segunda-feira, outubro 19, 2026

Ciência divina

     Há alguma diferença entre Deus e a Ciência? Talvez sim ou talvez não. 

    Os cientistas tendem a separar as coisas tal como tendem a fazê-lo também os padres  da igreja ou os crentes, de um modo geral. Vagamente inspirados naquela cena do Novo Testamento do "a Deus o que é de Deus, a César o que é de César", acham que com a Ciência a coisa não haverá de andar muito longe disso. É uma maneira prática de encarar o suposto problema e que corta caminho por atalhos mais ou menos sombrios na floresta cerrada que é a existência humana. Vale tudo quando toca a procurar um raiozinho de luz, uma clareira, um vislumbre do céu, qualquer coisinha, por favor. Muito obrigado.

    Embora não tenha pensado no assunto por aí além não vejo que venha grande mal ao mundo se cagar aqui a minha sentença. 

    Pensei que talvez Deus e a Ciência pudessem ser exactamente a mesma coisa. Uma espécie de Quimera, um ser impossível que padece de algumas maleitas por isso mesmo (por ser impossível). E este mundo seria a sua criação e nós, as suas criaturas, sentimos a presença do tal ser mas não conseguimos compreendê-lo (isso acontece com a maioria dos deuses). Daí que nos dividamos: uns acham que somos filhos de Deus, uma cena a dar mais para o etéreo, outros que somos filhos da Ciência, são de entre nós os mais focados nas cenas como elas tendem a ser na realidade. Ou que acreditam que conseguem provar essa tendência e não acreditam facilmente nas outras cenas, as que escapam à sua capacidade de medição do Mundo.

    Andamos para aqui entalados. Deus, gritam uns, Ciência, berram outros, e siga a marinha, tudo como dantes, quartel-general em Abrantes! Fica na tua que eu continuo na minha. Não estou para te ouvir, obrigadinho.

    De nada.

domingo, outubro 18, 2026

Senhores porcos

     O problema é o "senhor". O Senhor Deus, o Senhor Presidente, o Senhor Doutor, o Senhor Senhor. A veneração que devotamos aos "senhores", aos donos da terra, aos donos dos animais, aos donos do dinheiro, todos eles senhores de alguma coisa. 

    Não és um senhor não vales grande coisa. Os senhores apropriam-se, detêm, possuem, organizam, governam, dispõem. O resto do pessoal, a populaça, venera e obedece. É nisto que se baseia o estado a que chegámos.

    E se reclamas, se respingas e exiges alguma coisinha para ti, se achas que tens direitos e um lugar no mundo que não seja a um canto da pocilga, toma cuidado. Não grites muito nem grites alto que podes vir a dar-te mal. Na pocilga governam os porcos, os senhores porcos.

terça-feira, outubro 13, 2026

La vida loca!

     Preencher a vida com acontecimentos extraordinários, aproveitar ao máximo todos os momentos, viver cada dia como se fosse o último, construir castelos com as pedras que se vão encontrando no caminho, enfim, imaginar a vida deste modo já me cansa, vivê-la assim deve ser extenuante. 

    Por mim a contemplação serve muito bem, a concentração numa tarefa longa de objectivo difuso também não me parece desagradável. Começar a fazer uma coisa e esquecer-me de que estou a fazê-la, magnífico! Embora por vezes possa parecer preocupante. Estarei a esquecer-me da vida ou a esquecer-me de que estou vivo? Se me esquecer de que estou vivo vou morrer? É assim que se morre, por esquecimento? Acho que não, mas, até esticar o pernil, será esta uma dúvida plausível. 

    A vida pode ser uma coisa muito chata e muito longa, tal qual a espada de Dom Afonso Henriques, como dizia o meu pai. Pode ser assim e merecer cada minuto, cada segundo, cada acontecimento aborrecidíssimo, cada momento que passa apenas uma hora depois de ter acontecido. A vida é para ser vivida de acordo com o ritmo a que estamos dispostos e a que aprendemos a vivê-la. Quero lá saber do glamour da vida dos famosos! Quero lá saber das coisas que estou a perder por pensar desta maneira! Já agora, como podemos nós perder uma coisa que nunca tivemos?

domingo, outubro 11, 2026

Duas figuras amigas

     Devo optar por um discurso simples ou complexo? Isso é lá consigo meu amigo. Poderá a complexidade emergir da simplicidade discursiva? Pois concerteza, claro que sim, faça a fineza. Arrume essa ideia ali no canto, junto ao pacote meio roído. Foram ratos? Imagino que sim, espero que não. Deixe ficar, mais logo logo vejo. Logo, logo, soa a nome de ilha perdida nas águas do Pacífico. O meu amigo dispersa-se com uma facilidade assustadora. Mas olhe que é sem querer. Seja como for, perde-se, divaga, mergulha nas profundezas de reflexões patéticas sendo que isso até tem alguma graça. Obrigado, fico a dever-lhe uma. Posso sugerir uma ocasião para ficarmos quites? Sim, claro que sim. Quando eles voltarem diga que sou eu, quero dizer, diga que o senhor é eu, que eu sou vossa excelência. Sugere que troquemos de identidade? É isso mesmo, sugira que troquemos identidades. Decerto terá uma boa razão para me fazer tão estranha proposta. Sim, tenho. Tenho uma óptima razão mas não lhe vou dizer qual. Mas, em que ficamos? Aceita? E porque não? Afinal de contas somos amigos. Ora aí está! Mas, diga-me: devo optar por um discurso simples ou aventurar-me em conversas de teor mais complexo?

quinta-feira, outubro 08, 2026

Consequências de um debate parlamentar

     Estou a uma unha negra de deixar de comentar nos jornais, de ler compulsivamente notícias, de tentar colocar alguns tijolinhos de sensatez na construção do mundo que me rodeia. Estou quase, quase! Estou farto de tanta merda. Será assim que os direitolas nos derrotam, submergindo o mundo em merda líquida que lhes vai jorrando das bocas, como se fossem fontes de merda? Merdosas fontes de merda?

    Esta tarde tive a infeliz ideia de ligar a TV para assistir a um debate na Assembleia da República. A coisa foi de tal modo deplorável que pensei: esta merda que se foda! Caralhos fodam esta cambada de filhos de uma grandecíssima puta que os há-de parir. Assistir aos Pintos deste mundo aplaudindo Venturas, ladrando incessantemente, mordendo a atmosfera, exalando um fedor insuportável na sala do hemiciclo... não. Não tenho estômago para tanto.

    Dizias tu: então és assim, quando o ambiente fica forrado a merda pões-te na alheta, lindo! Respondo eu: o povo gosta de merda, o povo lambe-se por merda, o povo acrescenta merda à merda. 

    E parece-me ser muito isso. Estou cansado de falar pró boneco. Peço desculpa, decerto estou enganado, mas tenho cá a impressão de que o povo tem o que quer e, se o quer, o povo tem o que merece.

    Não fosse a merda e seria tudo cristalino. 

terça-feira, outubro 06, 2026

Naza

     Naza, com "z", é a designação utilizada pelas tropas israelitas para os "danos colaterais" causados pelos seus bombardeamentos indiscriminados. Bombardeiam mais ou menos às cegas. Basta saberem que certa personagem está naquele local e... BUM, mata-se toda a gente que esteja por perto. Sejam soldados, crianças, velhos, mulheres que estão apenas a preparar uma refeição que já ninguém irá comer, mata-se toda a gente. É criminoso.

    Ontem fui com a Ana assistir à projecção do documentário com o título "Naza". Um estranho filme, rodado maioritariamente à noite, nos terraços de Telavive. O documentarista mostra a face mas os entrevistados são apenas sombras, silhuetas, pessoas reais que não existem neste mundo. Pelo que me foi dado perceber, existem apenas num mundo virtual onde o sangue não é real e não há pessoas nem cidades, onde não há nada, onde tudo é reduzido a cifras.

    Durante toda a projecção não reparei que tivesse havido a habitual agitação na sala, telemóveis ligados, focozinhos de luz aqui e ali, nada. Talvez tenha sido eu a ficar hipnotizado pela crueza do filme, não sei. No final toda a gente se levantou e saiu da sala no mais completo silêncio, um silêncio sepulcral. 

segunda-feira, outubro 05, 2026

O céu

     Astérix está desesperado. O céu aproxima-se cada vez mais perigosamente do elmo com asinhas que lhe protege a cabeça. Obélix nem pia e o canito não parece compreender muito bem o que passa. 

    Além do céu a cair rapidamente sobre nós, as coisas cá em baixo estão cada vez mais feiosas e complicadas. Os fascistas crescem por todo o lado como florinhas malévolas após as primeiras chuvas da Primavera. O povo parece ser maioritariamente fascista ou será apenas estúpido? Ou o estúpido sou eu que não compreendo a bondade de um filho-da-puta? Será isto o inferno a tomar forma definitiva?

    Hoje tive dificuldades em dormir decentemente.