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segunda-feira, abril 15, 2024

O Zé e o Midas

     Muitos remoques caem sobre o actual governo da República por ter prometido aquilo que, afinal, tinha sido oferecido pelo governo anterior. O espantoso choque fiscal anunciado por Montenegro na campanha eleitoral era, afinal, uma duvidosa habilidade retórica. Este canto de sereia terá levado muitos eleitores a depositar a cruz do seu voto na aliança de direita, permitindo-lhe desse modo a ligeira vantagem que lhe conferiu a vitória nas urnas.

    Ai Jesus, que Montenegro mentiu! Que desfaçatez, Montenegro enganou, ludibriou, foi habilidoso, quase maquiavélico... agitam-se os braços, rasgam-se as vestes, arrepelam-se cabelos em público; da esquerda à direita parlamentar todos apupam o primeiro-ministro. Como de costume, o eleitor, o Zé, o grande povo português, é poupado à reprimenda. 

    Quem orienta o voto tendo por base promessas meramente económicas recebe de troco, exactamente, aquilo que merece. Quem acredita que "tempo é dinheiro" e sabe que "não há almoços grátis", quem não é de direita nem de esquerda, é pragmático ao ponto de actuar sem conhecer, quem, enfim, anda neste mundo por interesse, não tem grande moral para se queixar quando as coisas não correspondem ao seu sonho dourado.

    Se analisarem bem o mito, o Rei Midas não passava de um imbecil ignorante.

quarta-feira, junho 07, 2023

Ainda a respeito da Economia

    

Temos vivido tempos políticos conturbados, não por questões de política propriamente dita, mas por aquilo a que os francófonos chamam "faits divers". É extraordinário que se possa continuar a discutir a legalidade de uma acção que poderá ter sido (ou não) tomada por fulano a mando de sicrano que nega tudo e o seu contrário, como se fôssemos figurantes de uma ópera bufa à escala nacional. Enquanto andamos nesta treta as coisas verdadeiramente importantes ou parecem menores ou simplesmente passam de fininho. 

            

          Veio António Costa fazer frente aos que o tentavam açoitar por não dizer a verdade, agitando-lhes à frente do nariz os números da Economia. Faltará Ética mas sobra Economia que é o que interessa! E depois vem a história dos bancos, dos certificados de aforro e dos juros e recordo a célebre afirmação de Luís Montenegro, devidamente enquadrada nos idos de 2014: "a vida das pessoas não está melhor mas a do País está muito melhor" bem na linha de outra reflexão intemporal, esta da autoria de Passos Coelho: "nós sabemos que só vamos sair desta situação empobrecendo".

 

E é muito isto! Neste período pós-geringonça recuperámos a perspectiva dos tempos da “troika”: "nós", o povinho, só nos safamos empobrecendo enquanto "eles", os ricos, não habitam o mesmo planeta e, certamente por isso, ficam cada vez mais ricos. Haverá quem consiga explicar a coisa com clareza mas eu não sou capaz. Faltam-me estudos.

 

Carta enviada ao Director do jornal Público

 

terça-feira, janeiro 31, 2023

Regabofe

    Cada dia que passa parece trazer consigo uma nova polémica. Agora anda tudo às voltas com as Jornadas Mundiais da Juventude. Os custos astronómicos associados ao acontecimento põem o país inteiro a chiar de ressentimento. E com razão. Se fosse a igreja católica a investir o guito não havia grande problema, a não ser o da incongruência de uma instituição que diz viver para amparar os pobres e os necessitados. Mas é o Estado quem mete parte de leão. Um Estado laico, note-se.

    É, de facto, um fartar vilanagem sem medida nem justificação. Tantos milhões investidos em misticismo e ilusões quando o país inteiro anda às voltas com falta de financiamento para coisas concretas e reais. Enfim, com um investimento desta monta pode ser que a Virgem resolva aparecer outra vez. Se a Virgem aparecesse no topo da pala sempre se justificava o regabofe.

terça-feira, maio 31, 2022

Haja ordem

    Quando certas questões de direitos humanos se aproximam de fronteira do intolerável e as vozes se erguem, bradando aos céus, surge sempre um maestro para pôr ordem na gritaria. É o maestro da "real politik" quem, batuta em punho, gestos categóricos, se encarrega de afinar o coro. Nada de vozes fora do tom, nada de vozes sobrepostas, ordem! 

    A coro deve afinar pela cartilha da Economia. 

        

quarta-feira, janeiro 26, 2022

Tocar como Midas

     O tão celebrado "toque de Midas" mostra bem a estupidez que reina sobre os nossos destinos. A maravilhosa capacidade de transformar em ouro tudo aquilo que a mão toque é, na verdade, uma tremenda maldição para quem a possua. O "toque de Midas" é uma sentença de morte para o seu portador e um risco terrível para quem dele se aproximar. Comer ouro não é possível, conviver com estátuas de ouro um infinito aborrecimento. O "toque de Midas" é um toque mortal.

    O próprio Midas implorou aos deuses que o livrassem daquela maldição mas a nossa sociedade continua a valorizar o dito toque. Somos burros? Sim, somos. Muito burros mesmo. Perante o brilho do ouro tendemos a ficar embrutecidos, a ganância devora-nos a razão. 

    A moral deste mito poderá estar relacionada com a voracidade infinita dos poderosos e a sua infinita capacidade para querer mais e nunca se darem por satisfeitos, mesmo que detenham uma fortuna impossível de quantificar. O mundo está cheio de reis Midas cujo toque transforma as vidas de milhões de pessoas em calvários de miséria.

    Midas não transforma em ouro tudo o que toca. Midas transforma tudo numa mistela de merda, dor e miséria. Este é o verdadeiro dom dos que tocam como Midas.

sábado, maio 29, 2021

Milhões

O Governo verte milhões de euros sobre o buraco disto, investe outros tantos no programa daquilo, a União Europeia disponibiliza milhões de euros para apostar na recuperação económica; milhões, milhões, milhões de euros para levantar a Humanidade da cova onde se vai enterrando. 

Lemos as notícias e, sem que nos apercebamos muito bem, sentimos um pequeno alívio: com tantos milhões vai ficar tudo bem ou, pelo menos, as coisas vão melhorar. É domínio do científico, próximo do matemático.

Esquecemos que deitar milhões de euros sobre os problemas, por si só, não os resolve. Os milhões precisam de planos que os canalizem de modo a não irem para o ralo do desperdício. Aí é que a porca torce o rabo ao ponto de ficar um saca-rolhas.

Milhões, milhões, milhões... o problema não será tanto a quantidade de dinheiro a investir mas sim a qualidade do investimento a realizar.

sexta-feira, setembro 27, 2019

O coração da Coisa

Começam a ouvir-se algumas vozes que admitem termos ultrapassado o ponto de não-retorno. Pessoas que falam alto nos media, que afirmam que não há volta a dar-lhe, que, apesar de estarmos a empurrar o nosso sistema de sociedade global em direcção ao abismo esse mesmo sistema permitiu reduzir (e muito) a pobreza. Apesar de aumentar as desigualdades, as diferenças entre ricos e pobres, apesar disso reduzimos muito a pobreza. Estamos de parabéns?

Estas pessoas compreendem a angústia, a fúria e o desvario dos que se revoltam contra a crescente poluição ambiental mas, dizem, e dizem-no alto, nos mass media, é impensável mudar o que quer que seja assim de um momento para o outro, sem provocar uma convulsão social e política de tal magnitude que o mundo, tal como o habitamos, acabasse por se devorar a si próprio. Não é bonito de ser visto mas tem de ser assim. Tem muita força.

Compreendo. Compreendo que os jovens se revoltem, compreendo que os tipos de meia-idade se acomodem e compreendo os velhos agarrados à saudade que têm da juventude perdida, parece-me que sou capaz de compreender esta malta toda. Ok, podem ficar tranquilos, todos têm razões suficientemente fortes, razões suficientemente válidas que justifiquem essas ideias que lhes estão a passar pela cabeça. Todos os seus actos são aceitáveis apesar de contraditórios. Vivemos numa sociedade livre... vivemos, não vivemos?

A reflexão fica por aqui, salto directo para a conclusão: estamos a trabalhar arduamente para a extinção, não da espécie humana mas do sistema capitalista enquanto paradigma sócio-económico. Enquanto a coisa foi mais ou menos localizada, mais ou menos parcial (a Coisa é a exploração capitalista, exploração dos seres vivos e dos recursos naturais com o fim absoluto do enriquecimento de uma casta de cabrões enxertados numa outra, de filhos da puta) o mundo apenas vacilou. A partir do momento em que a Coisa se globalizou, já fomos! Não há retrocesso nem , como dizem as tais vozes que referi lá mais atrás, volta a dar a isto sem que tudo acabe a ruir à nossa volta.

Assim, o melhor, é deixarmos andar, ir aproveitando enquanto pudermos viver como vivemos, os que vierem depois de nós é que se fodem.

segunda-feira, maio 13, 2019

Profecia óbvia

Li algures que estamos a viver tempos de uma militância sem esperança. Uma militância desesperada, portanto. Concordo.

A questão central prende-se com a constatação de que o crescimento económico, característico do sistema capitalista globalizado, consome tudo com uma voracidade inaudita e já teremos ultrapassado o ponto de não-retorno (começo a tornar-me repetitivo?). É simplesmente impossível imaginar que os nossos netos, para já não falar dos nossos filhos, possam viver numa sociedade semelhante a esta.

Aquilo que designamos por níveis de bem-estar são, em grande parte, resultado do consumo excessivo dos recursos planetários e, pior do que esse consumo, provocam níveis descontrolados de poluição. Poluição atmosférica, dos solos, das águas, poluição sonora, das mentes e, digo eu, da própria ideia de Humanidade.

Imaginámos que a Humanidade evoluiria em direcção a uma espécie de estado de semi-divindade. Não pensámos que poderia existir um ponto na curva evolutiva que marcasse o início da sua descida, o início do declínio. Talvez estejamos a viver próximos, muito próximos mesmo, desse ponto.

Com o declínio da Humanidade virão outros tipos de degradação em diferentes graus: social, civilizacional, "you name it". Os nossos descendentes passarão a viver em condições muito diferentes daquelas em que nasceram, eventualmente diferentes para pior... ou talvez não.

Como já disse em muitos posts neste 100 Cabeças: "a esperança é a última coisa a morrer", mas também morre.

quinta-feira, julho 26, 2018

Estar alforreca

Juram-nos uma sociedade democrática e enfiam-nos com esta merda pelas trombas abaixo! Um golpe de anca, uma sobrancelha franzida, uma negaça com o calcanhar alçado num gesto relampejante... estão a gozar connosco e nós a ver. Parados. Nós: quietos. Nem mexemos um musculozito que seja. Nada. Estamos alforrecas.

Garantem-nos que a Lei existe e nós não temos como duvidar. Está certo. Lá que existe, disso ninguém duvida. O problema está na forma como é aplicada. Passa de Lei a lei num abrir e fechar d'olhos.

Nunca teremos vivido num mundo tão abundante e tão pleno de possibilidades e recursos. E, no entanto, nunca teremos sido tão enganadinhos, benza-nos Deus.

quarta-feira, janeiro 31, 2018

Caridade cristã


Miguel Relvas, esse político, por assim dizer, advoga a ideia de que, para se evitar a corrupção, os políticos deveriam ser mais bem pagos. Ou seja, mais dinheiro no bolso ao fim do mês diminuiria a tentação de ceder ao canto da sereia. Discordo.

Se um político ganha 5.000 por mês e é corrompido com uma oferta de 500.000, caso ganhasse 10.000 seria corruptível mediante o pagamento de 1.000.000, tão simples quanto isso: aritmética! Pessoalmente, estou convencido de que uma pessoa é honesta ou não é; independentemente das quantias envolvidas, a capacidade de resistir à tentação é intrínseca.

Na sociedade actual reina a convicção de que tudo se resolve com dinheiro. Existe um problema? Faça-se mais investimento e o problema tenderá a ser resolvido. Não me parece assim tão simples. A maior investimento terá de corresponder uma forma adequada de o aplicar. Talvez necessitemos de melhor investimento, um planeamento mais eficaz, uma atitude mais honesta e inteligente. Caso contrário o dinheiro investido poderá perder-se em corredores obscuros e bolsos fundos, como é costume.

Veja-se, por exemplo, o que aconteceu com os Fundos Comunitários no Portugal cavaquista. Uma parte considerável do dinheiro vertido no nosso quintal através da torneira da CEE acabou por se perder e servir apenas para enriquecer uma "elite" que, pelos vistos, ganhava pouco.

Fossem os ricos muito mais ricos e sobrariam migalhas suficientes para que os pobres não morressem de fome. Pois, a gente sabe como funciona esta espécie de caridade cristã,... está à vista!

quarta-feira, abril 06, 2016

Ladrões e bandidos

Os designados Panama Papers puseram de fora o rabo do gato escondido. Todos nós sabemos que a corrupção é uma qualidade indispensável ao exercício do poder. Mas a exposição pública dos negócios duvidosos de tanta gentalha impressiona.

Chefes de estado, personagens públicas de diversas áreas, gente polida e mais ou menos educada, muitos tementes a Deus, outros agnósticos convictos, todos eles com as patas enfiadas na merda, agora sabemos quem são.

As centenas de vigaristas revelados impressiona não tanto por serem imensos mas por conhecermos os dados secretos de apenas uma das milhentas empresas que se dedicam ao negócio de roubar o povão por este mundo fora. Multipliquemos o número de esquemas corruptos promovidos pela Mossack Fonseca agora revelados pelos esquemas semelhantes promovidos por empresas suas concorrentes e teremos a dimensão aproximada das razões que explicam o desvario total em que sobrevive a espécie humana.

A Democracia treme e vacila. Agora que estes ladrões começaram a ser publicamente expostos como irá reagir a besta capitalista? Duvido que se deixe engaiolar, decerto vai começar a destilar um veneno qualquer, vai estrebuchar e retaliar.

Aguardemos.

segunda-feira, março 14, 2016

Ilusão demoníaca?

Ao que parece todos os nossos problemas, individuais ou colectivos, têm uma raiz comum, reduzem-se a uma só questão. Dormes mal à noite? Os refugiados são barrados nas fronteiras da Europa? A extrema-direita arrebita cabeça um pouco por todo o lado? O teu vizinho espanca a mulher e bate nos filhos? Pois bem, a raiz de todos estes problemas é económica.

A Economia investe forte e feio sobre o nosso quotidiano delirante, transformando coisas diferentes numa única e mesma merda. Ela justifica todos os desmandos e cauciona todas as malfeitorias. Não há moral, não há valores nem princípios que se sobreponham à questão fundamental: a riqueza material.

É este o caminho que trilhamos enquanto indivíduos e enquanto comunidade global. Temo que, quando chegarmos a algum lado, não encontremos o mundo do vinho e das rosas que nos querem fazer acreditar ser o lugar para onde nos dirigimos.

quinta-feira, fevereiro 18, 2016

Dúvida essencial

Liberdade de expressão, liberdade de deslocação, liberdade de escolha, liberdade religiosa... assim, de repente, lembro-me de todas estas liberdades como sendo evidentes dentro das nossas fronteiras, características do nosso modo de vida.

Mas, ainda agora, vi um gajo a remexer num contentor de lixo. Ainda ontem, ao andar nas ruas da cidade, ouvi e vi pessoas com aspecto pouco próspero a arrastar os passos na calçada. Farrapos de conversas deprimentes chegaram-me aos ouvidos. Aquelas liberdades aplicam-se a quem não tem meios de subsistência dignos?

A riqueza é cada vez pior distribuída. Os ricos mais ricos, os pobres mais pobres, a história de Robin Hood ao contrário. E as liberdades...

quarta-feira, dezembro 23, 2015

Carta de agradecimento

“A realidade acaba sempre por derrotar a governação ideológica”; finalmente Cavaco conseguiu produzir uma ideia com alguma substância. Como é costume, vou tentar perceber o que quer ele dizer com isto.

Parece-me evidente que Cavaco Silva pretende dizer-nos que a realidade é constituída em partes iguais por economia e finança, sistema bancário e sistema monetário. Esta fórmula da realidade esmaga qualquer tentativa de fazer com que a ideologia, seja ela qual for, possa sair da sua Caixa de Pandora e venha desorientar as opções de vida das pessoas. Cavaco explica-nos algo que ele já interiorizou há muito, muito tempo: a realidade materializa-se em números e tabelas, fórmulas de cálculo e gráficos com setinhas. Tudo o mais são contos infantis, como disse um dia Pedro Passos Coelho.

Cavaco e Passos conhecem bem a realidade. Graças a eles a economia e a finança, o sistema bancário e o orçamento de estado têm sido, no nosso país, protegidos dos ataques descabelados da ideologia, mantendo-se ancorados na firmeza do mundo verdadeiro. Graças a eles a realidade é o que todos, agora, sabemos.

“A realidade acaba sempre por derrotar a governação ideológica” pode muito bem constituir um precioso legado que Cavaco nos deixa antes de se retirar da vida política; ele que sempre desprezou os políticos e amou, apenas, os economistas, os empresários corajosos e os gestores bancários; acima destes apenas Deus, Nosso Senhor. Não esqueçamos este ensinamento luminoso vindo de um homem presciente que nunca tinha dúvidas e raramente se enganava, um homem que não se importa de ser o Sr. Silva, este estadista visionário, modesto e imbuído de um abnegado espírito de missão que o levou a oferecer os melhores anos da sua vida à causa pública.

Termino esta carta agradecendo a Cavaco tudo que ele fez por nós: a boa governação, a honestidade acima de tudo, a sua extraordinária capacidade para entender a realidade, que tantos dissabores poupou ao bom povo português, que, com um fervor quase religioso, repetidamente lhe pôs nas mãos a bússola e o leme da Nação.


Obrigado Cavaco. Bom Natal. Depois podes ir-te embora de vez. Não precisas de voltar.

sábado, maio 02, 2015

TINA que os pariu!

João Miguel Tavares veio lembrar-nos o triste TINA (There Is No Alternative), no linguajar dos súbditos de Sua Majestade britânica que ele próprio traduz com NHA (Não Há Alternativa) na bela língua de Camões. Servem os acrónimos para justificar a triste sina dos povos endividados e “ totalmente dependentes do financiamento exterior para fazer face às obrigações mais elementares” como refere o cronista no seu texto de 30 de Abril nas páginas do Público.

Até compreendo a ideia, a coisa é terrível, estamos entregues aos mercados, esses bichos temperamentais que nos emprestam dinheiro a juros. Bicharada gorda e insaciável que não abdica do direito que tem a explorar o Zé Pacóvio seja ele português, grego, espanhol ou irlandês, tal e qual como nos filmes em que os mafiosos aproveitam a fraqueza alheia (principalmente a dos tasqueiros) para ganhar dinheiro fácil. É a lei da selva, as bestas mais agressivas e poderosas regulam, a incauta carneirada tem de aguentar ou ser comida. NHA para as políticas de austeridade, o povo é que paga.

Tudo isto faz muito sentido para quem tem a barriga acomodada e um tecto jeitoso sobre a cabecinha pensadora. Conclui sabiamente João Miguel Tavares que “convém começar por aceitar o que não podemos mudar, para depois mudar aquilo que podemos.” Eu, tal como o cronista, sou daqueles a quem a barriga não encolhe de fome nem o tecto deixa passar o frio nem chuva sobre a cabeça pensadora. Mas nós, os que vivemos com problemas suportáveis, não somos a totalidade da população, duvido até que sejamos a maioria. Há toda aquela horda de “famélicos da terra” para quem o TINA (ou NHA) significa miséria e não apenas incómodo.

A guerra é um negócio? TINA. Os países mais ricos do mundo são os principais produtores (e traficantes) de armas? TINA. A esmagadora maioria das pessoas tem de suportar condições de vida degradantes para que 1% de seres aparentemente humanos vivam de forma que nem sequer somos capazes de imaginar? TINA. O planeta tem de se parecer com uma lixeira nojenta para que este modo de vida se perpetue (até rebentar com esta coisa toda)? TINA. 

TINA mas é o caraças! Pensar que tudo se resume a TINA é ser preguiçoso, é deixar cair a ideia básica da Democracia e aceitar ser saco de sangue para vampiro. Eu digo: TINA que os pariu!


Já agora, para terminar, quero lembrar ao João Miguel Tavares que “NHA, NHA, NHA” soa a refrão de um hit de Kylie Minogue, pop bonita de ver e ouvir mas só para quem gosta ou está distraído.


quarta-feira, fevereiro 04, 2015

Lavoisier revisitado

Afinal de contas o que é isso: dinheiro? Para que serve e a quem aproveita? Que formas toma ele, como se materializa o dinheiro, que muitos consideram já a verdadeira divindade? Perguntas, perguntas, perguntas, tantas perguntas, demasiadas respostas.

O Orçamento de Estado é um exemplo de como se transforma o dinheiro em coisas mais ou menos palpáveis. O dinheiro vai para a construção e manutenção do chamado Estado Social; transforma-se em estradas, escolas, hospitais, repartições públicas, Algum desse dinheiro transvia-se e transforma-se em comida, em bebida, em mulheres apetitosas ou coisas menos classificáveis. É dinheiro que se materializa com maior ou menor nitidez mas que se materializa de forma compreensível para o comum dos mortais.

Também o dinheiro obedece à extraordinária Lei de Lavoisier, nem mais nem menos: "nada se perde, nada se cria, tudo se transforma..."

Depois há o dinheiro que se pede emprestado e se paga aos Mercados. De onde vem? Para onde vai? Em que se transformam este dinheiro? Quem beneficia da sua materialização (se é que alguma vez se chega a materializar, de facto)? O que era aquele dinheiro que foi emprestado ao nosso Estado antes de ser o ordenado que me entra no bolso e eu vou trocar por casa, comida, cigarros e outras coisas que não me apetece referir. Em que se vai transformar o dinheiro que devolvo sob a forma de imposto e é aplicado no pagamento dos célebres "juros da dívida"?

Por vezes temo que esse dinheiro se transforme em coisas que abomino, armas, para dar um exemplo. É que as armas tendem a transformar a vida em morte, a transformar a paz em guerra, não gostaria de saber que o dinheiro que resulta do meu trabalho fizesse de mim cúmplice no assassinato de inocentes em nome de uma qualquer divindade merdosa.

Não percebo nada de Economia (nunca poderei ser sacerdote desta igreja) e não consigo perceber as voltas que o dinheiro dá, as coisas em que se transforma. Assim sendo, nunca poderei compreender verdadeiramente este mundo, estarei sempre longe de apreender o sentido da minha existência e dos que me rodeiam.

Por vezes, em noites de pesadelo,sonho que somos como animais a pastar. Pastamos o nosso trabalho e a nossa miséria e assim engordamos o valor do dinheiro, através do nosso esforço em manter a vida. Depois, bem gordinho, o dinheiro (informe coisa) flui para longe de nós e vai cair direitinho no prato de umas personagens das quais consigo ver apenas a silhueta; imensa, rotunda, tenebrosa silhueta. Quando me aproximo da mesa onde as coisas que comem o dinheiro (e o cagam e o vomitam) estão sentadas começo a suar abundantemente.

É então que acordo, com a camisa colada ao peito e a testa a escorrer gotículas de aflição. Alguma vez serei capaz de me aproximar o suficiente para perceber o que são aquelas coisas que devoram o dinheiro? Temo bem que não, espero bem que não...

sexta-feira, junho 21, 2013

Apocalipse (ainda não)

A Revolução Industrial começou a mostrar aos seres humanos como poderiam ser substituídos por máquinas na produção de bens de consumo. A Revolução Informática mostra-nos como somos, cada vez mais, dispensáveis. Os seres humanos estão a mais no seu próprio mundo!

Ainda assim, muitas indústrias continuam a apostar na mão-de-obra humana. Como os custos dessa mão-de-obra são dispendiosos, os donos das fábricas "deslocam" os seus locais de produção. As fábricas são colocadas em países onde a democracia nem sequer chega a ser uma miragem, explorando  a fome, a pobreza e a ambição de uma vida melhor de multidões de trabalhadores sem direitos. Exploração do homem pelo homem na sua versão mais pura e mais dura.

Hoje surgiu-me uma pergunta: e quando, também nesses países, a Revolução Informática for uma realidade? Quando não houver outros países pobres para "deslocar" a produção? A crise que agora vivemos no Mundo Ocidental terá de alastrar inevitavelmente. Os custos de produção irão subir nos países onde, agora, são atractivos para os exploradores.

Com a população humana a aumentar de forma imparável, com a exploração de recursos a atingir níveis próximos do insustentável, com o alastrar da consciência dos direitos individuais... o balão enche e incha até quando? Até não haver mais mundo para explorar?

Será aí que o termo "apocalipse" vai fazer sentido?

sexta-feira, janeiro 18, 2013

Este reino

A China deixa muitos economistas a babarem-se quando olham os gráficos que indicam o seu forte crescimento económico. Já não bastava à China ser uma espécie de outro mundo dentro deste mundo, ainda tinha que ameaçar destronar os EUA do topo da lista dos países mais ricos do mundo.

Fala-se em milagre económico quando se fala da China? Que os EUA não são milagre nenhum toda a gente já percebeu. Aliás, por alguma razão os Polícias do Mundo, os Paladinos da Democracia, e etc, e tal sempre se recusaram ratificar os acordos climáticos internacionais. Era necessário proteger a indústria, ao que parece. Na China está a passar-se algo (muito) vagamente semelhante, é preciso apostar na indústria e no desenvolvimento económico...

Estas apostas implicam o desdém pela qualidade ambiental. É assim mesmo, não há meio termo. Portugal vai ser processado pro Bruxelas por incumprimento das normas europeias relativas à poluição atmosférica e, no entanto, tem uma indústria moribunda, quase patética. Como pode competir comercialmente com países onde não há regras a este nível? Como pode a Europa competir com a China e os EUA? Não pode.

Ficamos a saber que, neste reino de Deus, os que tentam manter o planeta em condições um pouco menos infernais, estão condenados ao desastre económico. Caso tivéssemos dúvidas ficamos a saber que a economia devora o planeta. O bem-estar da espécie é, afinal, o quê? Consumir? Parece que sim, até à destruição total.

Estamos fritos (ou talvez estejamos cozidos, não sei bem).

terça-feira, janeiro 15, 2013

Europa



Ao que parece há uma grave cisão na Europa. O edifício abre brechas por todos os lados mantendo-se forte na cúpula e fraco nas fundações. Entre o povinho, os que não têm negócios de especulação de capitais nem sabem o suficiente de mitologia ou cultura Clássica, a maioria parece estar-se nas tintas para o “sonho europeu” ou para a “Europa da Nações”, o povo não parece estar ligado a este tipo de coisas sem valores.

Já os grandes capitalistas, banqueiros, demais agiotas e sanguessugas de serviço, vão mostrando algum entusiasmo no aprofundamento das políticas de união económica e monetária que lhes permitam manter o dente canino bem ferrado na nossa tão maltratada jugular.

Os governos, essas matilhas meio desengonçadas de miúdos com bandeirinhas na lapela, a fingir que têm ideologia política para lá do fundamentalismo económico, tudo fazem para manter o actual estado das coisas: lucros privados, prejuízos nacionalizados. A cúpula está firme, os alicerces abanam com a mais suave das brisas.

O povo parece estar mais interessado no pão que no circo, daí que seja previsível a queda de uns quantos palhaços caso não se consiga encontrar um método mais eficaz de distribuir as migalhas que vão sobrando na mesa da chularia.

A União Europeia não passa de um aleijão democrático, para mal dos nossos pecados económicos.

quarta-feira, junho 20, 2012

Verdura

Fica a impressão de que eventuais avanços na adopção de políticas energéticas "amigas do ambiente" estão dependentes da maior ou menor rapidez com que os vampiros do costume consigam adaptar os seus meios de recolha de capital às características específicas das tecnologias verdes.

A frase anterior pode soar um pouco confusa; resumindo: a questão do desenvolvimento de meios de produção de energia menos poluentes é económica. Apenas e mais nada. A amizade com o ambiente é conversa.

Enquanto os grandes capitalistas detiverem, maioritariamente, interesses em empresas petrolíferas e outras formas tradicionais de enriquecimento a qualquer custo, as energias verdes vão avançar muito devagar ou, então, apenas devagarinho, como tem vindo a acontecer nos últimos anos.

Quando esses tipos transferirem os seus métodos de enriquecimento para empresas relacionadas com o vento, o sol, as marés ou outras forças do género, então veremos os níveis de poluição a serem paulatinamente reduzidos e o paraíso a chegar aí à porta.

A questão é: porque é que só agora se investe cada vez mais na descoberta e desenvolvimento de meios de energia alternativos? Porque se perderam tantas décadas, com o petróleo a ser o motor do desenvolvimento económico mundial com os resultados assustadores que se conhecem?

Ainda a procissão vai no adro mas, leitor amigo, não tens a sensação de que poderíamos conduzir automóveis menos poluentes há muito tempo? Quando esse negócio for rentável e os lucros reverterem para os bolsos certos, podes ter a certeza de que os amigos do ambiente vão estar todos no poder.