segunda-feira, abril 06, 2026

Senhor Calmante

     "Não faz mal, não se passa nada, afinal não é assim tão importante". A mão esquerda treme-lhe como se tivesse alguma doença degenerativa mas é tudo nervos. Nem mais, nem menos, sé nervoso miudinho, daquele que nem deixa mazelas no sistema nem nada. "Não faz mal, não é assim tão importante". Afinal de contas o que pode significar mais uma morte no meio de tantas mortes que todos os dias nos anunciam, com aparente satisfação, nos diferentes canais de TV? Nada! "Nadinha de nada", digo-lhe eu ao ouvido com a voz mais aveludada com que sou capaz de atapetar a garganta. "Vais ver que ninguém dá por nada."

    Sou assim mesmo: um gajo fixe e muito cool. É por isso que me chamam tantas vezes quando se trata de acalmar alguém que esteja à beira de cagar o esqueleto. Na maior parte das situações já não há nada a fazer e, por isso mesmo, é mais ou menos pacífico dar a volta ao culpado no sentido de lhe mostrar um lado mais luminoso da questão. Uma perspectiva mais optimista, um vislumbre do que poderia ser o mundo se ele não tivesse feito merda da grossa. Como era este o caso. Grande merdalhona!

    Envolvo-lhe os ombros num abraço caloroso, um abraço que aprendi com o meu pai e pratiquei afincadamente com o meu irmão, a minha mulher e a minha filha; um abraço fixe como o caraças! Isso deixa-o um pouco mais descontraído. O que é bom. A merda está feita, só falta limpá-la para debaixo do tapete. Com a mão livre seguro a minha ponta-e-mola favorita, uma navalha que o meu velho comprou em terras de Espanha quando por lá andou a contrabandear boas vontades. É uma navalha elegante; leve, esguia e consistente.

    Em menos de um daqueles piscar-de-olhos está o problema resolvido. 

domingo, abril 05, 2026

Bosch é bom

     Não se compreende, porque o verbo "compreender" não é o adequado quando contemplamos um tríptico de Bosch. Como poderíamos compreender algo tão complexo, tão anguloso, tão abstruso, tão repentino na forma como muda de direcção e se desvia da parede sobre a qual se lançou em vertiginosa velocidade no derradeiro e precioso momento? Deixarmo-nos esborrachar de encontro ao muro de complexos significados formado pelo quadro também é uma opção a ter em conta. E não será menos agradável que qualquer outra que possamos tomar.

    Não se compreende porque vivemos no século XXI, porque temos artefactos electrónicos e nos basta accionar um interruptor para que se faça luz a qualquer hora do dia. Não se compreende porque em vez de burros montamos automóveis e no lugar dos sonhos que eram sonhados olhando o céu temos agora aviões a jacto cortando a imensidão em fatias.

    Não se compreende porque o nosso Deus veste fato e gravata e foi transformado em burocrata. 

sexta-feira, abril 03, 2026

A traição das palavras

    Há quem diga que a piada de "A Traição das Imagens" reside no facto de não ser bem uma piada. Que Magritte queria vincar com nitidez a diferença entre um objecto e a sua representação, que um cachimbo serve para fumar e aquele, na pintura, nunca poderia servir para cumprir uma tal função. 

    Também acontece que, por vezes, aquilo que escrevemos vem inquinado por aquilo em que acreditamos ainda que o mundo aconselhasse menos vinagre nas ideias. E quando não temos nada de substancial para dizer podemos sempre remoer uma tolice qualquer nem que seja só para irritar os burgueses. Lá no fundo, todo o texto é uma espécie de "Traição das Palavras".

    Certas leituras, de Filosofia em particular, tornam-se, para mim, impenetráveis. Por vezes vislumbro a ideia, quase sou capaz de captar o conceito, logo tudo se me enrola e cola à sola dos sapatos do pensamento e aí vou eu, a penca veloz e deireitinha ao asfalto da estrada onde passam camiões carregados de sabedoria e autocarros repletos de eloquência fornecida em pequenas doses com duas patas, veículos característicos e imprescindíveis à definição de um certo ambiente intelectual.

    Se as imagens são traidoras, então as palavras, convenhamos, não merecem a mínima confiança. 

terça-feira, março 31, 2026

Ter dono

     A mão pousou sobre a cabeça despenteada do animal. 

    Sentiu o peso da manápula, curvou-se um pouco mais, a língua quase, quase a lamber o chão. A tijoleira. Deixou que o olhar lhe caísse, que lhe escorresse dos olhos para a cor alaranjada da tijoleira e ali ficasse, a alastrar com lentidão como se fosse água derramada, um olhar vazio e inexpressivo como é sempre o olhar dos condenados ou dos doentes de alzheimer. Não se atrevia a levantar os olhos, a encarar o dono daquela mão opressiva e ameaçadora.

    A mão  afagou-lhe a cabeça mas aquela carícia era como um soco. Era uma carícia que apenas exprimia a superioridade de quem a praticava, como acontece com as senhoras caridosas e os mendigos à porta da igreja. O animal não tinha ânimo sequer para odiar, sentia-se derrotado, incapaz de morder, incapaz de fugir, incapaz de ficar. Naquele momento, a morte seria por ele abençoada. E deitou o queixo no chão, a tijoleira era agora como uma planície, o degrau que marcava o início das escadas a linha do horizonte.

    A mão, privada do apoio oferecido pela cabeça do animal, ficou pendente, pensativa, oscilando entre cá e lá. 

    A mão.

sábado, março 28, 2026

Outra espera

     Todas as pessoas andam à procura de uma situação à qual se possam ajustar, um lugar, um grupo, um sonho, e vão fazer tudo o que lhes for possível e lhes parecer necessário para alcançarem os seus objectivos (a rapariga que vai pondo rímel nas pestanas sentada no banco da carruagem do Metro).

    Pequenas situações permitem complexas reflexões - as personagens ora observam, ora encarnam e se tornam pessoas de verdade (embora sejam falsas). Observam, descrevem, participam, mas não podem tomar decisões que alterem o rumo dos acontecimentos. Só "ele" pode tomar essas decisões mas "ele" está ausente e as personagens aguardam pacientemente que "ele" se digne a aparecer.

    "Ele" não veio, não vem, o mais certo é que nunca venha a comparecer naquele espaço iluminado. 

quinta-feira, março 26, 2026

Borges

    Uma história é contada e abre espaço a uma reflexão. Essa reflexão leva a uma outra história que por sua vez permite imaginar o que aconteceria caso a história anterior não tivesse aquele desfecho; se as coisas não tivessem assim acontecido o mundo seria muito diferente e o espectador seria outra pessoa, não a pessoa que imagina ser e está sentada aí, no seu preciso lugar.

    Estas histórias tão diversas formam uma narrativa única, mais ampla. São como espelhos que são como labirintos que são como uma imensa biblioteca frequentada por um único leitor. Um cego que se desloca com a ajuda da sua bengala. 

    A biblioteca é o mundo e todas as pessoas são personagens ficcionadas, são fantasmas, produtos de uma imaginação infinita. A vida de cada fantasma é um volume guardado na prateleira que lhe foi destinada e tudo está maravilhosamente organizado. Desde o início dos tempos até ao longínquo dia do esquecimento absoluto.

quarta-feira, março 25, 2026

Já foste!

     Já alguma vez tiveste a sensação de que pensaste uma coisa que decerto mais ninguém havia jamais imaginado? Já alguma vez tiveste o peito tão cheio de não-sei-quê que até parecia que eras a materialização da felicidade absoluta? Já alguma vez olhaste para algo que acabaste de fazer, algo que trouxeste de um outro mundo até este, e pensaste que era uma coisa mesmo muito muito fixe que merecia ser admirada, analisada e colocada no pedestal onde se acotovelam as obras-primas da Humanidade inteira? Já alguma vez sentiste de repente um arrepio na coluna vertebral porque te apercebeste de que afinal a tua ideia, a tua felicidade, a tua obra, tu próprio, não passam de falhanços, pequeníssimos rasgos no tecido infinito da Realidade? Que, se calhar, nada disto existe, tudo isto é triste, tudo isto é Fado?

    Caramba, isto é o que em linguagem futebolística se chama "uma entrada a pés juntos"! Um tipo vem lá de trás a correr feito maluco e, sem avisar, sem dizer àgua-vai, completa e absolutamente de surpresa, entra de carrinho e leva tudo à frente. Vai relva, vão botas, vão pernas e caneleiras, o adversário a voar pelo ar aos trambolhões. Catrapunfas! Já foste!