sexta-feira, maio 29, 2026

Perante a morte

     Um dia destes um gajo liga o jornal no telemóvel e lê: "Faleceu Anselm Kiefer..." ou "... Laurie Anderson faleceu ontem..." ou Mick Jagger, ou outro figurão qualquer da arte mais ou menos popular e pensamos... nada. Quando muito vem-nos à memória aquela pintura (!?) monumental, aquele tema extraordinário, aqueles saltos de gafanhoto (velho como as casas), mas o que pensamos nós? Pomos um "smiley" triste vertendo lagriminhas (um sadley?) no Facebook, escrevemos uma frase de merda, epitáfio pretensioso, mostramos o quanto ficámos combalidos com a recepção da notícia e... siga a marinha que tristezas não pagam dívidas. Somos muito assim, somos fogo de vista.

    Isto, partindo do princípio que iremos sobreviver a estas personagens que andam todas na casa dos oitentas e picos. Amanhã posso muito bem não ligar jornal nenhum, o meu telemóvel pode tornar-se um objecto inútil mais dia menos dia.

    A dor é intensa na razão directa da proximidade animal. Quero dizer, quando é alguém da família a coisa magoa à séria. Quando é um amigo chegado magoa um bocadinho. Quando morre um ídolo, sejamos sinceros, aquilo não chega bem a ser dor ou não chega a ser dor de forma nenhuma. Fico-me por aqui, evito ser malcriado ou, muito simplesmente, evito ser estúpido. Se é que ainda não fui.

quinta-feira, maio 28, 2026

É a felicidade uma coisa que se veja?

     A felicidade pode ser coisa que se veja, que se sinta, que se cheire, que se ouça, que possa saborear-se? A felicidade manifesta-se de algum modo que nos permita apreendê-la, medi-la, sopesá-la? Podemos ser mais ou menos felizes neste dia do que fomos num outro? Como podemos responder se não estamos sequer seguros de que o motivo da questão exista?

    Quando tento reflectir sobre a felicidade toda a reflexão me surge na forma de perguntas. Respostas, se as consigo verbalizar, são sempre conversas mais ou menos poéticas.

    Ontem fiz uma descoberta pouco extraordinária. Tive a sensação muito forte de que a felicidade é como são as fadas e as bruxas, que existem se acreditarmos nelas. No caso das fadas verbalizando a nossa crença (acredito em fadas, acredito em fadas, acredito em fadas), no caso das bruxas temendo-as embora admitindo que não existem mas tendo consciência plena de que as há. As há!

    Pensei ainda que as fadas são metáforas da felicidade. Convém que afirmemos alto e bom som que a felicidade existe (acredito na felicidade, acredito na felicidade, acredito na felicidade) caso contrário as bruxas ficam com caminhos abertos em direcção a este mundo que habitamos.

quarta-feira, maio 27, 2026

Estupefacção infinita

     A nossa relação com a Eternidade é do mais simples e puro pavor. Mesmo aqueles de entre nós que imaginam a Eternidade como algo potencialmente positivo, após alguma reflexão mais demorada encontram sempre motivos para ficar, no mínimo, apreensivos. Sendo nós essencialmente perecíveis como podemos encarar uma existência inesgotável?

    O Tempo está para lá da nossa capacidade de percepção. Alguém pode afirmar sinceramente ser capaz de compreender o Infinito? Alguém é capaz de imaginar algo que não seja contido por alguma coisa? O Universo em expansão dá cabo de mim.

segunda-feira, maio 25, 2026

Notas muito soltas

     A mera existência de uma coisa é o seu principal fundamento. Penso que o espelho seja um exemplo do que pretendo dizer. Ou um lápis, ou um automóvel, ou a lâmina de uma faca a brilhar numa noite de lua quase, quase cheia. Amanhã sairão os licantropos e a navalha, hoje ameaçadora, será absolutamente inofensiva.

    "A transformação de um homem num artista e, depois, do artista em arte." Um homem que muda para ser um outro homem, para vir a ser um objecto, um homem que dispersa a sua alma no mundo, ora perdido, ora por outros homens encontrado. Um homem pendurado na parede, erigido em torre de marfim, apontado às nuvens nas montanhas da Babilónia. Um homem que não quer ser a escultura que liberta do bloco de mármore mas não tem como evitá-lo.

    Por qualquer razão que me escapa, quando procuro imagens que ilustrem a sensação de felicidade surgem personagens de braços abertos, uma perna esticada e outra flectida ou com as duas pernas no ar elevadas num pinote. O fundo pode ser um céu muito azul ou uma espécie de pôr-do-sol (neste caso a figura resume-se a uma silhueta), a coisa varia muito pouco. E quando faço a pesquisa num motor de busca, mesmo variando a língua (experimentei português, ucraniano, persa, japonês, etc) o resultado é sempre semelhante. 

    

Fantasmas apaixonados por formosas fantasias

     Fantasmas apaixonados por formosas fantasias: esta frase parece o título de um episódio de um podcast dos Gato Fedorento mas não deixa de ter uma certa cadência musical, um ritmo que não sei especificar. Talvez pudesse contar sílabas e essas coisas que se fazem para se saber se um frase é isto ou, pelo contrário, se é aquilo, mas não sei como o fazer nem sei se alguma coisa do que escrevi faz algum sentido.

    Fantasmas apaixonados por formosas fantasias: terminei o post anterior com esta frase e, por gostar da forma como ela se desloca no meu cérebro, dei por mim a fazê-la título deste post. Muito bem, tenho um título mas não sei ao certo o que fazer com ele. Como tal, acabo a escrever isto.

    Fantasmas apaixonados por formosas fantasias: somos nós, os seres humanos. 

domingo, maio 24, 2026

Morel

     O que inventou Morel? Inventou uma maquineta tenebrosa, capaz de fritar a existência de todos (de tudo?) aqueles que ficassem ao alcance dos seus sensores e sistemas de registo. Na ânsia de preservar eternamente a felicidade proporcionada pela convivência entre pessoas que se amam (ou que, pelo menos, são unidas por sentimentos de amizade), Morel mumificou todos e cada um dos que elegeu para o acompanharem naquela aventura insensata.

    Morel pretendeu imitar o Criador mas deu-se mal. Aliás, bem vistas as coisas, o Criador também não se saiu lá muito bem. Somos nós o resultados dos Seus esforços criativos? Morel e Deus, um par de falhados.

    O narrador da novela de Bioy Casares está vivo? De certeza? Pode muito bem ser um fantasma, uma alma penada, alguém que deixou de existir e passou a pairar num Purgatório sem saída. Nem Paraíso nem Inferno, o narrador de Casares está para sempre esquecido, perdido no labirinto de incongruências construído por Morel, apaixonado por um reflexo, nutre sentimentos profundos por uma coisa que os não tem.

    Seremos nós, todos nós, como o narrador de A Invenção de Morel? Fantasmas apaixonados por formosas fantasias? 

sexta-feira, maio 22, 2026

Existir

     Existir é isso mesmo: é estar, ficar, permanecer. Existir é sinónimo de ser (tinha escrito um pequeno texto justificando esta minha opinião mas confirmei que estas palavras são, de facto, sinónimas, portanto é uma boa oportunidade para ficar calado a esse respeito).

    Existir é isso mesmo: ficar, estar, permanecer como as florestas, como as montanhas ou o céu que as envolve. Já os outros seres vivos (são as montanhas seres vivos ou nunca chegam a ultrapassar a categoria "divindade"?), os seres que têm capacidade de deslocação, os seres que hoje estão aqui e amanhã estão ali, esses, que não páram quietos, acabam por ter existências mais fugazes e menos completas. Consomem-se nas vitórias diárias que alcançam quando vencem a distância entre dois pontos cumprindo desse modo trajectos e destinos. Nascimento, vida e morte, locais diferentes, quase sempre.

    Uma floresta também morre (tal como os deuses, as florestas não são eternas) mas as razões que levam ao seu desaparecimento são de categoria diversa. Quando o cão morre acaba o universo para as pulgas que o parasitam? Não tenho bem a certeza mas, estou em crer, que as pulgas encontrarão solução adequada que lhes permita perdurar. Outro bicho.

    Existir é também imaginar, é também ser o que não se é. Ser potência, fantasma, possibilidade. O imaginado permanece. Enquanto habitar a mente humana Dom Quixote não morrerá nunca. Nem Ulisses, nem Jeová, nem o Snoopy. Poderão ser um dia substituídos mas permanecerão algures, num limbo qualquer, aguardando oportunidade de regresso. Existir também é isso.

quinta-feira, maio 21, 2026

Um desenho

     A felicidade é uma viagem. O importante não é tanto de onde vimos ou para onde vamos, o que importa, de facto, é o que nos vai acontecendo. Sabemos que vimos do ventre da nossa mãe e que vamos na direcção do imenso adeus e, em princípio, aspiramos à felicidade.

    Fazemos o trajecto como se fazem aqueles desenhos com uma só linha contínua, sem levantar o riscador da superfície de suporte. Marcamos no mapa da vida a forma da nossa felicidade. Quando algo de ruim acontece e nos vemos obrigados a suspender o gesto, a levantar o riscador da superfície onde riscamos a nossa felicidade, vivemos momentos de angústia, momentos de incerteza: ai Jesus, valha-me Nossa Senhora!

    É suposto que à medida que vamos vivendo sejamos capazes de um maior comprometimento com a felicidade que nos permita adquirir uma certa sageza, uma certa gravitas, tudo coisas associadas ao embranquecer das cabeleiras. Isso pode ou não acontecer e, eventualmente, influenciar a nossa forma de estar no mundo. Podemos tornar-nos animais perigosos ou nem por isso, depende do grau de loucura que o mundo nos vai injectando na alma.

    A felicidade é um desenho.

quarta-feira, maio 20, 2026

Made in China

     Um desenho em formato A3 isolado é uma coisa. Integrado numa muralha de 100 desenhos com o mesmo formato transforma-se noutra. Terá algo a ver com o indivíduo e a multidão, a árvore e a floresta e por aí fora?

    A percepção que as pessoas têm dos objectos artísticos é uma coisa extremamente variável, volúvel e escorregadia; plástica? É a plasticidade de significados a razão para designarmos certas artes como sendo plásticas? Ou tem a ver com a maleabilidade dos materiais aplicados?

    Seja como for tenho sempre a impressão de que a palavra "plástica", quando surge associada às artes, está relacionada com a reacção do plástico a uma fonte de calor. O derretimento, a alteração da forma conforme certas forças aplicadas de determinada maneira, o jogo com os materiais como o gato que joga com o cadáver do pardal ou do rato antes de os abocanhar, antes de os comer, antes de os transformar em algo que, mais do que seu, passa a fazer parte do seu corpo, energia vital. O que não for aproveitado há-de ser cagado.

    São plásticos os materiais, são plásticos os significados, é plástico o nosso corpo. Plástica a vida, plástico o mundo, enfim, tudo é plástico e o plástico tende a ser tudo. Um dia todo o Universo terá sido transmutado em plástico. Made in China.

terça-feira, maio 19, 2026

Julian Barnes

     Julian Barnes, Julian Barnes... o que dizer de Julian Barnes? Eu sei lá, tanta coisa pode ser dita que não faço a mínima ideia do que possa dizer. Afinal de contas é alguém que não conheço minimamente. Lá porque li dois ou três, ou meia dúzia de livros por ele escritos... a verdade é que não sei nada sobre ele. Claro que não. Não sei nadinha de nada.

    Julian Barnes é um escritor cujas obras me fazem sentir um pouquinho mais inteligente quando as leio, um pouquinho mais inteligente do que normalmente sou. Não será nada de extraordinário mas é tudo o que tenho a dizer a seu respeito, Julian Barnes. 

sexta-feira, maio 15, 2026

Selfie

     Estão sérios como carapaus no gelo da peixaria. Manipulam o telemóvel (inteligente, decerto) até o pendurarem num gesto que o deixa à altura do nariz, palmo e meio de distância e, de súbito, vindo do nada, um rasgão abre-lhes a tromba na horizontal. Dizem que é um sorriso mas não é. É uma mentira. É uma pose, um esgar.

    Os autorretratos com telemóvel (as selfies) implicam uma espécie de auto-consciência dolorosa. Cada um lá sabe o que lhe vai na alma quando segura o objecto com a finalidade de se registar. Clique. Já está. A sincronia é perfeita, no momento do clique abre-se o rasgão, expõe-se a ferida provocada pelo simulacro de felicidade. Como se precisássemos de mostrar a dentuça ao telemóvel, talvez para não o ofendermos; pedimos-lhe uma selfie, somos obrigados a colaborar. Aquele esgar é o pagamento exigido pela máquina.

    Uma selfie leva-nos a tomar atitudes mecânicas, aproxima-nos do telemóvel, fundimo-nos por um momento fugaz, humano e telemóvel irmanados num registo, uma memória, uma atitude salutar de partilha de inteligências.

quarta-feira, maio 13, 2026

O amor

     O amor é uma tisana, um placebo, um auxiliar, uma prótese da alma. Uma bengala.

terça-feira, maio 12, 2026

Fôssemos nós o que não somos

     Fôssemos nós como os cães, teríamos a ira do dono a recear . Fôssemos nós como os gatos,  teríamos apenas de recear a morte, caso dela tivéssemos alguma consciência. Fôssemos nós como os melros.

    Fôssemos nós como os pássaros, talvez o vôo fosse alegria completa; talvez sonhássemos ser como os mamíferos. Fôssemos nós como as lesmas. 

    Fôssemos nós como as árvores. Existir, contemplar o espaço em volta, o tempo todo dedicado ao pensamento. Fôssemos nós carvalhos, pinheiros, sobreiros, tivéssemos nós tanto tempo que não soubéssemos o que o tempo é. Fôssemos nós como a terra.

    Fôssemos nós como céu, como as nuvens, fôssemos nós espaço sideral.

    Deus não nos criou à Sua imagem e semelhança.

segunda-feira, maio 11, 2026

Rotina extraordinária

    A vida das personagens que habitam um filme, tomemos Blade Runner como exemplo, é uma metáfora da rotina total e absoluta. São vidas suspensas que se animam de cada vez que um espectador entra em contacto com elas. E repetem exactamente a mesma sequência de acontecimentos, no tempo exacto que tinham durado na anterior ocasião em que tudo aquilo voltou a acontecer. 

    Por muito extraordinária que tenha sido e continue a ser a vida de Roy Batty, ela repete-se sempre da mesma forma, sob a mesma luz, as mesmas frases grandiosas, o mesmo final melancólico. Entretanto Rutger Hauer faleceu mas Batty perdura. A personagem é aparentemente imortal.

    Blade Runner é uma rotina extraordinária. Uma narrativa é sempre uma suspensão à espera de uma alma que a contacte e reponha em movimento, todas as personagens são fantasmas, todos os espectadores (ou leitores, ou ouvintes, seja lá qual for o processo que permita o contacto entre alguém e alguma coisa) são animadores de coisas que hibernam.

domingo, maio 10, 2026

Dúvida existencial

     De vez em quando acontece. Vem de um lado ou do outro, é coisa disparada de tão perto que nem se percebe de onde vem e atinge-me mesmo, mesmo no meio da testa, pelo lado de dentro.

    Plóóóóóófe!

    O som produzido pelo impacto daquilo com o meu humor é assim, prolongado, indefinido, como se fossem caixotes de pão-de-ló a caírem lá ao fundo, num armazém acolchoado. 

    Talvez pluuuuuuuuf seja uma onomatopeia mais adequada.

    Aquilo bate e deixa-me meio perplexo, deprimido. Talvez por não perceber o que se passa. Talvez essa seja a razão para que tantos de nós tomem anti-depressivos de modo a conseguirem aguentar-se à bronca: não percebermos o que se passsssssa. Talveeeeeeez...

    

sábado, maio 09, 2026

Profecia

     Aparentemente estamos bem arranjados! Estamos fritos, não cozidos, fritos em azeite a ferver, temperados com malaguetas arrepiantes e umas rodelinhas de cebola para puxar ao sentimento, libertar a lágrima hesitante.

    Cada vez mais ouço opiniões de seres humanos que, como eu, perspectivam um fim próximo para a nossa espécie tal como ela se nos apresenta nos dias de hoje. Concordo quase sempre. Ouvi aqui há dias um (penso que era inglês ou seria cidadão dos EUA?) gajo qualquer a dizer exactamente aquilo que me parece, irá acontecer, uma profecia do caraças!

    Não será a nossa espécie que acaba mas sim esta civilização, este modelo de organização capitalista que enforma a sociedade global. Haverá sempre algumas bolsas de sobrevivência, pequenas comunidades agrárias que irão prevalecer, sementes de Humanidade. Decresceremos brutalmente em número mas ficaremos por aí, à espera que o tempo faça o seu trabalho e, tal como um vírus paciente, possamos voltar a declarar-nos a espécie dominante; até que, alguns séculos depois, a coisa dê outra vez para o torto.

    Quantas vezes terá isto acontecido na História do nosso planeta? Quando esta civilização colapsar restará dela alguma memória activa? Nunca o saberei. Nem tu, amigo leitor. O futuro a Deus pertence. 

quinta-feira, maio 07, 2026

Viajante intelectual

    As coisas raramente são aquilo que parecem. Mesmo uma pedra, até uma folha em branco. O mundo é uma metáfora do camaleão. E o camaleão, já se sabe, move-se lentamente e tem uma língua muito rápida. E pegajosa.

    Desejas estar só, logo surge uma turba animada e barulhenta para te fazer companhia. Desejas companhia... pois, está-se mesmo a ver. O Pateta! Sim, o Pateta é a verdadeira imagem, quero dizer, o mundo é uma metáfora do Pateta. Eventualmente do Super-Pateta. 

    Agora sim, fico satisfeito com o resultado da reflexão que me ocupou durante tantos anos. Finalmente consigo aproximar-me de uma conclusão, o meu pensamento faz sentido. Sou marxista, facção Groucho.

    Arrumo as ideias na maleta onde normalmente transporto o enfado e preparo-me para abandonar este lugar. Imagino-me um pateta camaleónico incapaz de concluir uma narrativa, incapaz de traçar uma linha de pensamento que conduza a algum local que não seja um súbito precipício. Arrumo também o espelho. A maleta continua leve. Decido seguir viagem.

quarta-feira, maio 06, 2026

Verdade e realidade

     A coisa aconteceu, foi o que se viu e tu estavas bem no meio da confusão. Assististe a tudo, soubeste porquê, estiveste envolvido. Veio-te ao nariz o perfume ácido da violência, o sangue a deslizar-te nas veias como se fosse lava, como se fosses vulcão. Não há cliché neste mundo que te possa incomodar, tens uma história e vais contá-la. Tu és o herói.

    A cena tem potencial, as pessoas interessam-se. Há um momento prévio que envolve vagas sugestões de sedução, um vislumbre de sexo é sempre um bom acelerador da curiosidade alheia. Depois entras tu: vinhas animado por uns copos valentes, disseste umas coisas brutalmente espirituosas; está lançada a narrativa .

    De cada vez que a contas, a história ganha consistência, faz mais sentido. É como se a passagem do tempo lhe conferisse credibilidade, como se lhe varresse o chão e limasse as arestas. As frases que não compreendeste, as coisas que não ouviste ou das quais nem sequer te apercebeste, ganham contornos definidos, são fixadas pela repetição, melhoradas pela arte da palavra. É como se tivesses pintado um quadro que retocas de cada vez que voltas a expô-lo, convencido de que as alterações o tornam melhor, mais nítido, mais verdadeiro!

    Agora percorres o país, promoves colóquios, és convidado para conferências. És a estrela do teu próprio filme. Aceitas convites com um misto de vaidade e enfado, recusas outros com alguma sobranceria, há um certo prazer em dizer "não". Sentes-te maior a cada novo dia. Os factos da tua história são coisas já tão longínquas que passaste a acreditar piamente na narrativa que fixaste e repetes até à náusea. É a mais pura de todas as verdades.

    Olhas a plateia e mais uma vez te apercebes de que a realidade é algo que não existe. Sorris, aclaras a garganta, verificas se o microfone está "on": "naquela noite desci a rua a cambalear..."

domingo, maio 03, 2026

Havemos de comer todas as pedras

    Uma a uma, irmanados em gloriosa jornada de luta entusiástica, havemos de comer todas as pedras.

    Assim mataremos a fome que muitos julgavam infinita. 

    Comidas as pedras pouco restará do planeta.

    Pouco restando do planeta não tardará que a dor e o sofrimento percam o fulgor que hoje têm.

    "Mas como, irmão, como será isso possível?" grita a multidão desorientada.

    Sem planeta não há Humanidade: eis a cruel e definitiva resposta.

    Sem Humanidade dor e sofrimento terão de expressar-se de outro modo.

    "Oxalá não tenham para tanto imaginação suficiente!", gritamos em uníssono. 

    Havemos de comer todas as pedras. - repete o sacerdote.

     

sábado, maio 02, 2026

Odiar ou amar?

     Um gajo começa a estar farto desta merda. O tempo passa e as condições de vida não ficam melhores, antes pelo contrário. As promessas feitas são tão evidentemente extravagantes que um gajo nem lhes liga. Deixar um mundo melhor para os que vierem depois de nós? Esqueçamos tal objectivo. A vida perde sentido.

    É tão fácil odiar. Quando odiamos alguém ou alguma coisa encontramos razões e motivos para alimentarmos o nosso ódio a cada passo que damos. É tão fácil. Já amar revela-se  algo bem mais difícil. Do mesmo modo, é tão fácil dizer mal do mundo, encontrar e apontar-lhe os evidentes defeitos, fazer o discurso azedo dos derrotados da vida. Difícil, difícil, é construir uma visão construtiva do que nos rodeia mesmo quando tudo para desfazer-se em merda. Muito sinceramente, não estou a ser capaz de o fazer.

    Não consigo odiar; o máximo que alcanço é o desprezo. Tenho dificuldades em amar quem não seja do meu círculo familiar mais estreito; o máximo que alcanço é um certo perfume de afeição.