sexta-feira, maio 22, 2026

Existir

     Existir é isso mesmo: é estar, ficar, permanecer. Existir é sinónimo de ser (tinha escrito um pequeno texto justificando esta minha opinião mas confirmei que estas palavras são, de facto, sinónimas, portanto é uma boa oportunidade para ficar calado a esse respeito).

    Existir é isso mesmo: ficar, estar, permanecer como as florestas, como as montanhas ou o céu que as envolve. Já os outros seres vivos (são as montanhas seres vivos ou nunca chegam a ultrapassar a categoria "divindade"?), os seres que têm capacidade de deslocação, os seres que hoje estão aqui e amanhã estão ali, esses, que não páram quietos, acabam por ter existências mais fugazes e menos completas. Consomem-se nas vitórias diárias que alcançam quando vencem a distância entre dois pontos cumprindo desse modo trajectos e destinos. Nascimento, vida e morte, locais diferentes, quase sempre.

    Uma floresta também morre (tal como os deuses, as florestas não são eternas) mas as razões que levam ao seu desaparecimento são de categoria diversa. Quando o cão morre acaba o universo para as pulgas que o parasitam? Não tenho bem a certeza mas, estou em crer, que as pulgas encontrarão solução adequada que lhes permita perdurar. Outro bicho.

    Existir é também imaginar, é também ser o que não se é. Ser potência, fantasma, possibilidade. O imaginado permanece. Enquanto habitar a mente humana Dom Quixote não morrerá nunca. Nem Ulisses, nem Jeová, nem o Snoopy. Poderão ser um dia substituídos mas permanecerão algures, num limbo qualquer, aguardando oportunidade de regresso. Existir também é isso.

quinta-feira, maio 21, 2026

Um desenho

     A felicidade é uma viagem. O importante não é tanto de onde vimos ou para onde vamos, o que importa, de facto, é o que nos vai acontecendo. Sabemos que vimos do ventre da nossa mãe e que vamos na direcção do imenso adeus e, em princípio, aspiramos à felicidade.

    Fazemos o trajecto como se fazem aqueles desenhos com uma só linha contínua, sem levantar o riscador da superfície de suporte. Marcamos no mapa da vida a forma da nossa felicidade. Quando algo de ruim acontece e nos vemos obrigados a suspender o gesto, a levantar o riscador da superfície onde riscamos a nossa felicidade, vivemos momentos de angústia, momentos de incerteza: ai Jesus, valha-me Nossa Senhora!

    É suposto que à medida que vamos vivendo sejamos capazes de um maior comprometimento com a felicidade que nos permita adquirir uma certa sageza, uma certa gravitas, tudo coisas associadas ao embranquecer das cabeleiras. Isso pode ou não acontecer e, eventualmente, influenciar a nossa forma de estar no mundo. Podemos tornar-nos animais perigosos ou nem por isso, depende do grau de loucura que o mundo nos vai injectando na alma.

    A felicidade é um desenho.

quarta-feira, maio 20, 2026

Made in China

     Um desenho em formato A3 isolado é uma coisa. Integrado numa muralha de 100 desenhos com o mesmo formato transforma-se noutra. Terá algo a ver com o indivíduo e a multidão, a árvore e a floresta e por aí fora?

    A percepção que as pessoas têm dos objectos artísticos é uma coisa extremamente variável, volúvel e escorregadia; plástica? É a plasticidade de significados a razão para designarmos certas artes como sendo plásticas? Ou tem a ver com a maleabilidade dos materiais aplicados?

    Seja como for tenho sempre a impressão de que a palavra "plástica", quando surge associada às artes, está relacionada com a reacção do plástico a uma fonte de calor. O derretimento, a alteração da forma conforme certas forças aplicadas de determinada maneira, o jogo com os materiais como o gato que joga com o cadáver do pardal ou do rato antes de os abocanhar, antes de os comer, antes de os transformar em algo que, mais do que seu, passa a fazer parte do seu corpo, energia vital. O que não for aproveitado há-de ser cagado.

    São plásticos os materiais, são plásticos os significados, é plástico o nosso corpo. Plástica a vida, plástico o mundo, enfim, tudo é plástico e o plástico tende a ser tudo. Um dia todo o Universo terá sido transmutado em plástico. Made in China.

terça-feira, maio 19, 2026

Julian Barnes

     Julian Barnes, Julian Barnes... o que dizer de Julian Barnes? Eu sei lá, tanta coisa pode ser dita que não faço a mínima ideia do que possa dizer. Afinal de contas é alguém que não conheço minimamente. Lá porque li dois ou três, ou meia dúzia de livros por ele escritos... a verdade é que não sei nada sobre ele. Claro que não. Não sei nadinha de nada.

    Julian Barnes é um escritor cujas obras me fazem sentir um pouquinho mais inteligente quando as leio, um pouquinho mais inteligente do que normalmente sou. Não será nada de extraordinário mas é tudo o que tenho a dizer a seu respeito, Julian Barnes. 

sexta-feira, maio 15, 2026

Selfie

     Estão sérios como carapaus no gelo da peixaria. Manipulam o telemóvel (inteligente, decerto) até o pendurarem num gesto que o deixa à altura do nariz, palmo e meio de distância e, de súbito, vindo do nada, um rasgão abre-lhes a tromba na horizontal. Dizem que é um sorriso mas não é. É uma mentira. É uma pose, um esgar.

    Os autorretratos com telemóvel (as selfies) implicam uma espécie de auto-consciência dolorosa. Cada um lá sabe o que lhe vai na alma quando segura o objecto com a finalidade de se registar. Clique. Já está. A sincronia é perfeita, no momento do clique abre-se o rasgão, expõe-se a ferida provocada pelo simulacro de felicidade. Como se precisássemos de mostrar a dentuça ao telemóvel, talvez para não o ofendermos; pedimos-lhe uma selfie, somos obrigados a colaborar. Aquele esgar é o pagamento exigido pela máquina.

    Uma selfie leva-nos a tomar atitudes mecânicas, aproxima-nos do telemóvel, fundimo-nos por um momento fugaz, humano e telemóvel irmanados num registo, uma memória, uma atitude salutar de partilha de inteligências.

quarta-feira, maio 13, 2026

O amor

     O amor é uma tisana, um placebo, um auxiliar, uma prótese da alma. Uma bengala.

terça-feira, maio 12, 2026

Fôssemos nós o que não somos

     Fôssemos nós como os cães, teríamos a ira do dono a recear . Fôssemos nós como os gatos,  teríamos apenas de recear a morte, caso dela tivéssemos alguma consciência. Fôssemos nós como os melros.

    Fôssemos nós como os pássaros, talvez o vôo fosse alegria completa; talvez sonhássemos ser como os mamíferos. Fôssemos nós como as lesmas. 

    Fôssemos nós como as árvores. Existir, contemplar o espaço em volta, o tempo todo dedicado ao pensamento. Fôssemos nós carvalhos, pinheiros, sobreiros, tivéssemos nós tanto tempo que não soubéssemos o que o tempo é. Fôssemos nós como a terra.

    Fôssemos nós como céu, como as nuvens, fôssemos nós espaço sideral.

    Deus não nos criou à Sua imagem e semelhança.