Há quem diga que a piada de "A Traição das Imagens" reside no facto de não ser
bem uma piada. Que Magritte queria vincar com nitidez a diferença entre um
objecto e a sua representação, que um cachimbo serve para fumar e
aquele, na pintura, nunca poderia servir para cumprir uma tal
função.
Também acontece que, por vezes, aquilo que escrevemos vem
inquinado por aquilo em que acreditamos ainda que o mundo aconselhasse
menos vinagre nas ideias. E quando não temos nada de substancial para
dizer podemos sempre remoer uma tolice qualquer nem que seja só para
irritar os burgueses. Lá no fundo, todo o texto é uma espécie de
"Traição das Palavras".
Certas leituras, de Filosofia em particular, tornam-se, para mim, impenetráveis. Por vezes vislumbro a ideia, quase sou capaz de captar o conceito, logo tudo se me enrola e cola à sola dos sapatos do pensamento e aí vou eu, a penca veloz e deireitinha ao asfalto da estrada onde passam camiões carregados de sabedoria e autocarros repletos de eloquência fornecida em pequenas doses com duas patas, veículos característicos e imprescindíveis à definição de um certo ambiente intelectual.
Se as imagens são traidoras, então as palavras, convenhamos, não merecem a mínima confiança.