sábado, maio 02, 2026

Odiar ou amar?

     Um gajo começa a estar farto desta merda. O tempo passa e as condições de vida não ficam melhores, antes pelo contrário. As promessas feitas são tão evidentemente extravagantes que um gajo nem lhes liga. Deixar um mundo melhor para os que vierem depois de nós? Esqueçamos tal objectivo. A vida perde sentido.

    É tão fácil odiar. Quando odiamos alguém ou alguma coisa encontramos razões e motivos para alimentarmos o nosso ódio a cada passo que damos. É tão fácil. Já amar revela-se  algo bem mais difícil. Do mesmo modo, é tão fácil dizer mal do mundo, encontrar e apontar-lhe os evidentes defeitos, fazer o discurso azedo dos derrotados da vida. Difícil, difícil, é construir uma visão construtiva do que nos rodeia mesmo quando tudo para desfazer-se em merda. Muito sinceramente, não estou a ser capaz de o fazer.

    Não consigo odiar; o máximo que alcanço é o desprezo. Tenho dificuldades em amar quem não seja do meu círculo familiar mais estreito; o máximo que alcanço é um certo perfume de afeição. 

terça-feira, abril 28, 2026

Loucura

     Aproximou-se coxeando de uma forma impossível. As pernas muito largas, enfaixadas nos tornozelos, moviam-se pesadamente mal afastando do chão as solas dos sapatos. Não consigo explicar porquê, mas aquilo parecia resultado de laboriosa encenação. Ao mesmo tempo era absolutamente plausível que alguém com tal corpulência arrastasse os pés e coxeasse como aquela mulher fazia, ainda que um leve sorriso lhe surgisse e fugisse dos cantos da boca como se provocado por discretas descargas eléctricas.

    Aproximou-se e parou à distância de uma curta conversa. 

    "Tenho pessoas pequeninas dentro da cabeça que, vai-não-volta, me contam anedotas que não sou capaz de compreender." Disse isto de um fôlego sem despegar de mim uns olhos arregalados que não pestanejaram nunca, como se me estudasse atenta e alucinadamente. Sustentei a coisa o melhor que pude o que lhe permitiu abertura suficiente para concluir: "não compreendo as anedotas mas acho-lhes graça." Fiquei a olhá-la, os dois ali especados no meio do passeio, no meio da calçada, o sol ainda dócil por vir longe o meio-dia.

    Pensei em sair dali para fora, para longe do incómodo que aquela situação me provocava, pensei em afastar-me do que imaginei ser loucura absoluta. A mulher inclinava-se ligeiramente sobre o seu lado direito; talvez o manquejar não fosse mentiroso. Tenho uma imaginação capaz de me pregar certas partidas. Talvez ela compreendesse muito bem o que se passava dentro da minha cabeça. Talvez ela percebesse o que eu estava a pensar naquele preciso momento. Ou talvez não fosse nada disso o que a levou a declarar entre soluços: "choro lágrimas que vêm sujas de raiva."

    Virei costas e fui à minha vida. 

segunda-feira, abril 27, 2026

A Revolução da Primavera

     Passou mais um dia 25 de Abril e, mais uma vez, eu e a Ana fizemos a Avenida da Liberdade por ali abaixo. Participar no desfile, se bem que de forma muito discreta, faz parte das nossas vidas. É uma festa, uma coisa bonita e comovente. As pessoas sentem-se felizes, são milhares e milhares de pessoas felizes que exteriorizam sentimentos positivos. É mesmo bonito de ver e de viver.

    De manhã tinha assistido na TV ao discurso do André fascista na Assembleia da República. O contraste não poderia ser maior. O gajo é só fel e sentimentos retorcidos. Vontade de proibir, de impor regras porque sim e regras porque não. Quer ajustar contas que nem sequer são dele. Chega a meter dó, com o seu cravozito verde tricotado sabe-se lá por quem.

    O espírito de Abril, com o passar do tempo, é cada vez mais primaveril. A Revolução é como a Primavera.

quarta-feira, abril 22, 2026

O bicho

     Não sei  bem se possa considerar como problema o facto de nunca ter ambicionado nada muito mais além do que aquilo que vejo, nada muito maior do que aquilo que possuo, não tenho a certeza de que a ausência de ambição possa ser classificada deficiência de carácter. 

    Há dias, como o dia de hoje, em que sinto um bicho cá dentro, encostado ao meu coração, a pressioná-lo, a aproximá-lo um pouco da garganta provocando uma leve falta de ar que me obriga a um suspiro. Profundo. Logo depois já me anda a esgravatar as circunvoluções da massa encefálica, procura alguma coisa que desconheço, é um bicho inconveniente, convocado vá-se lá saber por que forças abstrusas, animado por estranhos e secretos desígnios.

    O bicho faz-me desejar algo maior, algo mais grandioso, algo mais longínquo, o bicho desassossega-me. Ou se vai embora ou ainda transforma um dia que se previa calmo e rotineiro numa coisa angustiante, algum desejo megalómano a desabar vindo lá do alto dos meus sonhos. A cair, a cair, o precipício dentro de mim é infinito.

    Há dias, como o dia de hoje, em que gostaria de encontrar as bruxas que lixaram Macbeth. Ouvi-las, ansioso por saber se o escuro destino me reserva algo mais do que aquilo que sou capaz de imaginar. 

terça-feira, abril 21, 2026

A guerra é a guerra

     A pressão é enorme, o escrutínio é constante, um gajo diz uma merda qualquer, deixa uma graçola imbecil numa rede social e... já foste! Um pacóvio tão pacóvio como ele repara na coisa e está feito ao bife. A partir de agora acabou-se-lhe a paz. É A GUERRA!

    Um gajo recebe mensagens parvas a toda a hora. Acorda indignado, toma doses cavalares de sarcasmo ao pequeno almoço e passa o resto da manhã a dar respostas manhosas enquanto continua a suportar saraivadas de comentários ácidos. Almoça e, durante a tarde, a coisa não amaina nem melhora. Tungas, tungas, tungas, aqueles camelos a baterem no ceguinho como se não houvesse amanhã! E depois chega a noite. Um gajo deitado na cama, as luzes apagadas, apenas iluminado pelo écrãzinho maravilhoso, pela janelinha aberta sobre o mundo virtual, esse lugar mágico onde tudo acontece. Responde, responde, responde.

    O sono acaba por vencer, o telemóvel fica sem bateria, a imaginação nunca foi muito abundante. Um fiozinho de baba escorre do canto da boca para a almofada. O mundo está em repouso, o guerreiro descansa. Amanhã será um outro dia, um dia muito parecido com aquilo que este foi, outra jornada intensa repleta de batalhas, lutas e escaramuças. A guerra é a guerra. Qual foi a razão que despoletou isto tudo? Um gajo já nem se lembra... e isso interessa?  

segunda-feira, abril 20, 2026

Estar frito

     Ao que consta, os EUA estão a um passinho de bebé de virem a declarar-se um Estado Cristão. Pois, tal como qualquer Estado Islâmico ou coisa que o valha. Uma coisa é sê-lo, outra parecê-lo e, agora, outra coisa ainda é declará-lo. A declaração oblitera por completo o parecer e confunde um pouco o ser. Seja lá como for, teremos mais um Estado que irá reclamar a vontade de Deus quando for necessário justificar os desmandos alucinados dos seus líderes (enviados a este mundo por Deus, obviamente).

    O facto de os EUA possuírem o maior arsenal nuclear do planeta fica ainda mais incómodo. Agora esse arsenal passa a estar à disposição do Deus que pôs Donald Trump a cumprir um plano qualquer que ninguém compreende. Escolher Trump diz muito a respeito desse Deus e não inspira a mínima confiança aos que ainda não tomaram o ácido da crendice fundamentalista. 

    Temo que o Deus de Trump não seja o mesmo que os iranianos adoram e tenha algumas diferenças em relação ao Deus de Israel. Se estes três deuses são o mesmo, há uma evidente falha de comunicação entre o Outro Mundo e este, que habitamos. Se, pelo contrário, forem três deuses diferentes capazes de disputar a atenção e as almas de todos os seres humanos, então estamos fritos.

    Pessoalmente, há muito que desconfio da existência de Deus (ou de deuses). Mas, no entanto, desejo ardentemente estar enganado e torço para que exista apenas um Deus e que uma Revelação aconteça, mais dia menos dia. E torço também que, a existir, o verdadeiro e único Deus não seja Jeová. Se é ele, estamos fritos. 

domingo, abril 19, 2026

Um dia destes vai chover

    Várias personagens aguardam maior definição. Duas estão sentadas, outra fica em pé e uma quarta encosta-se a uma das duas primeiras. Há ainda uma quinta personagem na penumbra de uma abertura que poderá ser uma porta. Aguardam, como disse, maior definição mas já se sabe mais ou menos o que fazem ali. Aparentemente não fazem nada mas é esse o aspecto de quem espera alguma coisa.

    As personagens estão calmas, não dão sinais de inquietude ou de impaciência. São, talvez, um pouco fatalistas. Elas não sabem o que vai na mente de cada uma das outras, podem apenas responder por si. Nem têm consciência de serem criações de um artista mais ou menos indiferente ao que elas são ou possam vir a ser. Ao artista interessa-lhe apenas que aquelas personagens ali estejam com arzinho de quem contempla o vazio e reflecte em conformidade.

    Um dia destes ainda vai chover merda.