quarta-feira, março 25, 2026

Já foste!

     Já alguma vez tiveste a sensação de que pensaste uma coisa que decerto mais ninguém havia jamais imaginado? Já alguma vez tiveste o peito tão cheio de não-sei-quê que até parecia que eras a materialização da felicidade absoluta? Já alguma vez olhaste para algo que acabaste de fazer, algo que trouxeste de um outro mundo até este, e pensaste que era uma coisa mesmo muito muito fixe que merecia ser admirada, analisada e colocada no pedestal onde se acotovelam as obras-primas da Humanidade inteira? Já alguma vez sentiste de repente um arrepio na coluna vertebral porque te apercebeste de que afinal a tua ideia, a tua felicidade, a tua obra, tu próprio, não passam de falhanços, pequeníssimos rasgos no tecido infinito da Realidade? Que, se calhar, nada disto existe, tudo isto é triste, tudo isto é Fado?

    Caramba, isto é o que em linguagem futebolística se chama "uma entrada a pés juntos"! Um tipo vem lá de trás a correr feito maluco e, sem avisar, sem dizer àgua-vai, completa e absolutamente de surpresa, entra de carrinho e leva tudo à frente. Vai relva, vão botas, vão pernas e caneleiras, o adversário a voar pelo ar aos trambolhões. Catrapunfas! Já foste!

terça-feira, março 24, 2026

Guerra

     Ter a sensação de que tudo e cada coisa se encontra no lugar exacto, eis o princípio fundamental da felicidade. Ver as coisas encaixadas umas nas outras como se o tempo e o espaço formassem um continuum sobre o qual tudo é paz, harmonia e equilíbrio; beleza!

    Imagino que fosse isso o que me levava a ficar dias inteiros deitado no chão a imaginar universos habitados por bonequinhos de plástico enquanto os movia de um lado para o outro, falando por eles, falando com eles, amigos e inimigos que habitavam comigo aquele mundo em constante mutação e no qual eu era Deus, sem sombra para dúvidas. Naquele mundo tudo dependia de mim e eu encarregava-me de fazer com que tudo decorresse dentro da maior das naturalidades, sendo eu a expressão viva da Natureza.

    A memória não consegue ir buscar situações e enredos concretos das aventuras que vivi com os bonecos, recordo apenas uma vaga sensação de felicidade absoluta. Ter o "coração cheio", o corpo todo satisfeito e consciente, pertencer e possuir em simultâneo; é difícil explicar por palavras aquilo que ainda agora fui capaz de sentir, que me fez suspirar, aquilo que eu sei o que é mas não consigo passar com clareza para o teclado, para o ecrã, para ti, a menos que construa uma forma verbal confusa e periclitante, prestes a desabar a cada sílaba.

    Acho que já fui feliz em muitas ocasiões. Imagino que o número de vezes que ri até às lágrimas, as vezes que ri sinceramente a sentir o peito abrir-se para o mundo oferecendo aquilo que sou a quem possa ou queira ver, essas gargalhadas todas poderiam servir para fazer uma contabilidade da alegria que senti ao longo desta minha vida. E depois há a infância, essa espécie de Atlântida, Idade de Ouro, Tempo de Vinho e Rosas, Paraíso... eu sei lá, esse tempo, esse espaço, esse mundo esquecido o qual me oferece esta memória, agora vaga, da felicidade absoluta.

    Olho para a televisão. Vejo mas preferia não ver. Crianças assustadas tentam esconder-se numa folha de papel riscando sobre ela com vigor. O olhar concentrado não esconde a angústia que as rói por dentro. Têm no peito um bicho mau a incomodá-las, um mundo circundante que as ameaça, um céu que desaba constantemente sobre elas, um céu que cai e explode com a brutalidade dos monstros indestrutíveis, dos monstros totais e absolutos, um céu e uma terra que juntos formam a imagem da guerra. Uma guerra com crianças dentro é a coisa mais horrível que consigo imaginar.

    

domingo, março 22, 2026

Tédio

     Há dias assim, em que as coisas parecem não ter brilho. Há dias em puxamos o lustro às coisas mas elas teimam em permanecer baças. Dias assim podem ser uma chatice. Deus nos livre! Mas contra o tédio nem mesmo Deus pode grande coisa. Apesar da sua tão gabada omnipotência, o Criador também sucumbe ao tédio com bastante frequência. Ser pastor e olhar constantemente pelo rebanho... vai lá, vai! Estamos juntos, meu irmão.

    Um gajo tenta combater o tédio mas encontra algumas dificuldades difíceis de ultrapassar. A mais complicada talvez seja aquela que se prende com o facto de não sabermos exactamente com o que lidamos, quero dizer: o que é o tédio, como é ele, onde posso agarrá-lo para lhe torcer uma parte daquilo que o constitui (o nariz por exemplo, ou puxar-lhe os cabelos)? O tédio tem nariz? O tédio tem cabelos? Não sei se me estás a compreender, entediado leitor (ou leitora, não quero parecer algo que não sou).

    Talvez por não sabermos que formas pode o tédio tomar, a gente tenta várias remédios, mezinhas e tratamentos de choque que podem ir da leitura à música, da corrida à contemplação. Vale tudo no combate contra o tédio, alguma coisa haverá de se revelar eficaz.

    Esta plasticidade absoluta, esta identidade secreta, os rumores desencontrados sobre o aspecto, a forma ou as vontades que podem animar o tédio, aparentam-no ao Diabo, esse velho conhecido que também provoca a cada um de nós visões distintas do que é, de quem é, o que quer ou para onde vai. Ninguém sabe e, na verdade, ninguém quer realmente saber. Não existisse o Diabo e a vida correria o risco de vir a transformar-se num imenso e infindável tédio.

quarta-feira, março 18, 2026

Antes do Apocalipse

     Não há volta a dar-lhe, dançamos alegremente em direcção ao abismo. Dançamos como as ratazanas, dançamos como as crianças, o flautista é um fantasma tremendamente real. Vamos hipnotizados, conscientes do mal que nos arrasta de forma irresistível. Como drogados viciados, sabemos o que nos espera mas, mesmo assim, avançamos sem hesitação. Talvez tenhamos esperança que algo aconteça durante a queda que possa ainda resgatar-nos a um futuro de apagamento total.

    Entretanto temos uma vida para viver. Pequenas coisas para tratar, outras para resolver: um dente cariado, uma intimação da repartição de finanças, um cretino a quem temos de afiambrar um valente par de tabefes pelas trombas abaixo, coisinhas assim, o tal quotidiano delirante que não se compraz com o incerto futuro da Humanidade. Antes do Apocalipse tenho de aparar o bigode, lavar os dentes e deixar o despertador para as oito da manhã. Não pretendo chegar atrasado, muito menos pretendo chegar adiantado.

segunda-feira, março 16, 2026

A ampulheta e a clepsidra

     Até pode parecer que estou a ficar meio paranóico. Ou completamente! Pode parecer que estou a ficar meio xéxé e que não me lembro do que disse num post aqui plantado há poucos dias atrás. Pode parecer mas "nem tudo o que parece é" como diz o outro, o Povo. O Povo diz coisas.

    Isto porquê? Cá pra mim, se ainda estás a ler esta coisa não deves estar a perceber nada do que para aqui vou semeando. Mas, dizia, isto porquê? "Mas isto o quê?" pensas tu, desorientado leitor (ou leitora), já com a paciência a escorrer-te do cérebro. - Isto, isto de estar a ficar meio paranóico. - responderia eu, caso estivéssemos a conversar face to face. "Aaaaaah, hóquei..." suspiras tu, mortinho para que esta merda de conversa acabe ou para que, pelo menos, faça algum sentido.

    Pode parecer que estou a ficar meio paranóico pois esta manhã apercebi-me de que penso constantemente na morte embora não pondere com seriedade a possibilidade de vir a morrer dentro de pouco tempo. "E o que consideras tu como sendo pouco tempo?" - perguntas. E eu penso: "Rai's parta este leitor (ou leitora) que já começa a chatear!", e continuo, agora em voz alta - Sei lá. Tenho 63 anos, se viver mais 15, 20 anos, acho justo e, talvez, suficiente.

    E pronto, é um bocado isto. Nos últimos posts tenho reflectido um pouco sobre velhice e envelhecimento. Pelo menos por enquanto a coisa ainda não me deprime mas não tenho a certeza de ser capaz de manter toda esta fleuma durante muito mais tempo... lá está, é tudo uma questão de tempo!?

quinta-feira, março 12, 2026

Meia dúzia de anos

     As pessoas envelhecem muito. Um gajo está meia dúzia de anos sem ver um amigo e quando o reencontra, catrapunfas! Está ali um velho à nossa frente. Entretanto também nós envelhecemos (o amigo poderá estar a pensar exactamente a mesma coisa que nós, numa espécie de simetria mental absoluta) mas como nos olhamos ao espelho com frequência, assistimos ao lento trabalho da força da gravidade sobre os nossos corpos. Cada um de nós só é surpresa para os outros.

    Um gajo olha para o amigo, tão transformado ele está, um gajo pensa: que mudança extraordinária! Qual quê!? Na verdade não haverá muitas coisas tão ordinárias como o envelhecimento. O envelhecimento é da ordem do quotidiano de todas as coisas. Das pedras às formiguinhas, dos planetas aos carapaus, tudo envelhece constantemente. Não há nada que não esteja sujeito às leis do tempo (não do tempo dos relógios mas do outro tempo, o absoluto) e é assim.

    Um gajo está meia dúzia de anos sem ver um amigo e quando o reencontra tem muitas histórias para partilhar com ele. Talvez mais histórias antigas, daquelas que viveram juntos e agora recordam de maneiras diferentes, mais dessas histórias que de outras, novas, vividas separadamente. Seja lá o que for, aconteça o que acontecer, reencontrar um amigo passada meia dúzia de anos é sempre um acontecimento!

quarta-feira, março 11, 2026

Vacas mornas

     O que espera cada um de nós daqueles que nos representam e governam? Que sejam aquilo que neles projectámos, que sejam exactamente aquilo que imaginámos que iriam ser quando deixámos o papelinho a morrer na urna de voto? 

    Haverá aqueles que tentam corresponder ao que deles se espera (pobres diabos) e outros que, uma vez investidos dos poderes que lhes são conferidos pela Constituição, passam a pôr em prática o plano de usufruto do poder que haviam previamente elaborado. Não poderiam ser atitudes mais antagónicas. Duas faces da mesma moeda nunca cruzam o olhar, o que não é o caso, por isso a expressão aqui não se aplica.

    A meu ver há os políticos honestos (o que não significa que sejam bons políticos ou sequer eficazes) e os desonestos (o que não quer dizer que sejam ineficazes mas talvez queira dizer que não são bons políticos). Não há políticos mais ou menos honestos ou corruptos assim-assim. Nesta actividade a ambiguidade ética não é admissível, outros campos da acção humana admitirão alguma imaterialidade de carácter mas não a política.

    Voltando à vaca antes que arrefeça demasiado: António José Seguro é Presidente da República. O que espera dele cada um de nós? Uns não gostam do senhor por ser demasiado à direita, outros odeiam-no por ser socialista, por ser mosca-morta, por ter uma boca estranha, houve até que o apodasse de Tó-Zero. Mas ele lá está, a ser aquilo que é. Ser honesto não é excitante, como me parece ter sido sugerido por Cotrim de Figueiredo quando se tornou evidente que Seguro iria ser eleito? 

    Tantas perguntas, tantas perguntas, pareço uma criança a perguntar na idade dos porquês. Para não me ir embora demasiado depressa aqui deixo mais uma: vivemos um tempo de vacas mornas?