quinta-feira, junho 18, 2026

Dissolução

     Vi-o no corredor, em direcção ao cais de embarque, Cais do Sodré-Cacilhas, se faz favor. Pareceu-me muito velho, ia curvado, a nuca coberta de cabelos brancos a abrir clareiras aqui e ali, uma pele avermelhada, muitas rugas, os passos meio arrastados. Passei por ele e pela mulher que o acompanhava. Entrei no barco, subi ao andar de cima, como sempre faço e sentei-me num lugar que pudesse proteger-me do sol, cuja luz começava a fazer-se sentir sob a forma de um calor incomodativo.

    Escrevia qualquer coisa no meu caderno de capa dura quando levantei os olhos por sob as sobrancelhas e dei de caras com o homem que parecia dissolver-se no espaço em volta. Estava sentado duas filas para lá da minha, do lado esquerdo do meu nariz, cadeiras de plástico cor-de-laranja. Agora podia vê-lo de frente e nem precisava de dar muito nas vistas.

    Tinha a boca sempre aberta, como se lhe custasse respirar, ou fosse parvo, ou sentisse um espanto permanente por se aperceber estar ainda vivo. A expressão facial parecia revelar uma profunda tristeza, uma espécie de gentil desistência ou simples ausência de alegria.

    Dei por mim a pensar que a desistência nem sempre constitui um acto negativo, que desistir pode carregar muita poesia neste mundo obcecado por vencedores de merda, vencedores a todo o custo, gente incapaz de sentir empatia por aqueles que derrota. Percebi que o homem que se dissolve à minha frente, afinal, não desiste, apesar da tristeza que dele se desprende. O homem não desiste, lá se vai a poesia.

terça-feira, junho 16, 2026

Monstro

     E se aquilo que eu sou não me saísse da cabeça e me atrapalhasse cada passo, me confundisse cada pensamento, engasgasse todas as palavras? Se aquilo que eu sou me fizesse imaginar todos os outros como espelhos onde se reflectisse a minha imagem monstruosa, o meu ser ser defeituoso, reprovação em cada olhar, um esgar de desconforto em cada rosto que o meu cruzasse? E se aquilo que eu sou me impedisse de imaginar a felicidade, me fechasse o coração, me lançasse num desfiladeiro de desespero a cada momento que passa?

    E se aquilo que eu sou fosse o Inferno? 

domingo, junho 14, 2026

O profeta manco

     Basta um tema para reflectir e logo se transforma em espelho. A memória já não se lhe organiza no cérebro como dantes se organizava. Talvez nunca se lhe tenha organizado de todo, não tem como confirmar esta percepção, mas imagina que dias houve nos quais conseguia viajar para trás no tempo sem que se perdesse logo ali, na primeira curva da memória. Seja como for, pensar para a frente não é coisa que o atrapalhe.

    Tem, no entanto, outro problema de difícil resolução. As ideias que lhe vão surgindo, as complexas conexões que encontra entre peças de tão diferentes proveniências que os encaixes seriam impossíveis de percepcionar por mentes menos aventureiras: postulados magníficos, surpreendentes leis que reorganizariam a nossa visão da natureza, todo um universo tão extraordinário que não há palavras capazes de o intuir, tudo isto ele esquece de imediato. Tão depressa vem o conhecimento, tão depressa se esfuma.

    Ainda esta manhã lhe fugiu uma arrasadora profecia. 

 

quarta-feira, junho 10, 2026

Coincidência

     Foi há precisamente 3 anos que deixei, aqui no 100 Cabeças, uma reflexão sobre exactamente o mesmo tema que vou agora abordar. Achei que devia sublinhar este pormenor pois nada me obrigava ou impelia a escrever um post sobre "verdade" e "realidade" só porque atravessava o dia 10 de Junho, o tal dia de chatear o Camões. A verdade é que o fiz, o faço, aconteceu, acontece uma enorme coincidência.

     O texto de hoje foi anotado há uns dias atrás, fruto da reflexão que venho fazendo sobre o tema da "felicidade". 

     Tal como há 3 anos, cheguei à conclusão de que aquilo a que chamamos "verdade" é algo individual, pessoal, parcelar e que a "realidade", pelo contrário, é total, impessoal, absoluta, indivisível. Penso ser plausível afirmar que a Realidade não resulta da soma de todas as pequenas verdades que constituem o mundo de cada um de nós, que é algo bem mais vasto, porventura infinito.

    Podemos falar de Realidade, assim, no singular, e dizer "verdades", no plural.

    A Realidade resulta da existência de tudo o que tem um nome, juntamente com tudo o que ainda o não tem e mais tudo o que nunca virá a tê-lo. Vai muito para lá da nossa capacidade de compreensão. Deus, a existir, seria (será) isso. Terá isto algo a ver com a felicidade? Seria uma grande, enorme, gigantesca coincidência.

     

terça-feira, junho 09, 2026

Oferendas

     Deus deu-me muitas coisas mas não me deu nada do que Lhe pedi. Talvez por isso não me sinta particularmente abençoado. Terei problemas de comunicação? Fiz os pedidos de forma correcta? Temo bem que não, ou então Deus é um malandreco e gosta de brincar comigo.

    A ideia de que Deus é uma espécie de super-homem (ou que o homem é uma espécie de mini-Deus) sempre me pareceu um bocado arrevesada. Vejo-O muito mais como uma nuvem ou espaço aberto, uma coisa incorpórea, diáfana, sem peso nem forma. Ou então algo absolutamente inimaginável, o que estaria bem mais de acordo com aquilo que Ele possa ser na eventualidade de ter algo que possamos designar por "existência".

    Daí que a minha relação com Deus seja uma impossibilidade, por não saber o que Ele é nem saber bem o que sou eu. Uma coisa aproximada da relação de Kris Kelvin com Solaris. Deus dá-me coisas que não Lhe peço e eu faço de contas que me estou a lixar para que Ele exista ou não. Ficamos quites.

sexta-feira, junho 05, 2026

A colecção

     As canecas não são bem minhas, foram-me oferecidas. É uma situação curiosa. Eu até nem acho graça a esses objectos mas, talvez por ter tantas no armário e nas prateleiras da cozinha, as pessoas que vêm a minha devem ficar a pensar que tenho algum fetiche por canecas. Não tenho.

    Aí estão elas. Tamanhos diversos e decorações variadas; canecas para leite, para chá, para cerveja, para água, sei lá para que mais, canecas, canecas e mais canecas, como um vírus, como uma praga alienígena, vão usurpando o espaço da minha casa com o meu beneplácito. Quantas mais entram mais vêm.

    Olho as canecas com um misto de desprezo e indiferença. Aceito a invasão. Sou um colaboracionista e não um prisioneiro. São coisas diferentes. Talvez um dia me transforme em caneca, mais uma peça desta colecção indesejada.

sexta-feira, maio 29, 2026

Perante a morte

     Um dia destes um gajo liga o jornal no telemóvel e lê: "Faleceu Anselm Kiefer..." ou "... Laurie Anderson faleceu ontem..." ou Mick Jagger, ou outro figurão qualquer da arte mais ou menos popular e pensamos... nada. Quando muito vem-nos à memória aquela pintura (!?) monumental, aquele tema extraordinário, aqueles saltos de gafanhoto (velho como as casas), mas o que pensamos nós? Pomos um "smiley" triste vertendo lagriminhas (um sadley?) no Facebook, escrevemos uma frase de merda, epitáfio pretensioso, mostramos o quanto ficámos combalidos com a recepção da notícia e... siga a marinha que tristezas não pagam dívidas. Somos muito assim, somos fogo de vista.

    Isto, partindo do princípio que iremos sobreviver a estas personagens que andam todas na casa dos oitentas e picos. Amanhã posso muito bem não ligar jornal nenhum, o meu telemóvel pode tornar-se um objecto inútil mais dia menos dia.

    A dor é intensa na razão directa da proximidade animal. Quero dizer, quando é alguém da família a coisa magoa à séria. Quando é um amigo chegado magoa um bocadinho. Quando morre um ídolo, sejamos sinceros, aquilo não chega bem a ser dor ou não chega a ser dor de forma nenhuma. Fico-me por aqui, evito ser malcriado ou, muito simplesmente, evito ser estúpido. Se é que ainda não fui.