segunda-feira, agosto 31, 2026

Pensamentos

     Às vezes penso que pensar é coisa de maluco mas depois penso de maneira diferente. E como uma vez penso uma coisa para logo a seguir pensar outra diferente fico naquela: serei maluco? E não é fácil sair disto, resolver esta coisa - ser ou não ser, eis a questão, como dizia o outro.

    Não é fácil chegar a uma conclusão, tomar uma perspectiva fixa de certos problemas que não parecem capazes de ficar quietos nem um bocadinho, quanto mais não seja para lhes tirarmos uma fotografia ou rabiscar um esboço. Coisa rápida. É exactamente isso mesmo, o que se passa com a problemática da maluquice: não pára quieta. 

    Portanto, o problema é que o problema, neste caso, é muito parecido consigo próprio. Tenho dificuldade em perceber se estou a pensar no problema ou se estou a pensar na solução do problema, não sei se me faço entender.  É tudo tão parecido, existem tantas semelhanças. Às vezes penso que pensar é coisa de maluco mas depois penso de maneira diferente.

domingo, agosto 30, 2026

O mais...

    Quando era jovem sonhava ser nada mais nada menos que o mais... qualquer coisa. Desejava ser o mais não sei quê. Mas, sim, queria ser o mais, o maior, o melhor, enfim, queria ser uma espécie de divindade mais ou menos absoluta. Mais do que menos absoluta.

    Um gajo jovem nem sequer se preocupa lá grande coisa com o que teria de fazer para vir a ser... o mais. Não. Porque haveria de preocupar-se? A coisa irá dar-se de uma maneira ou de outra, a coisa acontecerá mais cedo ou mais tarde. Não é preciso fazer nada de especial, basta deixar o mundo fluir, esperar que os astros se alinhem "et voilá"!

    O tempo vai passando e um gajo vai deixando de ser jovem e a espera começa a parecer demasiado longa. O mundo deixou de fluir? Os astros alinharam-se quando eu estava a dormir? Ok, ainda não aconteceu mas vai acontecer. Ainda vou ser o mais... o maior... o que é preciso é manter a confiança no meu valor.

    E depois um gajo já não é jovem de modo nenhum e a coisa não se deu. Nunca foi o mais, embora também não tenha sido o menos. Talvez possa considerar que foi mais ou menos, nos dias bons. Ou então cagar nisso e pôr ao peito, como dizia quando era um jovem promissor, convicto de que o mundo haveria de ajoelhar-se aos seus pés, pois seria, infalivelmente, o mais...

quinta-feira, agosto 27, 2026

Tempo

    A tecnologia pode ser uma coisa muito irritante. Quando não responde automaticamente às ordens que lhe damos, a máquina parece exprimir uma vontade própria. Nós pedimos, a máquina não dá. A tendência natural é recorrermos ao insulto.

    Ainda sou do tempo em que uns murros no tampo da TV faziam com que o aparelho acalmasse e voltasse a funcionar de acordo com a vontade do utilizador ou um aperto mais num parafuso era capaz de fazer com que o gira-discos rodasse de novo e a música soasse agradável.

    Os computadores parecem menos caprichosos, a Inteligência Artificial dá-se ares de grande profissionalismo. Murros e aparafusadelas não  resultam com máquinas tão sofisticadas. Já nem sequer sinto vontade de insultar o bicho. Não sou deste tempo.

quarta-feira, agosto 26, 2026

Espraiar a vista

     A paisagem não era assim tão grandiosa, mais a fama que o proveito! Obrigado a subir ao topo da ruína por força das circunstâncias disse mal dos seus pecados. Falou com os botões da camisa de modo a não incomodar as senhoras que pareciam extasiadas com aquilo que a Natureza lhes oferecia à vista. "A gente somos todos diferentes", é tão óbvio que até chateia. Mas daí até achar que tal miséria estética poderia deixar-nos o queixo a rondar os tornozelos... vai lá, vai!

terça-feira, agosto 25, 2026

Lavrar o corpo

    Rai's parta à mulher que não pára de coçar o corpo todo! Coça a cabeça, coça os braços e as costas com grande esforço, coça-se no entre-pernas e coça as sobrancelhas, coça, coça, coça sem parar. Até parece possuída por algum fantasma mais malandro que lhe tenha pregado uma valente partida fazendo dela marioneta de espectáculo dedicado aos maluquinhos.

    Ela torce, ela salta, ela contorce. Coça, coça, coça. A gente rodeia, a gente ri-se, mas há quem repare que tanta coçadela começa a fazer ferida, a deixar riscos vermelhos na pele, rasgões que se abrem sem dar sinais de voltarem a fechar-se. E sai um grito.

    Alguns de nós saltam em frente, agarramos os braços desgovernados da mulher, tentamos pôr cobro àquela loucura mecanizada que lhe lavra o corpo com unhas que são garras de bicho ferido na razão. Ela não quer. Ela quer continuar a rasgar-se, a ferir-se, a maltratar-se, insulta os que vão em seu socorro gritando que não precisa de socorro nenhum. "Filhos da puta!" é o que ela grita. E contorce-se como uma centopeia, agarrada de mãos e pés, braços e pernas bloqueados por força alheia, força combinada de quantos lhe não querem mal. 

    Rai's parta à mulher que não pára de se contorcer como se fora cobra, enguia ou outra coisa difícil de agarrar! 

segunda-feira, agosto 24, 2026

Preconceito e unhas sujas

    Pouco havia a fazer pois a maioria dos cidadãos tinha já bem enfiada na cabeça uma imagem perfeita de quem ele era. Os que ainda não o olhavam de lado, com a desconfiança própria dos enojados da vida, era porque não o conheciam embora também entre esses houvesse muitos já tinham ouvido falar do Pataqueiro, manifestando desde logo disposição para verter veneno corrosivo sobre a sua imagem, por mais difusa que fosse lá por aquelas cavernas cranianas deficientemente iluminadas.

    O homem falava demasiado? Podemos dizer que sim, que era muito falador, mas é crime dizer alto o que silenciosamente pensamos? O homem era vaidoso? Sem dúvida, vá-se lá saber porquê. Um bocado desleixado em termos higiénicos? Inegavelmente, a sujidade debaixo das suas unhas era motivo de espanto geral e a tendência para meia dúzia de copos a mais não ajudava a compor o ramalhete. Mas era também um tipo bonacheirão, capaz de ajudar quem precisasse de alguma coisa que ele tivesse para dar embora o que tivesse para dar fosse sempre muito pouco.

     Na balança do deve e do haver das  qualidades humanas não ficava a dever grande coisa fosse a quem fosse, antes pelo contrário.

sexta-feira, agosto 21, 2026

Crashipumpáfe

    Andamos acagaçados, a verdade é essa. A IA mete medo, é um papão no telhado, não há quem durma descansado. Andávamos há coisa de muito tempo a tentar perceber como lidar com os escolhos da Revolução Industrial e, catrapunfas! Foi sem aviso nem nada, cai-nos em cima esta merduncha toda, uma catarata desgraçada, o futuro a chegar na forma de um TGV sem freio a entrar de rompante na gare das nossas vidas, zuuuuum, já fomos! Crash e pum, paf!!!