segunda-feira, abril 20, 2026

Estar frito

     Ao que consta, os EUA estão a um passinho de bebé de virem a declarar-se um Estado Cristão. Pois, tal como qualquer Estado Islâmico ou coisa que o valha. Uma coisa é sê-lo, outra parecê-lo e, agora, outra coisa ainda é declará-lo. A declaração oblitera por completo o parecer e confunde um pouco o ser. Seja lá como for, teremos mais um Estado que irá reclamar a vontade de Deus quando for necessário justificar os desmandos alucinados dos seus líderes (enviados a este mundo por Deus, obviamente).

    O facto de os EUA possuírem o maior arsenal nuclear do planeta fica ainda mais incómodo. Agora esse arsenal passa a estar à disposição do Deus que pôs Donald Trump a cumprir um plano qualquer que ninguém compreende. Escolher Trump diz muito a respeito desse Deus e não inspira a mínima confiança aos que ainda não tomaram o ácido da crendice fundamentalista. 

    Temo que o Deus de Trump não seja o mesmo que os iranianos adoram e tenha algumas diferenças em relação ao Deus de Israel. Se estes três deuses são o mesmo, há uma evidente falha de comunicação entre o Outro Mundo e este, que habitamos. Se, pelo contrário, forem três deuses diferentes capazes de disputar a atenção e as almas de todos os seres humanos, então estamos fritos.

    Pessoalmente, há muito que desconfio da existência de Deus (ou de deuses). Mas, no entanto, desejo ardentemente estar enganado e torço para que exista apenas um Deus e que uma Revelação aconteça, mais dia menos dia. E torço também que, a existir, o verdadeiro e único Deus não seja Jeová. Se é ele, estamos fritos. 

domingo, abril 19, 2026

Um dia destes vai chover

    Várias personagens aguardam maior definição. Duas estão sentadas, outra fica em pé e uma quarta encosta-se a uma das duas primeiras. Há ainda uma quinta personagem na penumbra de uma abertura que poderá ser uma porta. Aguardam, como disse, maior definição mas já se sabe mais ou menos o que fazem ali. Aparentemente não fazem nada mas é esse o aspecto de quem espera alguma coisa.

    As personagens estão calmas, não dão sinais de inquietude ou de impaciência. São, talvez, um pouco fatalistas. Elas não sabem o que vai na mente de cada uma das outras, podem apenas responder por si. Nem têm consciência de serem criações de um artista mais ou menos indiferente ao que elas são ou possam vir a ser. Ao artista interessa-lhe apenas que aquelas personagens ali estejam com arzinho de quem contempla o vazio e reflecte em conformidade.

    Um dia destes ainda vai chover merda. 

quinta-feira, abril 16, 2026

Circuito fechado

     Ler um texto escrito por um pensador francês traduzido para português quando as ideias que veicula são tudo menos ideias simples, pode revelar-se uma tarefa desopilante. Um gajo pode não estar a perceber muito bem aquilo que vai lendo, pode ter que voltar atrás uma e outra vez, reler, parar um pouco, pensar melhor e perceber um bocadinho. Ou pode abstrair-se enquanto vai decifrando as palavras e dar por si a não ler, lendo. As palavras entram pelos olhos mas parecem apenas deslizar quando chegam ao cérebro. Ficam para ali  tentando marchar meio esquecidas.

    E pronto, parar a leitura e escrever um texto no qual tentas explicar o que te aconteceu aqui há uns minutos atrás pode ser uma boa forma de recuperares uma certa vitalidade que ias perdendo com o livro entre as mãos. É o que faço, o que fiz, o que lês e, daqui a nada, o que leste. Dou por mim a pensar que o passado não tem fim (título do último desenho que fiz). E assim fecho o circuito. 

domingo, abril 12, 2026

Invejoso

     Ontem tive outra vez aquela sensação um pouco azeda de não ter reconhecimento merecido pela arte que produzo. É uma espécie de despeito, quase desprezo pelo "sistema", pelo mundo da arte, pelo mundo todo, porque eu sou genial e ninguém parece reparar. Deixam-me aqui na beira da estrada a fazer figura de urso, a pedir boleia a manadas de elefantes, a aviões que passam lá no alto, deixam-me aqui a imaginar que sou coisas que não sou. E porquê? Porque a necessidade de ser relevante é um ferrão que se nos espeta no cérebro e nos deixa a sofrer a vida toda, provoca uma dor que só é atenuada com atenção e elogios. Nunca ultrapassamos a primeira infância, somos eternamente aquele bebé a quem as tias apertam a bochechinha enquanto dizem: coisa mailinda! É aí que nasce a nossa necessidade insaciável de atenção e carinho que depois não pára de crescer ao longo das nossas vidas.

    Ontem lá tive de resistir mais uma vez àquela sensação um tanto incomodativa que vem agarrada à vaidade e se transforma em inveja, uma inveja difusa e não direccionada, uma inveja injusta, como toda a inveja é. Lá tive de racionalizar as coisas, limpar-lhes o pó, abaná-las um pouco, voltar a colocá-las no devido lugar. E lá recordei aquela frase que escrevi já várias vezes por aí, algures no 100 Cabeças: eu sei que não existo mas, no entanto, estou aqui. 

sexta-feira, abril 10, 2026

Casa

     Primeiro foi a minha Mãe. Depois faleceu o meu Pai. A partir daí deixei de ter Casa. Apercebo-me agora de que os meus avós também entravam na minha concepção de ter uma casa própria, um lugar de abrigo onde o amor era incondicional e nunca posto em questão. Por vezes cai uma certa nostalgia como se neve fosse. O falecimento daqueles que amamos não reduz o amor que transportamos no peito mas este tende a diluir-se no espaço-tempo. 

    Agora tento preservar esse amor construindo uma Casa para a minha mulher e a minha filha. Deus me dê alento. 

segunda-feira, abril 06, 2026

Senhor Calmante

     "Não faz mal, não se passa nada, afinal não é assim tão importante". A mão esquerda treme-lhe como se tivesse alguma doença degenerativa mas é tudo nervos. Nem mais, nem menos, sé nervoso miudinho, daquele que nem deixa mazelas no sistema nem nada. "Não faz mal, não é assim tão importante". Afinal de contas o que pode significar mais uma morte no meio de tantas mortes que todos os dias nos anunciam, com aparente satisfação, nos diferentes canais de TV? Nada! "Nadinha de nada", digo-lhe eu ao ouvido com a voz mais aveludada com que sou capaz de atapetar a garganta. "Vais ver que ninguém dá por nada."

    Sou assim mesmo: um gajo fixe e muito cool. É por isso que me chamam tantas vezes quando se trata de acalmar alguém que esteja à beira de cagar o esqueleto. Na maior parte das situações já não há nada a fazer e, por isso mesmo, é mais ou menos pacífico dar a volta ao culpado no sentido de lhe mostrar um lado mais luminoso da questão. Uma perspectiva mais optimista, um vislumbre do que poderia ser o mundo se ele não tivesse feito merda da grossa. Como era este o caso. Grande merdalhona!

    Envolvo-lhe os ombros num abraço caloroso, um abraço que aprendi com o meu pai e pratiquei afincadamente com o meu irmão, a minha mulher e a minha filha; um abraço fixe como o caraças! Isso deixa-o um pouco mais descontraído. O que é bom. A merda está feita, só falta limpá-la para debaixo do tapete. Com a mão livre seguro a minha ponta-e-mola favorita, uma navalha que o meu velho comprou em terras de Espanha quando por lá andou a contrabandear boas vontades. É uma navalha elegante; leve, esguia e consistente.

    Em menos de um daqueles piscar-de-olhos está o problema resolvido. 

domingo, abril 05, 2026

Bosch é bom

     Não se compreende, porque o verbo "compreender" não é o adequado quando contemplamos um tríptico de Bosch. Como poderíamos compreender algo tão complexo, tão anguloso, tão abstruso, tão repentino na forma como muda de direcção e se desvia da parede sobre a qual se lançou em vertiginosa velocidade no derradeiro e precioso momento? Deixarmo-nos esborrachar de encontro ao muro de complexos significados formado pelo quadro também é uma opção a ter em conta. E não será menos agradável que qualquer outra que possamos tomar.

    Não se compreende porque vivemos no século XXI, porque temos artefactos electrónicos e nos basta accionar um interruptor para que se faça luz a qualquer hora do dia. Não se compreende porque em vez de burros montamos automóveis e no lugar dos sonhos que eram sonhados olhando o céu temos agora aviões a jacto cortando a imensidão em fatias.

    Não se compreende porque o nosso Deus veste fato e gravata e foi transformado em burocrata.