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quarta-feira, maio 18, 2022

Cansaço

     Acabo de me aperceber que estou farto de ler no Facebook chalaças merdosas sobre a guerra na Ucrânia. Sejam os apoiantes de Putin (que têm sempre o cuidado de dizer que não são apoiantes de Putin) a fazerem humor parvo sobre as notícias ou o suposto instinto assassino dos soldados da ex-união-que-eles-tanto-adoraram; sejam os apoiantes de Zelensky a tentarem fazer humor com a duplicidade habitual dos russos ou com a suposta fraqueza do exército-não-muito-vermelho; sejam uns ou outros, não há paciência para os aturar.

    Aquelas conversas, sempre cheias de espinhos e facas escondidas, não servem para nada, não têm outro objectivo que não seja enaltecer uma suposta superioridade moral do palhaço que se manifesta e raramente têm alguma piada, de facto. São quase sempre pessoas que pretendem mostrar que têm razão, que são mais inteligentes que as outras, as que não pensam como elas. Isto partindo do princípio que alguém ainda se dá ao trabalho de pensar naquilo que escreve e que não se limita a empurrar os seus preconceitos para a frente, a mostrá-los como se fossem pérolas e a sugerir que os seus antagonistas são porcos a quem essas preciosidades estão sendo oferecidas.

    Estou cansado desta gente toda.

segunda-feira, maio 11, 2020

Cara laroca


A carreira política de Nuno Melo sempre foi, para mim, motivo de algum espanto. Tendo-se tornado ainda jovem uma cara conhecida do CDS, eleito para a Assembleia da República por várias vezes e, agora, representante desse partido no Parlamento Europeu, não me recordo, no entanto, de qualquer contributo relevante para a coisa pública vinda da parte do deputado. 

Fazendo um esforço de memória lembro a sua participação em debates televisivos e sou apenas capaz de evocar um discurso errático, por vezes brejeiro, uma postura repleta de trejeitos e olhares marotos, sorrisos trocistas, como que a camuflar um imenso vazio interior e uma ausência confrangedora de eloquência e sageza. 

A recente polémica provocada pelas suas observações, comprovadamente falsas, sobre Rui Tavares vem confirmar as minhas impressões relativas a lacunas de substância, política e humana, deste eterno “servidor” do Estado, espécie de encarnação do Calisto Elói de Camilo Castelo Branco. E, lá está, que misteriosas razões terão contribuído para tão longa e persistente carreira tribunícia?

Aqui há uns anos Jerónimo de Sousa pretendeu apoucar as listas de candidatos do Bloco de Esquerda a uma qualquer eleição insinuando que as escolhas teriam como critério principal as “carinhas larocas” de certas candidatas. Penso que Jerónimo errou o alvo.

carta enviada ao Director do Público

sábado, maio 26, 2007

Tolices

O ministro Lino terá afirmado que a Margem Sul do Tejo é um deserto. Não ouvi nem li as afirmações deste ministro com aspecto de carroceiro mas, a avaliar pelas reacções, a coisa deve ter sido "complicada" de ouvir e de ler. Já por mais de uma vez reparei no ministro em causa quando fala para os microfones. Utiliza uma linguagem bastante colorida e diz as coisas de chofre, como se estivesse a atirar postas de pescada à testa do interlocutor. É um tipo com dificuldades em medir as consequências do que diz ou, então, a simples visão de uns quantos microfones apontados na sua direcção deixam-no em estado catatónico e as palavras saem-lhe da boca sem que se aperceba muito bem do que está a dizer.
Comparar a Margem Sul do Tejo a um deserto é uma tolice de tal calibre que só muito dificilmente pode ser levada a sério. Quer-me parecer que há aproveitamento exagerado das palavras do Lino e se está a dar importância a algo que a não tem. Se repararmos bem este ministro já afirmou coisas bem mais estrambóticas noutras ocasiões mas o contexto em que o fez não se prestaria a especulações interessantes nem para o ataque político, nem para a crónica jornalística como está a acontecer desta feita, pelo que foi muito simplesmente ignorado. Penso que, se não fosse ministro, bastaria um sorriso um ligeiro abanar de cabeça. O problema é que ele é ministro e tutela as Obras Públicas.
Seja como for queria apenas dizer que, na minha qualidade de habitante do "deserto", me sinto bastante satisfeito e gosto de cá morar. Na duna em que habito, Almada (na foto), temos slogans do género "estamos do lado certo (do Tejo)" ou "Almada tem vida própria" o que é bem verdade. Temos também uma Câmara Municipal de maioria comunista e uma Presidente que goza de uma popularidade invejável. Talvez porque quando discursa perante o povo nas comemorações do 25 de Abril o faz de improviso e se empolga sempre ao ponto de chorar um bocadinho e pôr o pessoal, cá em baixo, a lacrimejar discretamente. Coisa que o Lino ministro não tem capacidade de fazer porque ele fala como um bruto insensível que, se calhar, até não é. Mas parece.

sexta-feira, maio 25, 2007

Em jeito de futebol


O secretário de estado da administração pública João Figueiredo anuncia o congelamento das carreiras até 2009 e, quatro horas depois, vem explicar que afinal é só até 2008. Tudo isto com a mesma cara, o mesmo fato, a mesma gravata e o mesmo par de óculos. Não consta que se tenha rido ou atrapalhado. Mais uma imagem de rigor e competência do nosso executivo. Com governantes assim podemos todos dormir descansados.


Reviravolta em quatro horas
Governo recua e abre a porta à existência de progressões na função pública já em 2008


Se dúvidas houvesse quanto aos métodos e processos do actual governo, esta rábula dos "congelados" poria tudo em pratos limpos. Mas não é preciso ser analista político para ver como o executivo funciona de forma intempestiva, atirando primeiro e medindo a consequência do tiro depois, ao analisar o corpo da vítima estendido no chão e hirto como carapau de corrida.

Em linguagem futebolística poderemos classificar os nossos ministros e os seus fiéis secretários de estado como "repentistas". Em geral têm pouca técnica e não estiveram atentos à prelecção do Mister quando este explicou a táctica no balneário. Uma vez chegados ao terreno de jogo, com as luzes a brilhar e as objectivas dos repórteres fotográficos a olhá-los de perto eles perdem-se e aí vai disto!

Depois, ao regressarem arfantes e ruborizados pelo esforço e a sensação do dever cumprido, o treinador chama-os à parte e dá-lhes uma descasca valente. Então era aquilo que lhes tinham dito para fazerem? Isto agora é de improviso? Desde quando é que as regras são para serem cumpridas? Só se o árbitro estiver a olhar e, mesmo assim, um gajo pode sempre enganá-lo! O que é verdade na primeira parte do jogo não o volta a ser, obrigatoriamente, ao longo da segunda. Há sempre a possibilidade de fazer teatro, mascarar devidamente a mentira para que passe por verdade verdadeira e por aí adiante.

Regressados ao terreno de jogo até parecem outros e a interpretação da táctica transfigura-se por completo. Na bancada há quem ache tudo aquilo uma valente palhaçada. Mas há também espectadores que compreendem.
Afinal somos todos humanos. Não passamos de animais!

sábado, novembro 11, 2006

Se fosse ano novo...

... comia uma fatia de bolo-rei. Um jornalista mais ingénuo pediu a Cavaco uma reacção à condenação à morte de Saddam. O presidente ficou incomodado, não respondeu. Precisou de 24 horas para construir uma opinião? Tenho pena que o nosso presidente confirme constantemente a sua proverbial falta de agilidade de raciocínio.
Ele, que tem sido tão opinativo nos discursos (que lê), não tem opinião sobre um assunto político tão importante? Ainda por cima levou 24 horas a descobrir que subscreve a posição da União Europeia.
É triste mas é assim mesmo.