quinta-feira, outubro 08, 2026

Consequências de um debate parlamentar

     Estou a uma unha negra de deixar de comentar nos jornais, de ler compulsivamente notícias, de tentar colocar alguns tijolinhos de sensatez na construção do mundo que me rodeia. Estou quase, quase! Estou farto de tanta merda. Será assim que os direitolas nos derrotam, submergindo o mundo em merda líquida que lhes vai jorrando das bocas, como se fossem fontes de merda? Merdosas fontes de merda?

    Esta tarde tive a infeliz ideia de ligar a TV para assistir a um debate na Assembleia da República. A coisa foi de tal modo deplorável que pensei: esta merda que se foda! Caralhos fodam esta cambada de filhos de uma grandecíssima puta que os há-de parir. Assistir aos Pintos deste mundo aplaudindo Venturas, ladrando incessantemente, mordendo a atmosfera, exalando um fedor insuportável na sala do hemiciclo... não. Não tenho estômago para tanto.

    Dizias tu: então és assim, quando o ambiente fica forrado a merda pões-te na alheta, lindo! Respondo eu: o povo gosta de merda, o povo lambe-se por merda, o povo acrescenta merda à merda. 

    E parece-me ser muito isso. Estou cansado de falar pró boneco. Peço desculpa, decerto estou enganado, mas tenho cá a impressão de que o povo tem o que quer e, se o quer, o povo tem o que merece.

    Não fosse a merda e seria tudo cristalino. 

terça-feira, outubro 06, 2026

Naza

     Naza, com "z", é a designação utilizada pelas tropas israelitas para os "danos colaterais" causados pelos seus bombardeamentos indiscriminados. Bombardeiam mais ou menos às cegas. Basta saberem que certa personagem está naquele local e... BUM, mata-se toda a gente que esteja por perto. Sejam soldados, crianças, velhos, mulheres que estão apenas a preparar uma refeição que já ninguém irá comer, mata-se toda a gente. É criminoso.

    Ontem fui com a Ana assistir à projecção do documentário com o título "Naza". Um estranho filme, rodado maioritariamente à noite, nos terraços de Telavive. O documentarista mostra a face mas os entrevistados são apenas sombras, silhuetas, pessoas reais que não existem neste mundo. Pelo que me foi dado perceber, existem apenas num mundo virtual onde o sangue não é real e não há pessoas nem cidades, onde não há nada, onde tudo é reduzido a cifras.

    Durante toda a projecção não reparei que tivesse havido a habitual agitação na sala, telemóveis ligados, focozinhos de luz aqui e ali, nada. Talvez tenha sido eu a ficar hipnotizado pela crueza do filme, não sei. No final toda a gente se levantou e saiu da sala no mais completo silêncio, um silêncio sepulcral. 

segunda-feira, outubro 05, 2026

O céu

     Astérix está desesperado. O céu aproxima-se cada vez mais perigosamente do elmo com asinhas que lhe protege a cabeça. Obélix nem pia e o canito não parece compreender muito bem o que passa. 

    Além do céu a cair rapidamente sobre nós, as coisas cá em baixo estão cada vez mais feiosas e complicadas. Os fascistas crescem por todo o lado como florinhas malévolas após as primeiras chuvas da Primavera. O povo parece ser maioritariamente fascista ou será apenas estúpido? Ou o estúpido sou eu que não compreendo a bondade de um filho-da-puta? Será isto o inferno a tomar forma definitiva?

    Hoje tive dificuldades em dormir decentemente.  

quinta-feira, outubro 01, 2026

O Homem-Record

     Os temas menos elevados ganham espaço mediático pois abrangem uma maior faixa da população. Por vezes leio (outras vezes tento ler) certos artigos sobre ciência e tenho de produzir um esforço que vai lá vai sem a certeza de ser capaz de obter resultados que possa um dia considerar vantajosos. Queimar combustível e não sair do lugar é algo pouco recomendável.

    O caso Cristiano Ronaldo é completamente diferente. Desde o Zé da Esquina à Micas Húmida, todos têm uma opinião mais ou menos fundamentada sendo que todas elas merecem a atenção que lhes é devida. É um caso nacional ou até mesmo mundial! 

    Chovem opiniões de quem gosta de futebol mas não gosta do Ronaldo, de quem gosta do Ronaldo mas não gosta de futebol, de quem gosta do Ronaldo e de futebol, de quem não gosta de uma coisa nem de outra, enfim, o mundo pode dar largas à sua opinião, ao seu conhecimento de causa, seja em farsi ou catalão, todas as vozes se fazem ouvir, toda a sabedoria extravasa. 

    Não sei se isto agrada a Ronaldo, estou convencido que sim, que agrada, mas, que tipo de sentimentos confusos se lhe debatem no peito e de que forma o Tico aperta o gasganete ao Teco lá dentro, na caverna que lhe abriga o cérebro? 

    Independentemente da qualidade do que se fala, penso que para uma pessoa como Ronaldo é a quantidade que conta pois isso mostra a importância que ele tem no mundo em que vivemos. Pode ser que lhe venha a ser atribuído um novo record, o record da má língua a nível  mundial. Seria uma forma maravilhosa de colocar um pedregulho sobre a sua carreira na Selecção. 

domingo, setembro 27, 2026

Meter água (na história)

     As diferentes religiões (todas ou quase todas) criadas e recriadas nos quatro cantos deste mundo, concebem um Criador. Alguém ou alguma coisa que construiu este mundo e nele criou a vida e nele colocou o ser humano, que tem mais ou menos relevância no conjunto da criação, conforme a origem do mito em análise. 

    Deus é quase sempre um construtor, um arquitecto ou então um masturbador, um fecundador de céus ou de oceanos. Dependendo da sofisticação da civilização que o cria, cada deus é mais isto ou mais aquilo, mais selvagem ou mais urbano, mais atento ou distraído, pacífico ou aterrador. Não há regra absoluta, estamos a falar de desuses, são os amigos imaginários da Humanidade.

    Veio isto a propósito de ter lido algures que até mesmo entre os tupi-guarani, o mundo no qual habitamos actualmente resulta do renascimento social de uma espécie anteriormente dizimada por um dilúvio. As semelhanças entre esta história e o dilúvio de Gilgamesh ou o descrito no livro do Génesis são, eventualmente, perturbadoras.

sábado, setembro 26, 2026

Enigma preguiçoso

     Entretanto, a notícia é a de que ainda não morremos todos. Vamos morrendo. Um hoje, outro amanhã e enquanto por aqui andamos podemos continuar a comover-nos com a beleza, a lacrimejar um pouco quando ouvimos The Tower of Song, a sorrir de espanto quando olhamos um tríptico de Bosch, a sentir a pele arrepiar-se perante um filme magnífico. Como somos nós capazes de produzir tanta beleza e, na sombra dessa glória, produzimos tanta merda miserável. Não sou capaz de me decidir se isto faz ou não faz sentido.

    Entretanto, a notícia é a de que ainda somos capazes de amar. Vamos amando. Hoje amamos, amanhã odiamos. Odiamos verdugos e tiranos, a mentira e a trafulhice, amamos a justiça e o sopro de uma brisa qualquer capaz de nos refrescar os sonhos. Como somos nós capazes de odiar tão sinceramente e amar em simultâneo. Somos animais esquizofrénicos!?

    Entretanto escrevo estas palavras. Não sei para quê, mas escrevo-as. Não reconheço grandes qualidades a este texto, não sou capaz de me decidir se era preciso escrevê-lo ou se teria sido melhor ficar quieto. Vou escrevendo, tal como vou vivendo, tal como odeio, como amo. Tudo isto me parece fruto da respiração, da batida cardíaca, de um corpo que vai funcionando, coisa quase mecânica. Mas não sei o que é, não sei o que seja, o que venha a ser. Não sei.

 

sexta-feira, setembro 25, 2026

A maior de todas as histórias

    Alguém haverá de assistir ao fim do mundo. Um ser humano aqui, outro ali, outro ainda mais além, os últimos do fim da fila da extinção da espécie observando, já derrotados, o derradeiro suspiro de uma civilização vítima da sua húbris. Quanta melancolia, que terrível beleza!

    Aquele ali, desalentado, exprime com palavras poderosas as coisas que vê, descreve de forma magnífica o espectáculo a que assiste e do qual faz parte, autor e actor da desgraça absoluta. Que tragédia, oh, deuses, que tragédia comovente: a Humanidade a contorcer-se de dor num planeta que para ela se tornou demasiado selvagem.

    Aquele ali regista num papel toda esta história, escreve um poema que é lamento desassombrado e epitáfio. Mas não haverá ninguém que o leia, não terá os aplausos merecidos pela obra grandiosa que acaba de criar. Aquele papel, contendo a maior de todas as histórias, vai perder-se algures, levado pelo vento, comido pela chuva, engolido pela terra.

    Não restará ninguém para ler a maior de todas as histórias.