quinta-feira, julho 30, 2026

Uma árvore

     Não é que desejasse estar morto mas, dadas as circunstâncias, estar vivo era condição que não o deixava particularmente feliz. "Deus fez-nos imperfeitos," - pensou - "entre a vida e a morte deveríamos dispor de uma terceira opção, uma espécie de estado de hibernação, como têm outros bichos." A ideia pareceu-lhe tão extraordinária que não demorou a registá-la no caderninho que sempre transportava no bolso das calças. Aquilo animou-o um pouco mas não o suficiente para que pudesse desfrutar em pleno do sol, da brisa que dançava nas árvores, nem do cão que continuamente lhe vinha depositar aos pés a bola de ténis que maquinalmente atirava uma e outra vez para não tão longe quanto isso.

    "Ainda não tinha reparado naquela árvore em forma de avião." Levantou-se, deu dois passos em frente e a árvore desapareceu. Estacou, siderado. O cão saltitava em redor do homem transformado em estátua, a bola de ténis bem presa entre os dentes, póin, póin, póin, parecia um boneco mecânico. Era como se a árvore tivesse voado dali para fora. Era como se a árvore se tivesse eclipsado por magia. Fosse o que fosse, algo acontecera que ultrapassava completamente as capacidades perceptivas daquele homem deprimido, ali especado de boca aberta, a fitar um ponto indefinido. "Deus me valha."

    O cão acabou por desistir dos saltos e está agora sentado a olhar para o homem. Ambos estão perfeitamente estáticos (o cão nem sequer abana a cauda). Um e outro tentando compreender o que se passa. Como sempre, de resto. As respostas não parecem ser satisfatórias. "Pai Nosso que estais no céu..."

quarta-feira, julho 29, 2026

A dívida

     Ouço conversas verdadeiramente estúpidas. Conversas que exalam uma manhosice pestilenta; conversas de tal modo cretinas que expõem com absoluta limpidez a ignorância de quem as mantém. Há naquilo alguma malvadez.

    A coisa desenrola-se na mesa atrás de mim, na esplanada. Por muito que não queira ouvir não consigo evitá-lo. "Era construir aqui uma mesquita para os talibans andarem aí de cu para o ar." Entretanto passa o vizinho que usa um turbante e conduz um TVDE. Com ele vêm as suas duas filhas, não terão menos de 3 nem mais de 5 anos. As crianças dirigem-se à mesa atrás de mim e o pançudo vermelhusco que perorara sobre a mesquita e os talibans sorri-lhes e faz-lhes festinhas. As crianças vão ter com o pai. Parecem felizes. Deus saberá o que vai na cabeça do homem sentado atrás de mim, eu evito pensar muito no assunto.

    A conversa prossegue nas minhas costas; desligo para escrever. 

    As pessoas ouvem umas coisas que compreendem apenas vagamente. Mais tarde, quando tentam reproduzir a informação recolhida, a tarefa revela-se demasiado complexa. Aquilo que parecia escrito na pedra transforma-se em vagas interjeições, reduz-se a grunhidos porcinos, perde-se ou confunde-se o significado da coisa. Restou uma espécie de papa comunicacional. E assim se vai disseminando a mais profunda grunhice. 

    Fico na dúvida se os cretinos têm consciência da sua cretinice. Talvez não ou, em caso afirmativo - eles sabem que são estúpidos e ignorantes - se é isso que os leva a serem tão agressivos para com tudo o que lhes cheire a intelectualidade? Será que assistimos a uma espécie de vingança de um ressentimento acumulado ao longo de séculos por milhões de cretinos, estúpidos e imbecis, que pagam a dívida em maldade e violência?

terça-feira, julho 28, 2026

El-rei Cretino

     Haverá muitas coisas estranhas na crosta da Terra mas poucas serão tão prejudiciais quanto uma pessoa estúpida convencida de que é muito inteligente. Normalmente são pessoas extraordinariamente afirmativas que se tornam com frequência agressivas; quando expõem os frutos da sua imensa sabedoria. A cretinice é óbvia mas não para este género de seres vivos. Para eles a cretinice é alimento, é modo de vida.

    Se nunca chegarem a lugares que lhes permitam o exercício do poder, não passarão daquilo que chamamos de "pobres diabos" ou, muito simplesmente, "imbecis". Quando, por qualquer razão, ascendem a lugares de liderança está o caldo entornado.

    O líder cretino vinga-se de todos os pretensiosos, intelectuais da treta, pessoas armadas em muito conhecedoras, vai tudo raso. Agora chegou a verdade verdadeira, a verdade inquestionável, chegou a lei absoluta e, o estúpido, é o seu guardião. Ele é polícia, juiz e verdugo. Põe-te a pau. O melhor será fazeres de conta que és também um cretino completo, um refinado imbecil. 

    Quanto maior a ignorância que vieres a manifestar mais próximo estarás de agradar ao poder. Isso é bom. O contrário é mau. É preto e é branco, o mundo simplifica-se de forma estonteante. Podes sempre fingir que és feliz assim. Pelo menos vais continuar inteiro durante algum tempo.

domingo, julho 26, 2026

Toc, toc

     A cor da porta era tão indefinida quanto a vontade que tinha de entrar. Levantou o punho direito e bateu. Toc, toc. Soltou-se um pouco de tinta ressequida que esvoaçou no espaço silencioso. Seguiu a lenta queda com um suspiro que lhe encheu e esvaziou o peito. Aguardou. Esticou as abas do casaco e endireitou as costas com um gesto que lhe puxou a cabeça para trás e para o alto. Sabia bem a imagem que pretendia projectar. Mas... nada. O silêncio prolongava-se de uma forma embaraçosa. Devia bater novamente, aguardar mais um pouco?

    Rodou os olhos furtivos. Para um lado. Para o outro. Ninguém, nada, nem sequer alguma coisa. Olhou as biqueiras dos sapatos e reparou que o chão estava repleto de pedaços de tinta. Quantas pessoas antes dele haviam também batido àquela porta? Os olhos saltaram-lhe fixando-se imediatamente num ponto indeterminado, dois palmos defronte ao seu nariz. Sentiu um calor incomodativo, houve um pingo de suor que lhe escorreu costas abaixo. Desejou que a porta se não abrisse, que se mantivesse fechada, que lhe desse um pretexto válido para fazer meia volta e por-se a andar dali para fora. Já não desejava ver o rosto de alguém que a abrisse, já não queria entrar, não queria saber de nada. "Socorro!", gritou. 

    E virou costas e veio-se embora.

quarta-feira, julho 22, 2026

Olhar límpido

     A simplicidade do raciocínio é boa por um lado e, por outro lado, é muito má. É boa quando proporciona processos de análise claros e eficazes que nos conduzem a conclusões cristalinas. É má quando impede que a reflexão seja informada, quando atalha caminho a direito, como uma bala em direcção ao alvo sem que perceba muito bem que alvo é aquele, que bala é aquela. Pum! No olho do touro!

    "Menos é mais" é um axioma útil e eficaz quando aplicado de acordo com aquilo que realmente significa; quando somos capazes de limpar o excesso de adorno e eliminar informação desnecessária, encontrando uma solução aerodinâmica optimizada.

    A pobreza de espírito nunca é grande espingarda. Um pobre de espírito tanto pode ser boa como má pessoa. Inteligência e informação refinada num cérebro bem oleado nunca foram garantias de empatia, humanidade ou capacidade de integração num todo social. Nem vice-versa.

    Resumindo para concluir que podemos ser simples ou mesmo simplórios, isso não é drama fatal. Podemos entregar a nossa simpatia a uma besta qualquer; se for sem querer, sem intenção de sermos tão bestuntos quanto o nosso ídolo, Deus haverá de encontrar uma forma de nos perdoar mesmo que, por via da nossa estupidez, o cabrão que elegemos venha a revelar-se o Anti-Cristo.

terça-feira, julho 21, 2026

Clareza de espírito

     Vale a pena ser boa pessoa? Mas... o que é ser boa pessoa? Ai, ai, não quero parecer presunçoso (embora seja presunçoso) mas acho que sei mais ou menos o que é isso, ser boa pessoa. Sei porque me ensinaram quando era pequeno e coisas dessas dificilmente se esquecem, mesmo quando as pernas ficam mais compridas ou quando a barriga cresce ou o cabelo vai caindo. São lições que carregamos a vida toda na bagageira da mona.

    Se algum caramelo discorda daquilo que considero necessário para constituir a maneira de ser e de estar de uma boa pessoa, é porque esse caramelo não é boa pessoa. A coisa é de uma limpidez tal que nem água de um ribeiro a cantarolar sobre as pedras num dia de sol ao meio-dia. Não concordas comigo? És um merdas!

    Assim sendo, sinto a obrigação de me bater por aquilo em que acredito, até porque, para mim, andamos neste mundo para fazer dele um lugar melhor para os que vierem depois de nós. E o mundo melhora quanto mais boas pessoas nele habitarem. É tão simples! Para que as boas pessoas como eu prevaleçam temos de ser capazes de espalhar a boa nova de forma convincente; converter os ímpios, pôr na ordem os mais fatelas. 

    Vejo tudo com tanta clareza! 

domingo, julho 19, 2026

Opções

     Não é difícil perceber a dificuldade que representa tentar perceber essa dificuldade. Pensamos e, ao pensarmos, temos a ilusão de que o resultado da nossa imaginação configura algo que é muito semelhante à realidade. Esquecemos, porém, que a realidade é uma coisa fugidia, tão intangível como a felicidade, tão escorregadia como uma enguia, tão plausível quanto uma fada com sapatos de bruxa.

    É essa dificuldade o suficiente para que desistamos de pensar na vida, que desistamos de tentar compreender o mundo, procurar-lhe um nexo, uma razão que englobe todas as razões? Não é o suficiente mas ajuda a desalentar muito boa gente que, desalentada, prefere comprazer-se com as coisas simples como, por exemplo, ser completamente estúpido ou, meramente, um imbecil. 

    É uma opção tão válida como outra qualquer.