segunda-feira, julho 13, 2026

Fim de viagem

     Ah, a liberdade! A liberdade absoluta de escrever, desenhar, de pensar, de poder exprimir o que vai chegando às fronteiras do meu cérebro sem estar a olhar por sobre o ombro, sem ter de apurar a vista na contemplação das sombras. Não há nada que pague essa loucura.

    Sem liberdade de expressão não pode haver felicidade. Disso estou ciente, isso eu sei, já descobri há muito tempo e, desde o momento dessa descoberta, tenho percebido melhor o que é a infelicidade; logo sinto-me mais perto da vaga possibilidade de vir a compreender o que é, o que significa, que forma tem ou pode vir a ter a felicidade. Não sendo propriamente o fim da viagem em direcção ao Nirvana, a chegada à estação terminal, é algo que proporciona alguma paz de espírito e isso, posso garantir-te, encalorado leitor, já é alguma coisa. Atrever-me-ia mesmo a afirmar que isso é já uma grande coisa! Tenho, no entanto, a esperança de que haja coisas maiores, coisas muito maiores.

    E é assim mesmo, exactamente como lês: digo o que quero, escrevo como quero, não tenho compromissos com ninguém, nem sequer contigo, que tropeçaste neste texto e, milagrosamente, ainda o lês. Ou leste, porque este texto não passa daqui.

sábado, julho 11, 2026

Fazer como o Lobo Mau

     A cada dia que passa o Mundo incha um pouco mais, aproxima-se mais um pouco do rebentamento... PUM!!! É como quando enchemos um balão. Percebemos bem o momento em que está demasiado cheio, o momento em que o estoiro se torna inevitável a menos que paremos de continuar a soprar, a soprar, a soprar. Mas não paramos. Instala-se em nós um nervoso miudinho, a sensação de que, a qualquer momento, iremos sentir o balão a explodir. Antecipamos o som, o aparente desaparecimento do balão, tudo aquilo nos causa uma apreensão infantil. Sabemos que estamos a fazer merda, que estamos prestes a provocar um desastre mas não temos como evitá-lo, é mais forte do que nós. E fazemos como o Lobo Mau. 

sexta-feira, julho 10, 2026

O puto e o envelope.

     Tudo começou quando, ao pretender aparar a barba, me enganei no pente que apliquei na máquina e dei por mim a rapar o queixo. Primeiro olhei os pêlos brancos que caíram sobre a toalha com que revesti o lavatório (para evitar entupimentos desnecessários). Eram compridos "e muito brancos", pensei. Depois olhei o espelho e vi aquela desmatagem criminosa que abria um sulco enorme, do meu pescoço ao lábio inferior. Foi com tristeza que constatei a inevitabilidade de rapar a tromba toda, a menos que pretendesse ser alvo de olhares mais ou menos furtivos e chacota e reprovação social absoluta, caso decidisse deixar ficar a coisa tal qual estava naquele preciso momento. 

    Lá foi a barba.

    Quando terminei a penosa função olhei e vi-me como já me não via fazia muito tempo: sem barba. Reconheci perfeitamente a minha cara mas não gostei do que vi. Vi a pele do meu pescoço e não gostei; vi os cantos da minha boca e não gostei; vi a curva do meu queixo e também não gostei. Eu sabia que havia de estar envelhecido mas não tinha a noção de como estava envelhecido. Um gajo não tem de gostar ou deixar de gostar, as coisas são como são. Mas, enfim, aquele velhote chateou-me.

    Já lá vão uns dias, a barba vai regressando. Voltarei a poder fingir que aqueles tipos que aparecem na TV e têm a mesma idade que eu estão muito mais acabados, "eu tenho aquele aspecto?" Claro que tenho aquele aspecto. Estou velho, já não sou aquele gajo jovem, convencido que era muito bonito, armado em bom. Esse puto já lá vai, transformou-se naquilo que hoje me transporta. Ambos mudaram radicalmente, o puto e o envelope. 

quinta-feira, julho 09, 2026

Moral da história

     O destino do cidadão contemporâneo é o de ser manipulado. Para que essa manipulação possa acontecer de um modo eficaz, cada um de nós é espiado com desvelo e minúcia, ajudando os espiões que enfiam a penca onde não são, aparentemente, chamados. É sucesso garantido quando o espiado abre a porta e serve chá com bolinhos ao espião. É o que nós fazemos. Todos os dias, a toda a hora.

    Somos vítimas de nós próprios, é um absurdo, é kafkiano; fornecemos a lenha para as fogueiras onde nos grelham e ainda manipulamos o abanador de modo a que as brasas não esmoreçam. Alimentamos os algoritmos que, por sua vez, se alimentam de nós. No fim ganham os de sempre, sempre os mesmos. E nós? Tudo bem, não me posso queixar.

domingo, julho 05, 2026

Tolice silenciosa

     Quando um gajo escreve de rompante, a teclar o mais rapidamente que é capaz, a perseguir as ideias como um cachorro à solta num galinheiro, a tendência para escrever enormidades ou dissertar de forma pedante sobre os mais variados (todos os) assuntos cresce de forma exponencial. Recordes são batidos.

    É o que me acontece com alguma frequência quando escrevo estes posts no 100 Cabeças. Nem sempre o faço, mas quando releio certos textos (ao menos são curtinhos) apercebo-me de tanta patacoada que chego a ruborescer uma vez por outra. Um gajo pode ser mesmo parvinho e atingir níveis de imbecilidade bastante preocupantes. Podia não escrever nada e resolvia um problema ocasional mas isso não é bem uma opção, não sei explicar porquê.

    Assim como assim, estes textos também não são lidos por muita gente (provavelmente nem por pouca) daí que não venha grande mal ao mundo por insistir nesta desordenada sementeira de ideias. Sementes leva-as o vento da zumbisfera (que assobia nas vielas desertas, nas janelas fechadas e nos crânios de alguns certos animais, primeiro mortos, logo depois abandonados).

sábado, julho 04, 2026

Felicidade e Liberdade

     Não imagino um espaço capaz de proporcionar alegria aos que o habitam se não existir nele liberdade de expressão. A alegria pode encenar-se, pode representar-se, macaquear-se, pode-se trapacear de muitos modos diferentes aquilo que mostramos aos outros, mas cá dentro, no escuro do peito, a verdade dos sentimentos nunca mente. Sabemo-lo bem.

    Fingir a felicidade acontece muito, é uma das mentiras mais comuns que por aí andam. Umas vezes por piedade, outras por maldade, umas vezes por estultícia, outras por razões maquiavélicas, a felicidade representa-se muito. Sente-se pouco? 

    Há quem diga não saber o que isso é, a felicidade; há quem reclame para si um estado de enlevo permanente por sentir-se próximo de uma divindade qualquer; há quem afirme que o poder económico que alcançou lhe permite comprar tantas coisas, inventar e suprir tantas necessidades, que aquilo que sente só pode ser felicidade. Situações tão distintas, pessoas tão diferentes umas das outras, vidas totalmente opostas, culturas, religiões, civilizações separadas no tempo e no espaço, milhentas formas de vida uma única sensação em falta, ou no horizonte, ou no pensamento, um anseio comum que se persegue e sempre nos escapa: a felicidade.

    Seja como for ou onde for, não sou capaz de conceber a possibilidade de se ser feliz num espaço social onde não haja total e absoluta liberdade de expressão. Diria mesmo que é impossível explicar o conceito de felicidade caso nos seja proibida, nem que seja, a mais pequena e insignificante das palavras. 

    Felicidade e liberdade, não serão sinónimos mas são, indubitavelmente, palavras da mesmíssima família. 

quarta-feira, julho 01, 2026

Felicidade visual

   


    Depois de muito reflectir sobre a possibilidade de existir uma metáfora visual da felicidade, uma coisa que se veja e possa transmitir toda a força desse sentimento fugidio, chego à conclusão de que existe, de facto, tal metáfora. É o smiley clássico, uma circunferência amarela com duas bolitas negras e um arco curvado a imitar um sorriso. Simplicidade absoluta, máxima eficácia comunicacional.

    Vejo um grupo de rapazes adolescentes subindo para um autocarro que os levará à praia. Irradiam felicidade. Já anteriormente me tinha ocorrido que é muito mais fácil perceber visualmente a felicidade alheia do que a nossa própria felicidade. Olhando estes rapazes vejo-lhes a felicidade nos gestos, nos sorrisos, na forma meio atolambada como falam uns com os outros, a felicidade a baralhar-lhes o coração com a boca. 

    Resolvo deste modo um problema que me vinha ocupando a mente nos tempos recentes. É a felicidade coisa que se veja? Sim, vê-se.