segunda-feira, setembro 14, 2026

Momento exacto

     Entre uma notícia e a próxima, entre uma angústia nova e outra, velha, eis que os obituários marcam a passagem do tempo na sua cadência implacável. Morre mais um, falece mais outra. Excepto naqueles casos em que as pessoas são levadas por alguma doença repentina ou por acidente imprevisto, a morte vai-se encarregando de cumprir a função que lhe está destinada com a eficácia e a frieza dos funcionários competentíssimos. Deus só pode estar satisfeito com a sua produtividade.

    Um gajo vai envelhecendo. Cai o cabelo, cresce a barriga, umas coisas compensam outras. Instala-se uma certa saudade (não sei não é tristeza). Fico com a sensação de que poderia ter feito muito mais coisas, que poderia ter sido muito diferente, a minha vida, eu próprio, tudo muito diferente. Depois penso que se tivesse vivido essa diferença, essa vida paralela, talvez estivesse agora a suspirar por esta. Sim, porque quando pensamos que as coisas poderiam ter corrido de outra maneira, que poderíamos ter vivido uma vida que não esta, não pensamos que, estaríamos, eventualmente, a sonhar com esta que vivemos agora. É confuso? Não me parece.

    Imagino que nos vamos habituando à presença da morte. Cada vez mais vão pessoas que conhecemos mais ou menos bem, pessoas que tinham a nossa idade (era um rapaz tão novo), os nossos mais velhos. Vão morrendo um atrás do outro, a morte a cumprir o plano da burocracia da vida; este morreu por isto, aquele foi por aquilo e nós ali sentados, na fila, sabemos que haverá de chegar a nossa hora. O nosso minuto. Melhor, haverá de chegar o micro segundo, aquele momento exacto em que vamos desta pra melhor (esperamos nós que seja pra melhor).

sexta-feira, setembro 11, 2026

O chato das botas

     Pensar na vida não é recomendável. Dizendo de outra forma: não é recomendável pensar na vida. Quero dizer, seja qual for a perspectiva ou a forma de abordar a questão, pensar na vida não é pêra doce. Nem um pouco mais ou menos.

    Será que a coisa se apresentou do mesmo modo quando se insinuou nas reflexões dos nossos antepassados? Quero dizer, pensar na vida em pleno século XXI terá o mesmo peso e o mesmo sentido que teve no século XV ou no século XIX? Ou, se não o mesmo peso e o mesmo sentido, qualquer coisa semelhante? Não me apetece esclarecer esta dúvida, parece-me reflexão para levar demasiado tempo consigo e tempo que é coisa que me falece.

    Sou um homem do século XXI. Talvez coloque essa dúvida a uma chatbot

quinta-feira, setembro 10, 2026

Ai, caramba!

     Não te suicides já, espera mais um bocado. Pode ser que aconteça o que não é para acontecer, pode ser que o destino tropece. Não te suicides ainda, há esperança. A esperança pode morrer mas só quando já não houver quem a alimente. Depois de a esperança falecer nem deus resta. Nada.

quarta-feira, setembro 09, 2026

O futuro

     É uma sensação estranha esta, a de ver o mundo a desmontar-se peça por peça mesmo defronte dos meus olhos. Não falo do planeta, falo do mundo, que são coisas bem diferentes, não vale a pena estar para aqui a explicar.

     Talvez mais tarde o mundo seja de novo montado com uma organização diferente destas mesmas peças, talvez venham a ser incluídas na montagem peças até aqui inexistentes, é como naquele poema do Camões que fala de o mundo ser composto de mudança. O Futuro não pertence a ninguém, nem mesmo a Deus (seria necessário que Ele existisse).

     A civilização tal como actualmente a concebemos está por um fio. Mais dia menos dia pode cair no abismo sobre o qual balança perigosamente... 

    Durante algum tempo haverá caos e desordem, choro, saudade e lamentação. Mas, se tudo se desenrolar segundo as boas leis da existência das espécies, logo, logo haverá outra forma de se ser humano e dentro de uns milhares de anos este mundo será uma curiosidade arqueológica.

 

domingo, setembro 06, 2026

Afinal qual é o problema?

     Sabes como é, é como quando a realidade não coincide com aquilo que sonhaste, como quando há um desfasamento entre o que preencheu um sonho que tiveste no passado e aquilo que vives no presente. Este dia que não chega a ser um eco daquele sonho que nem sequer foi sonho particularmente grandioso. E vem a tentação de pensar: é isto? Afinal a vida é isto? Só isto? Pois.

    Talvez o tal desfasamento não seja um problema ou, pelo menos, não seja "o" problema. Talvez "o" problema seja outra coisa, talvez se coloque de outro modo, tenha uma formulação mais simplória do que aquela que imaginas deveria ter uma questão de tão suma importância. 

    Estamos a falar do sentido da vida? 

quinta-feira, setembro 03, 2026

Merda até ao pescoço

     Haverá alguma coisa que eu possa fazer? Tenho a impressão de que lá na ONU os small bosses andam a atapetar os corredores com as toalhas que atiram ao chão. Enquanto isso, os big bosses esfodaçam esta merda toda sem qualquer tipo de problema nem peso na consciência. O futuro não é deles, portanto estão-se bem a cagar. Venha o clima enlouquecido, vamos fazer uma festa!

    Nas escolas ensinamos as crianças a respeitar o planeta, a amar os bichinhos, a reciclar o lixo e a regar as plantas com peso conta e medida, a água é um bem precioso. Mas, se olharmos a realidade com os nossos olhos de adultos, as coisas não estão nada bonitas. Estão mais feias do que alguma vez estiveram e a tendência é para que piorem. Toda a gente vê o problema mas poucos de nós estão dispostos a abdicar do que quer que seja de modo a mitigar a merduncha em que nos enterramos a cada dia que passa. Ateamos a fogueira que nos grelha com entusiasmo e boa disposição.

    Se é para rebentar, que rebente em grande estilo! 

    Apesar de me sentir impotente, apesar de saber que sou incapaz de inverter o curso dos acontecimentos, apesar de compreender que os meus gestos são invisíveis mesmo que analisados ao microscópio, apesar de tudo, estou disposto a fazer umas coisitas que me permitam continuar a dormir descansado. 

segunda-feira, agosto 31, 2026

Pensamentos

     Às vezes penso que pensar é coisa de maluco mas depois penso de maneira diferente. E como uma vez penso uma coisa para logo a seguir pensar outra diferente fico naquela: serei maluco? E não é fácil sair disto, resolver esta coisa - ser ou não ser, eis a questão, como dizia o outro.

    Não é fácil chegar a uma conclusão, tomar uma perspectiva fixa de certos problemas que não parecem capazes de ficar quietos nem um bocadinho, quanto mais não seja para lhes tirarmos uma fotografia ou rabiscar um esboço. Coisa rápida. É exactamente isso mesmo, o que se passa com a problemática da maluquice: não pára quieta. 

    Portanto, o problema é que o problema, neste caso, é muito parecido consigo próprio. Tenho dificuldade em perceber se estou a pensar no problema ou se estou a pensar na solução do problema, não sei se me faço entender.  É tudo tão parecido, existem tantas semelhanças. Às vezes penso que pensar é coisa de maluco mas depois penso de maneira diferente.