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sábado, novembro 11, 2017

Este nosso Ubu


Adaptar o Rei Ubu para o Teatro na Gandaia foi a coisinha mais apaixonante que me foi permitida experimentar desde que ando a fazer pelo teatro. A princípio senti-me um pouco (muito) intimidado; era o respeitinho a fazer-me tremer as manitas sobre o teclado, o não querer defraudar o autor, nem a tradição, muito menos a grandeza da coisa, enfim, estava um tanto ou quanto acagaçado. Li versões que fui encontrando, observei longamente milhentas imagens das milhentas encenações que pululam nas páginas da Net, nada me descansava, antes pelo contrário. Quanto mais penetrava o espírito da coisa mais me parecia estar com o rabo à mostra. Sentia uma espécie de frio nas nalgas, o nariz enregelado mas… eu seja corno, havia que meter mãos à obra e deixar pruridos merdosos no fundo da gaveta: ou bem que somos homens ou então somos ratos ou outra merda qualquer, gâmbias de Deus!
Acredito piamente que a arte é uma massa informe (uma coisa plástica) que se encontra eternamente em suspensão à espera que alguém lhe deite a unha e faça dela uma coisa nova. Uma forma artística depende do tempo e do lugar em que vê a luz, não há vacas sagradas. Traduzir um texto é sempre reescrevê-lo. Perante o Ubu não havia que temer. Afinal de contas trata-se de um texto tão desopilante que se pode fazer dele quase tudo o que se queira desde que se mantenha fidelidade absoluta à brutalidade daquele gajo hediondo que tem como objectivo principal viver acima das suas possibilidades à custa do sofrimento alheio. Uma personagem clássica, aquele Ubu.
Como referências tinha o exemplo da banda que dá pelo nome de Pére Ubu e o dos punks de um modo geral, admirava de toda a minha alma os dadaístas nas suas múltiplas e corrosivas formas de expressão artística (ah, o grande Dada Max!), sentia-me capaz de fazer alguma coisa concreta e consequente com aquela massa plástica que o texto de Jarry colocava à minha frente, só me faltava o atrevimento que, confesso, não será o meu ponto mais forte nem mais óbvio. Lá me convenci a meter mãos à obra; primeiro titubeante, às apalpadelas, depois, à medida que ia avançando, cada vez mais convicto e mais feliz por me permitir a liberdade de comungar daquela intemporalidade maravilhosa que ia descobrindo a cada passo. Quando terminei percebi que participara na gestação de uma coisa selvagem.
Entreguei o texto à Ana Nave confiando na sua capacidade de dar vida ao texto mais abstruso, a sua extraordinária capacidade de fazer o teatro acontecer. Agora havia que aguardar.
Passaram meses de ensaios. Domingos e segundas-feiras. O grupo de actores foi-se ajustando, tal como o texto. A tal massa informe a ganhar contornos visíveis. A Rafaela Mapril tornou reais as figuras das personagens com esplendorosos figurinos, o Zé Rui iria ser o responsável por esculpir o espaço cénico a golpes de luz, tudo se conjugava daquela forma próxima da magia que é própria do Teatro.
Quando assisti ao primeiro ensaio geral fiquei embevecido. Apesar de todas as irregularidades e arestas por limar a coisa tinha a força que imaginara: grotesca, excessiva, brutal, potencialmente repelente mas plena de força, carregada de um vigor e de uma boçalidade capazes de incomodar os espíritos sensíveis, tal qual imaginara que poderia ser. Acredito que o resultado deste trabalho apaixonado não envergonharia o próprio Jarry, passe a imodéstia.
No dia da estreia compreendi que das duas uma: o espectador iria amar aquele objecto teatral ou odiá-lo, não me parece que a magnífica representação de todos os actores que estiveram em palco possa ter proporcionado sentimentos próximos da indiferença aos que assistiram, sentados na plateia do António Assunção.
Não há agradecimentos a fazer. O Rei Ubu não se agradece, faz-se!

quarta-feira, julho 08, 2015

Elementos Essenciais da Tragédia Grega

Elementos Essenciais da Tragédia Grega

Hybris - Desmesura. Sentimento que conduz os heróis da tragédia à violação da ordem estabelecida através de uma ação ou comportamento que se assume como um desafio aos poderes instituídos (leis dos deuses, leis da cidade, leis da família, leis da natureza). A hybris ameaça a ordem do cosmos e potencia o caos. O herói trágico não tem consciência dos seus erros.

Pathos - Sofrimento progressivo, do(s) protagonista(s), imposto pelo Destino (Anankêcomo consequência da sua ação.

Ágon - Conflito (a alma da tragédia) que decorre da hybris desencadeada pelo(s) protagonista(s) e que se manifesta na luta contra os que zelam pela ordem estabelecida (a diké, a justiça). É, no fundo, a luta entre o bem e o mal.

Anankê - É o Destino, a inevitabilidade. Encontra-se acima dos próprios deuses que não podem desobedecer-lhe.

Peripécia Acontecimento imprevisível que altera o normal rumo dos acontecimentos que compõem a ação dramática; rumo contrário ao que o desenrolar da ação até então poderia fazer esperar.

Anagnórise (Reconhecimento) -  O reconhecimento pode ser a constatação (compreensão) de acontecimentos acidentais, trágicos, mas, quase sempre, se traduz na identificação de uma nova personagem.

Catástrofe - Desenlace trágico, que deve ser indiciado desde o início, uma vez que resulta do conflito entre a hybris (desmesura, ameaça de desordem) e a anankê (inevitabilidade), conflito que se desenvolve num crescendo de sofrimento (pathos) até ao clímax (ponto culminante).


Katharsis (Catarse) - Purificação das emoções e paixões (idênticas às das personagens), efeito que se pretende da tragédiaatravés do terror (phobose da piedade (eleosque deve provocar nos espectadores

sábado, março 08, 2014

Ahoy!

A Ode Marítima, está em cena no Teatro Municipal de São Luiz, em Lisboa, com Diogo Infante a representar e João Gil, sentado sob uma ténue luz, tocando guitarra de quando em vez.

Infante leva o texto de Álvaro de Campos numa viagem ora suave ora lugubremente alucinada. Gil está lá, umas vezes silencioso, outras dedilhando a guitarra de forma irrepreensível.

O espectáculo é excelente.

Ahoy! A palavra, caraças! A palavra...


domingo, março 02, 2014

Vénus de Vison

O Teatro em Portugal é ainda uma espécie de coisa estranha, quase secreta. Basta olhar a programação cultural nas páginas dos jornais para perceber que a oferta é cada vez mais rara e ir a uma sala para constatar que não é propriamente um fenómeno de massas.

Não sou um espectador particularmente assíduo mas assisto a um número razoável de espectáculos, principalmente em Lisboa e Almada. Raramente saio desiludido.

Na passada quarta-feira fui ao Teatro Aberto (aqui) onde está em cena Vénus de Vison (ver aqui). A sala tinha aproxiamadamente um terço das cadeiras ocupadas. No final os actores foram brindados com uma merecida ovação. Ana Guiomar e Pedro Laginha formam um par extremamente competente, atingindo momentos de representação de uma intensidade assinalável.

Um espectáculo despretensioso que merece a tua visita, caro leitor.

sexta-feira, julho 13, 2012

Teatro, outra vez

O teatro tem essa coisa estranha de ser um universo inteiro que alberga uma infinidade de mundos diferentes habitados por espécies variadas.

Para acontecer teatro é necessário, apenas, que haja um palco habitado e uma plateia ocupada. Pouco mais é exigido. O palco pode ter muitos actores, cenários majestosos e jogos de luzes deslumbrantes ou pouco mais que muito pouco de tudo aquilo.

Um actor, um bom texto e alguns projectores bem aproveitados, são material mais do que suficiente para construir um espectáculo desde que, na plateia, haja pessoas a assistir.

Vem isto a propósito de "Preocupo-me, logo existo!" em cena no Cinema São Jorge, em Lisboa.
Neste espectáculo Diogo Infante volta a estar sozinho no palco (apesar de se desdobrar em 8 personagens 8) o que faz dele uma pequena multidão de talentos variados.

O texto de Eric Bogosian é uma espécie de veneno que vai sendo inoculado nos espectadores em pequenas doses através da representação de Diogo Infante. A encenação e o aparato cénico são de uma sobriedade a toda a prova. O actor e o texto dominam a função e o público diverte-se, no mínimo.

Recomendo vivamente. É teatro, outra vez.

segunda-feira, julho 09, 2012

Do artifício da beleza

 João Reis (em 1º plano) interpretando o judeu Shylock

A beleza é mera aparência ou tem de apresentar substância? Pode a forma sobrepor-se em absoluto ao conteúdo?

Estas questões (que sendo duas são, afinal, apenas uma) têm andado a dançar uma valsa complicada na minha cabeça, já que a música que tentam acompanhar é mais um tango com toques de punk rock que coisa melodiosa à boa maneira vienense.

As referidas questões começaram o seu baile destrambelhado no Sábado passado, quando fui assistir à versão de "O Mercador de Veneza" encenada por Ricardo Pais e que tive oportunidade de ver no Teatro Municipal de Almada.

É certo que não sou a personagem mais aconselhável para fazer uma crítica razoável de um espectáculo teatral. Falta-me muita coisa para poder ser eficaz na minha leitura. Mas a minha sensibilidade estética tem uns pózinhos de não-sei-quê e o facto de conhecer um pouco mais ou menos a peça de Shakespeare (mais pra menos que pra um pouco mais) permite-me esta atitude algo temerária de afirmar que o encenador quis fazer uma coisa e saiu-lhe outra.

Pretensiosismo meu, decerto e sem sombra para dúvida razoável, mas está dito, está dito! Que se lixe.

Ninguém me encomendou o sermão e não pretendo qualificar o trabalho de ninguém com estas linhas, quero apenas deixar aqui uma reflexão que me continua a dançar nas curvas da mioleira, dois dias após ter assistido à referida função. Estou a ver se me livro desta coisa para poder pensar noutras que irão igualmente deixar-me a nadar em dúvidas, como um pato de borracha amarelinha que nada flutuante no banho perfumado de um bebé.

Ricardo Pais dividiu a peça em duas partes bem distintas. As desventuras de Shylock, o célebre judeu que pretendia tirar um bife do peito manso do cristão António por juros vencidos de uma dívida por pagar, amontoam-se na 1ª parte desta versão. É o sumo da peça que se bebe todinho ali, no espaço de uma hora, mais coisa menos coisa.

A 2ª parte, apesar de mais curta, pretende, tanto quanto me foi dado entender, mostrar a beleza dos episódios que se debruçam sobre a paixão e o amor, numa exibição pouco conseguida de pretensa beleza visual e de texto melodioso,

Nem os actores a quem foi distribuída a função tiveram peito para elevar as intenções do encenador, nem a acumulação de situações melífluas resultou em nada mais que uma valente seca. Tanta beleza compactada acaba por chatear.

Fiquei a matutar sobre a possibilidade de a coisa mais bela do texto de Shakespeare ser a horrível maldade de Shylock e o seu discurso arrasador quando compara os judeus à restante humanidade. Os artifícios do amor, apesar da graciosidade feminina e das palavrinhas almofadadas, apesar dos jogos de luzes e da musiquinha em fundo, lamento dizê-lo, não resultaram feios: resultaram horríveis.

domingo, janeiro 15, 2012

Carnificina cultural

 John C. Reilly, Jodie Foster, Christoph Waltz e Kate Winslet

O mais recente filme de Roman Polanski adapta para o écrã a peça de teatro de Yasmina Reza, "O Deus da Carnificina". Ir ao cinema assistir a este filme na companhia da minha família era mais que uma obrigação, tratava-se de fechar um ciclo. Assistimos a duas representações diferentes da peça (ver aqui) daí que não perder o filme nos parecia absolutamente elementar. E foi, elementar, de facto.


O filme de Polanski vive da extraordinária capacidade de representação do seu elenco. O facto de a maior parte da acção se desenrolar no espaço apertado de uma sala, num apartamento, leva o realizador a optar por planos fechados sobre os corpos e as expressões faciais dos actores. Todos eles excelentes mas Jodie Foster, na minha mais que modesta opinião, destaca-se.

Dos palcos de teatro para o écrã é nessa concentração espacial que reside a maior diferença (o texto foi adaptado pela autora com a colaboração de Polanski). A boca de cena de um palco, aberta sobre o espaço da sala, confere ao espectador outras possibilidades de "respiração" visual. No filme, apesar de rápidas mudanças de décor, as quase-saídas de cena no patamar da entrada do apartamento, as idas à casa-de-banho ou à cozinha, o grande plano leva-nos para dentro do espaço que, se já era apertado para as 4 personagens, mais claustrofóbico se torna com a nossa presença ali dentro.

Polanski introduz outra personagem: um espelho, que confere profundidade espacial e dialoga com as personagens. Afinal de contas, esta peça, desculpa leitor, este filme, é como um espelho no qual reflectimos e por ele somos reflectidos. A ver.


domingo, setembro 11, 2011

Mudar de assunto

Hoje é dia 11 de Setembro. É aquele dia, vocês sabem. Todos os meios de comunicação social trazem toneladas de informação sobre os ataques terroristas de há dez anos. Como foi, como seria se não tivesse sido, como é, como será, é impressionante a nossa capacidade para gerar informação, multiplicar os factos, impressiona a nossa capacidade de construir esta extraordinária torre de Babel com uma data inscrita na base.

Ontem fui ao Teatro Nacional Dona Maria II assistir à peça "Amadeus" e é sobre isso que me apetece escrever hoje. Não tenho muita coisa a dizer. Apenas quero sublinhar a excelência desta produção e afirmar que Diogo Infante interpreta um Salieri estratosférico. O elenco tem, de uma forma geral, um desempenho sólido e eficaz, mas o director do teatro mostra que atingiu um patamar muito elevado.

A não perder.

domingo, abril 17, 2011

Era noite de lua cheia (não era?)


Ontem a lua, se não estava cheia, parecia estar. Foi noite de teatro, ou, pelo menos, noite de uma coisa muito parecida com teatro.

Primeiro: o espaço.
A sala do Teatro Municipal de São Luiz é uma daquelas salas onde, aconteça o que acontecer, será sempre teatro. Nem que seja um gajo a serrar troncos de pinheiro com uma motoserra, a berrar indecências, se for lá dentro, em cima daquele palco aberto naquele espaço, é teatro. O cenário era um cais encalhado na sua própria decrepitude. Com 3 músicos em 1º plano e um nevoeiro cerrado, cortado por focos luminosos vindos do alto, castelos no ar.

Segundo: o que se passou no palco.
A Lua de Maria Sem é um híbrido. Cruza teatro e fado. Mesmo o fado dentro do espectáculo é um fado estranho, com arranjos magníficos e a voz planante de Manuela Azevedo, é um fado que aconchega o desconforto, que ajuda a suportar toda a dor e toda a melancolia que vêm lá do fundo. Uma coisa. Maria João Luís, sabe quem já viu, é um fenómeno estonteante sempre que pisa um palco. A forma como diz, como esculpe as palavras, transportam o espectador, melhor dizendo, transportam a sala inteira, para um espaço diferente. No caso deste espectáculo, são duas vozes de magia.

Terceiro: a lua.
Resumindo e concluindo; acabado o espectáculo ficou a lua que, se não estava cheia, era exactamente como se estivesse.

quinta-feira, março 10, 2011

Feras Amestradas

clica sobre o cartaz para uma leitura eficaz


Após uma antestreia com a sala a transbordar de público (foi aqui há umas semanas atrás), o espectáculo Feras Amestradas (uma comédia musical negra à portuguesa) - ver aqui- vai a cena nos próximos dias 23, 24 e 25 deste mês, no Incrível Club (a antiga sala de cinema da Incrível Almadense) e é integrado na Quinzena da Juventude de Almada.

É uma encenação de Afonso Guerreiro, sobre textos da minha autoria (recolhidos entre os que fui publicando ao longo dos últimos anos aqui, no 100 Cabeças), música (excelente) de João Costa e inquietantes vídeos de Miguel Jerónimo. A interpretação está a cargo de uma manada de feras/actores composta por Ana Margarida Leal (Magui), Ana Rodrigues, António Olaio, Duarte Cardoso Águas (Xucas), Lucila Pereira, Inês Paula, Joana Maria, João Costa, Patrícia Caeiro, Rui Lopes, Rute Moura, Rute Jorge e São Nunes.

O ambiente é negro, com momentos de ofuscante luminosidade e a viagem vai da prostração à euforia, do fado ao punk desenfreado. Começou por ser um exercício de mestrado em Artes do Espectáculo para a Escola Superior de Cinema e Teatro (o encenador foi avaliado com 18 valores, o que muito nos orgulha, a todos os que fazemos parte desta aventura) e agora é um espectáculo teatral, muito simplesmente.

A entrada é livre. Nós também.

sábado, janeiro 15, 2011

Dúvida existencial


Quando compro um bilhete de teatro, o que estou eu a pagar para além daquele pedaço de papel? Que troca acabo de efectuar? É um mistério dentro da minha cabeça. Um mistério irresolúvel, confesso, uma coisa que imagino próxima do que é uma experiência mística. Mais logo talvez encontre alguma coisa parecida com uma resposta a esta dúvida que nunca antes tinha colocado nas prateleiras do meu pensamento embora sempre lá tenha estado mas mal arrumada.

sábado, março 27, 2010

Dia Mundial do Teatro

Num Dia Igual aos Outros

Não sei se os dias do calendário chegam para tantas datas comemorativas. Hoje é o Dia Mundial do Teatro. Ontem não sei se houve alguma comemoração especial. Mas sei que há um dia para a Árvore, outro para a Mulher, um dia da Água, um dia para a Biodiversidade, etc., etc. e tal, por aí fora, comemoram-se as mais variadas maravilhas e mistérios do planeta e outras coisas que tais.

Voltando ao dia de hoje; em Portugal não se cobram bilhetes nos teatros (não sei se em todos ou se apenas na maioria) e é de bom tom rumar a uma sala próxima. Da parte que me toca irei ao Teatro Extremo, em Almada, rever "O Libertino", o texto demolidor do defunto Luiz Pacheco encenado pelo António Olaio e agora interpretado a solo pelo André Louro. Encenador e actor são meus bons amigos, o autor uma personagem que muito admirei pelos seus dotes literários. Uma comemoração que se anuncia pacífica, feita de reencontros.

Na 4ª feira fui mais uma vez ao Teatro Nacional D. Maria II, desta vez para assistir a "Num Dia Igual aos Outros" em exibição na pequena Sala Estúdio. Nuno Lopes e Gonçalo Waddington representam um texto arrebatador com uma competência extraordinária. O cenário e a proximidade física entre espectadores e actores fazem deste espectáculo uma experiência única. A não perder, caso se tenha oportunidade de assistir. Mais que muito bom, apenas extraordinário!

domingo, março 21, 2010

Alguma coisa faltou

Édipo em 1º plano(Diogo Infante) com uma difusa Jocasta mais atrás (Lia Gama)



Ontem à noite assisti à versão de Rei Édipo em exibição no Teatro Nacional D. Maria II. "A partir de Sófocles", informa o programa, esta peça resulta da interpretação feita por Jorge Silva Melo da imortal tragédia imaginada pelo grego.


Na minha perspectiva (que está longe de ser a de um espectador de teatro assíduo) a coisa vale essencialmente pela interpretação de Diogo Infante, no papel principal. O actor/director do Teatro Nacional mostra toda a sua categoria e manda à merda as vozes de burro que se insurgem contra o facto de ser ele o protagonista, acumulando com a responsabilidade de dirigir o monstro do D. Maria.


Quanto ao espectáculo, propriamente dito, houve coisas que não me soaram lá muito bem. Pareceu-me haver demasiada parra para tão pouca uva. Tantos actores, tantos músicos, tanto alarido em volta da excelência da adaptação e encenação de Jorge Silva Melo, haviam criado em mim uma expectativa porventura exagerada. Se calhar foi isso que me deixou um pequeno vazio quando acabaram as ovações da ordem e os actores regressaram aos bastidores. Se não estivesse à espera de algo verdadeiramente fora do comum talvez o tom destas linhas fosse diferente.


Este Rei Édipo pareceu-me bastante corriqueiro em termos de soluções narrativas, havendo mesmo um ou outro momento que me deixaram a nítida sensação de estarem ali apenas "a encher" espaços deixados vagos por vazio de ideias. Ou talvez fosse resultado de alguma auto indulgência do criador principal. Não sei. Talvez seja isso, na verdade é possível que não saiba do que estou a falar, correndo o risco de cometer algum grosseiro erro de leitura, alguma injustiça típica de quem não conhece por dentro o trabalho dos outros.

O que posso dizer é que esteve longe de me deslumbrar. Só isso.

domingo, julho 19, 2009

De Nova Iorque a Lisboa com um estranho Deus por companhia


Lisboa em cima, Nova Iorque em baixo (e poderia colocar as imagens vice-versa)

E.H. Gombrich sintetiza, de forma genial, a condição fundamental do acto criativo. A ideia base que expõe na sua História da Arte (uma autêntica Bíblia para quem segue esta "religião") é que o acto criativo depende sempre de um tempo e um lugar específicos.

Ontem pude confirmar com uma clareza ofuscante a exactidão absoluta desta ideia tão simples e, por isso mesmo, tão bela. Assisti no Teatro Aberto, em Lisboa, à representação de "O Deus da Matança", a peça de Yasmina Reza. Tinha assistido no passado dia 3 de Julho à representação da mesma peça em Nova Iorque, "The God of Carnage", em pleno universo da Broadway. As diferentes interpretações do mesmo objecto confirmam em absoluto a ideia de Gombrich.

Na peça da Broadway, com um elenco constituído por vedetas do cinema americano, a peça ganha uma dimensão profundamente introspectiva e assenta numa representação mais cerebral do humor negríssimo e desarmante que o texto propõe. Em Lisboa, os actores são dirigidos para uma postura diferente, mais física e "clownesca".

É como se em Nova Iorque a comédia surgisse quase por acidente. Ali, uma situação muito séria (o filho de um dos casais agrediu à bastonada o filho do outro casal, partindo-lhe dois dentes e deixando-o desfigurado) contém ingredientes hilariantes que vão surgindo ao longo da representação. Na peça de Lisboa a comédia é assumida logo à partida e a comicidade da situação é exposta com outro grau de evidência. Ou seja, o mesmo ponto de partida dramático é interpretado de acordo com as vivências de quem os leva à cena. Um Novaiorquino olha e interpreta o mundo de uma forma essencialmente distinta de um Lisboeta. Os actores são diferentes, os espectadores também, logo o objecto artístico assume contornos de acordo com o local onde ganha forma.

Bastaria olhar os cenários e os figurinos para compreendermos a ideia de Gombrich. Neste caso, o mesmo tempo (a mesma época) leva à produção de objectos diferentes em locais diferentes. Estas duas idas ao teatro permitiram-me compreender melhor as distâncias entre Nova Iorque e Lisboa, apesar da tão propagandeada globalização económica e cultural em que acreditamos viver. Somos profundamente diferentes apesar de parecermos estranhamente semelhantes.

sexta-feira, maio 08, 2009

Hipnótico

Luísa Cruz como Harper Regan


Quero deixar apenas uma opinião rápida: Harper Regan de Simon Stephens, o espectáculo que estreou ontem na Sala Estúdio do Teatro Nacional D. Maria II, em Lisboa, é hipnótico. Luisa Cruz é fenomenal, Dinarte Branco tem momentos extraordinários, Cristóvão Campos revela-se e António Cordeiro compõe as cenas com segurança. Os restantes também me pareceram bem mas,como não sou crítico, nem sei que mais posso dizer dos actores. A encenação de Ana Nave confirma tudo o que de bom sabemos a seu respeito. O cenário de Rui Francisco funciona discretamente e os figurinos de Rafaela Mapril dançam sobre os estrados deslizantes. Não me quero alargar muito mas não posso deixar de dizer que me comovi (quase) até às lágrimas, que me ri com uma estranha vontade de não rir e que, no fim, quase parecia estar ainda no início. Caro leitor, se tiveres oportunidade não hesites e vai assistir a este espectáculo. Para quem gosta de Teatro em grande estilo.

domingo, novembro 23, 2008

Imaculados


Ontem fui ao Teatro Aberto assistir à nova peça em exibição na Sala Azul, Imaculados da dramaturga alemã Dea Loher.

Deveria ter ido anteontem, à estreia, mas um colóquio na Galeria Municipal de Almada para reflexão conjunta sobre os objectos expostos na exposição "6 cadeiras e 1 mesa" obrigou-me a falhar, pela 1ª vez em mais de 20 anos de vida em comum, uma estreia da Ana Nave (este link abre sobre o currículo da actriz em cinema e TV, falta o brilhante currículo teatral como actriz e encenadora que pode ser encontrado aqui) sobre o palco.

A noite começou com um repasto germanófilo no restaurante Pano de Boca na companhia de Ana Nave e do nosso sobrinho, Eduardo. Um dos empregados do restaurante é o Virgílio, que foi meu aluno aqui há 3 ou 4 anos. A comida tem o seu quê de exótico para um gajo habituado à gastronomia cá do sítio. O ambiente é sossegado, sem exagerar em formalidades desnecessárias, e tem um organista largo de cintura e careca a tocar musiquinhas delicodoces. Enfim, fortes probabilidades de passar ali momentos agradáveis.

Com a barriga já bem aconchegada, foi hora de levantar os convites na bilheteira e verificar que os lugares eram na 1ª fila, junto ao palco. Sensação de tratamento 5 estrelas. Os espectadores foram chegando. Actores, actrizes, realizadores de cinema, músicos, escritores, uma plateia recheada de convidados, promessa de uma boa performance em cima do palco. Um público assim é, à partida, participativo e receptivo, capaz de estabelecer uma corrente positiva com os actores, o que viria a acontecer.

Imaculados é um espectáculo com um grupo de actores extenso (14 no total) e uma parafrenália técnica digna de nota. O texto divide-se em 19 cenas que acompanham diferentes personagens. Estas cruzam-se e descruzam-se, intersectam-se no espaço físico e psicológico, formando uma teia narrativa dinâmica com alguns momentos muito interessantes que permitem ao espectador mergulhar profundamente em algumas reflexões bastante complexas.

A variedade de cenas e a sequência de acontecimentos e mudanças de cenário sobre o palco acabam por fazer com que as 2 horas que dura a função, passem sem que se dê por isso. Os actores conseguem algumas interpretações dignas de nota (claro que, para mim, a performance de Ana Nave foi a melhor) e há um acordeonista permanentemente em cena, Rini Luyks, a pontear as mudanças, conferindo unidade ao espaço narrativo.

No final uma ovação sentida e merecida, tudo está bem quando acaba melhor.

Resumindo, um espectáculo a ver, numa época em que o Teatro passa por momentos que me parecem algo difíceis. Não haja dúvidas que os palcos nos oferecem momentos do melhor a que podemos aspirar, muito para lá do industrial-pipoqueiro do cinema e a anos-luz da modorra imbecilizante que é a TV com sofá agarrado ao cú. A ver (muitas estrelas...).

quarta-feira, outubro 01, 2008

O sentido da vida


Ao ler a crítica de Jorge Lourenço Figueira ao mais recente espectáculo da Seiva Trupe (Estados eróticos imediatos de Soren Kierkgaard, de Agustina Bessa-Luís com encenação de Roberto Merino , ver também aqui com vídeo e notícia do Cartaz da SIC), estreado no Teatro do Campo Alegre, no Porto, deparei com uma ideia que me pareceu muito interessante.

"Anne Bogart e Tina Landau, num manual de metedologia teatral (The Viewpoints Notebook) dão exemplos de como se foi alterando, ao longo da história do teatro ocidental, o destinatário principal das palavras dos actores. Nos anfiteatros de Roma e da Grécia Antiga, o actor dirigia-se aos deuses, representados em estátuas colocadas acima e atrás da assistência; durante o Renascimento, falavam para a corte, sentada nos lugares centrais do primeiro balcão; no século XIX, para a plateia, dando origem às formas populares do melodrama e do vaudeville; com o advento do naturalismo, e as peças de Ibsen e Tchekhov, os actores passaram a falar uns com os outros, como se houvesse uma quarta parede entre eles e o público; finalmente, com Beckett, a relação do actor é com o Nada. O foco da representação passou do cósmico, pelo humano, para o existencial. Este espectáculo é um um exemplo dessa mudança que culmina no olhar para o vazio (...)"

retirado do jornal Público, suplemento diário P2, em 30 de Setembro de 2008, página 11

A forma como o destinatário das acções desenvolvidas em palco se vai deslocando das divindades para os poderosos, até se centrar no espectador, independentemente da sua origem ou classe social, mostra também a maneira como o espaço intelectual se foi democratizando ao longo dos séculos na nossa sociedade.

O objecto artístico (neste caso o teatro mas poderemos considerar diferentes formas e técnicas de expressão) vai perdendo o carácter reverencial e celebratório das forças dominantes da sociedade (os deuses, os soberanos) para se centrar na reflexão da existência dos seres humanos, por mais simples e aparentemente insignificantes que eles sejam ou possam parecer.

Esta atitude parece-me ser fundamental em todo o pensamento artístico e seria importante que estivesse presente em todo o acto criativo. A Humanidade é a razão da nossa existência e o Humanismo uma forma mais justa de arquitectar a coisa social.

Foi com Tchekhov que aprendi que o sentido da vida é construirmos uma sociedade mais justa para as gerações futuras mesmo que saibamos que nunca vamos usufruir dessa justiça durante o nosso tempo de vida. Não me recordo exactamente das palavras, lembro-me que recebi essa ideia enquanto assistia à peça "As Três Irmãs", pela Companhia de teatro de Almada com encenação de Rogério de Carvalho. Desde esse dia que a ideia não pára de dançar dentro da minha cabeça.

segunda-feira, julho 14, 2008

Caramba!!!

Ontem foi noite de ida ao cinema em grupo familiar. Esposa, filha e sobrinha acompanharam-me (ou foram por mim acompanhadas) numa incursão cinéfila sem grandes expectativas. Quer-me cá parecer que a ida ao cinema foi mais porque estávamos juntos, um pretexto para mantermos a agradável proximidade, do que por estarmos impacientes para assistir a este "O Orfanato" realizado pelo catalão Juan Antonio Bayona.

É disto que eu gosto. A surpresa total, o impacto inesperado de uma bofetada com luva branquinha de cetim, mais carícia que agressão. O filme revelou-se excelente a todos os níveis.

Seja o argumento, a realização, a montagem ou o som, seja o que for é bom. A interpretação da personagem principal pela actriz Belén Rueda é o toque de classe final para um filme quase perfeito com Geraldine Chaplin a entrar em cena de mansinho e de costas, qual Nosferatu "murnauiano".

Entre o filme de terror e o drama familiar, a narrativa cresce e revolta-se contra si própria, dá cambalhotas e descansa em planos silenciosos interrompidos com súbito estrondo de fazer o espectador saltar na cadeira. Literalmente. Enfim, como de costume não sou eu que me vou alongar na descrição do enredo, não saber nada sobre o que se vai passar é um condimento importantíssimo para se poder desfrutar em pleno deste filme com um final cor-de-rosa sangue.

Absolutamente a não perder!

Na noite de 9 do corrente assisti a este Stabat Mater e, caramba, que espectáculo! Maria João Luís rebenta com as costuras da representação teatral num monólogo perfeito com o dedinho maroto de Jorge Silva Melo na encenação. O espectáculo, integrado no 25º Festival de Teatro de Almada, teve lugar no São Luís, em Lisboa. Um espaço agradável, uma representação de outro planeta e uma ovação estrondosa a fechar uma noite de teatro memorável.

Caramba!!! Tanta qualidade em tão pouco tempo ainda acaba a provocar-me alguma overdose de prazer inteligente (!? que raio quer isto dizer!?) mas se tiver que ser, seja! Overdoses assim não devem fazer grande mal à barriga.

terça-feira, maio 15, 2007

Protect me from what I want

Uma foto dedicada aos meus amigos Sara e Paulo Lázaro que, de vez em quando me visitam aqui, no 100 Cabeças. À beira do Quadrado Amarelo onde tudo se quebrava, transformava e se fazia teatro pelo puro e absoluto prazer de o fazer.
Por ordem, da esquerda para a direita, Paulo Lázaro, Zé Pedro, Sara Afonso, Ana Saltão, Ricardo Aibéo. Atrás do Ricardo, pela testinha, parece-me ser a Rafela Santos. No Quadrado devem estar a Kiki e o Miguel Moreira, em transe hipnótico. Elenco excepcional! Onde se reunem, nos dias que passam, tantas cabecinhas pensadoras de uma só vez? Ainda por cima não tínhamos dinheiro nem para mandar cantar um cego! Com a direcção inexcedível de Ana Nave e o meu modesto contributo mais a boa vontade cega do camarada António Olaio, assim habitámos ao longo de meses o desaparecido espaço Lemauto, à beira do Tejo, do lado de cá, com Lisboa a enfeitar-nos a paisagem.
Estas e outras imagens em http://ctg.com.sapo.pt/historial/historial.html , no site de O GRUPO, esse mítico monstro das artes do palco almadenses.
Beijos e abraços.

P.S. Aquele espectáculo foi uma coisa do caraças, não foi? Ou sou só eu que guardo dele óptimas recordações?

terça-feira, março 27, 2007

Teatro, teatro, teatro...

Comemora-se hoje mais um Dia Mundial do Teatro. Com tantos dias especiais amontoados no calendário mais um menos um não parece nada de especial. Este, no entanto, sempre tem o condão de nos pôr a pensar um pouco sobre o que se vai passando entre nós com esta arte maior.

Será impressão minha ou o espectáculo teatral tem vindo a esmorecer nos últimos tempos em terras de Portugal? Será impressão minha ou as produções de um certo circuito off desapareceram do mapa? Sem este circuito, que conheceu algum incremento e implantação ao longo dos anos 90, não estará o teatro a perder influência e capacidade de captação dos tão falados "novos públicos" para as salas das companhias institucionalizadas? Não sei, não sei, falo mais por impulso, é uma sensação, uma impressão indefinida que me leva a esta reflexão. Não tenho dados objectivos que a sustentem. Se calhar é apenas impressão minha, nada mais.

Seja como fôr é um facto que o poder central tem vindo a desinvestir progressivamente nos apoios concedidos às chamadas produções pontuais. Estas produções foram sempre o espaço principal para a experimentação e o risco. Uma companhia (se é que ainda as há!) arrisca menos, produz espectáculos mais convencionais e dirigidos a um público que vai conquistando com dificuldade e pretende manter interessado muitas vezes oferecendo mais do mesmo, recorrendo a "receitas" de sucesso mais ou menos garantido. Isso é perfeitamente legítimo mas corre-se o risco de uma certa estagnação criativa.

A novidade, a capacidade de reflectir sobre a contemporaneidade através de produções que reflictam sobre o mundo que nos rodeia aqui e agora, são papéis importantes a atribuir ao teatro. A insistência na produção de clássicos é imprescindível mas não pode ser tudo! Corremos o risco de transformar o teatro em tradição quando uma das suas vocações mais apaixonantes é a de olhar o mundo actual e representá-lo em palco.