domingo, maio 24, 2026

Morel

     O que inventou Morel? Inventou uma maquineta tenebrosa, capaz de fritar a existência de todos (de tudo?) aquilo que ficasse ao alcance dos seus sensores e sistemas de registo. Na ânsia de preservar eternamente a felicidade proporcionada pela convivência entre pessoas que se amam (ou que, pelo menos, são unidas por sentimentos de amizade), Morel mumificou todos e cada um dos que elegeu para o acompanharem naquela aventura insensata.

    Morel pretendeu imitar o Criador mas deu-se mal. Aliás, bem vistas as coisas, o Criador também não se saiu lá muito bem. Somos nós o resultados dos Seus esforços criativos? Morel e Deus, um par de falhados.

    O narrador da novela de Bioy Casares está vivo? De certeza? Pode muito bem ser um fantasma, uma alma penada, alguém que deixou de existir e passou a pairar num Purgatório sem saída. Nem Paraíso nem Inferno, o narrador de Casares está para sempre esquecido, perdido no labirinto de incongruências construído por Morel, apaixonado por um reflexo, nutre sentimentos profundos por uma coisa que os não tem.

    Seremos nós, todos nós, como o narrador de A Invenção de Morel? Fantasmas apaixonados por formosas fantasias? 

sexta-feira, maio 22, 2026

Existir

     Existir é isso mesmo: é estar, ficar, permanecer. Existir é sinónimo de ser (tinha escrito um pequeno texto justificando esta minha opinião mas confirmei que estas palavras são, de facto, sinónimas, portanto é uma boa oportunidade para ficar calado a esse respeito).

    Existir é isso mesmo: ficar, estar, permanecer como as florestas, como as montanhas ou o céu que as envolve. Já os outros seres vivos (são as montanhas seres vivos ou nunca chegam a ultrapassar a categoria "divindade"?), os seres que têm capacidade de deslocação, os seres que hoje estão aqui e amanhã estão ali, esses, que não páram quietos, acabam por ter existências mais fugazes e menos completas. Consomem-se nas vitórias diárias que alcançam quando vencem a distância entre dois pontos cumprindo desse modo trajectos e destinos. Nascimento, vida e morte, locais diferentes, quase sempre.

    Uma floresta também morre (tal como os deuses, as florestas não são eternas) mas as razões que levam ao seu desaparecimento são de categoria diversa. Quando o cão morre acaba o universo para as pulgas que o parasitam? Não tenho bem a certeza mas, estou em crer, que as pulgas encontrarão solução adequada que lhes permita perdurar. Outro bicho.

    Existir é também imaginar, é também ser o que não se é. Ser potência, fantasma, possibilidade. O imaginado permanece. Enquanto habitar a mente humana Dom Quixote não morrerá nunca. Nem Ulisses, nem Jeová, nem o Snoopy. Poderão ser um dia substituídos mas permanecerão algures, num limbo qualquer, aguardando oportunidade de regresso. Existir também é isso.

quinta-feira, maio 21, 2026

Um desenho

     A felicidade é uma viagem. O importante não é tanto de onde vimos ou para onde vamos, o que importa, de facto, é o que nos vai acontecendo. Sabemos que vimos do ventre da nossa mãe e que vamos na direcção do imenso adeus e, em princípio, aspiramos à felicidade.

    Fazemos o trajecto como se fazem aqueles desenhos com uma só linha contínua, sem levantar o riscador da superfície de suporte. Marcamos no mapa da vida a forma da nossa felicidade. Quando algo de ruim acontece e nos vemos obrigados a suspender o gesto, a levantar o riscador da superfície onde riscamos a nossa felicidade, vivemos momentos de angústia, momentos de incerteza: ai Jesus, valha-me Nossa Senhora!

    É suposto que à medida que vamos vivendo sejamos capazes de um maior comprometimento com a felicidade que nos permita adquirir uma certa sageza, uma certa gravitas, tudo coisas associadas ao embranquecer das cabeleiras. Isso pode ou não acontecer e, eventualmente, influenciar a nossa forma de estar no mundo. Podemos tornar-nos animais perigosos ou nem por isso, depende do grau de loucura que o mundo nos vai injectando na alma.

    A felicidade é um desenho.

quarta-feira, maio 20, 2026

Made in China

     Um desenho em formato A3 isolado é uma coisa. Integrado numa muralha de 100 desenhos com o mesmo formato transforma-se noutra. Terá algo a ver com o indivíduo e a multidão, a árvore e a floresta e por aí fora?

    A percepção que as pessoas têm dos objectos artísticos é uma coisa extremamente variável, volúvel e escorregadia; plástica? É a plasticidade de significados a razão para designarmos certas artes como sendo plásticas? Ou tem a ver com a maleabilidade dos materiais aplicados?

    Seja como for tenho sempre a impressão de que a palavra "plástica", quando surge associada às artes, está relacionada com a reacção do plástico a uma fonte de calor. O derretimento, a alteração da forma conforme certas forças aplicadas de determinada maneira, o jogo com os materiais como o gato que joga com o cadáver do pardal ou do rato antes de os abocanhar, antes de os comer, antes de os transformar em algo que, mais do que seu, passa a fazer parte do seu corpo, energia vital. O que não for aproveitado há-de ser cagado.

    São plásticos os materiais, são plásticos os significados, é plástico o nosso corpo. Plástica a vida, plástico o mundo, enfim, tudo é plástico e o plástico tende a ser tudo. Um dia todo o Universo terá sido transmutado em plástico. Made in China.

terça-feira, maio 19, 2026

Julian Barnes

     Julian Barnes, Julian Barnes... o que dizer de Julian Barnes? Eu sei lá, tanta coisa pode ser dita que não faço a mínima ideia do que possa dizer. Afinal de contas é alguém que não conheço minimamente. Lá porque li dois ou três, ou meia dúzia de livros por ele escritos... a verdade é que não sei nada sobre ele. Claro que não. Não sei nadinha de nada.

    Julian Barnes é um escritor cujas obras me fazem sentir um pouquinho mais inteligente quando as leio, um pouquinho mais inteligente do que normalmente sou. Não será nada de extraordinário mas é tudo o que tenho a dizer a seu respeito, Julian Barnes. 

sexta-feira, maio 15, 2026

Selfie

     Estão sérios como carapaus no gelo da peixaria. Manipulam o telemóvel (inteligente, decerto) até o pendurarem num gesto que o deixa à altura do nariz, palmo e meio de distância e, de súbito, vindo do nada, um rasgão abre-lhes a tromba na horizontal. Dizem que é um sorriso mas não é. É uma mentira. É uma pose, um esgar.

    Os autorretratos com telemóvel (as selfies) implicam uma espécie de auto-consciência dolorosa. Cada um lá sabe o que lhe vai na alma quando segura o objecto com a finalidade de se registar. Clique. Já está. A sincronia é perfeita, no momento do clique abre-se o rasgão, expõe-se a ferida provocada pelo simulacro de felicidade. Como se precisássemos de mostrar a dentuça ao telemóvel, talvez para não o ofendermos; pedimos-lhe uma selfie, somos obrigados a colaborar. Aquele esgar é o pagamento exigido pela máquina.

    Uma selfie leva-nos a tomar atitudes mecânicas, aproxima-nos do telemóvel, fundimo-nos por um momento fugaz, humano e telemóvel irmanados num registo, uma memória, uma atitude salutar de partilha de inteligências.

quarta-feira, maio 13, 2026

O amor

     O amor é uma tisana, um placebo, um auxiliar, uma prótese da alma. Uma bengala.