João Reis (em 1º plano) interpretando o judeu Shylock
A beleza é mera aparência ou tem de apresentar substância? Pode a forma sobrepor-se em absoluto ao conteúdo?
Estas questões (que sendo duas são, afinal, apenas uma) têm andado a dançar uma valsa complicada na minha cabeça, já que a música que tentam acompanhar é mais um tango com toques de punk rock que coisa melodiosa à boa maneira vienense.
As referidas questões começaram o seu baile destrambelhado no Sábado passado, quando fui assistir à versão de
"O Mercador de Veneza" encenada por Ricardo Pais e que tive oportunidade de ver no Teatro Municipal de Almada.
É certo que não sou a personagem mais aconselhável para fazer uma crítica razoável de um espectáculo teatral. Falta-me muita coisa para poder ser eficaz na minha leitura. Mas a minha sensibilidade estética tem uns pózinhos de não-sei-quê e o facto de conhecer um pouco mais ou menos a peça de Shakespeare (mais pra menos que pra um pouco mais) permite-me esta atitude algo temerária de afirmar que o encenador quis fazer uma coisa e saiu-lhe outra.
Pretensiosismo meu, decerto e sem sombra para dúvida razoável, mas está dito, está dito! Que se lixe.
Ninguém me encomendou o sermão e não pretendo qualificar o trabalho de ninguém com estas linhas, quero apenas deixar aqui uma reflexão que me continua a dançar nas curvas da mioleira, dois dias após ter assistido à referida função. Estou a ver se me livro desta coisa para poder pensar noutras que irão igualmente deixar-me a nadar em dúvidas, como um pato de borracha amarelinha que nada flutuante no banho perfumado de um bebé.
Ricardo Pais dividiu a peça em duas partes bem distintas. As desventuras de Shylock, o célebre judeu que pretendia tirar um bife do peito manso do cristão António por juros vencidos de uma dívida por pagar, amontoam-se na 1ª parte desta versão. É o sumo da peça que se bebe todinho ali, no espaço de uma hora, mais coisa menos coisa.
A 2ª parte, apesar de mais curta, pretende, tanto quanto me foi dado entender, mostrar a beleza dos episódios que se debruçam sobre a paixão e o amor, numa exibição pouco conseguida de pretensa beleza visual e de texto melodioso,
Nem os actores a quem foi distribuída a função tiveram peito para elevar as intenções do encenador, nem a acumulação de situações melífluas resultou em nada mais que uma valente seca. Tanta beleza compactada acaba por chatear.
Fiquei a matutar sobre a possibilidade de a coisa mais bela do texto de Shakespeare ser a horrível maldade de Shylock e o seu discurso arrasador quando compara os judeus à restante humanidade. Os artifícios do amor, apesar da graciosidade feminina e das palavrinhas almofadadas, apesar dos jogos de luzes e da musiquinha em fundo, lamento dizê-lo, não resultaram feios: resultaram horríveis.