terça-feira, junho 23, 2026

A barriga do Tempo

     O gajo transportava uma barriga incrivelmente desajustada da pernitas, que eram finas, mal cobertas de uma penugem que não chegava a pelagem. A camisa de alças pendia-lhe mais de um palmo adiante dos calções (pretos, riscados a cinzento discreto, como os fatos de certos gangsters). Nos pés um par de sandálias daquele azul que parece estar sempre sujo, com três listas brancas a fingir adidas.  Deambulava elefantinamente entre os escaparates dos livros distribuídos por temas.

    Com as mãos sapudas atrás das costas, um gesto que lhe projectava ainda mais a pança por sobre o vazio, duas vezes estacionou a pesada figura defronte às prateleiras da livralhada dedicada a temas do turismo. "É para o que serve uma barriga assim" pensei, "para fazer turismo". O homem era óbvia e nitidamente bastante mais jovem do que eu era. Do que eu sou. Idoso.

domingo, junho 21, 2026

Dia de Verão

     Andava por ali mistério. Faces coradas, olhares constrangidos, frases curtas, quase inaudíveis. Ninguém queria comprometer-se com nada que pudesse vir a acarretar arrependimento posterior. Tudo, todas as coisas perdiam fulgor, pareciam-lhe desbotadas; coisa frágeis, absoluta ausência de estrutura, de coluna vertebral, tudo a pairar, como se a força da gravidade não importasse, como se houvesse uma suspensão temporária das leis de Natureza e das regras de convivência humana. Andava por ali mistério.

    Quis pedir uma cerveja fresca mas nem para isso teve coragem. Ficou calado, concentrou-se na leitura. A tarde havia de ser longa. 

quinta-feira, junho 18, 2026

Dissolução

     Vi-o no corredor, ia em direcção ao cais de embarque, Cais do Sodré-Cacilhas, se faz favor. Pareceu-me muito velho, curvado, a nuca coberta de cabelos brancos a abrir clareiras aqui e ali, uma pele avermelhada, muitas rugas, os passos meio arrastados. Passei por ele e pela mulher que o acompanhava. Entrei no barco, subi ao andar de cima, como sempre faço e sentei-me num lugar que pudesse proteger-me do sol, cuja luz começava a fazer-se sentir sob a forma de um calor incomodativo.

    Escrevia qualquer coisa no meu caderno de capa dura quando levantei os olhos por sob as sobrancelhas e dei de caras com o homem que parecia dissolver-se no espaço em volta. Estava sentado duas filas para lá da minha, do lado esquerdo do meu nariz, cadeiras de plástico cor-de-laranja. Agora podia vê-lo de frente e nem precisava de dar muito nas vistas.

    Tinha a boca sempre aberta, como se lhe custasse respirar, ou fosse parvo, ou sentisse um espanto permanente por se aperceber estar ainda vivo. A expressão facial parecia revelar uma profunda tristeza, uma espécie de gentil desistência ou simples ausência de alegria.

    Dei por mim a pensar que a desistência nem sempre constitui um acto negativo, que desistir pode carregar muita poesia neste mundo obcecado por vencedores de merda, vencedores a todo o custo, gente incapaz de sentir empatia por aqueles que derrota. Percebi que o homem que se dissolve à minha frente, afinal, não desiste, apesar da tristeza que dele se desprende. O homem não desiste, lá se vai a poesia.

terça-feira, junho 16, 2026

Monstro

     E se aquilo que eu sou não me saísse da cabeça e me atrapalhasse cada passo, me confundisse cada pensamento, engasgasse todas as palavras? Se aquilo que eu sou me fizesse imaginar todos os outros como espelhos onde se reflectisse a minha imagem monstruosa, o meu ser ser defeituoso, reprovação em cada olhar, um esgar de desconforto em cada rosto que o meu cruzasse? E se aquilo que eu sou me impedisse de imaginar a felicidade, me fechasse o coração, me lançasse num desfiladeiro de desespero a cada momento que passa?

    E se aquilo que eu sou fosse o Inferno? 

domingo, junho 14, 2026

O profeta manco

     Basta um tema para reflectir e logo se transforma em espelho. A memória já não se lhe organiza no cérebro como dantes se organizava. Talvez nunca se lhe tenha organizado de todo, não tem como confirmar esta percepção, mas imagina que dias houve nos quais conseguia viajar para trás no tempo sem que se perdesse logo ali, na primeira curva da memória. Seja como for, pensar para a frente não é coisa que o atrapalhe.

    Tem, no entanto, outro problema de difícil resolução. As ideias que lhe vão surgindo, as complexas conexões que encontra entre peças de tão diferentes proveniências que os encaixes seriam impossíveis de percepcionar por mentes menos aventureiras: postulados magníficos, surpreendentes leis que reorganizariam a nossa visão da natureza, todo um universo tão extraordinário que não há palavras capazes de o intuir, tudo isto ele esquece de imediato. Tão depressa vem o conhecimento, tão depressa se esfuma.

    Ainda esta manhã lhe fugiu uma arrasadora profecia. 

 

quarta-feira, junho 10, 2026

Coincidência

     Foi há precisamente 3 anos que deixei, aqui no 100 Cabeças, uma reflexão sobre exactamente o mesmo tema que vou agora abordar. Achei que devia sublinhar este pormenor pois nada me obrigava ou impelia a escrever um post sobre "verdade" e "realidade" só porque atravessava o dia 10 de Junho, o tal dia de chatear o Camões. A verdade é que o fiz, o faço, aconteceu, acontece uma enorme coincidência.

     O texto de hoje foi anotado há uns dias atrás, fruto da reflexão que venho fazendo sobre o tema da "felicidade". 

     Tal como há 3 anos, cheguei à conclusão de que aquilo a que chamamos "verdade" é algo individual, pessoal, parcelar e que a "realidade", pelo contrário, é total, impessoal, absoluta, indivisível. Penso ser plausível afirmar que a Realidade não resulta da soma de todas as pequenas verdades que constituem o mundo de cada um de nós, que é algo bem mais vasto, porventura infinito.

    Podemos falar de Realidade, assim, no singular, e dizer "verdades", no plural.

    A Realidade resulta da existência de tudo o que tem um nome, juntamente com tudo o que ainda o não tem e mais tudo o que nunca virá a tê-lo. Vai muito para lá da nossa capacidade de compreensão. Deus, a existir, seria (será) isso. Terá isto algo a ver com a felicidade? Seria uma grande, enorme, gigantesca coincidência.

     

terça-feira, junho 09, 2026

Oferendas

     Deus deu-me muitas coisas mas não me deu nada do que Lhe pedi. Talvez por isso não me sinta particularmente abençoado. Terei problemas de comunicação? Fiz os pedidos de forma correcta? Temo bem que não, ou então Deus é um malandreco e gosta de brincar comigo.

    A ideia de que Deus é uma espécie de super-homem (ou que o homem é uma espécie de mini-Deus) sempre me pareceu um bocado arrevesada. Vejo-O muito mais como uma nuvem ou espaço aberto, uma coisa incorpórea, diáfana, sem peso nem forma. Ou então algo absolutamente inimaginável, o que estaria bem mais de acordo com aquilo que Ele possa ser na eventualidade de ter algo que possamos designar por "existência".

    Daí que a minha relação com Deus seja uma impossibilidade, por não saber o que Ele é nem saber bem o que sou eu. Uma coisa aproximada da relação de Kris Kelvin com Solaris. Deus dá-me coisas que não Lhe peço e eu faço de contas que me estou a lixar para que Ele exista ou não. Ficamos quites.