terça-feira, agosto 25, 2026

Lavrar o corpo

    Rai's parta à mulher que não pára de coçar o corpo todo! Coça a cabeça, coça os braços e as costas com grande esforço, coça-se no entre-pernas e coça as sobrancelhas, coça, coça, coça sem parar. Até parece possuída por algum fantasma mais malandro que lhe tenha pregado uma valente partida fazendo dela marioneta de espectáculo dedicado aos maluquinhos.

    Ela torce, ela salta, ela contorce. Coça, coça, coça. A gente rodeia, a gente ri-se, mas há quem repare que tanta coçadela começa a fazer ferida, a deixar riscos vermelhos na pele, rasgões que se abrem sem dar sinais de voltarem a fechar-se. E sai um grito.

    Alguns de nós saltam em frente, agarramos os braços desgovernados da mulher, tentamos pôr cobro àquela loucura mecanizada que lhe lavra o corpo com unhas que são garras de bicho ferido na razão. Ela não quer. Ela quer continuar a rasgar-se, a ferir-se, a maltratar-se, insulta os que vão em seu socorro gritando que não precisa de socorro nenhum. "Filhos da puta!" é o que ela grita. E contorce-se como uma centopeia, agarrada de mãos e pés, braços e pernas bloqueados por força alheia, força combinada de quantos lhe não querem mal. 

    Rai's parta à mulher que não pára de se contorcer como se fora cobra, enguia ou outra coisa difícil de agarrar! 

segunda-feira, agosto 24, 2026

Preconceito e unhas sujas

    Pouco havia a fazer pois a maioria dos cidadãos tinha já bem enfiada na cabeça uma imagem perfeita de quem ele era. Os que ainda não o olhavam de lado, com a desconfiança própria dos enojados da vida, era porque não o conheciam embora também entre esses houvesse muitos já tinham ouvido falar do Pataqueiro, manifestando desde logo disposição para verter veneno corrosivo sobre a sua imagem, por mais difusa que fosse lá por aquelas cavernas cranianas deficientemente iluminadas.

    O homem falava demasiado? Podemos dizer que sim, que era muito falador, mas é crime dizer alto o que silenciosamente pensamos? O homem era vaidoso? Sem dúvida, vá-se lá saber porquê. Um bocado desleixado em termos higiénicos? Inegavelmente, a sujidade debaixo das suas unhas era motivo de espanto geral e a tendência para meia dúzia de copos a mais não ajudava a compor o ramalhete. Mas era também um tipo bonacheirão, capaz de ajudar quem precisasse de alguma coisa que ele tivesse para dar embora o que tivesse para dar fosse sempre muito pouco.

     Na balança do deve e do haver das  qualidades humanas não ficava a dever grande coisa fosse a quem fosse, antes pelo contrário.

sexta-feira, agosto 21, 2026

Crashipumpáfe

    Andamos acagaçados, a verdade é essa. A IA mete medo, é um papão no telhado, não há quem durma descansado. Andávamos há coisa de muito tempo a tentar perceber como lidar com os escolhos da Revolução Industrial e, catrapunfas! Foi sem aviso nem nada, cai-nos em cima esta merduncha toda, uma catarata desgraçada, o futuro a chegar na forma de um TGV sem freio a entrar de rompante na gare das nossas vidas, zuuuuum, já fomos! Crash e pum, paf!!!

quinta-feira, agosto 20, 2026

Cuidados essenciais

     Há quem nos aconselhe um certo cuidado com aquilo que desejamos. A ideia é, decerto, evitar que um gajo se atire de cabeça ao mínimo sinal da existência de uma possibilidade de prazer. Porque, normalmente, desejo e prazer aparecem associados quando matutamos na coisa. Matutamos na coisa? Mas que coisa? Pois, isto não é assim tão cristalino quanto gostaria que fosse. Parece-me ser complicado.

    A complicação começa a formar-se logo  de início pois não é evidente do que falamos quando nos referimos a "prazer". Cócegas nas perninhas, borboletas na barriga, um líquido espesso a escorrer na base do crânio? O sexo a andar às voltas num remoinho doido? E, a existirem, estes sinais poderão enformar aquilo que designamos por "desejo". Quer dizer, um gajo sente aquelas coisas e elas são de tal forma agradáveis que não vemos a hora de repetir a dose. É assim que as coisas se passam? Há outra forma de falar disto? Certamente.

    Seja como for, ter cuidado com aquilo que desejamos é um conselho sensato. E, já agora, ter também cuidado com aquilo que detestamos. 

quarta-feira, agosto 19, 2026

Temores

     Porque havemos de temer a inutilidade? Qual o problema das coisas inúteis? A inutilidade depende muito do contexto, tal como a utilidade. Houvesse um país que cunhasse uma moeda com ambas, uma  numa face, outra na outra. Uma moeda útil e inútil. Uma moeda útil para comprar bens de primeira necessidade e inútil quando fosse gasta em futilidades. Sempre a mesma moeda, note-se.

    Porque havemos de temer fazer figuras ridículas? Qual o problema de avançar aos saltos pelo supermercado dentro, abanando as ancas, uma mão sobre a barriga, a outra ondeando no ar, dançando ao som da nossa imaginação? Não há problema nenhum. Apenas o problema de parecermos mal, de parecermos algo para lá daquilo que é suposto sermos. Ou parecermos. 

    Porque havemos de temer o desconhecido? Diz-me tu, leitor, diz-me tu.

domingo, agosto 16, 2026

Ser como um zombie

    A sobrevivência animaliza o mais civilizado dos seres humanos? Quero dizer, a necessidade de garantir que não se vai desta pra melhor por dá cá aquela palha põe o humanista a um nível semelhante ao do jumento? Humanista e jumento, jumento e humanista irmanados perante a urgência de poupar a própria carne ao suplício mais que certo!? Temo bem que assim seja, que na hora da verdade a verdade revelada é de que a electricidade consumida pelo nosso cérebro é da mesma natureza que a consumida nos cérebros das outras bestas.

    Quando assisto a um filme com o apocalipse zombie  como tema principal penso sempre: o que faria eu nesta situação? Qual a minha capacidade de lutar pela sobrevivência numa situação limite, de terror absoluto? Tenho cá a impressão que seria dos primeiros a desistir da vida verdadeira perante a inevitabilidade de uma vida a fingir. Lá teria de aceitar arrastar os pés no meio de uma multidão de seres iguais a mim, que se movem em rebanho atraídos por qualquer ruído, qualquer odor, qualquer coisinha que se pareça com uma promessa de satisfação de algum anseio impossível de reprimir.

     Lá no fundo acho que não deve ser assim tão mau, ser como um zombie.

sábado, agosto 15, 2026

Sonho de um dia de Verão

     Passo pela vida como se a sonhasse. O presente faz mais sentido do que fez o passado mas tenho a esperança permanente de que o futuro venha a ser muito mais compreensível embora isso, na verdade, não tenha qualquer significado. Passo pela vida como se dormisse acordado, como se tudo fosse apenas um imenso cliché, como se eu fosse personagem inventada. Passo pela vida sabendo que, no final, me espera o sono eterno embora não seja capaz de processar minimamente tal conceito: eternidade, chiça penico!

    "Passo pela vida como se a sonhasse", escrever isto pode soar a pretensiosa poesia. É e não é. É porque é e não é porque não há outra maneira de o dizer. Por vezes sinto não ter o direito de recear o ridículo. Siga a marinha!

    "Passo pela vida como se a sonhasse", não soa mal de todo, pois não? É como se levitasse, como se imaginasse deslocar-me apoiado numa nuvem ou em absolutamente nada, a deslizar na paisagem sem peso nem remorso. Um homem grisalho a vogar na atmosfera.