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quinta-feira, outubro 01, 2026

O Homem-Record

     Os temas menos elevados ganham espaço mediático pois abrangem uma maior faixa da população. Por vezes leio (outras vezes tento ler) certos artigos sobre ciência e tenho de produzir um esforço que vai lá vai sem a certeza de ser capaz de obter resultados que possa um dia considerar vantajosos. Queimar combustível e não sair do lugar é algo pouco recomendável.

    O caso Cristiano Ronaldo é completamente diferente. Desde o Zé da Esquina à Micas Húmida, todos têm uma opinião mais ou menos fundamentada sendo que todas elas merecem a atenção que lhes é devida. É um caso nacional ou até mesmo mundial! 

    Chovem opiniões de quem gosta de futebol mas não gosta do Ronaldo, de quem gosta do Ronaldo mas não gosta de futebol, de quem gosta do Ronaldo e de futebol, de quem não gosta de uma coisa nem de outra, enfim, o mundo pode dar largas à sua opinião, ao seu conhecimento de causa, seja em farsi ou catalão, todas as vozes se fazem ouvir, toda a sabedoria extravasa. 

    Não sei se isto agrada a Ronaldo, estou convencido que sim, que agrada, mas, que tipo de sentimentos confusos se lhe debatem no peito e de que forma o Tico aperta o gasganete ao Teco lá dentro, na caverna que lhe abriga o cérebro? 

    Independentemente da qualidade do que se fala, penso que para uma pessoa como Ronaldo é a quantidade que conta pois isso mostra a importância que ele tem no mundo em que vivemos. Pode ser que lhe venha a ser atribuído um novo record, o record da má língua a nível  mundial. Seria uma forma maravilhosa de colocar um pedregulho sobre a sua carreira na Selecção. 

domingo, agosto 30, 2026

O mais...

    Quando era jovem sonhava ser nada mais nada menos que o mais... qualquer coisa. Desejava ser o mais não sei quê. Mas, sim, queria ser o mais, o maior, o melhor, enfim, queria ser uma espécie de divindade mais ou menos absoluta. Mais do que menos absoluta.

    Um gajo jovem nem sequer se preocupa lá grande coisa com o que teria de fazer para vir a ser... o mais. Não. Porque haveria de preocupar-se? A coisa irá dar-se de uma maneira ou de outra, a coisa acontecerá mais cedo ou mais tarde. Não é preciso fazer nada de especial, basta deixar o mundo fluir, esperar que os astros se alinhem "et voilá"!

    O tempo vai passando e um gajo vai deixando de ser jovem e a espera começa a parecer demasiado longa. O mundo deixou de fluir? Os astros alinharam-se quando eu estava a dormir? Ok, ainda não aconteceu mas vai acontecer. Ainda vou ser o mais... o maior... o que é preciso é manter a confiança no meu valor.

    E depois um gajo já não é jovem de modo nenhum e a coisa não se deu. Nunca foi o mais, embora também não tenha sido o menos. Talvez possa considerar que foi mais ou menos, nos dias bons. Ou então cagar nisso e pôr ao peito, como dizia quando era um jovem promissor, convicto de que o mundo haveria de ajoelhar-se aos seus pés, pois seria, infalivelmente, o mais...

terça-feira, agosto 25, 2026

Lavrar o corpo

    Rai's parta à mulher que não pára de coçar o corpo todo! Coça a cabeça, coça os braços e as costas com grande esforço, coça-se no entre-pernas e coça as sobrancelhas, coça, coça, coça sem parar. Até parece possuída por algum fantasma mais malandro que lhe tenha pregado uma valente partida fazendo dela marioneta de espectáculo dedicado aos maluquinhos.

    Ela torce, ela salta, ela contorce. Coça, coça, coça. A gente rodeia, a gente ri-se, mas há quem repare que tanta coçadela começa a fazer ferida, a deixar riscos vermelhos na pele, rasgões que se abrem sem dar sinais de voltarem a fechar-se. E sai um grito.

    Alguns de nós saltam em frente, agarramos os braços desgovernados da mulher, tentamos pôr cobro àquela loucura mecanizada que lhe lavra o corpo com unhas que são garras de bicho ferido na razão. Ela não quer. Ela quer continuar a rasgar-se, a ferir-se, a maltratar-se, insulta os que vão em seu socorro gritando que não precisa de socorro nenhum. "Filhos da puta!" é o que ela grita. E contorce-se como uma centopeia, agarrada de mãos e pés, braços e pernas bloqueados por força alheia, força combinada de quantos lhe não querem mal. 

    Rai's parta à mulher que não pára de se contorcer como se fora cobra, enguia ou outra coisa difícil de agarrar! 

segunda-feira, agosto 24, 2026

Preconceito e unhas sujas

    Pouco havia a fazer pois a maioria dos cidadãos tinha já bem enfiada na cabeça uma imagem perfeita de quem ele era. Os que ainda não o olhavam de lado, com a desconfiança própria dos enojados da vida, era porque não o conheciam embora também entre esses houvesse muitos já tinham ouvido falar do Pataqueiro, manifestando desde logo disposição para verter veneno corrosivo sobre a sua imagem, por mais difusa que fosse lá por aquelas cavernas cranianas deficientemente iluminadas.

    O homem falava demasiado? Podemos dizer que sim, que era muito falador, mas é crime dizer alto o que silenciosamente pensamos? O homem era vaidoso? Sem dúvida, vá-se lá saber porquê. Um bocado desleixado em termos higiénicos? Inegavelmente, a sujidade debaixo das suas unhas era motivo de espanto geral e a tendência para meia dúzia de copos a mais não ajudava a compor o ramalhete. Mas era também um tipo bonacheirão, capaz de ajudar quem precisasse de alguma coisa que ele tivesse para dar embora o que tivesse para dar fosse sempre muito pouco.

     Na balança do deve e do haver das  qualidades humanas não ficava a dever grande coisa fosse a quem fosse, antes pelo contrário.

sábado, agosto 15, 2026

Sonho de um dia de Verão

     Passo pela vida como se a sonhasse. O presente faz mais sentido do que fez o passado mas tenho a esperança permanente de que o futuro venha a ser muito mais compreensível embora isso, na verdade, não tenha qualquer significado. Passo pela vida como se dormisse acordado, como se tudo fosse apenas um imenso cliché, como se eu fosse personagem inventada. Passo pela vida sabendo que, no final, me espera o sono eterno embora não seja capaz de processar minimamente tal conceito: eternidade, chiça penico!

    "Passo pela vida como se a sonhasse", escrever isto pode soar a pretensiosa poesia. É e não é. É porque é e não é porque não há outra maneira de o dizer. Por vezes sinto não ter o direito de recear o ridículo. Siga a marinha!

    "Passo pela vida como se a sonhasse", não soa mal de todo, pois não? É como se levitasse, como se imaginasse deslocar-me apoiado numa nuvem ou em absolutamente nada, a deslizar na paisagem sem peso nem remorso. Um homem grisalho a vogar na atmosfera.

terça-feira, junho 23, 2026

A barriga do Tempo

     O gajo transportava uma barriga incrivelmente desajustada da pernitas, que eram finas, mal cobertas de uma penugem que não chegava a pelagem. A camisa de alças pendia-lhe mais de um palmo adiante dos calções (pretos, riscados a cinzento discreto, como os fatos de certos gangsters). Nos pés um par de sandálias daquele azul que parece estar sempre sujo, com três listas brancas a fingir adidas.  Deambulava elefantinamente entre os escaparates dos livros distribuídos por temas.

    Com as mãos sapudas atrás das costas, um gesto que lhe projectava ainda mais a pança por sobre o vazio, duas vezes estacionou a pesada figura defronte às prateleiras da livralhada dedicada a temas do turismo. "É para o que serve uma barriga assim" pensei, "para fazer turismo". O homem era óbvia e nitidamente bastante mais jovem do que eu era. Do que eu sou. Idoso.

quinta-feira, junho 18, 2026

Dissolução

     Vi-o no corredor, ia em direcção ao cais de embarque, Cais do Sodré-Cacilhas, se faz favor. Pareceu-me muito velho, curvado, a nuca coberta de cabelos brancos a abrir clareiras aqui e ali, uma pele avermelhada, muitas rugas, os passos meio arrastados. Passei por ele e pela mulher que o acompanhava. Entrei no barco, subi ao andar de cima, como sempre faço e sentei-me num lugar que pudesse proteger-me do sol, cuja luz começava a fazer-se sentir sob a forma de um calor incomodativo.

    Escrevia qualquer coisa no meu caderno de capa dura quando levantei os olhos por sob as sobrancelhas e dei de caras com o homem que parecia dissolver-se no espaço em volta. Estava sentado duas filas para lá da minha, do lado esquerdo do meu nariz, cadeiras de plástico cor-de-laranja. Agora podia vê-lo de frente e nem precisava de dar muito nas vistas.

    Tinha a boca sempre aberta, como se lhe custasse respirar, ou fosse parvo, ou sentisse um espanto permanente por se aperceber estar ainda vivo. A expressão facial parecia revelar uma profunda tristeza, uma espécie de gentil desistência ou simples ausência de alegria.

    Dei por mim a pensar que a desistência nem sempre constitui um acto negativo, que desistir pode carregar muita poesia neste mundo obcecado por vencedores de merda, vencedores a todo o custo, gente incapaz de sentir empatia por aqueles que derrota. Percebi que o homem que se dissolve à minha frente, afinal, não desiste, apesar da tristeza que dele se desprende. O homem não desiste, lá se vai a poesia.

domingo, junho 14, 2026

O profeta manco

     Basta um tema para reflectir e logo se transforma em espelho. A memória já não se lhe organiza no cérebro como dantes se organizava. Talvez nunca se lhe tenha organizado de todo, não tem como confirmar esta percepção, mas imagina que dias houve nos quais conseguia viajar para trás no tempo sem que se perdesse logo ali, na primeira curva da memória. Seja como for, pensar para a frente não é coisa que o atrapalhe.

    Tem, no entanto, outro problema de difícil resolução. As ideias que lhe vão surgindo, as complexas conexões que encontra entre peças de tão diferentes proveniências que os encaixes seriam impossíveis de percepcionar por mentes menos aventureiras: postulados magníficos, surpreendentes leis que reorganizariam a nossa visão da natureza, todo um universo tão extraordinário que não há palavras capazes de o intuir, tudo isto ele esquece de imediato. Tão depressa vem o conhecimento, tão depressa se esfuma.

    Ainda esta manhã lhe fugiu uma arrasadora profecia. 

 

terça-feira, abril 28, 2026

Loucura

     Aproximou-se coxeando de uma forma impossível. As pernas muito largas, enfaixadas nos tornozelos, moviam-se pesadamente mal afastando do chão as solas dos sapatos. Não consigo explicar porquê, mas aquilo parecia resultado de laboriosa encenação. Ao mesmo tempo era absolutamente plausível que alguém com tal corpulência arrastasse os pés e coxeasse como aquela mulher fazia, ainda que um leve sorriso lhe surgisse e fugisse dos cantos da boca como se provocado por discretas descargas eléctricas.

    Aproximou-se e parou à distância de uma curta conversa. 

    "Tenho pessoas pequeninas dentro da cabeça que, vai-não-volta, me contam anedotas que não sou capaz de compreender." Disse isto de um fôlego sem despegar de mim uns olhos arregalados que não pestanejaram nunca, como se me estudasse atenta e alucinadamente. Sustentei a coisa o melhor que pude o que lhe permitiu abertura suficiente para concluir: "não compreendo as anedotas mas acho-lhes graça." Fiquei a olhá-la, os dois especados no meio do passeio, no meio da calçada, o sol ainda dócil por vir longe o meio-dia.

    Pensei em sair dali para fora, para longe do incómodo que aquela situação me provocava, pensei em afastar-me do que imaginei ser loucura absoluta. A mulher inclinava-se ligeiramente sobre o seu lado direito; talvez o manquejar não fosse mentiroso. Tenho uma imaginação capaz de me pregar certas partidas. Talvez ela compreendesse muito bem o que se passava dentro da minha cabeça. Talvez ela percebesse o que eu estava a pensar naquele preciso momento. Ou talvez não fosse nada disso o que a levou a declarar entre soluços: "quando choro, as minhas lágrimas vêm todas sujas de raiva."

    Virei costas e fui à minha vida. 

domingo, abril 19, 2026

Um dia destes vai chover

    Várias personagens aguardam maior definição. Duas estão sentadas, outra fica em pé e uma quarta encosta-se a uma das duas primeiras. Há ainda uma quinta personagem na penumbra de uma abertura que poderá ser uma porta. Aguardam, como disse, maior definição mas já se sabe mais ou menos o que fazem ali. Aparentemente não fazem nada mas é esse o aspecto de quem espera alguma coisa.

    As personagens estão calmas, não dão sinais de inquietude ou de impaciência. São, talvez, um pouco fatalistas. Elas não sabem o que vai na mente de cada uma das outras, podem apenas responder por si. Nem têm consciência de serem criações de um artista mais ou menos indiferente ao que elas são ou possam vir a ser. Ao artista interessa-lhe apenas que aquelas personagens ali estejam com arzinho de quem contempla o vazio e reflecte em conformidade.

    Um dia destes ainda vai chover merda. 

sábado, novembro 29, 2025

Diferentes aspectos

     Olhava a mulher sentada de soslaio ou olhava de soslaio a mulher sentada? Não me recordo muito bem mas o seu aspecto não me deixou indiferente. Parecia ser um homem que se foi esquecendo da saudade a vida inteira e nem para tio ficou por não ter ninguém que se lembre dele, que saiba quem ele é, por não ter ninguém que o reconheça. O olhar dele não era amigável nem curioso nem desinteressado, apenas inquietante. Mais à frente uma rapariga com uma mala enorme estacionada ao seu lado auto-fotografava-se fazendo uma boquinha que dava ao seu rosto o aspecto de um rabo anguloso com um olho do cu protuberante.

terça-feira, outubro 07, 2025

Encontrar desculpas

    Ia ter que encontrar uma explicação para justificar a sua atitude. Não seria tarefa fácil. Além de uma história plausível iria ter de encontrar o tom de voz adequado, a pose, o olhar... nada poderia ser deixado ao acaso. O acaso nem sempre resolve as coisas como seria de esperar, muito menos as resolve da melhor maneira. Tem dias!

    Por muito que puxasse pela cabeça não lhe ocorreu nenhuma ideia genial. Ali estava, sentado, transpirando como um cavalo. Contorcia os dedos das mãos com tanta força que, diz quem viu, parecia não ser capaz de os desembaraçar assim que pudesse sossegar um pouco. Tornar-se-ia um ser estranho, caso isso acontecesse, os dedos entrelaçados de tal maneira que não conseguisse separá-los nunca mais. No caso de tal desgraça sempre poderia tornar-se curiosidade numa feira de aberrações que algum jovem empresário pudesse, um dia, vir a criar. Uma vida inteira a tentar desfazer-se.

    Não conseguiria pedir desculpas se primeiro não fosse capaz de as encontrar. Encontrar, até, as supostas culpas, eis algo que lhe estava a ser penoso. Sentia-se confuso, sentia-se perdido: "já nem sei bem o que sou..." rodopiou os olhos e continuou: "... sei perfeitamente quem sou, até consigo recordar o meu código postal, mas não faço a mínima ideia daquilo que sou." Fez uma pausa e concluiu: "Não tenho a certeza dos meus limites". Fosga-se!

    Pensamentos deste calibre não contribuíram nada para a saúde mental do indivíduo.   

terça-feira, agosto 26, 2025

Sono

     As coisas pareciam-lhe estragadas, como se a vida tivesse ultrapassado um prazo de validade, tal qual as ervilhas enlatadas ou os iogurtes. O próprio acto de respirar o incomodava como se não fosse natural. Estava demasiado consciente. 

    Já tinha compreendido uma verdade básica havia bastante tempo: que a consciência é uma arma de auto-destruição demolidora. Descodificar com exactidão os mais ínfimos sinais emanados pelo mundo que nos rodeia leva qualquer ser humano às portas da loucura mais rapidamente do que arde um fósforo. Talvez por isso seja dos pobres de espírito o reino dos céus.

    Virou-se para o outro lado ajeitando a cabeça na almofada. Esperava o sono pois sabia que quando ele viesse seria como se morresse. A noite levá-lo-ia. Estaria de regresso pela manhã, talvez revigorado, talvez esquecido, talvez livre de pensamentos deprimentes.

quarta-feira, julho 23, 2025

Vai-se a ver...

     É de ficar arrepiado, pele de galinha desde a nuca ao calcanhar. A coisa não é para menos, deixa uma pessoa indignada. Pessoalmente acho mal. Acho muito mal, mesmo. Não estou disponível para pactuar com semelhante bandalheira! Benza-me Deus, guarde-me Nossa Senhora.

    Sim, porque ontem não foram capazes de me elucidar. Antes pelo contrário! Dei-me ao trabalho de ouvir os gajos e eles falaram, falaram, falaram e no fim, nicles batatóides! Fiquei na mesma como a lesma. Valeu a pena ouvir o debate? Claro que não, foi pura perda de tempo. E tempo é coisa que não devemos desperdiçar pois nunca se sabe quando batemos a caçoleta, indo desta pra melhor. 

    A meu ver estão todos vendidos se bem que uns receberão de um lado e os outros receberão do outro, como é mais ou menos evidente. Não acredito que sejam todos pagos pelo mesmo patrão... ou então... vai na volta... afinal de contas o dinheiro é todo igual. Igualzinho mesmo!

quinta-feira, julho 17, 2025

Candidato

     Estava-lhe entalada a vontade na garganta. Queria dizer, falar, expor, narrar a sua história pessoal era um tesouro a merecer partilha pública. Tudo dentro dele estava em alvoroço, a urgência sufocava-o. Suster a torrente discursiva era particularmente doloroso mas a ocasião assim o exigia. Não era momento adequado a dar bandeira.

    Contorceu-se um pouco na cadeira, ardia-lhe o olho do cu.

quarta-feira, julho 09, 2025

Prévio conceito

     Falava sozinha rua acima, como se mastigasse palavras, como se ruminasse ideias esquecidas. O aspecto de "maluca do caraças" ninguém lho tirava. Lá vinha ela. Não me pareceu desleixada, quando nos cruzámos não persistiu na atmosfera nenhum fedor particular, era aquela cena, aquela ladainha a martelar, juntamente com os passos sublinhados a salto alto na calçada. Na verdade nada me garantia que se tratasse de uma maluca. Nada, além do meu preconceito.

    O preconceito é uma espinha que não conseguimos desencravar da garganta, é uma pedra no sapato que não descalçamos nem por nada, é um fantasma hediondo a assombrar-nos a mioleira e que não conseguimos esconjurar nem à força de mil "cabrão" nem dez mil "filho-da-puta". O preconceito é, de facto, fodido.

    A última esperança reside na capacidade de apercebermos o preconceito que nos infecta. Não nos livramos dele mas saber que nos desorienta, estarmos conscientes de que o trazemos dentro de nós, é coisa que transporta consigo algum alívio. 

sexta-feira, outubro 13, 2023

Monstro

     Era como se a alma lhe tivesse derretido dentro do corpo sem tempo para se liquefazer por completo. Ficou assim, disforme, grotesco, surreal. Tão largo, tão baixo, tão assimétrico, tão desesperado por normalidade! Que raio de coisa lhe terá acontecido? Que estranho e extraordinário fenómeno o deformou daquele modo?

    Entretanto outro míssil caiu lá fora. Tanto quanto se soube, aquele não terá causado vítimas mortais. 

    A vida tem destas coisas.

quinta-feira, julho 14, 2022

Historiador

     Poderia escrever toda uma história da arte tendo como ponto de partida a sua própria obra. Uma história da arte contemporânea, está bom de ver, que nem mesmo os artistas são imortais, diga lá Camões o que disser. Coçou a barriga, mirou as unhas lá em baixo, nos pés sujos de pisarem o chão do atelier para lá e para cá, em volta, para cima e para baixo; deixou a nuca ir pesando até lhe atirar a cabeça para trás. Mirou o tecto.

    O tempo passara, passara, voltara a passar. Tanta coisa aconteceu e, afinal, a sensação que perdurava era a de nada ter acontecido. Todas as cenas gloriosas que lhe haviam preenchido os anos de juventude nunca foram motivo de notícia, nunca atraíram as atenções da elite, nem da crítica, nem sequer da chungaria, portanto era como se não tivessem acontecido. Cenas gloriosas? Só mesmo na cabeça dele... ou não? 

    Havia ali uma certa confusão.

    Muita química inflamável, miolos queimados, recordações que tratava de reconstruir sempre que lhe visitavam a alma. Cada vez duvidava mais de que certas coisas tivessem, de facto, acontecido e das que se lembrava sem rebuço punha em causa que houvessem sido mesmo assim. Mas podia escrever essa tal história. Talvez não da arte mas a sua história.

    Levantou-se em direcção ao frasco de pickles onde descansavam pincéis mal penteados afogados em água suja de tinta. Antes de alcançar a tela meio pintada já se tinha esquecido da ideia magnífica que o fizera levantar da cadeira.

terça-feira, julho 05, 2022

Um feio

     Deu a sua palavra de honra: não sentira inveja! Jurava a pés juntos que não houvera qualquer impulso, qualquer movimento subreptício, nada; nadinha! Nadinha de nada!!! Que o deixassem em paz, queria ir à sua vida. Mas os dois polícias não estavam pelos ajustes, muito longe de estarem convencidos pela história daquele tipo.

    Aos olhos de qualquer cidadão de bem aquele era um cidadão muito suspeito. Analisando-o dos pés à cabeça: botas da tropa mal engraxadas, a esquerda com a "boca aberta", a direita com 3 pregos salientes e ameaçadores a espreitarem um pouco acima da sola; calças mais rotas que cozidas, mas rotas pelo uso e não pela vontade de estar na moda, sujas...! Uma espécie de t-shirt, também ela bastante esburacada, com uma imagem de Jesus e a inscrição "never trust a zombie", ui! O polícia mais velho, que era de uma dessas igrejas ou seitas ou lá o que são aquelas casas onde se canta e batem palmas ao Criador e se Lhe dão umas gorjetas, o polícia mais velho ficou logo com vontade de lhe enfiar uma esquecida nas trombas, mas conteve-se.

    Quando falou mostrou uma boca com espaços vagos na dentadura. A cara era como se lhe tivessem esfaqueado a carne e os ossos. Alguém lhe tatuou qualquer coisa na testa, qualquer coisa no maxilar, mas foram tentativas falhadas e se já era feioso mais horrível ficou.  O cabelo rapado indiciava algo semelhante a tinha. Enfim, pior aspecto? Talvez houvesse por aí alguém com pior aspecto mas não seria fácil de encontrar.

    Diz o povo que "quem vê caras não vê corações" e, neste caso, o dito fazia todo o sentido. O tipo era um autêntico santo. Bom, correcto para com os seus semelhantes, amigo dos animais, um anjo! Isso não impediu que sucumbisse aos maus tratos que desconhecidos lhe infligiram, presumivelmente, à porta da esquadra onde foi encontrado por dois transeuntes a esvair-se em sangue. Paz à sua alma.

segunda-feira, junho 27, 2022

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     Talvez receasse falar demais, talvez sentisse que os seus temas preferidos, aqueles a que não conseguia fugir, fossem incomodativos para as pessoas. Pessoas mais interessadas em absorver os raios solares ou largar as suas preocupações em palavras que eram bolhinhas de sabão levadas pelo vento.

    Talvez sorrisse com aquela boca que era como um melão a que tivessem aberto a barriga e tirado uma talhada, aquele sorriso falso, iluminado pelos olhos azuis, inexpressivos, olhos quase transparentes. As pessoas falavam, bolhinhas rodopiavam pelo ar e rebentavam silenciosamente quando tocavam as paredes da casa, a mesa, os copos, os talheres, quando tocavam os objectos.

    Tudo aquilo lhe provocava uma ligeiríssima indisposição, como se quisesse cagar e não conseguisse fazê-lo. Desviou o olhar que fixara na janela vazia. Levantou-se, desejou a todos que tivessem um resto de boa-noite e ausentou-se sem que lhe ouvissem os pés a bater no chão; saiu de cena como se deslizasse um palmo acima do soalho, levitando.

    O vampiro