quarta-feira, fevereiro 13, 2019

Fogo!

A beleza é algo fulgurante, coisa que reconforta a alma... até que a incendeia.
Uma alma a arder não é exclusivo do inferno.

domingo, fevereiro 10, 2019

Revelação

Oh, a obra de arte contemporânea! Ao convocar o espectador no processo de validação do próprio objecto artístico, a obra de arte contemporânea interpreta um papel demiúrgico (Deus está em todas as coisas).

Se um objecto aparenta não ter nada de extraordinário mas consegue transportar o observador para uma dimensão reflexiva transcendente, estamos perante uma Revelação (a obra de arte tem o poder de nos fazer transitar entre diferentes dimensões).

A Revelação é um estado de consciência superior que nos permite penetrar um espaço que, não sendo onírico, é habitado por entidades incorpóreas e que não é regido pelas leis da Física nem da Lógica; um espaço no qual a Física e a Lógica são diferentes ou são a mesma coisa, a dimensão das Coisas antes de terem um Nome. É para aí que vamos quando mergulhamos de cabeça numa Revelação.

Voltando atrás, que já me estou a esticar: a obra de arte contemporânea faz do observador um elo significativo na cadeia de comunicação "emissor-objecto-receptor", invertendo-a, torcendo-a, remisturando-a. Exemplificando: o artista cria o objecto, o objecto transporta um significado potencial que se completa no espectador. Não tendo uma leitura fechada o objecto permite a cada um de nós a construção de uma narrativa individualizada (A Fonte de Duchamp será a semente de tudo isto).

Assim sendo, o observador torna-se, também ele, um artista. A arte contemporânea permite a construção de uma utópica sociedade de artistas, criadores ininterruptos de significados, que é, afinal, aquilo que todos nós somos desde que Deus criou Adão. A Arte é a nossa Eva, o objecto artístico é Deus, a arrancar-nos constantemente costelas e a fazer com elas seres virtuais que nos acompanhem na travessia do paradisíaco deserto que é a nossa vida.

sexta-feira, fevereiro 08, 2019

Divindades raquíticas

Tal como uma obra de arte, também a imagem que concebemos de Deus depende muito de quem a infere e constrói. Os Antigos teriam uma divindade específica para os merceeiros. Tão difícil seria para eles imaginarem um Deus único como, ainda por cima, imaginá-lo como um autêntico merceeiro, capaz de vender benesses (quanto mais elevado o preço pago pelo crédulo mais agradáveis os favores).

As igrejas evangélicas (todas elas?) vendem esta patranha aos incautos e desprotegidos que nelas procuram um lugar de pertença. Quem cobra aos seus fiéis não é de fiar.

Um Deus que especule com o preço das almas como se especulasse o preço do barril de petróleo ou da saca de batatas tem lugar garantido na Barca do Inferno. Os parvos que acreditem em semelhante bufão podem, ainda que vagamente, aspirar a um lugarzinho na Barca do Paraíso.

quinta-feira, fevereiro 07, 2019

Santidade de pacotilha


Kevin Hart

Confirma-se que a cerimónia de entrega dos Óscares deste ano não vai ter apresentador. Não sei se é a primeira vez que acontece nem isso me faz doer a alma. 

O último a declinar o convite para proceder à função foi Kevin Hart, ao que consta por terem sido desenterrados alguns tweets de teor homofóbico publicados pelo actor há oito anos atrás. Aquilo que me provoca alguma tristeza é o facto de não haver ninguém suficientemente puro para apresentar uma coisa tão farsola como os Óscares da academia de Hollywood. 

A malha de observação sobre os candidatos é tão apertada que nenhum ser humano é considerado digno para debitar umas graçolas perante a fina-flor da intelectualidade industrial cinematográfica. Até para fazer aquilo é necessário ter certidão de santidade absoluta. Será que algum dos que se sentam na plateia poderia aspirar a tão elevado estatuto? Parece-me patético. 

Talvez com tempo possa ser criado um avatar computorizado para apresentar a cerimónia. Um ser virtual, sem carne nem osso nem opiniões próprias seja a única coisita à altura.

sexta-feira, fevereiro 01, 2019

Vazio de sentido

Quando as paredes do mundo desabarem vais continuar sentado. Que mais poderás tu fazer? Correr? Fugir?

Mas para onde fugirás tu em louca correria se é o mundo que à tua volta se esboroa, que podes tu fazer? Pois, tenho cá a impressão que o melhor será que continues bem sentado, o melhor será esperares que a estrela negra cante de novo a sua estranha canção, aquela canção que ilumina o céu ao contrário.

Recapitulando: as paredes do mundo já não suportam mais o peso dos buracos e das fissuras que as atormentam e desistem de serem erectas, as paredes do mundo, cansadas, desabam... brrrrrrum!!!

E tu, estupefacto perante o espectáculo, tu não estás surpreendido (já sabias que a coisa ia acontecer), estás absolutamente espantado. Estás fascinado e aterrado. O mundo a desfazer-se é um espectáculo magnífico ao qual preferias nunca ter assistido.

O fim do mundo é tão vazio de sentido.


sábado, janeiro 26, 2019

Consumição

Não sei bem quando foi que aconteceu, quando foi que os electrodomésticos deixaram de ter arranjo para passarem a ter garantia? Quem diz electrodomésticos diz automóveis ou esse objecto-fetiche, tão recente, o smartphone (os inglesismos têm vindo a ser substituídos pelas expressões em inglês puro e duro).

A garantia é, por norma, de dois anos. Terminado esse período de tempo (tão curto!) nada nos garante que o objecto continue a funcionar de acordo com as características excepcionais que nos levaram a adquiri-lo. Diz-se por aí que os objectos já são fabricados de acordo com o tempo de vida mais curto, que os dois anos são uma espécie de velhice tecnológica, tão rápida é a evolução destas espécies. Talvez seja boato.

A verdade é que, nos tempos que correm, quando um objecto deixa de funcionar parece lógico depositá-lo num daqueles caixotes enormes que aparecem nos estacionamentos dos centros comerciais devidamente identificados para o efeito. Depois subimos nas escadas rolantes e vamos à loja comprar outro. É a lógica consumista.

Esta discreta alteração dos nossos hábitos trouxe consigo outra transformação insidiosa: a do cidadão que se torna consumidor. Os direitos de cidadania a serem substituídos pelos direitos do consumo. A vida a ser consumida mais do que a ser vivida?


quinta-feira, janeiro 24, 2019

Ser e parecer



André Ventura é uma daquelas personagens que não se acanham. O teor das suas afirmações públicas não coincide com o manifesto que juntou às assinaturas recolhidas com a finalidade de fazer aprovar o Chega, esse projecto de partido que gatinha graças à exposição mediática conseguida por Ventura nos espaços de debate futebolístico da CMTV. 

Perante os juízes do Tribunal Constitucional, Ventura faz luzir sobre a cabeça uma auréola de santinho respeitador da Constituição, cá fora, quando lhe é oferecido o espaço mediático, não se coíbe em mostrar os dentes e afirmar aquilo que não se atreve a registar no manifesto. André ora é bom ou mau, afável ou agressivo, tudo depende. Sendo contido numa certa comparação zoológica pode-se considerar que André é um camaleão.

A Democracia tem destas coisas, permite que germinem no seu seio personagens que a odeiam e que tudo farão para acabar com ela. Personagens como André Ventura chegam montadas em cavalos brancos, prometendo isto e aquilo, de acordo com o que lhes pareça ser o sentimento mais larvar e profundo que germine no descontentamento de certas tribos mais ou menos marginais à inteligência humana. 

Na maior parte dos casos, estes napoleões de pacotilha não conseguem desmontar do cavalo, não têm estofo para cavalgar outra coisa que não seja a desgraça e o descontentamento o que acaba por levá-los numa correria louca em direcção ao abismo do esquecimento quando o logro que é o seu completo vazio se revelar aos olhos de todos, correligionários incluídos. 

André Ventura quer ser uma coisa parecendo outra e vice-versa; Ventura é uma excrescência na Democracia. Pim.