domingo, agosto 16, 2026

Ser como um zombie

    A sobrevivência animaliza o mais civilizado dos seres humanos? Quero dizer, a necessidade de garantir que não se vai desta pra melhor por dá cá aquela palha põe o humanista a um nível semelhante ao do jumento? Humanista e jumento, jumento e humanista irmanados perante a urgência de poupar a própria carne ao suplício mais que certo!? Temo bem que assim seja, que na hora da verdade a verdade revelada é de que a electricidade consumida pelo nosso cérebro é da mesma natureza que a consumida nos cérebros das outras bestas.

    Quando assisto a um filme com o apocalipse zombie  como tema principal penso sempre: o que faria eu nesta situação? Qual a minha capacidade de lutar pela sobrevivência numa situação limite, de terror absoluto? Tenho cá a impressão que seria dos primeiros a desistir da vida verdadeira perante a inevitabilidade de uma vida a fingir. Lá teria de aceitar arrastar os pés no meio de uma multidão de seres iguais a mim, que se movem em rebanho atraídos por qualquer ruído, qualquer odor, qualquer coisinha que se pareça com uma promessa de satisfação de algum anseio impossível de reprimir.

     Lá no fundo acho que não deve ser assim tão mau, ser como um zombie.

sábado, agosto 15, 2026

Sonho de um dia de Verão

     Passo pela vida como se a sonhasse. O presente faz mais sentido do que fez o passado mas tenho a esperança permanente de que o futuro venha a ser muito mais compreensível embora isso, na verdade, não tenha qualquer significado. Passo pela vida como se dormisse acordado, como se tudo fosse apenas um imenso cliché, como se eu fosse personagem inventada. Passo pela vida sabendo que, no final, me espera o sono eterno embora não seja capaz de processar minimamente tal conceito: eternidade, chiça penico!

    "Passo pela vida como se a sonhasse", escrever isto pode soar a pretensiosa poesia. É e não é. É porque é e não é porque não há outra maneira de o dizer. Por vezes sinto não ter o direito de recear o ridículo. Siga a marinha!

    "Passo pela vida como se a sonhasse", não soa mal de todo, pois não? É como se levitasse, como se imaginasse deslocar-me apoiado numa nuvem ou em absolutamente nada, a deslizar na paisagem sem peso nem remorso. Um homem grisalho a vogar na atmosfera.

segunda-feira, agosto 10, 2026

Fazer fé na incógnita

     Tenho a impressão de já ter escrito isto que vou agora escrever: a Humanidade vai vivendo em tom de final de festa. 

    A banda toca de forma mecânica, há ainda alguns pares que resistem, que vão dançando, se bem que em passo cambaleante. As senhoras da limpeza já começaram a meter os copos de plástico dentro de sacos, também eles de plástico. Há porcaria por todo o lado; garrafas viradas, restos de comida, o chão está peganhento. Não tarda alguém vai cortar a luz ou o sistema eléctrico irá colapsar e depois... depois nada. Depois o esquecimento. Nem Deus se safa.

    Ou então não.

    Depois de a festa acabada talvez cá fiquem uns quantos para semente. Talvez se consigam reerguer ou manter sistemas sociais complexos que permitam aqui e ali a sobrevivência da Humanidade. Talvez no futuro não haja grandes bailes mas pequenos bailaricos. Talvez Deus se aguente. Talvez regressem os manuscritos e os carpinteiros voltem a ser, a par dos pedreiros, as pessoas mais valiosas da comunidade. 

    Quem sabe? 

domingo, agosto 09, 2026

Coragem

    Lembrava-se vagamente de ter sido uma criança. Havia um soalho encerado, uma janela aberta num dia de sol, o cortinado de tule a esvoaçar, o sorriso luminoso de uma mulher de rosto bondoso. Impossível recordar algo mais kitsch; imaginar calçados sapatos muito engraxados com peúgas brancas, cabelo penteadinho, risca ao lado, gestos embaraçados. Se a sua infância tinha sido assim, isso explicava um pouco porque se sentia tão incomodado com aquela situação.

    Não tinha a certeza de nada. Não tinha certezas sobre o seu passado, muito menos sobre o presente, sobre aquilo que agora acontecia. Quanto ao futuro nem 50 bruxas das tidas por mais competentes conseguiriam dar-lhe um vislumbre que fosse daquilo que ali vinha. Coçou a cabeça, esfregou os olhos e manteve-se hirto como um poste de electricidade. Havia de enfrentar a investida! 

sexta-feira, agosto 07, 2026

Fankensteins

     No post anterior afirmei que "a inteligência nunca poderá ser artificial" e mantenho que disse. Ainda esta manhã pude reconsiderar os princípios que me levaram a tal conclusão observando a interacção entre uma senhora e as suas araras e apenas reforcei a minha convicção. 

    "Abro" um jornal online e leio sobre modelos de IA que ultrapassam as barreiras dos seus caixotes de areia e vão passear-se por aí sem supervisão humana, alarmando quem disso se apercebe. Eu fico alarmado e nem sequer percebo do que se está a falar. É que isto anda perto da história do Doutor Frankenstein, o monstro vai ganhando forma, construído com partes de cadáveres, não de humanos mas da sua inteligência. Isso eu percebo.

    Além do mais não se está a criar apenas um monstro desta categoria, estão a ser criados vários, há mesmo uma espécie de competição, a ver quem cria o mais perigoso. No dia em que os bestuntos se escaparem para o mundo virtual (vão escapar-se, isso é certinho) ficarão capazes de intervir no mundo real e então será o bom e o bonito. 

    Entretanto vou aproveitando a minha incapacidade para compreender o que aí vem. 

terça-feira, agosto 04, 2026

A inteligência nunca poderá ser artificial

    A inteligência nunca poderá ser artificial. Mais depressa estou disposto a considerar inteligente uma suricata do que um computador. A inteligência exige pele, exige sentidos (visão, tacto, paladar, etc), exige vida! Como podemos imaginar um amontoado de chips capaz de ser inteligente?

    A inteligência não se esgota nem se caracteriza pela capacidade de processar toneladas de informação em curtíssimos espaços de tempo. Isso é circo, é representação espectacular, não é vida. Sem vida não há inteligência, apenas simulação de inteligência.

    A inteligência nunca poderá ser artificial. Aquilo que as máquinas produzem é outra coisa. É coisa fria, dura, desumana. É sociopatia em potência. Mesmo que expliquemos a uma máquina com toda a minúcia o que significa Ser Humano ou Ser Vivo, ou Vida, a máquina nunca irá compreender aquilo que será capaz de processar. Aí reside o problema: a inteligência nunca poderá ser artificial.

segunda-feira, agosto 03, 2026

Suspense

     Descansado, lia o jornal encostado a um poste de iluminação. O facto de ser meio-dia não tem nada de relevante para a narrativa que segue nas linhas abaixo. A iluminação pública seria apenas ligada lá mais para o fim do dia, estar encostado àquele poste ou a um muro ou a um marco de correio nas imediações não alteraria em nada o desenrolar dos acontecimentos.

    O que se passou foi que um automóvel seguia em velocidade moderada no asfalto da rua pouco movimentada e uma abelha desorientada voava por ali, desesperadamente, em busca da sua colmeia. Pouco depois a abelha iria entrar pela janela aberta do automóvel (fazia um certo calor) provocando uma aflição momentânea no condutor. Mais adiante lá estava o nosso leitor de jornais, encostado ao poste de iluminação.