segunda-feira, agosto 08, 2022

Ouvi dizer

     Dizem-nos que não há problema, que vai ficar tudo bem.Tendo a concordar, quando nos formos ficará tudo bem. Para as baleias, para os chimpanzés, para os papagaios e para os leões. Dizem por aí que o capitalismo não tem de ser olhado de soslaio, que sem capitalismo não haverá redenção. Tendo a discordar, o capitalismo é um monstro com 20 fileiras de dentes aguçados e de cada vez que um dente lhe cai dois novos crescem no seu lugar. Dizem por aí que o crescimento económico não é "o" problema. Tendo a discordar.

    

quarta-feira, agosto 03, 2022

A Democracia como empecilho


    Há muito que se fala em pós-democracia, mas o conceito não tem sido muito discutido nem tão difundido quanto seria desejável. Muitos são os que consideram que vivemos em pleno um regime pós-democrático; elegemos os nossos representantes que se ocupam do funcionamento das instituições e vão tomando decisões que permitem ir equilibrando o nosso quotidiano, mas as grandes decisões económicas são tomadas nos ambientes controlados dos conselhos de administração de meia dúzia de grandes empresas. Estas multinacionais formam uma espécie de Comité Central da Internacional Capitalista (IC) e são os seus patrões quem decide o modo como vivemos e como morremos, tendo como único objectivo a satisfação dos interesses dos seus principais accionistas. Os seus negócios são transversais, do armamento aos cereais, dos combustíveis fósseis aos verdes, onde houver dinheiro a ganhar há um comissário da IC a fazer com que a coisa flua.

    Isto pode soar a teoria da conspiração, mas não consigo evitar a sensação de estar a IC promovendo o desmantelamento da Democracia, peça por peça. A coisa está já em avançado estado de degradação nos EUA, no Brasil o ambiente não parece muito melhor, a ascensão nazifascista por toda a Europa é preocupante. Para gáudio da IC as grandes potências em ascensão têm regimes abstrusos: na China uma espécie de capitalismo de estado, na Índia um impossível democracia nacionalista hindu. Populações inteiras com direitos socio laborais mitigados ou mesmo inexistentes são o sonho húmido dos dirigentes da IC, o futuro da Humanidade.

    Assistimos ao declínio final do “século das luzes” após a derrocada dos impérios coloniais. A África terá de continuar à espera da sua hora, quem sabe daqui a mil anos…? Putin terá também direito a constar numa página da História, talvez numa nota de rodapé, lado a lado com Zelensky: os dois Vladimiros siameses que, cada um à sua maneira, deram a machadada final na União Europeia. Eu sei que tudo isto soa a teoria da conspiração, mas não consigo libertar-me da incómoda sensação de que a Democracia se tornou um autêntico empecilho.

domingo, julho 31, 2022

Memória esquecida

     Hoje andei por aqui a vasculhar posts antigos. Porquê? Para quê? Porque vou fazer uma exposição de desenho em Setembro e quero experimentar colocar alguns textos entre os meus desenhos (na foto acima, preparação da coisa). Ter um blogue como este é ter um arquivo imenso de textos escritos ao longo dos anos sobre os temas mais variados. Estou habituado a vir aqui de vez em quando buscar coisas de que necessito. É cómodo e eficaz.

    De repente lembrei-me do meu amigo Eduardo Penteado Lunardelli, uma espécie de Senhor dos Blogues, que viu todos os seus blogues obliterados de um momento para o outro sem que lhe tivesse sido explicado, pelo menos de forma satisfatória, porque razão o encerravam assim, sem aviso prévio.

    Isto deixou-me a pensar sobre o que fazer com os dois mil e muitos posts que estão aqui, no 100 Cabeças. Poderei perder esta memória de um momento para o outro? Corro esse risco. Passar tudo para um disco de memória externa? É uma possibilidade mas é tarefa morosa que não me apetece muito levar a cabo.

    Graças à minha inegável preguiça correrei o risco de "amnésia bloguista" mas, se levar em linha de conta uma certa capacidade para executar tarefas repetitivas e mais aborrecidas do que contar os feijões de uma lata, poderei ter esperança na realização da ciclópica saga do descarregamento do 100 Cabeças. Valerá a pena? Fazendo fé no poeta dependerá do tamanho da minha alma.

sexta-feira, julho 29, 2022

BUM!

     Cada vez mais sinto uma certa nostalgia do futuro. Nostalgia do futuro!? "O gajo está a asnear" pensa o leitor desprevenido. Como pode alguém sentir falta ou saudade daquilo que ainda não aconteceu? Pois é, não é fácil de explicar; é um sentimento tão profundamente difuso que as palavras o trespassam sem lhe sentirem a pele.

    É uma nostalgia daquilo que nunca virei a ser, acrescentando já as expectativas defraudadas, as que já lá vão mais as que haverão de vir; uma nostalgia da própria civilização tal como a conheci, não exactamente como ela é agora. Começo a ficar azedo, a pensar "no meu tempo é que era". Mas o meu tempo é também este tempo. Ainda não estou morto, pelo menos ainda não completamente.

    Cada vez mais tenho a incómoda sensação de que a nossa civilização não tem muito futuro. Não sei se esta sensação é provocada por estar a assistir, ao vivo e a cores, ao desabamento da suposta supremacia do "Ocidente". Não sei se por me aperceber que estamos a tornar impossível a sobrevivência da espécie humana nestes moldes, quero dizer, nada se expande infinitamente a não ser (ao que parece) o Universo. A expansão infinita da Economia provocará o rebentamento da bolha civilizacional e... BUM!!!

    Silêncio.

sábado, julho 23, 2022

Uma pequena dor

     Adeus! Tchauzinho, adeus! Não voltou a cabeça, avançou num passo decidido sabendo que voltar atrás era coisa interdita. Adeus, adeus, até nunca mais! A despedida prolongava-se na hesitação da voz que ficava para trás. Resolveu avançar mais rapidamente e lá foi. O "adeuzinho" soou já pequenino, lá longe, uma pequena voz a diluir-se na distância que o separava daquilo que seria inevitavelmente o seu passado. Uma pequena dor alojou-se-lhe na profundeza do peito, na profundeza da alma, também ela a diluir-se, a tornar-se parte dele. Nada a fazer; o tempo não regressa, a vida não é vivida duas vezes. Todo o caminho tem um fim. À medida que avançava as sombras tinham mais densidade, a luz ia perdendo força, o ambiente ganhando uma certa magia. Adeus! pareceu-lhe ouvir, mas não podia ter a certeza. A escuridão aliava-se agora ao silêncio. Talvez fosse aquilo o futuro.

sexta-feira, julho 15, 2022

5 minutos

     Sentia-se submergido pela sua própria experiência de vida. Momentos havia em que quase chegava a perceber fazer parte de algo maior do que o seu quotidiano, momentos em que quase acreditava haver um sentido para a sua vida; chegou mesmo a quase acreditar em Deus. Nestes momentos, tão mágicos quanto fugazes, o corpo descontraía e a respiração ficava regular. O mundo batia em uníssono com o seu coração.

    Mas a vida não se comove com a insignificância de quem somos. Sentia-se deprimido 23 horas e 55 minutos por dia, todos os dias. Sim, mesmo quando dormia, era visitado por pesadelos horrendos. Dizer que se tratava de um homem deprimido seria dizer muito pouco. Era um homem desfeito, um detrito, um indigente social: era, segundo palavras suas ditas defronte ao espelho "uma merda de merda". Poderoso.

    Fosse como fosse, vivia para aqueles 5 minutinhos quotidianos de quase felicidade a que tinha direito. Poderiam surgir logo ao acordar, lá mais para o meio da manhã, perto da hora do almoço, ao fim da tarde, na hora da caminha; podiam viver-se todos de uma vez ou distribuídos em pequenas parcelas ao longo do dia recortando figurinhas alegres no tecido da angústia permanente. Não fossem aqueles doces minutos e já teria enfiado um tiro na cabeça ou bebido um copázio de veneno para a rataria. 

    5 minutos de vaga felicidade vividos cada dia provavam-lhe que a vida não tem de ser apenas sofrimento.

quinta-feira, julho 14, 2022

Historiador

     Poderia escrever toda uma história da arte tendo como ponto de partida a sua própria obra. Uma história da arte contemporânea, está bom de ver, que nem mesmo os artistas são imortais, diga lá Camões o que disser. Coçou a barriga, mirou as unhas lá em baixo, nos pés sujos de pisarem o chão do atelier para lá e para cá, em volta, para cima e para baixo; deixou a nuca ir pesando até lhe atirar a cabeça para trás. Mirou o tecto.

    O tempo passara, passara, voltara a passar. Tanta coisa aconteceu e, afinal, a sensação que perdurava era a de nada ter acontecido. Todas as cenas gloriosas que lhe haviam preenchido os anos de juventude nunca foram motivo de notícia, nunca atraíram as atenções da elite, nem da crítica, nem sequer da chungaria, portanto era como se não tivessem acontecido. Cenas gloriosas? Só mesmo na cabeça dele... ou não? 

    Havia ali uma certa confusão.

    Muita química inflamável, miolos queimados, recordações reconstruidas de cada vez que lhe faziam uma visita à alma. Cada vez duvidava mais de que certas coisas tivessem, de facto, acontecido e das que se lembrava sem rebuço punha em causa que houvessem sido mesmo assim. Mas podia escrever essa tal história. Talvez não da arte mas a sua história.

    Levantou-se em direcção ao frasco de pickles onde descansavam pincéis mal penteados afogados em água suja de tinta. Antes de alcançar a tela meio pintada já se tinha esquecido da ideia magnífica que o fizera levantar da cadeira.