Seres uma criança e teres um vírus a bater-te à porta não será pêra doce. Um país, um continente, um planeta inteiro a fechar-se atrás de portas e paredes, a deixar a rua livre para pássaros, insectos, ratazanas, as regras a serem definidas ao sabor dos acontecimentos. Mais mortos, mais vacinas, mais máscaras, mais, mais, mais, tudo mais menos a liberdade.
Já lá vão 4, 5 anos? Para um tipo que tenha 40, 50, 60 anos, o período de confinamento foi um intervalo. Para uma criança, para um adolescente, foi uma fatia importante da vida vivida. E isso deve deixar marcas. Só pode.
De vez em quando lembro-me de que a coisa aconteceu, a pandemia. Mas tenho alguma dificuldade em recordar como foram as coisas, o que aconteceu ao longo desse período. As privações, a doença mas também um tempo de algum conforto, eu e a minha família numa concha. A angústia de ter os meus pais longe, muito velhos. A minha mãe faleceu entretanto. Tristeza dilacerante.
Sei que estas coisas aconteceram mas a recordação que delas guardo é tão vaga como algodão em rama.
