terça-feira, maio 12, 2026

Fôssemos nós o que não somos

     Fôssemos nós como os cães, teríamos de recear a ira do dono. Fôssemos nós como os gatos,  teríamos apenas de recear a morte, caso dela tivéssemos alguma consciência. Fôssemos nós como os melros.

    Fôssemos nós como os pássaros, talvez o vôo fosse alegria completa; talvez sonhássemos ser mamíferos. Fôssemos nós como as lesmas. 

    Fôssemos nós como as árvores. Existir, contemplar o espaço em volta, o tempo todo dedicado ao pensamento. Fôssemos nós carvalhos, pinheiros, sobreiros, tivéssemos nós tanto tempo que não soubéssemos o que o tempo é. Fôssemos nós como a terra.

    Fôssemos nós como céu, como as nuvens, fôssemos nós espaço sideral.

    Deus não nos criou à Sua imagem e semelhança.

segunda-feira, maio 11, 2026

Rotina extraordinária

    A vida das personagens que habitam um filme, tomemos Blade Runner como exemplo, é uma metáfora da rotina total e absoluta. São vidas suspensas que se animam de cada vez que um espectador entra em contacto com elas. E repetem exactamente a mesma sequência de acontecimentos, no tempo exacto que tinham durado na anterior ocasião em que tudo aquilo voltou a acontecer. 

    Por muito extraordinária que tenha sido e continue a ser a vida de Roy Batty, ela repete-se sempre da mesma forma, sob a mesma luz, as mesmas frases grandiosas, o mesmo final melancólico. Entretanto Rutger Hauer faleceu mas Batty perdura. A personagem é aparentemente imortal.

    Blade Runner é uma rotina extraordinária. Uma narrativa é sempre uma suspensão à espera de uma alma que a contacte e reponha em movimento, todas as personagens são fantasmas, todos os espectadores (ou leitores, ou ouvintes, seja lá qual for o processo que permita o contacto entre alguém e alguma coisa) são animadores de coisas que hibernam.

domingo, maio 10, 2026

Dúvida existencial

     De vez em quando acontece. Vem de um lado ou do outro, é coisa disparada de tão perto que nem se percebe de onde vem e atinge-me mesmo, mesmo no meio da testa, pelo lado de dentro.

    Plóóóóóófe!

    O som produzido pelo impacto daquilo com o meu humor é assim, prolongado, indefinido, como se fossem caixotes de pão-de-ló a caírem lá ao fundo, num armazém acolchoado. 

    Talvez pluuuuuuuuf seja uma onomatopeia mais adequada.

    Aquilo bate e deixa-me meio perplexo, deprimido. Talvez por não perceber o que se passa. Talvez essa seja a razão para que tantos de nós tomem anti-depressivos de modo a conseguirem aguentar-se à bronca: não percebermos o que se passsssssa. Talveeeeeeez...

    

sábado, maio 09, 2026

Profecia

     Aparentemente estamos bem arranjados! Estamos fritos, não cozidos, fritos em azeite a ferver, temperados com malaguetas arrepiantes e umas rodelinhas de cebola para puxar ao sentimento, libertar a lágrima hesitante.

    Cada vez mais ouço opiniões de seres humanos que, como eu, perspectivam um fim próximo para a nossa espécie tal como ela se nos apresenta nos dias de hoje. Concordo quase sempre. Ouvi aqui há dias um (penso que era inglês ou seria cidadão dos EUA?) gajo qualquer a dizer exactamente aquilo que me parece, irá acontecer, uma profecia do caraças!

    Não será a nossa espécie que acaba mas sim esta civilização, este modelo de organização capitalista que enforma a sociedade global. Haverá sempre algumas bolsas de sobrevivência, pequenas comunidades agrárias que irão prevalecer, sementes de Humanidade. Decresceremos brutalmente em número mas ficaremos por aí, à espera que o tempo faça o seu trabalho e, tal como um vírus paciente, possamos voltar a declarar-nos a espécie dominante; até que, alguns séculos depois, a coisa dê outra vez para o torto.

    Quantas vezes terá isto acontecido na História do nosso planeta? Quando esta civilização colapsar restará dela alguma memória activa? Nunca o saberei. Nem tu, amigo leitor. O futuro a Deus pertence. 

quinta-feira, maio 07, 2026

Viajante intelectual

    As coisas raramente são aquilo que parecem. Mesmo uma pedra, até uma folha em branco. O mundo é uma metáfora do camaleão. E o camaleão, já se sabe, move-se lentamente e tem uma língua muito rápida. E pegajosa.

    Desejas estar só, logo surge uma turba animada e barulhenta para te fazer companhia. Desejas companhia... pois, está-se mesmo a ver. O Pateta! Sim, o Pateta é a verdadeira imagem, quero dizer, o mundo é uma metáfora do Pateta. Eventualmente do Super-Pateta. 

    Agora sim, fico satisfeito com o resultado da reflexão que me ocupou durante tantos anos. Finalmente consigo aproximar-me de uma conclusão, o meu pensamento faz sentido. Sou marxista, facção Groucho.

    Arrumo as ideias na maleta onde normalmente transporto o enfado e preparo-me para abandonar este lugar. Imagino-me um pateta camaleónico incapaz de concluir uma narrativa, incapaz de traçar uma linha de pensamento que conduza a algum local que não seja um súbito precipício. Arrumo também o espelho. A maleta continua leve. Decido seguir viagem.

quarta-feira, maio 06, 2026

Verdade e realidade

     A coisa aconteceu, foi o que se viu e tu estavas bem no meio da confusão. Assististe a tudo, soubeste porquê, estiveste envolvido. Veio-te ao nariz o perfume ácido da violência, o sangue a deslizar-te nas veias como se fosse lava, como se fosses vulcão. Não há cliché neste mundo que te possa incomodar, tens uma história e vais contá-la. Tu és o herói.

    A cena tem potencial, as pessoas interessam-se. Há um momento prévio que envolve vagas sugestões de sedução, um vislumbre de sexo é sempre um bom acelerador da curiosidade alheia. Depois entras tu: vinhas animado por uns copos valentes, disseste umas coisas brutalmente espirituosas; está lançada a narrativa .

    De cada vez que a contas, a história ganha consistência, faz mais sentido. É como se a passagem do tempo lhe conferisse credibilidade, como se lhe varresse o chão e limasse as arestas. As frases que não compreendeste, as coisas que não ouviste ou das quais nem sequer te apercebeste, ganham contornos definidos, são fixadas pela repetição, melhoradas pela arte da palavra. É como se tivesses pintado um quadro que retocas de cada vez que voltas a expô-lo, convencido de que as alterações o tornam melhor, mais nítido, mais verdadeiro!

    Agora percorres o país, promoves colóquios, és convidado para conferências. És a estrela do teu próprio filme. Aceitas convites com um misto de vaidade e enfado, recusas outros com alguma sobranceria, há um certo prazer em dizer "não". Sentes-te maior a cada novo dia. Os factos da tua história são coisas já tão longínquas que passaste a acreditar piamente na narrativa que fixaste e repetes até à náusea. É a mais pura de todas as verdades.

    Olhas a plateia e mais uma vez te apercebes de que a realidade é algo que não existe. Sorris, aclaras a garganta, verificas se o microfone está "on": "naquela noite desci a rua a cambalear..."

domingo, maio 03, 2026

Havemos de comer todas as pedras

    Uma a uma, irmanados em gloriosa jornada de luta entusiástica, havemos de comer todas as pedras.

    Assim mataremos a fome que muitos julgavam infinita. 

    Comidas as pedras pouco restará do planeta.

    Pouco restando do planeta não tardará que a dor e o sofrimento percam o fulgor que hoje têm.

    "Mas como, irmão, como será isso possível?" grita a multidão desorientada.

    Sem planeta não há Humanidade: eis a cruel e definitiva resposta.

    Sem Humanidade dor e sofrimento terão de expressar-se de outro modo.

    "Oxalá não tenham para tanto imaginação suficiente!", gritamos em uníssono. 

    Havemos de comer todas as pedras. - repete o sacerdote.