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sábado, julho 19, 2025

Ai, solidão!

     A solidão parece ser o pior dos vírus, eventualmente de todos o mais mortal. Depois de instalada não precisa de muito tempo para se impor e prosperar. Alojada nos nossos corações, nos nossos cérebros ou, nos casos mais complicados, alojada nas nossas almas, a solidão faz de conta que não está lá, finge não saber quem somos. E vai ficando, vai crescendo e engordando alimentando-se de qualquer coisa que nos faça falta.

    Há diferentes tipos de solidão, diversas estirpes; umas mais encarniçadas outras menos. Umas assustadoras e repelentes outras quase fofinhas. Seja qual for o aspecto ou o grau de infecciosidade, a solidão não se recomenda nem ao gato da vizinha.

            

terça-feira, dezembro 21, 2021

A palavra infecciosa

     Hoje fiz mais um teste e voltei a chumbar na questão da infecção por Covid. Como diz a minha filha, este é um teste no qual todos preferimos chumbar, ficamos felizes com a reprovação. A minha dúvida é se alguma vez virei a acusar positivo para o vírus e como reagirei caso aconteça.

    Amanhã poderei viajar um pouco mais descansado para passar o Natal com a família. Todos reprovámos no teste! 

    As autoridades pensam em reforçar as medidas de prevenção (ou serão medidas restritivas)? As palavras pesam nos nossos ouvidos e nos nossos cérebros. Uma coisa é prevenir outra será restringir. Uma coisa é aconselhar outra, muito diferente, é proibir. Nunca a comunicação foi matéria tão sensível no nosso quotidiano. A forma como as coisas são ditas pode significar a sua aceitação ou a reprovação absoluta. 

    Toda e qualquer afirmação dispara nas redes sociais com a probabilidade de tornar-se viral, disseminando-se muito mais rapidamente do que qualquer variante da Covid. precisamos de estar avisados, ter a mente vacinada contra a mentira e a estupidez. Falta inventar essa vacina e, mesmo que seja inventada, duvido que haja alguma força económica capaz de investir no seu desenvolvimento e posterior produção.

sábado, dezembro 18, 2021

Sonho de Natal

     Há de novo um certo tom catastrofista na forma como são lidas as notícias nos telejornais.Os pivots lêem os números de novos infectados, internados, acamados, entubados e falecidos e eu ouço: "Ai, Jesus!" ou "Valha-nos Deus!" ou "Vamos todos morrer!" ou "É o bicho, é o bicho, vai-te devorar...", depende do canal e do tom de voz que vai debitando a desgraça como quem serve chocolatinho quente. 

    Parece-me que a ideia é voltar a enfiar o pessoalzinho todo dentro de casa sem ter de decretar confinamento obrigatório. Com o friozinho que se vai instalando até nem é tão má ideia quanto isso mas, sabemos bem, ninguém gosta de ser pressionado, muito menos obrigado a agir desta forma ou daquela. Gostamos de nos sentir livres, Senhores do Destino. Afinal de contas fomos criados à imagem e semelhança de Deus, Nosso Senhor. É legítimo.

        Suspeita-se que a nova variante do bicho, a Omícron, seja mais infecciosa mas menos violenta na forma como nos escangalha por dentro. Ainda faltam dados científicos que sustentem esta perspectiva. Seria interessante que o bicho estivesse a adaptar-se à coexistência com a nossa espécie, oferecendo-nos esta meia trégua mal amanhada do tipo: não vos faço sofrer tanto e vocês deixam-me em paz. Era tão bom se nos pudéssemos sentar a uma mesa com os representantes do vírus e ter uma conversa construtiva sobre o assunto!

quarta-feira, dezembro 15, 2021

Desamor

     Um gajo faz testes procurando um vírus dentro do corpo. Enfiam-te uma zaragatoa no nariz, uma vez, outra, já está!. Depois vais à tua vida sabendo que mais cedo ou mais tarde (normalmente mais cedo que tarde) irás receber o resultado por SMS ou por email, tanto faz. A coisa começa a tornar-se rotineira. Até agora não recebi notícia de que seja albergue do bicho. 

    "Não detectável", disse o resultado (os resultados também falam!). Num dos vários rodapés, o resultado informa-te que o vírus não ser detectado não significa que não anda dentro de ti à procura de alojamento. Tudo bem, é o "novo normal", ser testado regularmente para poder ir a um concerto, a um jogo de futebol, para poder visitar familiares acamados... zaragatoas na penca, é o que está a dar.

    Sinceramente, quando faço o teste aguardo o resultado com a maior das calmas, ainda não me ocorreu verdadeiramente a possibilidade de estar infectado. Não por ter sido vacinado ou por usar máscara em todas as situações em que tal é aconselhado ou por desinfectar as mãos com frequência, sendo ainda capaz de as lavar a seguir. Não é por nada disso. Apenas não me passa pela cabeça.

    Esta sensação tem qualquer coisa de espírito adolescente: aquela coisa da imortalidade ou lá o que é. Não é que me sinta imortal mas tenho a impressão de que o bicho não morre de amores por mim. Oxalá!

    

terça-feira, abril 06, 2021

Apesar das máscaras

É a Primavera! Um passinho em direcção ao renascimento social. O início do desconfinamento chega com o sol e as cadeiras nascem nos passeios como flores, como ervas, brotam da calçada e são ocupadas por pessoas que parecem passarinhos. É a Primavera, tempo de renascimentos, é a Páscoa, tempo de ressurreições, é a sociedade a reaprender ser lugar de convívio entre pessoas.

Apesar das máscaras.

terça-feira, março 16, 2021

Casa nossa

O sol atrai as pessoas para o exterior das suas casas. O calorzinho de uma Primavera anunciada (a Primavera está quase quase aí) aconchega e faz o corpo relaxar. Assinamos um armistício com o Planeta apesar da pandemia. Juramos amor à Terra, prometemos que tudo faremos para a proteger... de nós próprios!?

Espera lá, ecologista leitor, quando juramos tudo fazer para tornar o Planeta sustentável estamos a ser suficientemente sinceros? Haverá nesta postura um pingo que seja de altruísmo? Quer-me parecer que é uma atitude algo interesseira. O Planeta interessa-nos enquanto espaço habitável para a espécie humana. Sim, é disso que se trata, fazer obras de manutenção na nossa casa por forma a garantirmos condições de habitabilidade por um período de tempo mais alargado.

Na verdade, se metermos a mão na consciência, a Terra estaria bem melhor se a espécie humana fosse menos preponderante, mais incapaz de interferir em tão larga escala com a saúde planetária. Se fosse o Planeta a nossa principal preocupação deveríamos de encarar a possibilidade de um honroso hara-kiri à Humanidade deixando a Natureza na paz do Senhor. Ou então, num extraordinário gesto de auto-reflexão, sermos capazes de prescindir de grande parte das nossas "conquistas civilizacionais", revertendo o modo de pensarmos a vida para níveis pré-industriais. Fauna e flora haveriam de agradecer. 

Como tudo isto nem utópico é, já sabemos, vamos continuar a alargar o sexto continente, o do plástico, a envenenar a atmosfera, a produzir gado numa escala incomportável, etc.e tal. Seja como for, o calorzinho está aí e a primavera irá proporcionar-nos a trégua habitual, iludindo por momentos os fantasmas que nos atormentam.

sexta-feira, fevereiro 26, 2021

Palavras vazias

É diário, já se sabe, bate como um martelinho de São João, poing, poing, poing, nas nossas cabeças, no nosso juízo, no que resta do nosso espaço comum, poing, poing, poing, o martelinho a martelar os números da pandemia. 

O pivô do noticiário debita os números de novos infectados, poing, internados, poing, recuperados, poing, poing, poing, e, raramente sinto as palavras tão vazias, o pivô afirma que "lamenta" os falecimentos da ordem. Diz aquilo com a mesma entoação que aplicaria se falasse da qualidade dos sapatos que tem calçados ou do arroz de pato que  encomendou na tasca da esquina (talvez o arroz de pato o levasse a colocar alguma alma na fala). A banalização do discurso que relata a catástrofe em curso tem este efeito narcótico, este amerdalhamento emocional, deixa-nos à beira da desumanização.

Quando era miúdo sempre me impressionaram as palavras de circunstância. Não sei se sentias o mesmo, amável leitor, mas lembro-me de perceber o vazio do discurso quando o discurso era vazio e de ficar estúpido por não ser capaz de encaixar as coisas. Porque havia uma pessoa de dizer algo que não sentia de forma nenhuma? Porque havia alguma pessoa de fingir ser o que, obviamente, não era? Ah, santa inocência!

Regressado ao tempo presente ressoa na minha mona o poing-poing-poing acima descrito. As questões sobre a motivação de tanta palavra vazia obtêm respostas infelizes. A inocência perdida faz-me perceber que tudo roda à volta de interesses mesquinhos, manipulações mais ou menos evidentes, agendas políticas, campanhas comerciais em curso, dinheiro, dinheiro, dinheiro e poder... um buraco sem fundo, um vazio impossível de preencher.


sexta-feira, janeiro 29, 2021

Abstracção

Ele trazia vozes dentro da cabeça. De onde vinham, de quem eram? Mistério. Primeiro apareceu aquela voz aflautada que falava do tempo e da chuva e do sol; depois uma outra, arrastada e afectada, decididamente uma voz de mulher, que não parava de o corrigir, de comparar os seus modos com os modos de outras pessoas que ele não conhecia, nunca vira nem imaginava como pudessem viver. Havia também aquela voz de barítono que gostava de contar anedotas porcas e aquele miúdo chato que pedia constantemente um copo de água, um copo de leite, uma coca-cola; cada dia chegava, pelo menos, uma nova voz. Ele trazia uma multidão dentro da cabeça.

Sentado com uma chávena de café fumegante sobre a mesa, olhava em frente, concentrado num lugar geométrico algures entre este mundo e o outro. As vozes conversavam  entre si, ele ouvia-as atentamente. O empregado aproximou-se; máscara respiratória, luvas de látex, fato de borracha. Deixou a máquina de pagamento e foi à sua vida. Aquele cliente não aparentava nada de diferente, era exactamente igual aos outros.

A esplanada espalhava-se por toda a praça. Dezenas de mesas, cada uma com um cliente sentado na única cadeira. Empregados rolando, em pé, sobre veículos especiais. Enfiados em pequenos ecrãs, os clientes permaneciam estáticos,  concentrados, alheados do ambiente circundante. Todos eles algures, entre este mundo e o outro.

sexta-feira, janeiro 15, 2021

Confinamento - parte dois

Começou o segundo confinamento geral. Desta vez as escolas mantêm-se abertas. Saí para comprar o jornal e tabaco, uma actividade que não é reprovada pelas normas em vigor. Apesar do encerramento das lojas, o movimento nas ruas pareceu-me muito semelhante ao dos últimos dias, não notei os efeitos do dever de recolhimento imposto aos cidadãos. 

Será que a propalada banalização do estado de emergência deixa as pessoas menos receptivas à ideia de se manterem em casa? Haverá algum relaxamento generalizado apesar dos números alarmantes de novos contágios e de ocupação de camas nos hospitais? Temo bem que seja isso que está a acontecer.


quarta-feira, janeiro 13, 2021

A normalidade

O novo confinamento geral está a chegar. É um soco na testa. Imagino que muita gente se sinta como eu me sinto, sinto-me acabrunhado. A verdade é que, apesar de tudo, não estava à espera disto. Medidas restritivas, sim, mas confinamento geral... outra vez...

Discute-se a possibilidade de fechar de novo as escolas, por outro lado coloca-se a hipótese de as manter em funcionamento. Não sei se volto para casa ou continuo a contactar directamente com os meus alunos. Fala-se nos vários riscos que pairam sobre toda uma geração de crianças e jovens, desde a saúde mental ao desenvolvimento intelectual e escolar.

Isto deixa-me a pensar nos riscos idênticos que afectaram as gerações de crianças e jovens que cresceram durante o salazarismo. Crescemos, estamos aqui, construímos a nossa vida a cada dia que passa.

A normalidade não existe, de facto. A existência humana, individual ou colectiva, é o resultado da conjugação de uma série de factores que mudam constantemente, é uma hibridização anárquica que flutua nos nossos corações e nas nossas mentes. Com confinamento ou sem ele temos o dever de continuar com as nossas vidas moldando o nosso Ser de acordo com as convicções que nos animam. 

Por mim continuo a acreditar que posso contribuir para construir um mundo melhor para as gerações que se seguem ou, pelo menos, evitar que o mundo se desagregue à nossa volta.


segunda-feira, janeiro 11, 2021

Viver

As portas voltam a fechar-se. Somos todos crianças que não compreendem bem as regras de convivência adequadas, fazemos asneira, somos castigados. Parece ser esta a nova ordem natural das coisas: crianças mal comportadas são confinadas. Não é brincadeira,  é a vida que temos para viver a ser posta à prova e nós a a não sermos capazes de o fazer como imaginamos que gostaríamos.


domingo, janeiro 03, 2021

Tudo bem o caraças!

"Vai ficar tudo bem" é uma das frases com que se tenta motivar o pessoalzinho no sentido de ajudar à superação da pandemia e de todos os problemas que adicionou ao nosso quotidiano delirante. No meu enviesado entendimento é uma frase de merda.

Antes da pandemia estava muita coisa mal. Demasiada coisa. Como é possível acreditar que, após uma confusão absoluta como aquela que vivemos, vá ficar tudo bem!? A verdade é que tudo isto apenas tem acentuado aquilo que já estava mal. "Quando o mar bate na rocha, quem se lixa é o mexilhão".

Acredito que é tempo de reconsiderarmos as nossas prioridades enquanto sociedade.

quarta-feira, dezembro 30, 2020

2020

Bem vistas as coisas é apenas mais um ano que se vai apagando. Já lá vão dois mil e vinte anos na nossa Era. A civilização egípcia, que se aprende nas escolas com a pirâmide de Gizé como ícone principal, durou mais de três mil, três mil anos, caraças! Quantas epidemias terá suportado além das pragas que lhe rogou o deus dos judeus? O nosso deus.

A pandemia envenena os nossos sonhos? Os sonhos de quem, de quantos? Arruinou o futuro das crianças sírias? Empurrou para o mar vagas incessantes de pessoas que fogem do mundo para dentro dele? A pandemia veio pôr a nu fragilidades e incongruências do sistema capitalista? Alarma-nos para a evidência da decrepitude do nosso modo de vida? Valha-nos Nossa Senhora. Pode ser a dos Aflitos.

Bem vistas as coisas 2020 é apenas mais um ano de merda para a espécie humana e nem sequer podemos ter a certeza que tenha sido o pior. Decerto houve outros bem mais devastadores. A verdade é que a espécie humana não sofre como um todo. O sofrimento é um coisinha muito parcelar, muito parcial e extremamente privada.

Bom Ano Novo.

terça-feira, outubro 06, 2020

Como se fôssemos ladrões

Sinto-me estranho nesta condição de professor mascarado perante turmas de alunos, também eles, de cara tapada. Bem posso sorrir, ninguém vê. A comunicação é engasgada, falta a leitura das expressões faciais, agora reduzidas a olhares. Quando um aluno fala sem levantar o braço torna-se difícil perceber qual deles foi. A sala é como um arquivo de pastas com etiquetas (cada aluno tem na mesa uma "placa" com o nome).

Não é fácil trabalhar nestas condições. A verdade é que ser professor nunca foi propriamente fácil. Após alguns anos de experiência, ser professor torna-se natural mas fácil, isso nunca. Seja como for estar na sala com a presença dos alunos, mesmo mascarados, como se fôssemos todos ladrões, é reconfortante após meses de confinamento e ensino a distância.

Deus nos guarde e permita que as aulas se mantenham nestes moldes.

domingo, setembro 13, 2020

Mascarada

 Os dias que faltam para regressar à escola vão caindo no calendário. Não sinto nada de muito especial, nem receio, nem anseio, nem uma expectativa particularmente forte que me ponha o coração a bombar de modo especial. Mas tenho alguma curiosidade em relação às aulas com máscara.

Pelo que pude verificar nas reuniões preparatórias, em aproximadamente 100 alunos que irei ter este ano lectivo, conheço apenas um pouco menos de 10. Todos os outros serão meus alunos pela primeira vez e estarão com a cara tapada por uma máscara desde o primeiro dia. Imagino se os reconhecerei sem máscara.

Este é o factor mais estranho e potencialmente transformador da minha experiência como professor. Enquanto escrevia este post recordei a polémica que estalou aqui há uns anos em França, relacionada com o uso de burca nas escolas. Não é a mesma coisa mas anda lá perto, só que ao contrário.Exige-se agora uma coisa que, à partida, era anteriormente recusada e proibida. 

O bicho humano é um animal que se adapta.

terça-feira, julho 07, 2020

A Fé e as máscaras

Estou confuso. Não sei se estou confinado ou antes pelo contrário. Saio de casa com a máscara sempre à mão, esguicho gel na entrada das lojas (já me caiu num pé, já por várias vezes falhei o alvo) e também à saída. Chego a casa e descalço-me, lavo as mãos e pronto. É tudo. Novas rotinas.

Fico sempre com a sensação de que estes hábitos que se vão entranhando têm uma eficácia limitada mas, seja como for, evito ignorá-los. É como aquele dito de quem não acredita em bruxas.

O distanciamento social vai funcionando. Agora há em todo o lado marcas no chão. "X" vermelho - não passar; seta verde - avançar por aqui; linhas amarelas - stop, é fronteira intransponível, muro imaginário, limite a respeitar. Tudo isto me parece um tanto apatetado mas respeito. Socialmente sou um tipo atreito a regras, mesmo aquelas que me deixam na dúvida.

Acredito piamente que tudo isto irá acabar um dia. Tenho fé.


domingo, junho 28, 2020

Haja saúde

Ele há coisas que acontecem, outras coisas, nem por isso. Há perguntas que me apetecia mesmo, mesmo, mesmo fazer mas que, por razões tão obscuras que me envergonham, prefiro calar e esquecer. Esquecer o quê? De que perguntas estaria eu a falar? Está esquecido.

Não sei se é sinal de crescimento e, sendo, crescimento do quê? A cada dia que passa, cada semana, cada mês, desde o início do confinamento, sinto uma espécie de desencanto que me vai pavimentando o coração até o aplanar e endurecer com uma crosta de descrença. Descreio da nossa capacidade de regenerar a sociedade, da nossa capacidade de assinar um armistício com o planeta, descreio da nossa marcha em direcção ao futuro de tal modo estamos encerrados nos preconceitos que nos construíram o passado.

Será isto um reflexo de aproximação à terceira idade? Esta pergunta atrevo-me a fazê-la mas a resposta é iludida por uma outra questão: o que é a terceira idade? Olho para a terceira idade como um reflexo da idade de reforma, a cada ano que passa ela avança mais uns meses, mais uns anos e nunca mais chega. Mas, o facto indesmentível, é que estou cada vez mais próximo dela (da terceira idade, da reforma), assim Deus me dê saúde e não me interrompa o contrato antecipadamente nem me ponha em lay off com alguma doença daquelas que, não nos matando, nos incapacita por tempo indeterminado.

Esta coisa da pandemia veio confundir a minha alegria de viver, aumentar as dúvidas, azedar certezas. A única coisa que não consegue incomodar é o amor que sinto pelas pessoas que me são mais próximas. Haja saúde!

domingo, junho 21, 2020

Escassez de sorrisos

Andamos todos mascarados. Imagino que para uma criança com imaginação unicórnica isto seja um manancial infinito de situações maravilhosas. Para mim, que já vou sentindo alguns músculos a chiar, isto da mascarada contribui fortemente para me deixar acabrunhado.

Ainda por cima, cá em casa, temos umas máscaras de plástico transparente que nos deixam o sorriso à mostra. Quando vou a um local onde todos somos obrigados a usar a máscara, continuo a sorrir com a cara toda mas os que me respondem sorriem-me apenas com os olhos. Ou então nem sequer respondem ao meu sorriso de igual modo, nem sempre dá para perceber.

Se a imposição da máscara se mantiver por muito mais tempo decerto se vulgarizarão modelos mais arrojados que a vulgar máscara cirúrgica. As grandes marcas irão colocar no mercado máscaras distintivas, símbolos de poder económico, não obrigatoriamente de bom gosto. As marcas desportivas desenvolverão máscaras que melhorem a filtragem do ar, empreendedores imaginativos lançarão modelos extravagantes.

Nos tempos que correm faltam sorrisos, vão sobrando olhares. Os sorrisos fazem-me falta.

domingo, maio 24, 2020

Desenho e pintura

Muita reflexão também não faz bem a ninguém. Ainda menos bem fará se for espicaçada por uma situação de confinamento. Uma gajo metido entre paredes contra vontade deveria evitar muita meditação sobre as questões habituais: "quem sou eu" (ou "o que sou eu"), "o que faço aqui" (pois, lá está, esta pergunta refere-se ao mundo, eventualmente ao universo, não à sala de estar ou ao quarto de banho) e, last but not least, "para onde vou" (vou para o quarto, vou para a cozinha)? Como facilmente se percebe estas questões, nos dias que ainda correm, estão todas armadilhadas, trazem coletes explosivos a envolvê-las e podem rebentar inadvertidamente.

Vivemos tempos propícios ao reforço da saúde dos macaquinhos que normalmente nos habitam o sótão. Da parte que me toca tenho evitado o espelho. Não é que seja pessoa assídua na contemplação da minha própria fachada, não é meu costume mirar a paisagem do corpo que habito, mas tenho tido um receio acrescido de olhar para os meus olhos. Dias há que os sinto mortiços, caídos para dentro e, verdade seja dita, prefiro poupar-me a semelhante espectáculo.

Estranhamente a leitura também não me tem puxado muita atenção. No início desta coisa pensei que iria ler e ler e ler, mas não. Tenho lido pouco.

Resumindo, a vida vai-se arrastando. A única coisa que me vai valendo, para lá da proximidade da família mais chegada (ah, como amo a minha família!) é o desenho e a pintura.  "Desenho e pintura?" dizes tu, "Isso são duas coisas!" Não são. Desenho e pintura, quando vêm juntos,são uma e a mesma coisa. E é essa coisa que me tem valido e ajudado a manter distraídos os macaquinhos e o sótão razoavelmente limpo.

sexta-feira, maio 22, 2020

Lição leonina

E é assim. Anuncia-se uma nova normalidade para os tempos futuros. Que faremos desta (futura) velha anormalidade? Iremos nós apagar o isolamento voluntário, transformá-lo em isolamento forçado ou iremos simplesmente aguardar que tudo se dissolva nas voltas do tempo? O tempo tem peso? O tempo ocupa espaço?

Já se nota o desafogo. As pessoas andam com fome de rua, estão capazes de comer pedras da calçada. Já começamos a cagar para o confinamento, o confinamento que se foda! Ansiosos por fazer do presente um qualquer passado longínquo fingimos nunca termos acreditado na nossa própria morte às mãos do novo coronavírus (até porque mãos são coisa que ele não tem).

E é assim, começamos a sentir aquela coragem que nos nasce no peito quando o medo passa e ganhamos uma certa sobranceria, quando o perigo passou somos todos uns valentes. Torço o nariz a tudo isto. Sinto-me como os porquinhos da história quando o lobo aparece vindo do nada depois de termos imaginado que regressara em definitivo à profundeza perdida da floresta (estou a inventar à pressão a história dos 3 porquinhos).

Bem vistas as coisas havemos todos de esticar o pernil, a nossa civilização baterá a bota, tal como outras bateram a sandália ou lá o que calçavam os que as ergueram das cinzas da civilização anterior. É o ciclo da vida. Aprende-se no Rei Leão.