terça-feira, novembro 03, 2026

Como foi?

     Seres uma criança e teres um vírus a bater-te à porta não será pêra doce. Um país, um continente, um planeta inteiro a fechar-se atrás de portas e paredes, a deixar a rua livre para pássaros,  insectos, ratazanas, as regras a serem definidas ao sabor dos acontecimentos. Mais mortos, mais vacinas, mais máscaras, mais, mais, mais, tudo mais menos a liberdade.

    Já lá vão 4, 5 anos? Para um tipo que tenha 40, 50, 60 anos, o período de confinamento foi um intervalo. Para uma criança, para um adolescente, foi uma fatia importante da vida vivida. E isso deve deixar marcas. Só pode.

    De vez em quando lembro-me de que a coisa aconteceu, a pandemia. Mas tenho alguma dificuldade em recordar como foram as coisas, o que aconteceu ao longo desse período. As privações, a doença mas também um tempo de algum conforto, eu e a minha família numa concha. A angústia de ter os meus pais longe, muito velhos. A minha mãe faleceu entretanto. Tristeza dilacerante.

    Sei que estas coisas aconteceram mas a recordação que delas guardo é tão vaga como algodão em rama.  

segunda-feira, novembro 02, 2026

Post 3000

     O Cristão Ronaldo persegue o milésimo golo como se o futuro do Universo disso dependesse. Eu vou à caça do post três mil aqui no 100 Cabeças. Sei bem que nada depende disso. Mas é aquela cena dos números redondos.

    Era o ano 1000, depois era o ano 2000, nem um nem outro trouxeram nada de especial, nada que pudesse associar-se a forças universais extremamente poderosas. Nada, nadinha. Népias! Nem sequer um buguezito que entorpecesse os computadores todos deste mundo, pelo menos, que do outro outras forças entrarão em equação. Coma o seu cão, faça ão, ão e guarde o seu portão.

    E assim vai passando o tempo, como barquito de papel lançado à voragem das águas de uma estação de tratamento de águas residuais. 

sexta-feira, outubro 30, 2026

Acontecimento

     Ao subir as escadas, a mulher ao meu lado tropeçou. O livro caiu-lhe, o corpo deu um solavanco e eu, apesar de estar a uma distância que me não permitia alcançá-la, fiz um gesto com as mãos na sua direcção. Como se a minha intenção pudesse interferir nos acontecimentos, como se o meu gesto transportasse uma espécie de magia, como se eu fosse uma poderosa personagem do universo Marvel, algo que o valha.

    A mulher esticou-se, mandou a cabeça para cima, bateu fortemente com um pé no degrau, bamboleou as ancas no esforço de evitar a perda de equilíbrio, teve sucesso e manteve a compostura. Acto contínuo recolheu o livro e lá foi, arrepanhando a saia comprida, talvez a responsabilizar a dita pela desgraça que quase acontecera.

    Foi isto. 

terça-feira, outubro 27, 2026

Formigueiro

     As formigas continuavam no carreiro como se nada de mau acontecesse. O facto de o puto se divertir a mijar-lhes em cima, a esmagar uma ou outra, a colocar meia-dúzia delas directamente na teia de uma aranha, o facto de o puto se distrair a atazaná-las parecia não as incomodar nem um bocadinho. Limitavam-se a mudar de direcção, a voltar para trás, ignoravam a maldade sádica da criança e continuavam a viver a sua vida, como fazem as formigas.

segunda-feira, outubro 26, 2026

Tragédia Global

     Terei ainda tempo de assistir a transformações significativas no modo de vida europeu, ou morrerei com fascistas no poder, ou haverá alguma guerra civil dentro das fronteiras da União? Ah, o Futuro, assim grafado com "F" soa a coisa grave, impõe respeito ao leitor. O Futuro é aquele que a Deus pertence, a mim e a gajos como eu, pertence-nos um futuro com "f", coisa mais curta e menos grandiosa. A simplicidade não nos impede de sermos figurantes na trama mais vasta e complexa que compõe a Tragédia Global do planeta.

    É certo e sabido que as personagens das tragédias são deuses, heróis, príncipes, reis, rainhas e princesas, gente importante. A escumalha, quando muito, pode aspirar a ser personagem de Comédia. Então, a tal Tragédia Global do planeta é protagonizada por figurões como Trump, Putin, Xi... homens velhos, e/ou  Musk, Bezos, Zuckerberg, homens mais ou menos jovens mas doentes, todos eles, os novos e os velhos. Enquanto personagens de Tragédia sabemos bem qual é a doença de que padecem. É a Húbris! 

    No final vem o castigo, os deuses não perdoam o orgulho desmedido entre aqueles que não habitam no condomínio fechado do Monte Olimpo. Trump vai morrer em estado de demência absoluta, a borrar-se todo, Putin será vítima de um transplante de coração que o transformará, definitivamente, num porco e Xi Jinping... Xi Jinping, não sei bem como, haverá de apaixonar-se inexplicavelmente por um potezinho de mel e terá um tigre de peluche por melhor amigo.

sábado, outubro 24, 2026

Aaaaaaaah... pois!

     

     Terá a invenção da roda resultado de uma persistente observação da lua? Terá o inventor da roda sido simultaneamente poeta e cientista? Convém recordar que uma e outra coisa, poesia e ciência, são filhas da imaginação e da criatividade. É que, pelo menos nas escolas e daquilo que conheço, a tendência é a de separar as coisas como se fossem absolutamente opostas. Não são.

    Proporcionar espaços oníricos ao pessoalzinho parece-me uma honrada ocupação. Estimular o pensamento destrambelhado será um dos objectivos principais de qualquer educador que se preze. 

sexta-feira, outubro 23, 2026

Receios

     Confesso ter um certo receio de me não enxergar devidamente. Receio inchar com um sapo que fuma, convencer-me de que sou mais inteligente do que a realidade me permite e depois... pum, rebentamento! - uma nuvem de fumo a esfumar-se (que é o que fazem as nuvens de fumo). 

    Receio sonhar demasiado alto. Receio até imaginar-me uma espécie de Ícaro porque isso implicaria ter adquirido de forma extraordinária a capacidade de voar, que é coisa muito para lá dos meus horizontes que são os de um gajo de um metro e setenta com os pés normalmente assentes no solo. Ainda para mais, sei bem que se tivesse as asas do dito jovem voador nunca me atreveria a voar tão perto do sol. Não seria assim tão temerário.

    Espero nunca perder esta modéstia doentia que faz de mim uma espécie de sonho sempre adiado, que me impede de afirmar o que imagino ser por não saber se sou aquilo que imagino. Podemos renegar uma educação católica mas o catolicismo dificilmente nos renegará a nós.