Mostrar mensagens com a etiqueta comunidade. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta comunidade. Mostrar todas as mensagens

quinta-feira, fevereiro 12, 2026

Mudança de tempo, mudança de vontade

     É um sufoco, uma luta, uma batalha, andamos todos à batatada pela supremacia de uma qualquer ideia que de súbito nos assalta a mioleira, vinda sabe Deus de onde. E grunhimos, rilhamos a dentuça, carregamos na sobrancelha, espetamos o dedo, levantamos a voz numa estridência digna de um tribuno romano; dos sisudos. Com a mão livre seguramos a toga.

    Eu tenho razão, o senhor é um estúpido, quando muito posso conceder que seja apenas imbecil. Os seus argumentos são merda de vaca e o seu discurso cacarejo de galinha. Simplesmente não tem capacidade para compreender os meros fundamentos daquilo que lhe digo; não passa de um ignorante, um pobre de espírito. Ao menos isso, talvez o facto de ser um simplório lhe possa abrir as portas do céu (as portas, que os portões só se abrem para almas de gente que tenha sido importante).

    É tão fácil imaginar insultos. Dizê-los na cara de um interlocutor não é tão imediato como registá-los anonimamente nas redes sociais ou nas caixas de comentários de publicações online. Mas, com algum treino, também se lá chega. Estaremos em vias de substituir a urbanidade pela grosseria, enquanto modo preferencial de contactar com o outro?

domingo, novembro 16, 2025

Lutas, jogos e esquinas

     Uma das coisas que gosto de fazer é deixar comentários nas caixas do jornal Público online. A maior parte das vezes fico com a sensação de quem ninguém leu ou, pelo menos, deu atenção ao que opinei. Deixar aqueles comentários é como tegar paredes ou mijar nas esquinas à maneira de cães e gatos. E eu opino, eu cago, eu mijo. Porque posso. 

    Deixo aqui alguns desses comentários. Descontextualizados ganham dimensões porventura inesperadas:

    O texto sintetiza o problema com clareza. Temo que a luta entre os educadores e as máquinas esteja a ser perdida pelos seres humanos. Em breve assistiremos aos resultados dessa luta. 

    Ora aqui está um belo motivo de reflexão para aqueles que andam para aí a ronronar que não faz sentido falar em luta de classes. Faz lá agora! Isso de renomear os trabalhadores como "colaboradores" é uma das coisas mais patéticas que o capitalismo já ensaiou mas que vai fazendo o seu caminho sem problemas de maior nos meios de comunicação social que, como todos sabemos, estão ao serviço da esquerda. 

    Estranha situação em que todos parecem querer atingir o mesmo fim e nada de concreto acontece. No meio desta teia complicada alguém está a falhar ou a querer falhar. 

    Pronto, não é preciso ficarmos assim, foi só um jogo de futebol. Roí a unha do indicador direito à espera que o Félix fosse lavar o cabelo, não estava era a contar que o senhor do côco perdesse as estribeiras. Apesar de tudo, um gajo está sempre à espera de um rasgo individual de um golito, de um milagre, qualquer coisa só que hoje... nada. Nadinha. Népias. É assim mesmo. Amanhã estará tudo bem outra vez.

    E por aí abaixo, como uma cascata a bater nas rochas com vontade de as transformar em seixos, em areia, em nada. 

quinta-feira, maio 12, 2022

Drogada

     Enquanto conduzia o meu carro a gasóleo em direcção a uma estação de lavagem, daquelas que têm um elefante azul a borrifar-se com a própria tromba, formou-se-me no espírito uma desagradável imagem. Tive um vislumbre da Humanidade como um todo (talvez influenciado por certas correntes de pensamento que imaginam Deus como sendo a reunião de todas as almas, um super-não-ser, algo desse género). Bom, dizia eu: a Humanidade como um todo, todos os corpos, todos os espíritos, algo difícil de explicar. Tão difícil como aquela tal imagem de Deus.

    O desagradável da visão não foi a reunião de todos nós num único corpo (isso até é potencialmente bonito), o que me arrepiou um pouco foi ter tido a percepção de que esta tal Humanidade é uma espécie de drogada, uma toxicodependente agarrada ao consumo do Planeta. O nosso comportamento auto-destrutivo é imparável. Apesar de sabermos que o consumo selvático do planeta significa a ruína do nosso corpo e do nosso espírito, enquanto Humanidade não damos mostras de abrandamento na satisfação desta dependência. Antes pelo contrário.

    Como qualquer drogado banal, a Humanidade continua a consumir apenas para se sentir capaz de viver mais um dia. Amanhã? Logo se vê.

sábado, fevereiro 01, 2020

Say see you

E pronto, it's done, o Reino Unido cortou amarras da União e voga agora, alone, nos mares da Globalização. Sou pouco versado em política internacional mas isto, assim às primeiras, parece uma bad idea. Mas posso estar enganado.

Não sei bem o que irá mudar. Antes mesmo de Portugal ter entrado para a União já a Great Britain preenchia o meu imaginário muito por via da Pop Culture e não estou a ver que isso possa mudar significativamente com o Brexit. Como não sou um business man talvez não sinta a coisa no pêlo.

A sensação incómoda é a de que há um mundo inteiro a fazer pressão no sentido de esvaziar a União Europeia do seu significado. Russos, chineses, árabes e agora até mesmo os Estados Unidos da América, todos nos olham com desdém, como se devolvessem uma certa arrogância civilizacional que nos caracteriza.

Sem o Reino Unido ficamos mais pequenos, mais frágeis, reduzidos. Não há como ignorar isso. Mas pronto, cumpriu-se a vontade da maioria dos votantes lá da ilha. Resta dizer see you later e pouco mais. Hoje é o primeiro dia do resto das nossas vidas. Assim será amanhã e depois, e depois, e depois, ...

sexta-feira, novembro 22, 2019

Raposas na capoeira

"O sono da razão engendra monstros" a frase mágica que Goya registou para a posteridade e que, pessoalmente, me serve de retrato para a inteligência humana e para as suas construções. Este intróito em zigue-zague pretende trazer à luz algumas preocupações que me assaltaram ontem, ao ver algumas reportagens da manifestação das forças de segurança à porta da Assembleia da República.

O que vi? Polícias em manifestação, uns de punho erguido outros de braço estendido. Velhinhas e velhinhos com cartazes de apoio e polícias embevecidos com tais manifestações de carinho. Mais polícias e agentes da GNR em manifestação com os seus dirigentes debitando as habituais palavras de circunstância. Nota: todos os que vi pareciam bem barbeados, bem lavados e penteadinhos (muitos têm a cabeça rapada à skinhead), vestidos com aprumo suficiente para não assustarem quem emprenhe pelos olhos. Depois começaram a aparecer uns gajos com t-shirts do movimento zero.

Aí foi o momento da rataria sair da toca. Apareceu o Telmo Correia, apareceu o André Ventura. Um só falou para as câmaras de TV o outro teve direito a púlpito com o movimento zero a guardar-lhe as costas e a aplaudir as habituais atoardas da personagem. Foi aí que uma ideia mórbida se me atravessou, ao comprido, na mona: e se estivermos a permitir que a PSP se torne um coio de nazis e fascistas? Não é ideia nova, antes preocupação antiga mas uma coisa é sonhar, outra é ver com os próprios olhos, uma coisa é suspeitar, outra é ter a certeza.

Já participei em diversas manifestações e lutas sindicais. Já fui olhado com desconfiança (acho que os nossos embates com o estado nunca chegaram a provocar ódio entre os que discordavam das nossas formas de reivindicar direitos) e já me apercebi que aquilo que pretendemos dizer nem sempre é aquilo que fazemos ouvir. Oxalá esteja enganado mas estas movimentações dos zeros são inquietantes. É que são zeros à direita e anda por aí muito filho da puta.

sexta-feira, junho 21, 2019

Desígnio

Ultimamente tem-se falado por aí da ausência (e da necessidade de a suprir) de um ideal que possa amalgamar vontades desavindas no sentido de conferir um sentido comum ao pulsar do coração lusitano. Frase complicada, não?

Resumindo de forma directa: fala-se para aí que falta um ideal que una os tugas em torno de um desígnio comum.

A coisa saltou para a arena do falatório após a leitura em voz alta do discurso do Dia de Portugal, este ano da responsabilidade do jornalista João Miguel Tavares.

Que isto, que aquilo, que é de direita, que não tem autoridade nem saber, que sim, que não, que foi mal escolhido, que não sabe o que diz, bocas a torto e a direito, umas no alvo, outras nem por isso. Pessoalmente posso dizer que gostei do discurso, que gosto do João Miguel apesar de discordar dele em muitos pontos e em muitos aspectos.

Gosto dele porque me parece inteligente e honesto. Como sou um gajo de esquerda estou habituado a pensar que inteligência e honestidade são qualidades exclusivas do meu pessoal. É assim, um gajo pensa certas coisas sem pensar nelas! Não é preciso muito tempo de reflexão para perceber que estas qualidades não são exclusivas de nenhum campo político. Há demasiados filhos-da-puta no mundo e seria uma coincidência mágica que se amontoassem todos de um dos lados da barricada ideológica.

Penitência feita.

Mas a questão do ideal unificador ficou-me a dançar na cabeça e, já agora, proponho um: lutar contra a ignorância. Ficaria muito feliz se declarássemos aberta a época da caça à estupidez sem termo certo. Seria uma caçada eterna, assim à maneira da das divindades nórdicas lá no mundo onde se divertem.