Lembrava-se vagamente de ter sido uma criança. Havia um soalho encerado, uma janela aberta num dia de sol, o cortinado de tule a esvoaçar, o sorriso luminoso de uma mulher de rosto bondoso. Impossível recordar algo mais kitsch; imaginar calçados sapatos muito engraxados com peúgas brancas, cabelo penteadinho, risca ao lado, gestos embaraçados. Se a sua infância tinha sido assim, isso explicava um pouco porque se sentia tão incomodado com aquela situação.
Não tinha a certeza de nada. Não tinha certezas sobre o seu passado, muito menos sobre o presente, sobre aquilo que agora acontecia. Quanto ao futuro nem 50 bruxas das tidas por mais competentes conseguiriam dar-lhe um vislumbre que fosse daquilo que ali vinha. Coçou a cabeça, esfregou os olhos e manteve-se hirto como um poste de electricidade. Havia de enfrentar a investida!