absoluta de tudo o que o rodeava pareceu apertar-lhe a garganta mas foi no peito que sentiu uma angustiante falta de ar. Apoiou-se na parede, a palma da mão recolheu uma sensação de frio intenso. Não se lembrava de alguma vez na vida ter sentido tanto frio. As costelas pareciam atrofiar-se a uma velocidade alucinante o que o arrepiou de tal modo que imaginou ser um ouriço cacheiro com os espinhos a crescerem ao contrário. Nada daquilo lhe era familiar. 

    "Que porra me está a acontecer?"

    Cambaleante e aos tropeções desceu um lanço de escadas tacteando o espaço sem encontrar ponto de apoio ou referência alguma que lhe devolvesse um mínimo conforto, uma sombra de familiaridade. Caiu. Estranhamente não sentiu dor, aliás, a queda parecia não ter fim, parecia não ter chão, teve a sensação de cair para cima, em direcção ao céu e o coração a explodir. 

    "Que coisa extraordinária!"

quarta-feira, fevereiro 04, 2026

Dia de chuva

     A chuva cai, incessante, monótona, ameaçadora. A paisagem entristecida parece encolher-se sobre o ventre de modo a proteger-se da chuva que continua a cair. Os últimos dias têm sido angustiantes para muitos de nós, por causa da chuva, que cai e cai e cai e parece que nunca mais irá parar.

    Continua a chover.

    Há uma hora atrás, mais coisa menos coisa, a chuva abriu uma trégua, até o céu clareou ligeiramente! (Tenho a impressão de ter visto uma mulher a sorrir). Mas durou pouco, foi como se a chuva se tivesse esquecido momentaneamente de cair e, mal se apercebeu de que não cumpria a função para a qual Deus a criou, voltou a tombar sobre a terra, com peso de gotas bem constituídas. Sem vento a bater-lhe cai sobre nós em rectos tracejados.

    Chove, chove e continua.

    Há em tudo isto qualquer coisa de marcial. Talvez o ritmo, talvez as gotas perfiladas que caem ininterruptamente, talvez o aspecto inevitável que a realidade vai ganhando, como se não houvesse nada a fazer a não ser cumprir ordens superiores, como na tropa. E quem é o general da chuva!? Ah, pois é.

    Chove, chove, chove que Deus a dá.

domingo, fevereiro 01, 2026

Um sonho

     Sempre te digo que se tivermos de morrer morremos. Mas se isso não chegar a ser necessário voto para que continuemos por aqui, mesmo que seja só a meter nojo. Não interessa. A verdade é que não me sinto preparado para grandes surpresas e nunca se sabe o que pode acontecer depois de estarmos mortos. 

    A minha esperança, se queres que seja sincero a 100%, é que não aconteça nada. Que um gajo pife e depois... silêncio. Silêncio infinito. Nada! Talvez seja o melhor mas, nunca se sabe, não é verdade? 

    Esta noite sonhei com os meus pais e fiquei com a sensação de ter estado com eles, efectivamente. Estive sentado entre eles, calcei umas meias vermelhas com antiderrapante à minha mãe. Que me lembre ela nunca teve nada semelhante. Talvez agora tenha uma meias assim, talvez hoje as tenha calçadas, talvez eu lhas tenha calçado de facto. Isto está a perturbar-me um pouco.

    Vou para de escrever. 

sexta-feira, janeiro 30, 2026

Percepções

    Altura, largura e profundidade ajudam à definição de um objecto. Quando estou a pintar ou a desenhar confronto-me com outro conjunto de variáveis, nessas ocasiões as 3 dimensões passam a ser: volume, distância e movimento. São dimensões espaciais, que implicam a deslocação de objectos no espaço e o próprio espaço, dimensões menos mensuráveis, menos concretas, mais dificilmente representáveis. 

    Como normalmente não tenho de me preocupar com o rigor da representação posso bem inventar uma treta qualquer que tenha consistência suficiente e não pareça demasiado parva. Se bem que isto não seja treta, antes pelo contrário, eu sei que pode soar como tal.

    Feitas as contas, o que importa é a coerência interna do objecto plástico, importa que tudo faça sentido, que cada elemento ganhe o protagonismo que lhe cabe no conjunto e na medida exacta da minha sensibilidade. Ou da tua, caso acredites naquilo que fica registado aí atrás e no que vou escrever já a seguir. 

    A percepção da realidade, a percepção do espaço, das cores, das formas, dificilmente serão exactamente as mesmas de mim para ti e para o outro. Vivemos num espaço comum que percepcionamos e interpretamos de diferentes maneiras. "O mundo de cada um é os olhos que tem", citando Saramago. 

    Nem todos registamos as nossas impressões através da arte mas aí está ela para nos ajudar compreender um pouco melhor quem somos, o que somos, o que fazemos aqui. 

quinta-feira, janeiro 29, 2026

"Realidade"

     Um tipo esgueira-se para aqui, a contemplar o Tempo pelo lado de fora da vidraça. As cenas desenrolam-se com as personagens enquadradas na totalidade, nunca falta um braço, nem falta uma perna, nunca uma personagem surge em plano americano, esse plano que nos corta as pernas.

    Há muitas imagens, recordações aparentemente distintas mas um tipo repara que certos gestos se repetem. Não há som ambiente, tudo é amalgamado pelo som que te entra directinho nos ouvidos, uma torrente de música sincopada em altos berros. É assim que recordas o passado, É assim que perspectivas o futuro.

    Um tipo não consegue manter-se deste lado durante muito tempo. Chega sempre o momento em que tem de ir-se embora, regressar ao espaço que se convencionou designar por "realidade". 

quarta-feira, janeiro 28, 2026

Contacto

     Os robots de Inteligência Artificial (ou "com" IA?) personificam (ahahahah) o burocrata perfeito. Ao burocrata de carne e osso ainda podemos tentar seduzir, podemos apelar a uma réstia de humanidade que possa animá-lo a espaços, enfim, imaginamos que aquela pessoa trombuda e aparentemente inacessível possa, apesar de tudo, ser uma pessoa. E tentamos a nossa sorte. Com um robot o caso muda de figura.

    O robot é, de facto, indiferente aos nossos esgares e aos nossos suspiros, é absolutamente insensível. Não tem nem compreende emoções, é estúpido e obstinado como só uma coisa pode ser: obstinado como uma pedra ou como uma porta ou como um martelo. Com um robot não temos a mínima hipótese: se ele decide banir-nos, estamos banidos, se ele decide que somos merecedores de castigo, estamos castigados. Nada a fazer.

    Quando ele nos responde com aparentes bons modos e correcção absoluta é preciso ver que está apenas a macaquear os bons modos e a correcção absoluta que absorve da informação que flutua na rede e que ele sintetiza em milionésimos de segundo: "bom dia" ou "obrigado" dito ou escrito por um robot tem a consistência de uma nuvem e a sinceridade de uma bosta de vaca.

sexta-feira, janeiro 23, 2026

Adeus

     Sim, pois é. Já me tinhas dito. Olha, se por acaso não tiveres tempo avisa. Pode ser que vá lá eu. Se não der também não há problema, a coisa fica mesmo assim e ninguém se chateia que não é caso para tanto. 

    Quem, eu!? Deves estar a brincar comigo. Ainda tu não tinhas largado a fralda e já eu lá ia quase todos os dias. Ai não acreditas, está bem, problema teu. Isto não é uma questão de Fé, por isso... está bem abelha!

    E pronto, vou andando que já são horas. O jantar não se faz sozinho, não é verdade? E também precisa de alguém que o coma. Ahahah. Até amanhã, ó palhaço. Cumprimentos à tua mãe que mando eu. 

    Adeus.