sexta-feira, junho 05, 2026

A colecção

     As canecas não são bem minhas, foram-me oferecidas. É uma situação curiosa. Eu até nem acho graça a esses objectos mas, talvez por ter tantas no armário e nas prateleiras da cozinha, as pessoas que vêm a minha devem ficar a pensar que tenho algum fetiche por canecas. Não tenho.

    Aí estão elas. Tamanhos diversos e decorações variadas; canecas para leite, para chá, para cerveja, para água, sei lá para que mais, canecas, canecas e mais canecas, como um vírus, como uma praga alienígena, vão usurpando o espaço da minha casa com o meu beneplácito. Quantas mais entram mais vêm.

    Olho as canecas com um misto de desprezo e indiferença. Aceito a invasão. Sou um colaboracionista e não um prisioneiro. São coisas diferentes. Talvez um dia me transforme em caneca, mais uma peça desta colecção indesejada.

sexta-feira, maio 29, 2026

Perante a morte

     Um dia destes um gajo liga o jornal no telemóvel e lê: "Faleceu Anselm Kiefer..." ou "... Laurie Anderson faleceu ontem..." ou Mick Jagger, ou outro figurão qualquer da arte mais ou menos popular e pensamos... nada. Quando muito vem-nos à memória aquela pintura (!?) monumental, aquele tema extraordinário, aqueles saltos de gafanhoto (velho como as casas), mas o que pensamos nós? Pomos um "smiley" triste vertendo lagriminhas (um sadley?) no Facebook, escrevemos uma frase de merda, epitáfio pretensioso, mostramos o quanto ficámos combalidos com a recepção da notícia e... siga a marinha que tristezas não pagam dívidas. Somos muito assim, somos fogo de vista.

    Isto, partindo do princípio que iremos sobreviver a estas personagens que andam todas na casa dos oitentas e picos. Amanhã posso muito bem não ligar jornal nenhum, o meu telemóvel pode tornar-se um objecto inútil mais dia menos dia.

    A dor é intensa na razão directa da proximidade animal. Quero dizer, quando é alguém da família a coisa magoa à séria. Quando é um amigo chegado magoa um bocadinho. Quando morre um ídolo, sejamos sinceros, aquilo não chega bem a ser dor ou não chega a ser dor de forma nenhuma. Fico-me por aqui, evito ser malcriado ou, muito simplesmente, evito ser estúpido. Se é que ainda não fui.

quinta-feira, maio 28, 2026

É a felicidade uma coisa que se veja?

     A felicidade pode ser coisa que se veja, que se sinta, que se cheire, que se ouça, que possa saborear-se? A felicidade manifesta-se de algum modo que nos permita apreendê-la, medi-la, sopesá-la? Podemos ser mais ou menos felizes neste dia do que fomos num outro? Como podemos responder se não estamos sequer seguros de que o motivo da questão exista?

    Quando tento reflectir sobre a felicidade toda a reflexão me surge na forma de perguntas. Respostas, se as consigo verbalizar, são sempre conversas mais ou menos poéticas.

    Ontem fiz uma descoberta pouco extraordinária. Tive a sensação muito forte de que a felicidade é como são as fadas e as bruxas, que existem se acreditarmos nelas. No caso das fadas verbalizando a nossa crença (acredito em fadas, acredito em fadas, acredito em fadas), no caso das bruxas temendo-as embora admitindo que não existem mas tendo consciência plena de que as há. As há!

    Pensei ainda que as fadas são metáforas da felicidade. Convém que afirmemos alto e bom som que a felicidade existe (acredito na felicidade, acredito na felicidade, acredito na felicidade) caso contrário as bruxas ficam com caminhos abertos em direcção a este mundo que habitamos.

quarta-feira, maio 27, 2026

Estupefacção infinita

     A nossa relação com a Eternidade é do mais simples e puro pavor. Mesmo aqueles de entre nós que imaginam a Eternidade como algo potencialmente positivo, após alguma reflexão mais demorada encontram sempre motivos para ficar, no mínimo, apreensivos. Sendo nós essencialmente perecíveis como podemos encarar uma existência inesgotável?

    O Tempo está para lá da nossa capacidade de percepção. Alguém pode afirmar sinceramente ser capaz de compreender o Infinito? Alguém é capaz de imaginar algo que não seja contido por alguma coisa? O Universo em expansão dá cabo de mim.

segunda-feira, maio 25, 2026

Notas muito soltas

     A mera existência de uma coisa é o seu principal fundamento. Penso que o espelho seja um exemplo do que pretendo dizer. Ou um lápis, ou um automóvel, ou a lâmina de uma faca a brilhar numa noite de lua quase, quase cheia. Amanhã sairão os licantropos e a navalha, hoje ameaçadora, será absolutamente inofensiva.

    "A transformação de um homem num artista e, depois, do artista em arte." Um homem que muda para ser um outro homem, para vir a ser um objecto, um homem que dispersa a sua alma no mundo, ora perdido, ora por outros homens encontrado. Um homem pendurado na parede, erigido em torre de marfim, apontado às nuvens nas montanhas da Babilónia. Um homem que não quer ser a escultura que liberta do bloco de mármore mas não tem como evitá-lo.

    Por qualquer razão que me escapa, quando procuro imagens que ilustrem a sensação de felicidade surgem personagens de braços abertos, uma perna esticada e outra flectida ou com as duas pernas no ar elevadas num pinote. O fundo pode ser um céu muito azul ou uma espécie de pôr-do-sol (neste caso a figura resume-se a uma silhueta), a coisa varia muito pouco. E quando faço a pesquisa num motor de busca, mesmo variando a língua (experimentei português, ucraniano, persa, japonês, etc) o resultado é sempre semelhante. 

    

Fantasmas apaixonados por formosas fantasias

     Fantasmas apaixonados por formosas fantasias: esta frase parece o título de um episódio de um podcast dos Gato Fedorento mas não deixa de ter uma certa cadência musical, um ritmo que não sei especificar. Talvez pudesse contar sílabas e essas coisas que se fazem para se saber se um frase é isto ou, pelo contrário, se é aquilo, mas não sei como o fazer nem sei se alguma coisa do que escrevi faz algum sentido.

    Fantasmas apaixonados por formosas fantasias: terminei o post anterior com esta frase e, por gostar da forma como ela se desloca no meu cérebro, dei por mim a fazê-la título deste post. Muito bem, tenho um título mas não sei ao certo o que fazer com ele. Como tal, acabo a escrever isto.

    Fantasmas apaixonados por formosas fantasias: somos nós, os seres humanos. 

domingo, maio 24, 2026

Morel

     O que inventou Morel? Inventou uma maquineta tenebrosa, capaz de fritar a existência de todos (de tudo?) aqueles que ficassem ao alcance dos seus sensores e sistemas de registo. Na ânsia de preservar eternamente a felicidade proporcionada pela convivência entre pessoas que se amam (ou que, pelo menos, são unidas por sentimentos de amizade), Morel mumificou todos e cada um dos que elegeu para o acompanharem naquela aventura insensata.

    Morel pretendeu imitar o Criador mas deu-se mal. Aliás, bem vistas as coisas, o Criador também não se saiu lá muito bem. Somos nós o resultados dos Seus esforços criativos? Morel e Deus, um par de falhados.

    O narrador da novela de Bioy Casares está vivo? De certeza? Pode muito bem ser um fantasma, uma alma penada, alguém que deixou de existir e passou a pairar num Purgatório sem saída. Nem Paraíso nem Inferno, o narrador de Casares está para sempre esquecido, perdido no labirinto de incongruências construído por Morel, apaixonado por um reflexo, nutre sentimentos profundos por uma coisa que os não tem.

    Seremos nós, todos nós, como o narrador de A Invenção de Morel? Fantasmas apaixonados por formosas fantasias? 

sexta-feira, maio 22, 2026

Existir

     Existir é isso mesmo: é estar, ficar, permanecer. Existir é sinónimo de ser (tinha escrito um pequeno texto justificando esta minha opinião mas confirmei que estas palavras são, de facto, sinónimas, portanto é uma boa oportunidade para ficar calado a esse respeito).

    Existir é isso mesmo: ficar, estar, permanecer como as florestas, como as montanhas ou o céu que as envolve. Já os outros seres vivos (são as montanhas seres vivos ou nunca chegam a ultrapassar a categoria "divindade"?), os seres que têm capacidade de deslocação, os seres que hoje estão aqui e amanhã estão ali, esses, que não páram quietos, acabam por ter existências mais fugazes e menos completas. Consomem-se nas vitórias diárias que alcançam quando vencem a distância entre dois pontos cumprindo desse modo trajectos e destinos. Nascimento, vida e morte, locais diferentes, quase sempre.

    Uma floresta também morre (tal como os deuses, as florestas não são eternas) mas as razões que levam ao seu desaparecimento são de categoria diversa. Quando o cão morre acaba o universo para as pulgas que o parasitam? Não tenho bem a certeza mas, estou em crer, que as pulgas encontrarão solução adequada que lhes permita perdurar. Outro bicho.

    Existir é também imaginar, é também ser o que não se é. Ser potência, fantasma, possibilidade. O imaginado permanece. Enquanto habitar a mente humana Dom Quixote não morrerá nunca. Nem Ulisses, nem Jeová, nem o Snoopy. Poderão ser um dia substituídos mas permanecerão algures, num limbo qualquer, aguardando oportunidade de regresso. Existir também é isso.