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quinta-feira, agosto 16, 2018

Eça pode esperar


Parece-me discutível afirmar que, ao retirar dos programas escolares a obrigatoriedade da leitura de “Os Maias”, se esteja a “não dar aos alunos a hipótese de ler a obra-prima de Eça de Queirós” e a “impedir o acesso dos jovens a um monumento literário (…)” como afirma António Carlos Cortez em texto publicado neste jornal no dia 14 do corrente mês de Agosto. Quando frequentei o ensino secundário, nos anos 70 do século passado, apesar de todas as pressões sobre mim exercidas, resisti heroicamente à leitura integral do referido monumento. Embora tivesse o hábito da leitura os meus interesses naquela época eram outros. Preferia, de longe, a Colecção Argonauta depois de ter papado os clássicos que eram uso e costume papar naquela época. Lembro-me como se fosse hoje do fascínio que exerceu sobre o meu imaginário “O Romance da Raposa” logo após ter aprendido a juntar as primeiras letras. A comoção que me causou “O Príncipe e o Pobre” ou o fascínio aventureiro de “A Ilha do Tesouro”, o doce terror que me provocaram “As Aventuras de Huckleberry Finn” ou as peripécias de Tom Sawyer. Isto, lá em casa. Na escola tentaram impingir-me coisas difíceis de tragar. “Constantino, guardador de vacas e de sonhos” ainda vá que não vá, já “Os Esteiros”, para um rapaz de 12 ou 13 anos, vai lá vai! Logo me atiraram “Os Lusíadas” à cabeça. O hematoma foi de tal sorte que, até hoje, não li integralmente a obra-prima da nossa literatura. Com “Os Maias” foi diferente. Já adulto, senti curiosidade e li o livro de fio a pavio. Na escola tudo fiz para iludir a professora tentando convencê-la de que lia a obra quando, na verdade, contava as páginas que faltavam para chegar ao fim, saltando capítulos inteiros e fintando expressões que não compreendesse às primeiras. Uma seca, como diria o Eça. Seja como for, hoje sou um leitor razoavelmente curioso. A minha dúvida é perceber se o sou graças aos trabalhos forçados que me quiseram impor na escola ou se o sou apesar deles. As carpideiras da cultura que têm choramingado por aí a perda (!?) de Os Maias, querem mostrar-nos a grandeza da arte com argumentos que fariam roncar de tédio uma estátua de mármore. Estou convencido que há na vida um tempo certo para cada coisa e que há, de facto, aprendizagens essenciais que se afiguram muito mais prementes e determinantes que qualquer monumento literário nacional ou obra-prima universal. A mais essencial de todas é aprender a ser curioso e encontrar prazer no conhecimento. Se não conseguirmos impingir tais evidências à rebeldia adolescente bem podemos munir-nos de marretas e obras-primas para lhas martelarmos diariamente no meio da testa. Não adianta. Se, por outro lado, formos capazes de despertar na turbamulta a vontade de aprender Eça pode esperar descansado. Terá clientes.

Carta enviada ao director do jornal Público

domingo, dezembro 17, 2017

Sensações

Estou a reler a "História Universal da Infâmia" de Jorge Luís Borges. É maravilhoso! Sempre que leio Borges é como se ouvisse uma voz dentro de mim (não é dentro da minha cabeça, nem dentro do coração, é dentro de mim, algures, eventualmente num pé ou no fígado, não consigo precisar).

Acontece com Borges como acontece com Bolaño ou com Paulo Varela Gomes ou Teresa Veiga, acontece com certos escritores de língua portuguesa ou castelhana (traduzida). Sinto vozes quando leio estes autores.

Com Ian McEwan, por exemplo, ou Paul Auster, não sinto vozes, viajo para lugares específicos. São espaços arquitectónicos que me envolvem (ou serão paisagens?).

Fico a pensar que os autores de língua latina me falam e os anglófonos me transportam.

sábado, setembro 30, 2017

Putas Assassinas

Lendo Bolaño sinto uma estranha vertigem, um vago reconhecimento. As suas personagens parecem vogar indefinidamente num espaço que nunca lhes pertence, como se fossem sempre estrangeiras, mesmo no seu próprio país ou na sua cidade, até mesmo no seu corpo.

Nos seus contos e romances sinto a solidão como o mais perigoso dos animais selvagens. Um bicho terrível que procura enjaular-se nas almas das pessoas para depois as roer por dentro, como na mais terrível das torturas chinesas, aquela que implica uma gaiola e uma ratazana esfomeada.

Ando a ler As Putas Assassinas.

segunda-feira, julho 24, 2017

Traduções

Abri duas edições diferentes de Coração das Trevas de Joseph Conrad. Li a primeira página de uma, depois a primeira página de outra. Eram tão diferentes! Não fixei os nomes dos tradutores (podiam ser tradutoras) mas uma das traduções era deselegante a outra parecia muito melhor. Qual delas seria fidedigna?

Quando pego no Moby Dick fico a olhar a capa, a pensar. Não tenho muita vontade de ler. Quem me garante que não estou a ler uma merda qualquer? Não tenho dúvidas que qualquer tradução é uma interpretação mas ter consciência disso é bastante aborrecido. Como sei que estou a ler uma boa tradução ou uma tradução manhosa?

Preciso de aprender inglês o suficiente para poder ler os originais. E aprender mais francês e mais espanhol. Não vou ler nunca autores japoneses nem chineses nem indianos nem os clássicos gregos. Claro que isto sou eu a gozar comigo próprio, nunca serei capaz de aprender aquelas línguas e daqui a uns dias já me esqueci desta experiência traumática e vou voltar a ler traduções.

Não há como escapar desta armadilha.

segunda-feira, dezembro 26, 2016

Crimes e outras coisas

Esta manhã li dois contos de Patricia Higsmith de uma colectânea com título genérico igual ao da primeira historinha: O Álibi Perfeito. Historinhas que me parecem geniais na invenção de situações surpreendentes mas com um problema terrível na edição que estive a ler, a tradução é escabrosa. Dizer que é péssima é fazer um favor ao autor de semelhante assassinato. A coisa é tão mal traduzida que a tradução é o mais hediondo e repugnante de todos os crimes contidos no livrinho.

Reparei que os contos seguintes foram traduzidos por outras pessoas mas tive de sair e o finíssimo volume ficou guardado para outra ocasião. Tivesse a tradução outra qualidade e decerto não deixaria o livro a descansar até voltar a pegar-lhe, o que não deverá acontecer tão cedo.

Ao fim da tarde fui surpreendido com a oferta da mais recente tradução da Bíblia, volume I, O Novo Testamento, Os Quatro Evangelhos, obra de Frederico Lourenço, considerada uma coisa digna de ser lida. O trabalho de tradução tem merecido os mais elevados encómios. Tenho que ler.

A tradução é fundamental. Entregar boas obras nas mãos de maus tradutores deveria ser considerado crime.

sábado, novembro 19, 2016

Manhã de Inverno

Encosto as pernas no Sol que a janela da cozinha deixa entrar sem grande cerimónia. O frio do Inverno chegou faz apenas dois dias (ou três). Veio atrasado mas é como se nunca tivesse ido embora.

O Frio, quando chega, é sempre o mesmo. É um viajante. Quando regressa poderá vir mais ou menos cansado mas o seu toque permanece vigoroso, inconfundível. Daí que eu, que nunca me detenho em grandes contactos com o Sol de Verão, me deixe estar assim, encostado a este Sol, sentado no mocho da cozinha, depois de um largo café, queijo fresco, doce alentejano de tomate e framboesa, tostas quase sem sal e umas quantas páginas de O Delfim.

Grande Cardoso Pires, grande Cardoso Pires...

sexta-feira, outubro 14, 2016

Viva a arte!


O prémio Nobel da literatura para Bob Dylan pôs o pessoal a botar a boca no trombone e a barulheira é uma confusão. Que sim, que não, um ou outro que talvez. As opiniões, como dizia Herman José, são como as vaginas: cada um tem a sua.

Neste caso não vou mostrar a minha.

Escrevo este texto porque a discussão fez-me lembrar uma questão que muito me embaraçou quando era aluno de belas-artes. Um belo dia, mais belo que a minha arte, o professor de desenho disse-me, assim, sem aviso, que aquilo que eu lhe mostrava para avaliação das minhas capacidades não era desenho.

Gelei.

Se não era desenho o que era aquilo afinal? Pior, onde acabava o desenho e começava aquilo ou, pior ainda, onde acabava aquilo e começava o desenho? Jovem que era, fiquei confuso e levei porrada de criar bicho, não tinha argumentos nem sequer era admitida discussão. O professor é que sabia, ponto muito final.

Ainda hoje, várias décadas volvidas, penso naquela situação e continuo sem perceber muito bem quais são os limites do desenho. Onde fica a fronteira que circunda a sabedoria da arte?

Muitos dos que desatinam com o prémio atribuído a Dylan vertem algum fel afirmando que ele não faz literatura e desprezam a Academia Sueca por ter ousado misturar belos alhos com esbodegados bugalhos. Lá terão as suas vaginas. Pessoalmente, confesso, estou-me bem a cagar.

Viva a arte!

quarta-feira, outubro 05, 2016

Releitor

Ontem concluí a releitura de Cem Anos de Solidão.

Quando fechei o livro tive a estranha sensação de que aquele livro nunca acaba. Podemos fechá-lo mas ele está sempre aberto dentro da nossa cabeça. A narrativa é um imenso e magnífico círculo, um estanho círculo limitado por uma circunferência repleta de centros.

Seja qual for o ponto onde colocamos o bico do compasso, quando o rodamos, o desenho da circunferência coincide uma e outra vez com o traçado anterior, contrariando todas as leis da geometria que tanto nos custaram a aprender e tão pouco nos custaram a aceitar, uma vez compreendidas.

Essa magnífica sensação encorajou-me a deixar de ser leitor, por uns tempos, para me transformar em releitor.

Fui à estante namorar as lombadas dos livros. Ali estavam, alinhadas, inúmeras paixões mais ou menos antigas. Tirei um livro de Roberto Bolaño: Estrela Distante. Estou a relê-lo. E estou a gostar de o fazer.

sexta-feira, setembro 02, 2016

Cem Anos de Solidão

Ando a reler Cem Anos de Solidão. É um livro já amarelecido que tem viajado entre estantes. Da casa dos meus avós para a dos meus pais (onde o li aqui há uns bons anos) e, agora, saltou da estante de minha casa para a mesinha de cabeceira.

Que coisa magnífica!

A leitura proporciona-me momentos de tão grande intensidade que, por vezes, me sinto a pairar algures entre o dia de hoje e o dia, no passado, em que li estas palavras pela primeira vez.

Deve ser isto que consideramos uma obra intemporal.

sábado, maio 28, 2016

Os porcos triunfam sempre

Não parece ser possível fazer grande coisa. Os porcos triunfam sempre.

Os mentirosos, os poderosos (a mentira é uma forma de poder e o poder é uma forma de mentira), os belos, os bem nutridos, os bem parecidos, os fortes, os atléticos, os bem falantes, os altos e os loiros, os de olhos azuis, todos os perfeitos, os de sorriso alinhado, os de dentes brancos, os bem vestidos, todos estes, todos eles, triunfam sempre pois é a imagem o factor fundamental.

Muito antes desta era estupidamente mediática, já dizia o povo que "quem vê caras não vê corações". A sabedoria popular é feita pelos que estão por baixo, pelos defeituosos, pelos baixotes e gorduchos, de beiça gordurosa, malga de tinto vazia a pender na mão titubeante. Este ditado é profecia.

Vivemos num mundo dominado por dentições ofuscantes. Os que têm dentes podres e barbela nunca poderão confrontar os limpinhos, dificilmente poderão refutar uma afirmação exalada num suspiro enfadado de um Ken, muito menos poderão contestar a autoridade luminosa de uma Barbie. Vivemos num mundo dominado por princesas Disney.

Poucas vezes a "tradução" de um título do inglês teve tão grande sublimidade quanto a de "Animal farm" para "O triunfo dos porcos". Houvesse Orwell tido o lampejo genial desse título para a sua fábula intemporal e, talvez, o mundo fosse um pouco diferente. Os porcos triunfam sempre.

quinta-feira, março 31, 2016

Leitura

Estou quase, quase a terminar o 2.º romance de João Ricardo Pedro, intitulado Um Postal de Detroit.
É a confirmação de um autor interessante, muito interessante, que tem toneladas de literatura dentro do peito e na ponta dos dedos.

O teu rosto será o último, o romance de estreia do autor, tinha deixado excelente impressão. Agrada-me a forma escorreita como Ricardo Pedro vai construindo o texto, a forma da escrita.

Não serei a pessoa mais indicada para aconselhar literatura mas, caro e ocasional leitor, se tiveres tempo e curiosidade lê os livros deste gajo. Parecem-me coisas dignas de serem lidas.

sexta-feira, março 18, 2016

Leitura

Ler um texto bem escrito é uma absoluta fonte de prazer. Não me refiro a estas linhas que te vão passando para dentro do espírito, leitor amigo, tomara eu escrever sempre um pouco melhor que mal. Refiro-me ao trabalho de escritores capazes de fazer de um pensamento algo que se veja.

Quando leio um texto bem escrito (não saberia explicar o que caracteriza "um texto bem escrito") sinto algo próximo daquilo que sentia em criança, quando o meu lugar no mundo, naquele preciso momento, me parecia completo pela simples razão de eu estar ali. Eu e o bonequito, o bonequito e a minha mãe por perto, as paredes da casa e o meu avô sentado na sua cadeira preferida, a ler o jornal.

A Literatura é algo que tem esse poder de nos transportar em todas as direcções, sejam no tempo, sejam no espaço.

domingo, abril 12, 2015

Leituras

"Palácio da Lua", "Nocturno Chileno", "A Balada de Adam Henry". Raras vezes tive oportunidade de ler em sequência 3 autores que tanto admiro (se bem que, na minha escala de grandezas, Paul Auster não chegue aos calcanhares de McEwan e muito menos às plantas dos pés de Bolaño).

Raras vezes, disse? Nunca, que me lembre, tinha acontecido tal alinhamento na minha mesinha de cabeceira. É como se os planetas ajustassem vontades de acordo com a satisfação da felicidade de um indivíduo em particular. Eu.

Como se os planetas tivessem vontades...

Auster é um mestre, Bolaño um supraterrestre e Mc Ewan é outra coisa qualquer. A literatura ainda tem muito para nos oferecer. A literatura oferece-nos a possibilidade de salvação da alma. Veja-se a Bíblia, veja-se o Corão, a Torah.

Se aqueles que dedicam a vida a ler um único livro fossem capazes de variar a sua leitura o mundo estaria salvo, o Paraíso à distância de um passo de anão.

quinta-feira, fevereiro 05, 2015

Personagem

Todos somos potenciais personagens literárias mas muitos não têm consciência desse facto. Ou porque não sabem ler, ou porque, sabendo ler, não lêem, ou porque lendo não sabem o que lêem, ou ainda porque, apesar de lerem e compreenderem o que lêem, não querem acreditar que a sua carne pode tornar-se papel, folhas de um livro, imaginação de um autor ou retrato, produto da argúcia de alguém que nos observa e podemos nem sequer conhecer.

Esta constatação poderá ser de extrema utilidade. Em caso de necessidade podemos poupar no psicanalista se analisarmos com calma e cuidado a evolução da nossa personagem ao longo da narrativa que é a vida que vivemos.

Em momentos de tédio podemos distrair-nos passando para o papel a descrição do momento que a nossa personagem viveu ou está a viver (descrever o próprio tédio). Podemos imaginar algo para lá do papel grosseiro com que a realidade embrulha a nossa existência, rasgar o embrulho, sair da escuridão para a luz, viver na imaginação, na nossa própria imaginação... mas... que digo eu? Que escrevo eu?

Será que existo? Ou este texto, este computador, esta mesa, a sala onde estou, o edifício que envolve este momento e este meu corpo, será tudo isto por mim inventado? Ou... ou... ou serei eu invenção de algum autor, algum escritor que perdeu o juízo e me deixou (mera personagem literária) tomar consciência da minha condição de ser imaginário, tomar consciência da minha carne de papel?

Alguns de nós são, na verdade, personagens literárias mas não têm consciência desse facto.

quinta-feira, outubro 23, 2014

Monumento e bibelot

São dois livros muito diferentes: As Benevolentes de Jonathan Littell e o Francoatirador Paciente de Arturo Pérez-Reverte dificilmente podem ser comparados; não nos sentimos impelidos a comparar a Sagrada Família com a estatueta de um menino a fazer chichi que a tia velhota tem na mesinha lá da sala onde tomamos chá quando vamos de visita.

As Benevolentes intimidam o leitor lá do alto das suas 896 páginas. Ao olhar o volume, que na edição portuguesa tem na capa vermelha uma reprodução de uma tela de Lucio Fontana, um gajo menos corajoso fica logo a pensar em coisas como: "que tijolo!" ou "ler isto é como ter um emprego". Mas não é pela escala do discurso, nas suas páginas de texto denso e compacto, que este livro pode ser considerado um monumento.

Do mesmo modo O Francoatirador Paciente, livrinho de 240 páginas bem polvilhadas por animados diálogos que lhe aligeiram o peso global, não poderá ser por isso considerado um bibelot poisado num naperon rendilhado. Até porque o tema de Pérez-Reverte é muito interessante e actual e a essência da sua história transporta uma certa mistura de melancolia e raiva, mistura, a meu ver, bem espanhola.

Não será por As Benevolentes me terem transportado para lá das fronteiras da imagem que eu tinha do Ser Humano e por O Francoatirador me ter parecido redondinho e rechonchudo no final da leitura. Não. Não é por nenhuma destas razões que um livro me parece um monumento e outro me sugere um bibelot.

A sensação que tenho é que Littell escreveu o seu tijolo exactamente da forma que tinha de fazê-lo. Aquilo é uma coisa em se acredita e é aí que reside o sublime desconforto de o ler. Já Pérez-Reverte dá a sensação de estar a escrever a sua renda de casa, o jantar com a família e a viagem de férias. O livro é bem escrito mas falta-lhe qualquer coisinha para descolar a sensação de estarmos a ler uma obrigação editorial.

Seja como for não dou por mal empregue nem um dos minutos que levei a ler um e outro destes livros. Não me interpretes mal, gentil leitor. Tanto me sinto maravilhado quando entro no espaço infinito da Sagrada Família como quando descanso o olhar no bibelot do menino que mija entre um gole e outro e mais um sorriso da minha querida tia, que é muito velhota mas gosta sempre de me ver.


domingo, janeiro 26, 2014

Momento literário

Aos poucos fomos assentando as nossas ideias, revendo-as de trás para a frente durante umas semanas até chegarmos a um projecto final. "Forma e coerência - disse o mestre. - Estrutura, ritmo e surpresa."

Paul Auster in Mr. Vertigo

Forma e coerência. Estrutura, ritmo e surpresa... uma receita promissora para todo o aspirante a criador. Se Deus tivesse lido Mr. Vertigo talvez o mundo não fosse tão merdoso.

domingo, janeiro 19, 2014

Transparência

Foto de João Menéres retirada daqui

Disse o Jorge Pinheiro que "Cidade Transparente", o mais recente livro de Eduardo Lunardelli, se lê de um fôlego. Eu li em dois.

De início pensei estar a mergulhar nas memórias de Eduardo. Depois percebi que não era bem assim, que os diferentes textos/capítulos do livro me levavam numa espécie de comboio a viajar numa montanha russa. Tão depressa estava lá em cima como a seguir era levado encosta abaixo em grande velocidade. De repente parava. Logo a seguir   recomeçava a viagem.

Há histórias sem Eduardo, outras com ele mesmo e outras ainda talvez o tenham por lá, mais ou menos escondido, mais ou menos revelado.

Em Paraty encontrei-me a mim próprio, quase quase personagem ficcionada, a olhar em frente ao lado de Picasso com quem Eduardo conversara. No final visitei a Cidade Transparente, esse lugar extrordinário que haverá de acabar por ser de insuportável transparência.

Para terminar este post quero agradecer a Eduardo ter-me oferecido esta viagem, coisa que apenas um amigo poderia oferecer.

Obrigado Eduardo.

quarta-feira, outubro 09, 2013

Vai Eduardo!

Recebi pelo  correio um envelope gordinho com carimbos brasileiros. Trazia dentro o último livro do Eduardo P. Lunardelli. Penso que todos os que lêem estas linhas sabem de quem se trata (caro leitor, se eventualmente não souber a quem me refiro clique aqui e ficará com uma ideia).

O livro intitula-se "Agudas e Crônicas", o acento circunflexo ajudando a compreender as diferenças de pronúncia de um lado e outro do Atlântico. É um volume que reúne os escritos que Eduardo vai postando diariamente tanto no Varal de Ideias quanto no Facebook. Curtos e apontados ao coração.

Lê-se de um tiro ou, melhor, lê-se como uma rajada de metralhadora, cada "crônica" puxa a "crónica" seguinte, num desfiar escorreito de leitura fácil.

Grato pelo livro, Eduardo.

quarta-feira, agosto 14, 2013

Verão leituras

O Verão traz sempre consigo uns quantos livros que se lêem debaixo do guarda-sol, à beira do mar ou nalguma esplanada mais recatada com boa cerveja fresca, de preferência.

Nos últimos tempos tenho dado primazia a autores portugueses e foi de Afonso Cruz a minha última destas leituras estivais. Li O Pintor Debaixo do Lava-louças(ou loiças) que confirmou as boas impressões que me haviam deixado Jesus Cristo bebia cerveja e A boneca de Kokoschka, também deste autor.

Para quem nunca leu Afonso Cruz deixo a recomendação de que o faça. O rapaz é um artista!

Entretanto li também O relatório de Brodie, um livrinho de contos de Jorge Luís Borges editado pela Quetzal que é um primor. Desde a textura da capa à magnificência da escrita, é um livro que dá prazer ter nas mãos.

Mas, com tanto tempo livre, o Verão permite isto e muito mais. De Pedro Gamboa li Almas a saque, uma história de paixão com final pouco feliz que me revelou um autor que desconhecia (mas que conheço pessoalmente).

Entretanto fui ontem à Biblioteca Municipal de Almada levantar outros dois livros de contos. Depois de os ler talvez diga alguma coisa.

Boas leituras. É Verão.

domingo, fevereiro 10, 2013

Lendo

Já há algum tempo não refiro por estas bandas os livros que vou lendo. Desde a última vez que o fiz e esta, onde volto a fazê-lo, li vários romances, contos e novelas, alguns que muito me agradaram, outros mais ou menos.

Mas agora estou a ler (finalmente) "Os Detectives Selvagens" (entretanto o "c", por ser mudo, vai caindo) de Roberto Bolaño, o único dos seus romances editados em Portugal que me faltava ler.

Escrevo este post porque hoje de manhã, quando lia mais algumas páginas, ocorreu-me que "genial", perante esta obra, é uma palavra que se esvazia de sentido. Dizer que "Os Detectives Selvagens" é uma obra genial é o mesmo que não dizer nada.

Durante a leitura sinto-me como aquela personagem de "Citizen Kane", o tipo que faz a investigação e que, para o espectador, nunca é mais do que uma sombra que se entrevê de costas.

Sinto-me um tipo que está ali, a recolher informação e que vai avançando numa complexa trama de testemunhos e acontecimentos como se vivesse um sonho (ou vários sonhos, uns dentro dos outros) sem saber onde irá ser conduzido no final; que maravilha estará reservada ou que horror inominável irei, por fim, encontrar?

Este é um livro que desejo que nunca acabe. Se houvesse a possibilidade de possuir um objecto literário interminável e eterno, se pudesse ter esse objecto para me acompanhar ao longo do que a vida me reserva, seria uma coisa como esta.