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quarta-feira, dezembro 17, 2025

Gostar ou não gostar

     Gostava muito de ser capaz de organizar ideias suficientes que me permitissem trabalhar o mesmo texto ao longo de dias, semanas, meses, anos, quem sabe? Gostava muito de ser um escritor capaz de ir além de meia-dúzia de linhas emaranhadas em ideias confusas. Quem sabe?

    Por vezes uma ideia aparece-me de repente, assim como imagino que o anjo tenha aparecido à Virgem, puf! Materializa-se uma coisa que no milésimo de segundo anterior era como se não existisse. Ainda eu não pude percebê-la, ainda o pó provocado pela materialização não assentou, e já a ideia referida se escapule por entre as pernas das mesas e das cadeiras, deslocando-se rente ao chão com uma velocidade que, embora me deixe seguir a forma não me permite vislumbrar muito mais do que um vulto. O coelho da Alice? O Beep-beep? O Alien bebé do 8º passageiro?

    Gostava muito de conseguir focar a minha atenção por mais de 5 minutos e 5 linhas quando tento explanar algo ou alguma coisa através da escrita. Gostava de não me comportar como uma criança numa loja de brinquedos imaginários... não gostava nada.

domingo, novembro 30, 2025

Ubu, és tu?

    


    Ontem aconteceu o lançamento da minha versão de Rei Ubu, a obra-prima de Alfred Jarry, esse escritor tonto como uma barata. O facto de ter tido o trabalho de transformar a obra de Jarry em algo parecido com aquilo que ontem foi posto à venda, faz de mim quase tão tonto como Jarry, talvez um pouco menos pois até os tontos podem aprender qualquer coisa com o exemplo alheio. Diz-me os tontos que admiras, dir-te-ei que tonto és.

    A coisa deu-se no Salão das Carochas, ali em cima, em Almada Velha. O Zé Xavier Ezequiel, na sua qualidade de editor, apresentou a cena, o segundo livro editado pela Tordesilhas, uma editora ainda bebé. A sala estava bem composta e tive oportunidade de debitar umas quantas falsas banalidades. A Ana Nave também falou um bocadinho e depois a Josefina Correia e o Carlos Dias Antunes leram a primeira cena de Rei Ubu, as partes das personagens que eles próprios haviam interpretado em 2017, aquando da apresentação desta coisa em palco: a Josefina como Mãe Ubu, o Carlos como Pai/Rei Ubu.

    No fim assinei uns quantos exemplares, que o Ezequiel vendeu a quem os quis comprar, com uma caneta que a Ana Saltão me emprestou. Eu, que ando sempre com, pelo menos, uma caneta no bolso, esqueci-me de a(s) transportar comigo logo ontem, logo naquele dia. Tivemos ainda a possibilidade de beber umas garrafas de vinho e tasquinhar umas coisas secas (bem agradáveis). Enfim, foi uma espécie de festa. Até o meu irmão apareceu! 

domingo, outubro 05, 2025

Livros

     Aqui há dias concluí a leitura de "O caçador de histórias", de Eduardo Galeano. Nunca antes tinha lido nada do escritor uruguaio que adorava futebol (e que, tal como me aconteceu, sonhou vir a ser futebolista quando crescesse). Foi uma experiência repleta de momentos luminosos.

    Um ou dois dias antes de ter começado a caçar histórias na companhia de Galeano tinha lido "Tsunami", da autoria de Alexandre Dale que, na minha cabeça, continua a ser O Poeta. Foi o primeiro livro editado pela nova editora, Tordesilhas, do meu amigo José Xavier Ezequiel. No lançamento do livro tive oportunidade de explicar a minha perspectiva da coisa ao próprio autor que me disse algo do género: "pois, não pensei nisso". E eu a pensar que tinha descoberto a razão da coisa, o estratagema do autor... tiro ao lado, tiro ao lado, tiro ao lado; alvo limpo e sem furos.

    Ontem comprei o mais recente livro de Ian McEwan.

terça-feira, agosto 12, 2025

Perutz

     Senti uma súbita necessidade de contradizer o meu post anterior. Confesso que o escrevi sem pensar no que fazia e o resultado é um pouco nefasto. Não queria dizer aquilo, antes pelo contrário. Não penso assim, a construção das frases peca por ser tão infantil, o remoinho do tempo baralhou-lhes o sentido e nada daquilo poderia, alguma vez, existir fosse em que universo fosse tentado.

    Dito isto passo a explicar que acabei de ler O Marquês de Bolibar, de Leo Perutz, e não fiquei maravilhado. Já O Cavaleiro Sueco, do mesmo autor, me deixou à beira de ficar descalço. Nas badanas e contracapas os editores colocam frases de alguns dos meus heróis literários: "O exemplo perfeito de um romance fantástico no seu estado puro", terá dito Jorge Luís Borges de forma que me parece um tanto exagerada. Italo Calvino terá sido outro leitor devoto deste escritor austríaco nascido em Praga (!!). Enfim, com estas conversas lá me convenceram a ler dois romances que, não fossem estas vozes de fantasmas queridos, dificilmente seriam objecto da minha atenção.

    Sim, há nestes romances qualquer coisa de extraordinário, algo de maravilhoso, mas em doses homeopáticas. Para me satisfazer teria de ser algo mais brutal, mais animalesco. Seja como for, caso não conheças este escritor, experimenta lê-lo, errático leitor. Talvez O Cavaleiro Sueco seja entrada mais apetecível mas, diz quem sabe, O Marquês de Bolibar é obra-prima. 

sexta-feira, junho 20, 2025

Comunicação

     Há poucos livros de Stanislaw Lem editados em Portugal. Sendo que um deles é um dos livros da minha vida: Solaris. Já devo ter escrito alguma coisa sobre essa obra-prima (a opinião está longe de ser minha) algures por aí, no 100 Cabeças. Escrever este post foi um impulso que senti após ter terminado a leitura do 2º conto de "A máscara e outros contos", editado em Maio deste ano pela Antígona. O título desse conto é "O rato do labirinto" e foi escrito em 1956.

    E senti o impulso de escrever estas frases por ter encontrado aqui uma situação narrativa que me fascinou em Solaris; as personagens vêem-se confrontadas com o surgimento inexplicável de duplos. Não vou estar para aqui a perorar sobre o alcance filosófico da coisa. Surgiu-me a ideia de que este "rato" possa ser a semente de Solaris. A ideia de que estabelecer contacto com algo que nos é absolutamente estranho possa gerar situações delirantes parece-me absolutamente lógica.

    Não sei se alguém, em algum laboratório bafiento, algures nas caves de um departamento científico esquecido nas estepes russas, tenta estabelecer contacto com um grupo de amibas. Partindo do princípio que tal experiência está a acontecer, sonho. 

quinta-feira, novembro 21, 2024

Bom dia

     Não deveria esquecer-me de que todos os dias podem começar como este começou. Começou com a leitura de uma das conferências de Borges publicadas em Sete Noites (esta versando a Divina Comédia). Não tanto pela imensa erudição que irradia das palavras escritas, não tanto pela beleza rítmica da forma (que mesmo na tradução para português não é perdida), não tanto pelo poço celestial do conteúdo: os dias deviam começar desta forma pois é leitura que me faz recordar o prazer que é estar vivo.

    Dou por mim a pensar como seria agradável que após a hora da nossa morte pudéssemos continuar a ler; como seria agradável que o universo continuasse para lá da cortina dos sentidos, uma infindável biblioteca, como o terá sonhado Borges; dou por mim a pensar que o inferno decerto será semelhante ao silencioso deserto de ideias que imaginei ainda há pouco.

sábado, novembro 09, 2024

A felicidade num buraco

     Ficar na sombra não é das coisas mais fáceis a que um gajo possa aspirar. A tentação de deitar um cornicho de fora é muito forte. Querer banhar a fronte na luz do sol, mostrar o sorriso, explicar a quem esteja a ouvir como somos gajos espectaculares, a compulsão da exposição social fala alto. Mas não tão alto que abafe a tendência natural para a anulação do ego. Quando esta existe.

    Uma educação católica em meio rural cava profundas valas onde semeamos modéstia com uma eficácia tal que a colheita dura a vida toda. E tentamos mudar, tentamos deixar a agricultura, imaginar outras actividades, mas nada funciona. Campónio uma vez, campónio a vida toda. Nunca deixarei de ser um campónio. Tempos houve em que a constatação dessa evidência me incomodou. Nos tempos que correm a condição de eterno campónio enche-me de orgulho. Vai na volta esse orgulho não é mais que auto-defesa. É bem possível que assim seja. 

    A passagem do tempo fornece a cada um de nós a possibilidade de vestir uma armadura mais ou menos eficaz contra os temores que o mundo vai sendo capaz de nos infundir. O mundo que se infunda! Que se infunda esta merda toda. Vou cavar um buraquinho onde possa aninhar-me confortavelmente, como imaginei a toca da raposa Salta Pocinhas, heroína imbatível da minha mais tenra infância. E nesse buraquinho serei feliz, até ao esquecimento absoluto.

quarta-feira, junho 26, 2024

Um livro muito grande

     Ler e reflectir, eis o combustível necessário no início de cada dia. Bom, acompanhando o pão-nosso, que de barriga absolutamente vazia não se pensa tão bem como se pensa. "O mundo livre" de Louis Menand é um compêndio brutal, excelente objecto de consulta.

    A quantidade de informação aproxima-se do delírio mas, tomada em doses homeopáticas, revela-se tão suave como pêlo de coelhinho. Apesar de umas quantas falhas editoriais, perfeitamente ignoráveis, a leitura deste tijolo (1108 páginas) faz-se em velocidade de cruzeiro e perna bem traçada. 

    O papel da edição da Penguin/Elsinore (ou será vice-versa?) é perfeito para um livro tão volumoso. Permite abrir as páginas sem a necessidade de estar sempre atento à resistência do papel que faz voltar a folha para trás e é surpreendentemente leve. Apesar do aparente desconforto até que nem se lê mal estando o leitor deitado.

    Enfim, grande livro! Sob todos os aspectos. Um livro muito grande.

domingo, maio 05, 2024

Paul Auster (1947-2024)


    Há uma certa diferença entre usufruir da leitura e compreender a obra lida no contexto do universo criativo do autor. 

    Mais ainda, há uma certa diferença entre ler vários livros de um autor e conseguir locazilá-lo na imensidão do cosmos da criação literária. Enfim, Paul Auster ofereceu-me excelentes momentos, outros nem por isso. 

    A qualidade artística é sempre intermitente, raramente ou nunca é constante. A genialidade é meramente ocasional.


segunda-feira, novembro 20, 2023

O mundo a dar as voltas do costume

     Não sei também te acontece, difuso leitor, mas, por vezes, sinto uma estranha compulsão pela leitura. Estou a ler qualquer coisinha (neste momento o "Pequeno Almoço de Campeões" de Kurt Vonnegut) e começo a sentir apelos externos, cantos de sereia desconcertantes que me levam a abeirar de prateleiras repletas de livros.

    Hoje lá me cheguei a uma prateleira da biblioteca da minha escola. Ia só verificar se tinham "A Peste", de Camus. Tinham. Dois exemplares e tudo. Foi então que ouvi um sereia a cantarolar ao longe. 

    Como na biblioteca as coisas estão arrumadinhas, ali perto espreitava na minha direcção "A Guerra das Salamandras" de Karel Capek. O nome do autor é-me familiar por ser o criador do conceito de robot ou coisa que o valha. Tendo dez minutos perdidos no tempo não resisti a folhear a coisa e ler um pedaço.

    Não tinha completado a segunda página já um bando de sereias serigaitas me enchia a mona de cânticos irresistíveis. Ai, ai, eram tantas e cantavam tão melodiosamente! Fechei o livro com a mente ainda a palpitar, passei os olhos pela sinopse e... punfas, toma lá que já almoçaste! Lá estava escarrapachado que Capek foi uma grande influência para dois ou três escritores mas só fixei o nome de um desses eventuais discípulos: Kurt Vonnegut!

    Pronto. Estava dado o laço. Nunca li Capek mas sei que, a partir de agora, me será impossível não o fazer.

sexta-feira, julho 28, 2023

Regresso ao passado

     Reli "Matadouro 5 ou A Cruzada das Crianças" de Kurt Vonnegut. Tinha comprado o livro em 1990 e, decerto, lera-o nessa altura. Reli-o mas foi como se tivesse pousado nele os olhos pela 1ª vez. Vonnegut é um autor brilhante no modo desembaraçado como expõe as suas linhas narrativas e cria personagens tão evidentemente verdadeiras. Lê-lo é pura diversão.

    Este regresso ao "Matadouro 5" deveu-se ao facto de a minha sobrinha ter oferecido ao meu irmão uma edição recente da obra e eu, por absoluta coincidência, estar a ler outro livro de Vonnegut, "Barba-Azul", que encontrara por acaso na prateleira da nossa casa em São Miguel do Outeiro. Qual a possibilidade estatística de tal coincidência?

    Pareceu-me um sinal. E eu segui-o como um rei mago a trotar no seu camelo seguindo a estrela errante que há-de travar na chegada ao presépio. Não encontrei o Deus Menino mas fartei-me de curtir na companhia de Billy Pilgrim. Assim foi.

segunda-feira, novembro 07, 2022

Memorabilia

     Não sei se também te acontece, leitor amigo, olhares para trás (olhares o teu passado) e pensares: não vejo nada! A mim acontece-me quase sempre que olho com a vista desarmada. Não alcanço o que vivi e se sinto uma ligeira brisa a agitar-me a memória, rapidamente a janela se fecha e tudo volta à sua habitual quietude de recanto e sombra. Em matéria de memória sou aparentado ao granito.

    Vivo, no entanto, experiências transcendentais quando coloco na mente o potente telescópio da literatura (ia dizer "os óculos da literatura" mas pareceu-me tão fraquinho...) e o meu corpo é trespassado por memórias de toda a índole. É uma experiência com o seu quê de estranheza mas decerto tudo se explicaria com a maior das naturalidades, fosse eu capaz de compreender os contornos do fenómeno.

    Estou a ler "Lições", o mais recente romance de Ian McEwan, e tem sido uma girândola de sensações perdidas e sensações reencontradas; outras, apesar da sua provecta idade, são sensações que me surgem desvendadas como se regressasse momentaneamente à minha infância, à adolescência. 

    Eu sei que as minhas experiências de vida hão-de estar gravadas no meu cérebro: arrumadinhas, sempre disponíveis caso eu possa chegar-lhes, estão à minha espera. Mas, sem ajuda, sem a prótese poderosa da literatura. as prateleiras onde se alinham as memórias são sempre demasiado altas, demasiado confusas e desarrumadas, afundando o passado no caldo tépido do esquecimento.

terça-feira, julho 20, 2021

Pensamento circular

As coisas são o que são e são mesmo assim. 

Para banalidade absoluta, a frase anterior não ficou nada mal. Não sei bem porque a escrevi se a minha intenção era (e continua a ser) falar um nadinha sobre Julian Barnes. Quero dizer, falar um pouco sobre o nada que sei acerca da obra, muito menos sobre o escritor.

Bom, o que se passa é que li num suplemento de Domingo passagens de uma entrevista com Julian Barnes e algo se me acendeu no espírito dando-me uma certa vontade de ler qualquer coisa da sua autoria. O meu irmão emprestou-me "O Ruído do Tempo" que li de forma excepcionalmente rápida (já aqui escrevi várias vezes que sou um leitor lentíssimo). Logo lhe perguntei se tinha mais livros de Barnes e estou agora a derreter "Os Níveis da Vida". Ainda tenho ali outro romance à minha espera mas já não me recordo do título.

Tenho aqui um autor para ir lendo até lhe esgotar as páginas.

Voltando à frase inicial quero apenas fazer uma pergunta e uma afirmação. Pergunto: como foi possível eu ter ignorado a existência de tão genial autor durante tanto tempo? Afirmo: as coisas são como são e são mesmo assim.

quinta-feira, junho 04, 2020

Ocupar o corpo

Dom Quixote (volume2), Pais e Filhos de Turgueniev, Memórias Póstumas de Brás Cubas e Dom Casmurro de Machado de Assis, assim tenho vogado na canoa das minhas leituras neste charco pestilento da pandemia. Devagar,lentamente, remando umas vezes, outras deixando-me ir na correnteza; umas quantas páginas por dia.

A literatura é um prazer.

Ontem comecei um livrinho de Simenon editado na Colecção Vampiro, o primeiro que leio com o Comissário Maigret como protagonista. Tenho ali mais uns quatro ou cinco que trouxe da casa de São Miguel que ainda contém, em repouso, os livros do meu avô. Dezenas de "vampiros" me aguardam.

Talvez devesse dedicar mais tempo à literatura mas o jornal, o computador e, sobretudo, a pintura e o desenho, ocupam-me boa parte do dia. Por vezes sinto a tentação da escrita mas acabo a distraí-la aqui, no 100 Cabeças, e fico satisfeito por não me dispersar ainda mais.

Tudo isto me cheira a matança do tempo mas algo me diz tratar-se de ocupação do corpo. Ficamos assim.

quinta-feira, abril 30, 2020

Paraíso algures

 A Invenção do Amor (pintura em progresso)


Ando a ler um livro que tinha para aqui esquecido na prateleira, "Uma História do Paraíso" de Jean Delumeau, editado em 1992. Esta redescoberta não será estranha ao facto de estar a pintar uma tela cuja acção decorre, precisamente, no Paraíso dos cristãos, o tal Jardim de Éden.

É estranho imaginar o que passaria na cabeça dos tipos que descreveram, por vezes com uma minúcia delirante, aquele lugar que muitos acreditavam ser um espaço real, localizado algures para Oriente. O conhecimento limitado da geografia terrestre explica tal crendice o que já não se engole com facilidade é que, nos dias de hoje, haja quem faça ainda interpretações literais do Livro do Génesis. Como entender o que passa pela cabeça dos terraplanistas do século XXI?

O fechamento do universo intelectual é milho para os pardais da estupidez e para os pombos da imbecilidade. Ser capaz de cortar todos os laços com o conhecimento é obra que, ao que parece, não exige um esforço impossível.

Hoje vou pintar pés.

quinta-feira, abril 16, 2020

Grande D. Quixote

Faltam-me 7 páginas para terminar a leitura do 2º volume do D. Quixote de la Mancha, tradução de Aquilino Ribeiro, ilustrações de Gustave Doré, editado pelo Público aqui há uns anos. Reservo esse derradeiro capítulo, "de como D. Quixote caiu doente, do testamento que fez e da sua morte" mais umas horas.

A viagem que venho fazendo na companhia do Cavaleiro de Triste Figura aka Cavaleiro do Leões e do seu fiel escudeiro Sancho Pança, mais as cavalgaduras que com eles alombam, o Rocinante e o Ruço, tem sido espantosa.

Agora compreendo porque é o D. Quixote tão imenso. Todos temos a impressão de conhecer este cavaleiro andante, as mais das vezes através de ecos da sua fama que nos chegam tomando as mais variadas formas mas, em boa verdade te digo, amigo leitor, que nada se compara ao contacto directo com a obra... mas isso já tu suspeitavas.

Começo a sentir uma pontinha de saudade da leitura desta obra monumental.

segunda-feira, agosto 05, 2019

Ler

Ler não é remédio mas alivia a solidão e pode ajudar a manter a estupidez à distância.

Sou um leitor muito lento, quase um caracol, tal o ritmo a que leio. Este ano resolvi fazer uma lista do títulos que vou lendo. Constato que não são mais nem menos do que imaginava. Os temas e os autores são tão díspares que nem eu compreendo qual a lógica das minhas escolhas. Melhor, ao passar os olhos pela lista percebo que não há qualquer lógica nas escolhas.

Romances, crónicas, ensaios, temas históricos, contos, novelas, passa tudo. A única regra é ter sempre um livro para ler. É essa a lógica!

O meu avô materno tinha um pequeno azulejo na parede da cozinha que dizia "Livros e amigos, poucos e escolhidos", nunca esqueci essa frase mas, sinceramente, não oriento a minha vida por ela. Principalmente no que diz respeito aos livros.

Apesar da lentidão com que avanço nas páginas impressas, acumulei centenas de livros nas estantes e recorro com frequência a bibliotecas públicas, muitas vezes por questões de racionalidade económica e de espaço físico. E o meu cérebro? Estarão todos os livros que li guardados nele?

quinta-feira, agosto 16, 2018

Eça pode esperar


Parece-me discutível afirmar que, ao retirar dos programas escolares a obrigatoriedade da leitura de “Os Maias”, se esteja a “não dar aos alunos a hipótese de ler a obra-prima de Eça de Queirós” e a “impedir o acesso dos jovens a um monumento literário (…)” como afirma António Carlos Cortez em texto publicado neste jornal no dia 14 do corrente mês de Agosto. Quando frequentei o ensino secundário, nos anos 70 do século passado, apesar de todas as pressões sobre mim exercidas, resisti heroicamente à leitura integral do referido monumento. Embora tivesse o hábito da leitura os meus interesses naquela época eram outros. Preferia, de longe, a Colecção Argonauta depois de ter papado os clássicos que eram uso e costume papar naquela época. Lembro-me como se fosse hoje do fascínio que exerceu sobre o meu imaginário “O Romance da Raposa” logo após ter aprendido a juntar as primeiras letras. A comoção que me causou “O Príncipe e o Pobre” ou o fascínio aventureiro de “A Ilha do Tesouro”, o doce terror que me provocaram “As Aventuras de Huckleberry Finn” ou as peripécias de Tom Sawyer. Isto, lá em casa. Na escola tentaram impingir-me coisas difíceis de tragar. “Constantino, guardador de vacas e de sonhos” ainda vá que não vá, já “Os Esteiros”, para um rapaz de 12 ou 13 anos, vai lá vai! Logo me atiraram “Os Lusíadas” à cabeça. O hematoma foi de tal sorte que, até hoje, não li integralmente a obra-prima da nossa literatura. Com “Os Maias” foi diferente. Já adulto, senti curiosidade e li o livro de fio a pavio. Na escola tudo fiz para iludir a professora tentando convencê-la de que lia a obra quando, na verdade, contava as páginas que faltavam para chegar ao fim, saltando capítulos inteiros e fintando expressões que não compreendesse às primeiras. Uma seca, como diria o Eça. Seja como for, hoje sou um leitor razoavelmente curioso. A minha dúvida é perceber se o sou graças aos trabalhos forçados que me quiseram impor na escola ou se o sou apesar deles. As carpideiras da cultura que têm choramingado por aí a perda (!?) de Os Maias, querem mostrar-nos a grandeza da arte com argumentos que fariam roncar de tédio uma estátua de mármore. Estou convencido que há na vida um tempo certo para cada coisa e que há, de facto, aprendizagens essenciais que se afiguram muito mais prementes e determinantes que qualquer monumento literário nacional ou obra-prima universal. A mais essencial de todas é aprender a ser curioso e encontrar prazer no conhecimento. Se não conseguirmos impingir tais evidências à rebeldia adolescente bem podemos munir-nos de marretas e obras-primas para lhas martelarmos diariamente no meio da testa. Não adianta. Se, por outro lado, formos capazes de despertar na turbamulta a vontade de aprender Eça pode esperar descansado. Terá clientes.

Carta enviada ao director do jornal Público

domingo, dezembro 17, 2017

Sensações

Estou a reler a "História Universal da Infâmia" de Jorge Luís Borges. É maravilhoso! Sempre que leio Borges é como se ouvisse uma voz dentro de mim (não é dentro da minha cabeça, nem dentro do coração, é dentro de mim, algures, eventualmente num pé ou no fígado, não consigo precisar).

Acontece com Borges como acontece com Bolaño ou com Paulo Varela Gomes ou Teresa Veiga, acontece com certos escritores de língua portuguesa ou castelhana (traduzida). Sinto vozes quando leio estes autores.

Com Ian McEwan, por exemplo, ou Paul Auster, não sinto vozes, viajo para lugares específicos. São espaços arquitectónicos que me envolvem (ou serão paisagens?).

Fico a pensar que os autores de língua latina me falam e os anglófonos me transportam.

sábado, setembro 30, 2017

Putas Assassinas

Lendo Bolaño sinto uma estranha vertigem, um vago reconhecimento. As suas personagens parecem vogar indefinidamente num espaço que nunca lhes pertence, como se fossem sempre estrangeiras, mesmo no seu próprio país ou na sua cidade, até mesmo no seu corpo.

Nos seus contos e romances sinto a solidão como o mais perigoso dos animais selvagens. Um bicho terrível que procura enjaular-se nas almas das pessoas para depois as roer por dentro, como na mais terrível das torturas chinesas, aquela que implica uma gaiola e uma ratazana esfomeada.

Ando a ler As Putas Assassinas.