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quinta-feira, julho 26, 2018

Estar alforreca

Juram-nos uma sociedade democrática e enfiam-nos com esta merda pelas trombas abaixo! Um golpe de anca, uma sobrancelha franzida, uma negaça com o calcanhar alçado num gesto relampejante... estão a gozar connosco e nós a ver. Parados. Nós: quietos. Nem mexemos um musculozito que seja. Nada. Estamos alforrecas.

Garantem-nos que a Lei existe e nós não temos como duvidar. Está certo. Lá que existe, disso ninguém duvida. O problema está na forma como é aplicada. Passa de Lei a lei num abrir e fechar d'olhos.

Nunca teremos vivido num mundo tão abundante e tão pleno de possibilidades e recursos. E, no entanto, nunca teremos sido tão enganadinhos, benza-nos Deus.

quarta-feira, janeiro 31, 2018

Caridade cristã


Miguel Relvas, esse político, por assim dizer, advoga a ideia de que, para se evitar a corrupção, os políticos deveriam ser mais bem pagos. Ou seja, mais dinheiro no bolso ao fim do mês diminuiria a tentação de ceder ao canto da sereia. Discordo.

Se um político ganha 5.000 por mês e é corrompido com uma oferta de 500.000, caso ganhasse 10.000 seria corruptível mediante o pagamento de 1.000.000, tão simples quanto isso: aritmética! Pessoalmente, estou convencido de que uma pessoa é honesta ou não é; independentemente das quantias envolvidas, a capacidade de resistir à tentação é intrínseca.

Na sociedade actual reina a convicção de que tudo se resolve com dinheiro. Existe um problema? Faça-se mais investimento e o problema tenderá a ser resolvido. Não me parece assim tão simples. A maior investimento terá de corresponder uma forma adequada de o aplicar. Talvez necessitemos de melhor investimento, um planeamento mais eficaz, uma atitude mais honesta e inteligente. Caso contrário o dinheiro investido poderá perder-se em corredores obscuros e bolsos fundos, como é costume.

Veja-se, por exemplo, o que aconteceu com os Fundos Comunitários no Portugal cavaquista. Uma parte considerável do dinheiro vertido no nosso quintal através da torneira da CEE acabou por se perder e servir apenas para enriquecer uma "elite" que, pelos vistos, ganhava pouco.

Fossem os ricos muito mais ricos e sobrariam migalhas suficientes para que os pobres não morressem de fome. Pois, a gente sabe como funciona esta espécie de caridade cristã,... está à vista!

quarta-feira, abril 06, 2016

Ladrões e bandidos

Os designados Panama Papers puseram de fora o rabo do gato escondido. Todos nós sabemos que a corrupção é uma qualidade indispensável ao exercício do poder. Mas a exposição pública dos negócios duvidosos de tanta gentalha impressiona.

Chefes de estado, personagens públicas de diversas áreas, gente polida e mais ou menos educada, muitos tementes a Deus, outros agnósticos convictos, todos eles com as patas enfiadas na merda, agora sabemos quem são.

As centenas de vigaristas revelados impressiona não tanto por serem imensos mas por conhecermos os dados secretos de apenas uma das milhentas empresas que se dedicam ao negócio de roubar o povão por este mundo fora. Multipliquemos o número de esquemas corruptos promovidos pela Mossack Fonseca agora revelados pelos esquemas semelhantes promovidos por empresas suas concorrentes e teremos a dimensão aproximada das razões que explicam o desvario total em que sobrevive a espécie humana.

A Democracia treme e vacila. Agora que estes ladrões começaram a ser publicamente expostos como irá reagir a besta capitalista? Duvido que se deixe engaiolar, decerto vai começar a destilar um veneno qualquer, vai estrebuchar e retaliar.

Aguardemos.

segunda-feira, março 14, 2016

Ilusão demoníaca?

Ao que parece todos os nossos problemas, individuais ou colectivos, têm uma raiz comum, reduzem-se a uma só questão. Dormes mal à noite? Os refugiados são barrados nas fronteiras da Europa? A extrema-direita arrebita cabeça um pouco por todo o lado? O teu vizinho espanca a mulher e bate nos filhos? Pois bem, a raiz de todos estes problemas é económica.

A Economia investe forte e feio sobre o nosso quotidiano delirante, transformando coisas diferentes numa única e mesma merda. Ela justifica todos os desmandos e cauciona todas as malfeitorias. Não há moral, não há valores nem princípios que se sobreponham à questão fundamental: a riqueza material.

É este o caminho que trilhamos enquanto indivíduos e enquanto comunidade global. Temo que, quando chegarmos a algum lado, não encontremos o mundo do vinho e das rosas que nos querem fazer acreditar ser o lugar para onde nos dirigimos.

quinta-feira, fevereiro 18, 2016

Dúvida essencial

Liberdade de expressão, liberdade de deslocação, liberdade de escolha, liberdade religiosa... assim, de repente, lembro-me de todas estas liberdades como sendo evidentes dentro das nossas fronteiras, características do nosso modo de vida.

Mas, ainda agora, vi um gajo a remexer num contentor de lixo. Ainda ontem, ao andar nas ruas da cidade, ouvi e vi pessoas com aspecto pouco próspero a arrastar os passos na calçada. Farrapos de conversas deprimentes chegaram-me aos ouvidos. Aquelas liberdades aplicam-se a quem não tem meios de subsistência dignos?

A riqueza é cada vez pior distribuída. Os ricos mais ricos, os pobres mais pobres, a história de Robin Hood ao contrário. E as liberdades...

quarta-feira, dezembro 23, 2015

Carta de agradecimento

“A realidade acaba sempre por derrotar a governação ideológica”; finalmente Cavaco conseguiu produzir uma ideia com alguma substância. Como é costume, vou tentar perceber o que quer ele dizer com isto.

Parece-me evidente que Cavaco Silva pretende dizer-nos que a realidade é constituída em partes iguais por economia e finança, sistema bancário e sistema monetário. Esta fórmula da realidade esmaga qualquer tentativa de fazer com que a ideologia, seja ela qual for, possa sair da sua Caixa de Pandora e venha desorientar as opções de vida das pessoas. Cavaco explica-nos algo que ele já interiorizou há muito, muito tempo: a realidade materializa-se em números e tabelas, fórmulas de cálculo e gráficos com setinhas. Tudo o mais são contos infantis, como disse um dia Pedro Passos Coelho.

Cavaco e Passos conhecem bem a realidade. Graças a eles a economia e a finança, o sistema bancário e o orçamento de estado têm sido, no nosso país, protegidos dos ataques descabelados da ideologia, mantendo-se ancorados na firmeza do mundo verdadeiro. Graças a eles a realidade é o que todos, agora, sabemos.

“A realidade acaba sempre por derrotar a governação ideológica” pode muito bem constituir um precioso legado que Cavaco nos deixa antes de se retirar da vida política; ele que sempre desprezou os políticos e amou, apenas, os economistas, os empresários corajosos e os gestores bancários; acima destes apenas Deus, Nosso Senhor. Não esqueçamos este ensinamento luminoso vindo de um homem presciente que nunca tinha dúvidas e raramente se enganava, um homem que não se importa de ser o Sr. Silva, este estadista visionário, modesto e imbuído de um abnegado espírito de missão que o levou a oferecer os melhores anos da sua vida à causa pública.

Termino esta carta agradecendo a Cavaco tudo que ele fez por nós: a boa governação, a honestidade acima de tudo, a sua extraordinária capacidade para entender a realidade, que tantos dissabores poupou ao bom povo português, que, com um fervor quase religioso, repetidamente lhe pôs nas mãos a bússola e o leme da Nação.


Obrigado Cavaco. Bom Natal. Depois podes ir-te embora de vez. Não precisas de voltar.

sábado, maio 02, 2015

TINA que os pariu!

João Miguel Tavares veio lembrar-nos o triste TINA (There Is No Alternative), no linguajar dos súbditos de Sua Majestade britânica que ele próprio traduz com NHA (Não Há Alternativa) na bela língua de Camões. Servem os acrónimos para justificar a triste sina dos povos endividados e “ totalmente dependentes do financiamento exterior para fazer face às obrigações mais elementares” como refere o cronista no seu texto de 30 de Abril nas páginas do Público.

Até compreendo a ideia, a coisa é terrível, estamos entregues aos mercados, esses bichos temperamentais que nos emprestam dinheiro a juros. Bicharada gorda e insaciável que não abdica do direito que tem a explorar o Zé Pacóvio seja ele português, grego, espanhol ou irlandês, tal e qual como nos filmes em que os mafiosos aproveitam a fraqueza alheia (principalmente a dos tasqueiros) para ganhar dinheiro fácil. É a lei da selva, as bestas mais agressivas e poderosas regulam, a incauta carneirada tem de aguentar ou ser comida. NHA para as políticas de austeridade, o povo é que paga.

Tudo isto faz muito sentido para quem tem a barriga acomodada e um tecto jeitoso sobre a cabecinha pensadora. Conclui sabiamente João Miguel Tavares que “convém começar por aceitar o que não podemos mudar, para depois mudar aquilo que podemos.” Eu, tal como o cronista, sou daqueles a quem a barriga não encolhe de fome nem o tecto deixa passar o frio nem chuva sobre a cabeça pensadora. Mas nós, os que vivemos com problemas suportáveis, não somos a totalidade da população, duvido até que sejamos a maioria. Há toda aquela horda de “famélicos da terra” para quem o TINA (ou NHA) significa miséria e não apenas incómodo.

A guerra é um negócio? TINA. Os países mais ricos do mundo são os principais produtores (e traficantes) de armas? TINA. A esmagadora maioria das pessoas tem de suportar condições de vida degradantes para que 1% de seres aparentemente humanos vivam de forma que nem sequer somos capazes de imaginar? TINA. O planeta tem de se parecer com uma lixeira nojenta para que este modo de vida se perpetue (até rebentar com esta coisa toda)? TINA. 

TINA mas é o caraças! Pensar que tudo se resume a TINA é ser preguiçoso, é deixar cair a ideia básica da Democracia e aceitar ser saco de sangue para vampiro. Eu digo: TINA que os pariu!


Já agora, para terminar, quero lembrar ao João Miguel Tavares que “NHA, NHA, NHA” soa a refrão de um hit de Kylie Minogue, pop bonita de ver e ouvir mas só para quem gosta ou está distraído.


quarta-feira, fevereiro 04, 2015

Lavoisier revisitado

Afinal de contas o que é isso: dinheiro? Para que serve e a quem aproveita? Que formas toma ele, como se materializa o dinheiro, que muitos consideram já a verdadeira divindade? Perguntas, perguntas, perguntas, tantas perguntas, demasiadas respostas.

O Orçamento de Estado é um exemplo de como se transforma o dinheiro em coisas mais ou menos palpáveis. O dinheiro vai para a construção e manutenção do chamado Estado Social; transforma-se em estradas, escolas, hospitais, repartições públicas, Algum desse dinheiro transvia-se e transforma-se em comida, em bebida, em mulheres apetitosas ou coisas menos classificáveis. É dinheiro que se materializa com maior ou menor nitidez mas que se materializa de forma compreensível para o comum dos mortais.

Também o dinheiro obedece à extraordinária Lei de Lavoisier, nem mais nem menos: "nada se perde, nada se cria, tudo se transforma..."

Depois há o dinheiro que se pede emprestado e se paga aos Mercados. De onde vem? Para onde vai? Em que se transformam este dinheiro? Quem beneficia da sua materialização (se é que alguma vez se chega a materializar, de facto)? O que era aquele dinheiro que foi emprestado ao nosso Estado antes de ser o ordenado que me entra no bolso e eu vou trocar por casa, comida, cigarros e outras coisas que não me apetece referir. Em que se vai transformar o dinheiro que devolvo sob a forma de imposto e é aplicado no pagamento dos célebres "juros da dívida"?

Por vezes temo que esse dinheiro se transforme em coisas que abomino, armas, para dar um exemplo. É que as armas tendem a transformar a vida em morte, a transformar a paz em guerra, não gostaria de saber que o dinheiro que resulta do meu trabalho fizesse de mim cúmplice no assassinato de inocentes em nome de uma qualquer divindade merdosa.

Não percebo nada de Economia (nunca poderei ser sacerdote desta igreja) e não consigo perceber as voltas que o dinheiro dá, as coisas em que se transforma. Assim sendo, nunca poderei compreender verdadeiramente este mundo, estarei sempre longe de apreender o sentido da minha existência e dos que me rodeiam.

Por vezes, em noites de pesadelo,sonho que somos como animais a pastar. Pastamos o nosso trabalho e a nossa miséria e assim engordamos o valor do dinheiro, através do nosso esforço em manter a vida. Depois, bem gordinho, o dinheiro (informe coisa) flui para longe de nós e vai cair direitinho no prato de umas personagens das quais consigo ver apenas a silhueta; imensa, rotunda, tenebrosa silhueta. Quando me aproximo da mesa onde as coisas que comem o dinheiro (e o cagam e o vomitam) estão sentadas começo a suar abundantemente.

É então que acordo, com a camisa colada ao peito e a testa a escorrer gotículas de aflição. Alguma vez serei capaz de me aproximar o suficiente para perceber o que são aquelas coisas que devoram o dinheiro? Temo bem que não, espero bem que não...

sexta-feira, junho 21, 2013

Apocalipse (ainda não)

A Revolução Industrial começou a mostrar aos seres humanos como poderiam ser substituídos por máquinas na produção de bens de consumo. A Revolução Informática mostra-nos como somos, cada vez mais, dispensáveis. Os seres humanos estão a mais no seu próprio mundo!

Ainda assim, muitas indústrias continuam a apostar na mão-de-obra humana. Como os custos dessa mão-de-obra são dispendiosos, os donos das fábricas "deslocam" os seus locais de produção. As fábricas são colocadas em países onde a democracia nem sequer chega a ser uma miragem, explorando  a fome, a pobreza e a ambição de uma vida melhor de multidões de trabalhadores sem direitos. Exploração do homem pelo homem na sua versão mais pura e mais dura.

Hoje surgiu-me uma pergunta: e quando, também nesses países, a Revolução Informática for uma realidade? Quando não houver outros países pobres para "deslocar" a produção? A crise que agora vivemos no Mundo Ocidental terá de alastrar inevitavelmente. Os custos de produção irão subir nos países onde, agora, são atractivos para os exploradores.

Com a população humana a aumentar de forma imparável, com a exploração de recursos a atingir níveis próximos do insustentável, com o alastrar da consciência dos direitos individuais... o balão enche e incha até quando? Até não haver mais mundo para explorar?

Será aí que o termo "apocalipse" vai fazer sentido?

sexta-feira, janeiro 18, 2013

Este reino

A China deixa muitos economistas a babarem-se quando olham os gráficos que indicam o seu forte crescimento económico. Já não bastava à China ser uma espécie de outro mundo dentro deste mundo, ainda tinha que ameaçar destronar os EUA do topo da lista dos países mais ricos do mundo.

Fala-se em milagre económico quando se fala da China? Que os EUA não são milagre nenhum toda a gente já percebeu. Aliás, por alguma razão os Polícias do Mundo, os Paladinos da Democracia, e etc, e tal sempre se recusaram ratificar os acordos climáticos internacionais. Era necessário proteger a indústria, ao que parece. Na China está a passar-se algo (muito) vagamente semelhante, é preciso apostar na indústria e no desenvolvimento económico...

Estas apostas implicam o desdém pela qualidade ambiental. É assim mesmo, não há meio termo. Portugal vai ser processado pro Bruxelas por incumprimento das normas europeias relativas à poluição atmosférica e, no entanto, tem uma indústria moribunda, quase patética. Como pode competir comercialmente com países onde não há regras a este nível? Como pode a Europa competir com a China e os EUA? Não pode.

Ficamos a saber que, neste reino de Deus, os que tentam manter o planeta em condições um pouco menos infernais, estão condenados ao desastre económico. Caso tivéssemos dúvidas ficamos a saber que a economia devora o planeta. O bem-estar da espécie é, afinal, o quê? Consumir? Parece que sim, até à destruição total.

Estamos fritos (ou talvez estejamos cozidos, não sei bem).

terça-feira, janeiro 15, 2013

Europa



Ao que parece há uma grave cisão na Europa. O edifício abre brechas por todos os lados mantendo-se forte na cúpula e fraco nas fundações. Entre o povinho, os que não têm negócios de especulação de capitais nem sabem o suficiente de mitologia ou cultura Clássica, a maioria parece estar-se nas tintas para o “sonho europeu” ou para a “Europa da Nações”, o povo não parece estar ligado a este tipo de coisas sem valores.

Já os grandes capitalistas, banqueiros, demais agiotas e sanguessugas de serviço, vão mostrando algum entusiasmo no aprofundamento das políticas de união económica e monetária que lhes permitam manter o dente canino bem ferrado na nossa tão maltratada jugular.

Os governos, essas matilhas meio desengonçadas de miúdos com bandeirinhas na lapela, a fingir que têm ideologia política para lá do fundamentalismo económico, tudo fazem para manter o actual estado das coisas: lucros privados, prejuízos nacionalizados. A cúpula está firme, os alicerces abanam com a mais suave das brisas.

O povo parece estar mais interessado no pão que no circo, daí que seja previsível a queda de uns quantos palhaços caso não se consiga encontrar um método mais eficaz de distribuir as migalhas que vão sobrando na mesa da chularia.

A União Europeia não passa de um aleijão democrático, para mal dos nossos pecados económicos.

quarta-feira, junho 20, 2012

Verdura

Fica a impressão de que eventuais avanços na adopção de políticas energéticas "amigas do ambiente" estão dependentes da maior ou menor rapidez com que os vampiros do costume consigam adaptar os seus meios de recolha de capital às características específicas das tecnologias verdes.

A frase anterior pode soar um pouco confusa; resumindo: a questão do desenvolvimento de meios de produção de energia menos poluentes é económica. Apenas e mais nada. A amizade com o ambiente é conversa.

Enquanto os grandes capitalistas detiverem, maioritariamente, interesses em empresas petrolíferas e outras formas tradicionais de enriquecimento a qualquer custo, as energias verdes vão avançar muito devagar ou, então, apenas devagarinho, como tem vindo a acontecer nos últimos anos.

Quando esses tipos transferirem os seus métodos de enriquecimento para empresas relacionadas com o vento, o sol, as marés ou outras forças do género, então veremos os níveis de poluição a serem paulatinamente reduzidos e o paraíso a chegar aí à porta.

A questão é: porque é que só agora se investe cada vez mais na descoberta e desenvolvimento de meios de energia alternativos? Porque se perderam tantas décadas, com o petróleo a ser o motor do desenvolvimento económico mundial com os resultados assustadores que se conhecem?

Ainda a procissão vai no adro mas, leitor amigo, não tens a sensação de que poderíamos conduzir automóveis menos poluentes há muito tempo? Quando esse negócio for rentável e os lucros reverterem para os bolsos certos, podes ter a certeza de que os amigos do ambiente vão estar todos no poder.


sexta-feira, dezembro 30, 2011

Falência democrática



A notícia era discreta, ocupando apenas um cantinho da página 9 da edição do jornal Público no dia 22 de Dezembro: Portugal tem uma “democracia com falhas”, dizia o título. 

Lendo a noticiazinha ficamos a saber que, em 2011, o declínio da democracia se concentrou na Europa (Finlândia, Irlanda, Alemanha, Portugal, Itália e Grécia). Todos os países da lista perderam pontos principalmente devido à erosão da soberania associada aos efeitos da crise, a União Europeia a encontrar no declínio da democracia um ponto forte das suas políticas. 

De há uns tempos a esta parte que se fala por aí, à boca pequena, do conceito de Pós-democracia, um conceito que seria interessante debater de forma mais alargada mas que, estranhamente, tem sido muito pouco (ou mesmo nada) divulgado nos meios de comunicação social. 

Podemos caracterizar a Pós-democracia como um regime em que somos governados por grupos económicos que não se sujeitam ao escrutínio popular e se representam exclusivamente a si próprios fazendo prevalecer os seus interesses particulares em detrimento dos interesses colectivos. 

Bastaria olhar para a forma como os actuais primeiros-ministros da Itália e da Grécia chegaram aos cadeirões que agora aquecem e, mais curioso ainda, observar os respectivos currículos em instituições financeiras com muitas culpas no cartório do afundamento geral das economias europeias.

Estes homens não foram eleitos, o que nos leva a um patamar superior da Pós-democracia: os responsáveis políticos são cooptados entre ex-dirigentes de grupos económicos, não se sujeitando ao escrutínio popular e representando exclusivamente os interesses particulares desses grupos em detrimento dos interesses colectivos.

É complicado viver a História antes de ela ser escrita e vertida devidamente em manuais escolares nas páginas correspondentes, para que possa ser estudada com a distância que se impõe à formação de ideias claras e conclusões avisadas. Talvez, dentro de algumas décadas, os tempos que agora vivemos venham a ser considerados como a época da falência da democracia, a génese de uma nova ordem mundial, saída daquilo que designamos por “globalização”. 

Talvez os tempos que agora vivemos venham a ser considerados como a época em que o “sonho americano” foi substituído pelo “pesadelo chinês”, os tempos em que os cidadãos das ex-democracias foram confrontados com um novo paradigma social: trabalhar cada vez mais, receber cada vez menos e ir perdendo todos os direitos que caracterizavam os “estados sociais” que evoluíram ao longo de décadas após a 2ª Guerra Mundial. Talvez as coisas venham a ser assim ou, quem sabe, talvez nada disto venha a acontecer.

Olho para o nosso primeiro-ministro, para a forma como o actual governo português tenta governar a crise e não me sinto particularmente optimista. Sinto-me até muito pessimista. Apetece-me virar as páginas do jornal rapidamente até chegar à secção de desporto ou, então, ler o jornal de trás para a frente. É preferível observar as tabelas classificativas dos vários campeonatos de futebol por essa Europa fora a concentrar a atenção nas oscilações da Bolsa.

Este texto foi enviado para a Directora do Público.

terça-feira, dezembro 27, 2011

Olhos em bico

Há uma expressão que se utiliza no nosso país que é "ficar com os olhos em bico". Utiliza-se quando alguma coisa nos impressiona ao ponto de nos deixar "com os olhos em bico". Ficamos estupefactos, estupidificados, assombrados, zonzos, surpreendidos, desorientados, em suma, corta-se-nos a respiração ao ficarmos "com os olhos em bico".

Com a venda de uma fatia considerável da EDP à Three Gorges Corporation a expressão pode vir a ganhar um novo significado.

Sem tecer considerações sobre este estranho processo de privatização que consiste na venda de capital a uma empresa pública chinesa, fica a notícia de que a coisa caíu bem entre os nossos novos amiguinhos. "O processo foi muito justo, objetivo e transparente (...). A decisão do governo português criou um bom exemplo e estabeleceu um bom precedente", disse à agência Lusa em Pequim o presidente da China Three Gorges Corporation (CTG), Cao Guangjing (lê aqui se estiveres para isso). O senhor Cao Guangjing rematou, dizendo que "A Three Gorges é uma empresa muito conhecida na China (...), Os bancos e outras empresas chinesas irão seguir-nos".

Ao que tudo indica, depois dos restaurantes e das lojas dos chineses, chegam agora as grandes empresas e os bancos do Império do Meio. "Mais negócios poderão seguir-se, à medida que as enfraquecidas economias europeias procuram clientes para ajudar a resolver as suas dívidas", disse o "China Daily" ao anunciar o resultado do concurso internacional para a privatização da EDP.


Já aqui escrevi mais do que uma vez sobre a troca do "sonho americano" pelo "pesadelo chinês". Todos os portugueses estão perante a crua e dura realidade que é "trabalhar mais, receber menos e perder direitos". Ao que parece esta é a receita para um novo modo de vida que se anuncia já para o próximo ano que está aí a rebentar, não tarda. O futuro promete deixar-nos com os olhos, cada vez mais, em bico.



domingo, outubro 30, 2011

E a Islândia, pá?

Andamos para aqui todos às marradas nas notícias sobre a crise do euro, procupados com a dívida, a pagar juros pornográficos aos amigos que nos emprestam dinheiro, andamos tão aflitos que nem temos reparado que as notícias sobre a Islândia são mais raras que gajos honestos numa secretaria de estado.

Basta fazer uma pesquisa no google sobre notícias escritas em português que tenham a Islândia por tema nos tempos mais recentes. Coisa rara. Ficamos a saber que uma islandesa mijou em público (até tem direito a vídeo) e pouco mais, além de uma balelas sobre desporto. Notícias relevantes sobre a evolução da situação económica daquele país parecem não existir.

As agências noticiosas não se interessam por esse tema? Seja lá o que for, a Islândia parece ter sido tragada pelo mar, parece ter deixado de existir. Há aqui qualquer coisa de incomodativo ou então sou eu que sou preguiçoso demais para encontrar notícias específicas sobre a crise islandesa.

sexta-feira, outubro 28, 2011

Como se fosse um periquito (só para dar um exemplo emplumado)

Leio no jornal que Madoff (sim, esse Madoff, haverá outro?) diz que é mais feliz na prisão. O exemplo fica mais claro com a transcrição da coisa: " Bernard Madoff, responsável por uma fraude que superou os 50 mil milhões de dólares, afirma que é mais feliz na prisão do que quando estava livre, porque não vive no receio permanente de ser preso. À jornalista Barbara Walters, Madoff confessou que chegou a pensar em sucicídio, mas recuperou a coragem e abandonou a ideia". Diz lá tu, caríssimo leitor, se não é isto uma coisa bonita!? Bonita de se dizer mas, mais linda ainda, bonita de se poder pensar. É ou não é?

Ler este excertozinho deixou-me próximo de um nirvana qualquer, nem sei bem qual (há diferentes nirvanas? O que é "O" nirvana?), comoveu-me mesmo. E comoveu-me porque as palavras de Madoff me permitiram compreender melhor uns seres que, até aqui, me estavam interditos em termos de compreensão. Para nos podermos sentir mais próximos de um animal nada melhor que outro animal que nos permita encetar essa extraordinária tentativa de aproximação entre espécies. Penso que agora compreendo melhor a passarada que, estando fechada na gaiola, salta, dança e ainda canta ou simplesmente chilreia alegremente, enchendo-me a imaginação de coisinhas indecifráveis mas quase boas e quase, quase bonitas.

Madoff explica-nos, na singeleza do seu pensamento retorcido, como é ser-se um bípede saltitante dentro do espaço reduzido de uma gaiola. Mas sentimos como é sê-lo alegremente, à semelhança de qualquer periquito que, apesar de ser difícil de compreender através da observação directa da sua fisionomia, nos parece um passarito suficientemente feliz e coiso e tal.

Sinto-me apaziguado. Meter bichos dentro de gaiolas não é, afinal de contas, uma atitude tão cruel quanto eu pensava.

quarta-feira, setembro 07, 2011

Comer ou não comer, eis a questão!

Este é um tema melindroso. Sim, porque falar em gordura, falar de pessoas gordas como elefantes marinhos, pessoas que comem descontroladamente tudo aquilo que lhes passa a menos de cinco centímetros das beiças pode deixar ofendidos esses candidatos a mastodonte. Não é correcto.

Já aqueles que (como eu) não resistem à tentação de fumar uma cigarrada (vou já acender mais um cigarro que estou a ficar nervoso) podem ser enxovalhados à vontade. Somos uns fracos, uns miseráveis, uns bandalhos capazes de pôr em risco a própria saúde e a daqueles que nos rodeiam e que, pelos vistos, não amamos tanto quanto imaginamos.

Assim sendo é justo que o imposto sobre o tabaco vá subindo como um alpinista em direcção ao cume do Everest. É castigo merecido para os que (como eu) pintam em tons de alcatrão os pulmões que Deus lhes (nos) deu o que, ainda por cima, deve ser pecado. Mas, isso eu sei, a gula é pecado mortal e o vício do tabaco não consta da lista. Eheheheh.

A ideia de taxar extraordináriamente também os produtos alimentares que contribuam para a degradação da saúde dos consumidores (ver aqui) entra na mesma linha de raciocínio lógico daquela ideia que faz com que o imposto sobre o tabaco aumente a olhos vistos. Ou não?

Na verdade, cá no fundo, estou-me bem a lixar para esta discussão. Ninguém come estúpidamente ou fuma desalmadamente por falta de informação. Uma coisa será tão estúpida e desalmada quanto a outra. A questão dos impostos tem outra origem: a necessidade de inventar receitas extra para os cofres do estado.

Depois deste cigarrinho talvez vá ali acima ao McDonald's (há tantos!!!) e coma um hamburguer daqueles que engordam mas deixam a alma mais sossegada. É uma questão de opção.

sábado, outubro 23, 2010

Mercado bom é mercado morto!

"O que os mercados estavam à espera era de alguma coisa, de um Orçamento", esclarece João Zorro, "e em qualidade corresponde ao que os mercados esperavam, em particular, relativamente às reduções salariais". (vê aqui, caso tenhas pachorra)

Já estou farto desta merda dos mercados. Que raio de coisa são, os mercados?

Estão sempre nervosos e expectantes, atentos a tudo o que fazemos enquanto estrutura social. Particularmente atentos às variações das políticas económicas, estes mercados sabujos parecem dominar as nossas vidas, mas alguém sabe o que são, como são constituídos, qual o seu aspecto? Têm cornos, os mercados? São peludos ou lisinhos como um rabo de bébé?

Apesar de viverem numa zona de sombra húmida e escondida dos olhares humanos, os mercados esperam coisas, reagem e sussurram ordens aos ouvidos dos economistas, os sacerdotes de serviço. E é por imposição dos mercados que os nossos salários vão ser reduzidos e que a nossa vida parece desenrolar-se numa antecâmara do inferno desde que começaram a ficar com tiques nervosos.

Porra que são susceptíveis à brava, os mercados. Piores que meninas ricas ou putas mal pagas ou polícias bêbados, mal lhes parece que as coisas estão a derrapar para longe dos seus caprichos misteriosos, logo começamos a sentir a sua má disposição. Começam as queixinhas nos noticiários, depois vem a berraria nas bolsas de valores e pronto, estamos feitos num oito!

Se alguém vir um desses mercados, por favor, enfie-lhe imediatamente um pontapé na boca e uma faca entre as costelas. Se ainda estrebuchar enterre mais a faca, até ao cabo, até ao punho, até o filho da puta do mercado deixar de mexer um cabelinho que seja.
Obrigadão.

domingo, julho 04, 2010

Pobrezas

"Bateu no fundo?" cartoon de Luís Afonso


Anda tudo afogueado com os anunciados cortes no orçamento de estado destinado ao investimento na cultura. São os artistas quem mais esperneia e com toda a razão, diga-se de passagem.

Há por aí muita gente que acha que as produções culturais não merecem apoios governamentais numa sociedade sujeita às leis do mercado que se baseiam na oferta e na procura. Muitos pensam que se um determinado produto cultural tem qualidade vende-se, garantindo dessa forma a subsistência dos produtores. Seria lindo que assim fosse mas a realidade não permite sonhos tão bonitos.

Há um factor que me parece não ser devidamente quantificado nesta situação. Falo do factor pobreza. Nos últimos tempos temos percebido que são cada vez mais os portugueses que têm extrema dificuldade me garantir os meios básicos de subsistência. Se os cidadãos têm dificuldade em arranjar dinheiro para comer ou pagar a renda de casa como podem investir o que quer que seja em produtos culturais? Ai, ai, a coisa é complicada.

Se os cidadãos não conseguem dinheiro extra para ao teatro como podem os teatros funcionar? Segundo as leis do mercado se não há procura a oferta está condenada.

Ui, vamos deixar de ter teatro em Portugal? E cinema? E dança? E orquestras? A coisa está mesmo complicada. Haverá solução para tão triste perspectiva? Pessoalmente não sei como se poderá descalçar esta bota. Os artistas procuram o apoio do estado mas, nos tempos que correm, é como um mendigo ir pedir esmola para a porta da sopa dos pobres.

terça-feira, junho 29, 2010

Aprender a gatinhar


Parece ser definitivo. A curva no gráfico da evolução das condições de vida para a maioria da população neste recanto da Velha Europa entrou em queda, vertigem de montanha russa.

Ainda ontem lia uma pequena notícia no jornal em que um empresário tuga, do sector têxtil, se mostrava esperançado por haver movimentações reinvindicativas na China, onde os operários fabris ganham, em média, 30 Euros por mês. Alvitrava esse empresário que, ganhando mais, os operários lá dos pequins e dos xangais do Oriente remoto, teriam outro poder de compra e, então, absorveriam parte significativa da sua própria produção que, nos dias que correm, inunda os mercados ocidentais como tsunamis, não deixando hipótese de concorrência.

30 Euros por mês? Ainda por cima, não havendo Natal, não há subsídio, nem acredito que o ano tenha mais meses de ordenado que os devidos ao calendário.

A China é a China e, num mundo tão desiquilibrado como o nosso, o prato chinês na balança das forças internacionais pesa mais sozinho que os outros todos juntos, fazendo com que a tendência das condições de vida por todo o planeta seja inclinada na sua direcção. Estamos ajoelhados e de cabeça baixa perante a força incontrolável da Economia, desumana e bestial.

Portugal é quase um acidente no panorama económico internacional, uma ruga no lençol da perfeição orçamental, uma insignificância a escorregar em direcção ao mar e a caír em África, não tarda. Imaginemos a coisa de outro modo, façamos uma revisão profunda dos nossos anseios e do nosso modo de vida. O futuro é risonho, há quem diga, mas é um sorriso desdentado esse que tem para nos oferecer, pois quando chegar decerto será um futuro velho.

Observemos bem os moçambicanos, os macaenses, os timorenses e outros povos próximos de nós, temos muito a aprender com eles. Temos de reaprender a viver... reaprender a sermos humanos.