Andamos acagaçados, a verdade é essa. A IA mete medo, é um papão no telhado, não há quem durma descansado. Andávamos há coisa de muito tempo a tentar perceber como lidar com os escolhos da Revolução Industrial e, catrapunfas! Foi sem aviso nem nada, cai-nos em cima esta merduncha toda, uma catarata desgraçada, o futuro a chegar na forma de um TGV sem freio a entrar de rompante na gare das nossas vidas, zuuuuum, já fomos! Crash e pum, paf!!!
sexta-feira, agosto 21, 2026
quinta-feira, agosto 20, 2026
Cuidados essenciais
Há quem nos aconselhe um certo cuidado com aquilo que desejamos. A ideia é, decerto, evitar que um gajo se atire de cabeça ao mínimo sinal da existência de uma possibilidade de prazer. Porque, normalmente, desejo e prazer aparecem associados quando matutamos na coisa. Matutamos na coisa? Mas que coisa? Pois, isto não é assim tão cristalino quanto gostaria que fosse. Parece-me ser complicado.
A complicação começa a formar-se logo de início pois não é evidente do que falamos quando nos referimos a "prazer". Cócegas nas perninhas, borboletas na barriga, um líquido espesso a escorrer na base do crânio? O sexo a andar às voltas num remoinho doido? E, a existirem, estes sinais poderão enformar aquilo que designamos por "desejo". Quer dizer, um gajo sente aquelas coisas e elas são de tal forma agradáveis que não vemos a hora de repetir a dose. É assim que as coisas se passam? Há outra forma de falar disto? Certamente.
Seja como for, ter cuidado com aquilo que desejamos é um conselho sensato. E, já agora, ter também cuidado com aquilo que detestamos.
quarta-feira, agosto 19, 2026
Temores
Porque havemos de temer a inutilidade? Qual o problema das coisas inúteis? A inutilidade depende muito do contexto, tal como a utilidade. Houvesse um país que cunhasse uma moeda com ambas, uma numa face, outra na outra. Uma moeda útil e inútil. Uma moeda útil para comprar bens de primeira necessidade e inútil quando fosse gasta em futilidades. Sempre a mesma moeda, note-se.
Porque havemos de temer fazer figuras ridículas? Qual o problema de avançar aos saltos pelo supermercado dentro, abanando as ancas, uma mão sobre a barriga, a outra ondeando no ar, dançando ao som da nossa imaginação? Não há problema nenhum. Apenas o problema de parecermos mal, de parecermos algo para lá daquilo que é suposto sermos. Ou parecermos.
Porque havemos de temer o desconhecido? Diz-me tu, leitor, diz-me tu.
domingo, agosto 16, 2026
Ser como um zombie
A sobrevivência animaliza o mais civilizado dos seres humanos? Quero dizer, a necessidade de garantir que não se vai desta pra melhor por dá cá aquela palha põe o humanista a um nível semelhante ao do jumento? Humanista e jumento, jumento e humanista irmanados perante a urgência de poupar a própria carne ao suplício mais que certo!? Temo bem que assim seja, que na hora da verdade a verdade revelada é de que a electricidade consumida pelo nosso cérebro é da mesma natureza que a consumida nos cérebros das outras bestas.
Quando assisto a um filme com o apocalipse zombie como tema principal penso sempre: o que faria eu nesta situação? Qual a minha capacidade de lutar pela sobrevivência numa situação limite, de terror absoluto? Tenho cá a impressão que seria dos primeiros a desistir da vida verdadeira perante a inevitabilidade de uma vida a fingir. Lá teria de aceitar arrastar os pés no meio de uma multidão de seres iguais a mim, que se movem em rebanho atraídos por qualquer ruído, qualquer odor, qualquer coisinha que se pareça com uma promessa de satisfação de algum anseio impossível de reprimir.
Lá no fundo acho que não deve ser assim tão mau, ser como um zombie.
sábado, agosto 15, 2026
Sonho de um dia de Verão
Passo pela vida como se a sonhasse. O presente faz mais sentido do que fez o passado mas tenho a esperança permanente de que o futuro venha a ser muito mais compreensível embora isso, na verdade, não tenha qualquer significado. Passo pela vida como se dormisse acordado, como se tudo fosse apenas um imenso cliché, como se eu fosse personagem inventada. Passo pela vida sabendo que, no final, me espera o sono eterno embora não seja capaz de processar minimamente tal conceito: eternidade, chiça penico!
"Passo pela vida como se a sonhasse", escrever isto pode soar a pretensiosa poesia. É e não é. É porque é e não é porque não há outra maneira de o dizer. Por vezes sinto não ter o direito de recear o ridículo. Siga a marinha!
"Passo pela vida como se a sonhasse", não soa mal de todo, pois não? É como se levitasse, como se imaginasse deslocar-me apoiado numa nuvem ou em absolutamente nada, a deslizar na paisagem sem peso nem remorso. Um homem grisalho a vogar na atmosfera.
segunda-feira, agosto 10, 2026
Fazer fé na incógnita
Tenho a impressão de já ter escrito isto que vou agora escrever: a Humanidade vai vivendo em tom de final de festa.
A banda toca de forma mecânica, há ainda alguns pares que resistem, que vão dançando, se bem que em passo cambaleante. As senhoras da limpeza já começaram a meter os copos de plástico dentro de sacos, também eles de plástico. Há porcaria por todo o lado; garrafas viradas, restos de comida, o chão está peganhento. Não tarda alguém vai cortar a luz ou o sistema eléctrico irá colapsar e depois... depois nada. Depois o esquecimento. Nem Deus se safa.
Ou então não.
Depois de a festa acabada talvez cá fiquem uns quantos para semente. Talvez se consigam reerguer ou manter sistemas sociais complexos que permitam aqui e ali a sobrevivência da Humanidade. Talvez no futuro não haja grandes bailes mas pequenos bailaricos. Talvez Deus se aguente. Talvez regressem os manuscritos e os carpinteiros voltem a ser, a par dos pedreiros, as pessoas mais valiosas da comunidade.
Quem sabe?
domingo, agosto 09, 2026
Coragem
Lembrava-se vagamente de ter sido uma criança. Havia um soalho encerado, uma janela aberta num dia de sol, o cortinado de tule a esvoaçar, o sorriso luminoso de uma mulher de rosto bondoso. Impossível recordar algo mais kitsch; imaginar calçados sapatos muito engraxados com peúgas brancas, cabelo penteadinho, risca ao lado, gestos embaraçados. Se a sua infância tinha sido assim, isso explicava um pouco porque se sentia tão incomodado com aquela situação.
Não tinha a certeza de nada. Não tinha certezas sobre o seu passado, muito menos sobre o presente, sobre aquilo que agora acontecia. Quanto ao futuro nem 50 bruxas das tidas por mais competentes conseguiriam dar-lhe um vislumbre que fosse daquilo que ali vinha. Coçou a cabeça, esfregou os olhos e manteve-se hirto como um poste de electricidade. Havia de enfrentar a investida!