terça-feira, junho 30, 2026

Devaneio à hora do almoço

     Para alguém que sinta a pulsão criativa, a necessidade de criar e comunicar, a liberdade de expressão é como se fosse oxigénio. Aqueles que, ainda que sejam amantes da liberdade, vivam de comercializar as suas criações, talvez não considerem a liberdade de expressão tão absolutamente necessária. Seja como for, estou em crer que uns e outros (e todos os demais) serão muitíssimo mais felizes caso vivam num sistema de organização sócio-política que preserve as liberdades fundamentais com a liberdade de expressão bem visível, protegida e enaltecida.

    Aliás, penso também que um sistema como esse é o que mais aproxima os cidadãos de uma sensação de felicidade (ou, pelo menos, faz com que acreditem nessa possibilidade). Mesmo que não tenhamos uma definição standard de "felicidade", ainda que cada um de nós sonhe com um amanhã cantor diferente do do vizinho, a perseguição de uma fada torna a nossa vida menos cinzenta. Perseguir uma nuvenzinha colorida através de um bosque de árvores que são, na verdade, flores gigantescas é mais motivador do que perseguir maços de notas numa floresta de betão (onde os animais te perseguem). Ou então não.

    Ou então habitamos um mundo onde os humanos são apenas aparentemente iguais, um mundo no qual apenas os sacos de pele e ossos que carregam os nossos cérebros e as nossas almas são semelhantes entre si. Dentro dos sacos viajam coisas completa e absolutamente dissemelhantes. Talvez que os princípios fundamentais do Zoroastrismo não sejam tão abstractos quanto possam parecer.

    Vou já em velocidade de cruzeiro e dirijo-me para lugar nenhum, como é meu hábito. Decido guinar em direcção à margem do discurso, encosto a barcaça e salto para terra firme. Talvez beba uma imperial na esperança de matar o calor. 

segunda-feira, junho 29, 2026

Falhanço

     Esta manhã nasceu a minha sobrinha-neta. Comovi-me até às lágrimas quando soube da notícia mas não consigo deixar de pensar: coitadinha. Que merda de mundo em chamas vamos deixar-lhe, a ela e ao irmãozinho, 4 anos mais velho. 

    Desde os meus 40 anos, ou por aí assim, decidi que a vida fazia todo o sentido. Decidi que o sentido da vida seria deixarmos aos vindouros um mundo melhor e uma sociedade mais justa. 

    Vejo a degradação cavalgante das condições de habitabilidade do planeta e a ascensão insidiosa dos novos fascismos um pouco por todo o lado e penso: falhei (falhámos). A minha vida faz bastante menos sentido. Resta-me a convicção de que ainda posso influenciar algumas mentes no sentido de fazer valer a minha visão social. É pouco mas, seja como for, ainda é qualquer coisa.

domingo, junho 28, 2026

Vazio

     Nunca te sentiste cansado de estares aí, dentro do teu corpo? Nunca te apeteceu deitar a carcaça num sofá, numa cama, no chão, num lugar qualquer? Deitavas a carcaça e dela se desprenderia uma espécie de fumaça, uma pequena nuvem, qualquer coisa desse género, uma coisa que fosse a tua alma. E ficava por ali, a pairar, sem se afastar muito, não fosse o Diabo tecê-las.

    Seria então que, esvaziada a carcaça do teu ser, havias de sentir a grandiosidade do descanso mais absoluto, a ausência total de consciência, eras como um saco de plástico, como uma carroçaria enferrujada ou o crânio de um quadrúpede abandonado ao sol do deserto (buracos nos lugares dos olhos, ossada branca e quebradiça a sustentar, ainda, a cornadura). 

    Descansavas das coisas do mundo, descansavas de ti próprio, por momentos (minutos, horas, talvez dias!) não eras ninguém, nem eras nada. Apenas uma coisa inerte, nem sequer à espera. 

    Para ser sincero, nunca senti nada do que atrás ficou escrito. Este textozito (como tantos outros neste blogue) é apenas um exercício de escrita, um passatempo, uma coisa potencialmente estúpida ou vazia, como o corpo que nele se descreve e imagina. 

quinta-feira, junho 25, 2026

O artista no teu labirinto

     O artista abre-te as portas do teu próprio labirinto. Um labirinto com a forma das circunvoluções que te ajeitam o cérebro na caverna do teu crânio. Não queiras saber quem é o artista, como funcionam os seus processos de trabalho, de que cor são os seus olhos, que interesse pode isso ter? Não queiras abeirar-te dos penhascos da criação alheia, podes cair agarrado a um saco de vertigens.

    Já sabes que a obra de arte esconde segredos que são teus. É desses segredos que deves procurar os trilhos esconsos, os becos sem saída que a eles conduzem. O artista cria condições para que entres dentro de ti próprio, não queiras saber de que tecido é revestido o interior do seu coração, sente a textura do teu. O artista funciona como bússola, como enigma ou então é o arauto que te anuncia a identidade de alguém que habita a tua alma, alguém que sempre esteve à espera que lhe prestasses atenção. Até este momento.

quarta-feira, junho 24, 2026

Pensamento complexo (ou então simplório)

     Nós somos comunicação em estado puro e vivemos para comunicar.

    Aprendemos a falar a nossa língua e, desse modo, moldamos o mundo que nos rodeia; aprendemos os nomes das coisas, inventamos formas de os relacionar construindo significados novos, outras perspectivas, é um autêntico universo que nos alicia a sermos demiurgos. Construímos um modelo de realidade que sejamos capazes de suportar. Se não conseguirmos fazê-lo somos deportados para modelos de realidade construídos por outros, o que talvez não seja muito agradável. A riqueza de linguagem e o seu domínio são autênticos tesouros, as caixas de ferramentas que nos permitem existir e comunicar.

    Sabendo que somos comunicação em estado puro e que vivemos para comunicar! 

terça-feira, junho 23, 2026

A barriga do Tempo

     O gajo transportava uma barriga incrivelmente desajustada da pernitas, que eram finas, mal cobertas de uma penugem que não chegava a pelagem. A camisa de alças pendia-lhe mais de um palmo adiante dos calções (pretos, riscados a cinzento discreto, como os fatos de certos gangsters). Nos pés um par de sandálias daquele azul que parece estar sempre sujo, com três listas brancas a fingir adidas.  Deambulava elefantinamente entre os escaparates dos livros distribuídos por temas.

    Com as mãos sapudas atrás das costas, um gesto que lhe projectava ainda mais a pança por sobre o vazio, duas vezes estacionou a pesada figura defronte às prateleiras da livralhada dedicada a temas do turismo. "É para o que serve uma barriga assim" pensei, "para fazer turismo". O homem era óbvia e nitidamente bastante mais jovem do que eu era. Do que eu sou. Idoso.

domingo, junho 21, 2026

Dia de Verão

     Andava por ali mistério. Faces coradas, olhares constrangidos, frases curtas, quase inaudíveis. Ninguém queria comprometer-se com nada que pudesse vir a acarretar arrependimento posterior. Tudo, todas as coisas perdiam fulgor, pareciam-lhe desbotadas; coisa frágeis, absoluta ausência de estrutura, de coluna vertebral, tudo a pairar, como se a força da gravidade não importasse, como se houvesse uma suspensão temporária das leis de Natureza e das regras de convivência humana. Andava por ali mistério.

    Quis pedir uma cerveja fresca mas nem para isso teve coragem. Ficou calado, concentrou-se na leitura. A tarde havia de ser longa.