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segunda-feira, fevereiro 16, 2026

Internacional Religiosa

     Não me parece grande ideia fechar a Deus as portas deste mundo. Deixa-se muita gente órfã a precisar de um pai que a oriente, muita ovelha a balir perdida a vaguear pelos baldios da vida. Sem Deus há multidões frágeis como cristal à beira de caírem das alturas e muito filho-da-puta à coca, muita hiena a vaguear na mamuja das sobras que os grandes cabrões, os verdadeiramente poderosos, possam deixar espalhadas pelo chão.

    Cá pra mim o ideal seria encontrarmos maneira de formar uma Internacional Religiosa. Encontrar em cada religião uma elite que acredite realmente em Deus e reunir essas elites num espaço em que pudessem maravilhar-se com as possibilidades da Sua existência. Decerto seriam capazes de construir uma via global atapetada com solidariedade e boa vontade pois é disso que a maior parte dos Deuses advogam... ou não?

segunda-feira, maio 05, 2025

Árvore Imunalógica (3ª tentativa)

 

O sol, um rio, um chacal, um hipopótamo. Um homem de longa barba e farta cabeleira branca, uma floresta, uma montanha, uma tempestade, uma mulher, um pássaro, um fantasma, ouro, muito ouro, imenso ouro! Um espírito, o mar profundo, o azul do céu, um demónio, o fogo, a água, o ar, a terra, um nome, um nome proibido, um nome impossível de pronunciar; uma nota de banco, um olho desenhado no céu.

Outro homem, filho do primeiro: encarnação; um livro, um livro sagrado, “o” livro: encadernação.

Um som, um sopro, uma ausência. A lua. A tempestade.

Deus é um híbrido, resulta do cruzamento entre a carne humana e o espírito que a anima, o que faz Dele uma ideia.

Deus, seja Ele qual for, seja Ele o que for, Deus, sem nós, não existe. Quando o último Ser Humano perecer, de Deus não restará nem a memória!

terça-feira, abril 01, 2025

Árvore Imunalógica (reflexão opaca)

     

    Em princípio Deus terá sido inventado por algo semelhante a um Ser Humano apesar de, na maioria das cosmogonias religiosas entretanto estabilizadas, a coisa tenha acontecido ao contrário. Na tentativa de clarificar esta complexa questão criou-se a adivinha: “o que apareceu primeiro?”, na qual substituímos Deus e o Ser Humano, pelo Ovo e pela Galinha. Até hoje as respostas mais conclusivas e definitivas, que postulam ter sido Deus o primeiro a aparecer e que depois vai criando tudo o que mexe e tudo o que está parado, são teorias impostas à força da martelada ou plantadas em territórios fertilizados pela mais profunda ignorância. 

    A existência de Deus parece implicar obrigatoriamente que se tenha medo de alguma coisa, reverência absoluta e necessidade de protecção perante as forças cósmicas. Trata-se de uma protecção do tipo mafioso: “se queres estar seguro pagas uma mensalidade, se não pagas ainda te acontece alguma desgraça”; esta ideia resume, de algum modo, o essencial das chamadas “religiões do livro”. Normalmente a alma é a moeda de troca.

    (continua)

terça-feira, março 18, 2025

Uma árvore imune à lógica

     Se tentarmos estabelecer uma árvore genealógica de Deus deparamos com a imensidão do Nada. 

     Deus não tem uma árvore genealógica. Deus tem uma árvore imunalógica.

domingo, fevereiro 16, 2025

Quem é Deus?

    Três mulheres calçadas com sapatos rasos e saiões caídos até aos tornozelos erguem-se com se um muro fossem, plantado em plena calçada portuguesa. Plantadas estão defronte à ampla entrada do interface do Cais do Sodré, entrada que nos engole a todos. As três mulheres, mais hirtas que firmes, são solenes sentinelas de um palácio celestial invisível.

    Completa-as um escaparate móvel com folhetos e revistas piedosas que no topo anuncia uma pergunta: "Quem é Deus?"... quem é Deus? A sério? Que merda de pergunta é aquela? Serão aqueles três saiotes capazes de me dar uma resposta? Sinto a tentação de me abeirar e pedir-lhes que me digam quem é Deus.

    Acabo por ser como todos os outros e passar em silêncio desdenhoso deixando-me engolir pela entrada até ser cuspido e escarrado do lado de lá, em direcção ao cais, em direcção ao barco.

sábado, agosto 05, 2023

Centrifugador

   

    Podia falar de outra coisa mas não parece fazer sentido fazê-lo. A presença do Papa Francisco absorve tudo. Absorve a realidade levando de mistura ilusão, fé, bom-senso, maldade e mentira. O Papa centrifuga.

    Francisco é-me uma personagem mais do que simpática. Vejo nele uma possibilidade de transformação para melhor. Mas transformação de quê? Do mundo humano? Do planeta Terra? Da igreja católica? Não sei responder. Há algo de magnético naquele velhote simpático de verbo fácil.

    Mas Francisco tem 86 anos e muitas maleitas o atrapalham. A igreja católica tem muita gente boa mas, sendo para todos, todos, todos, tem muitas víboras e lacraus com duas pernas. Quando Francisco entregar a alma ao Criador o que irá acontecer?

     Deixo-te a pergunta, leitor amigo. Guarda no teu coração a resposta que encontrares.

terça-feira, agosto 01, 2023

Um tal de Legião

     Anda tudo num corrupio por influência das Jornadas Mundiais da Juventude. São milhares de jovens com um ar um tanto apatetado capazes de desatarem a cantar e a dançar não se percebe bem porquê. Estão permanentemente felizes e sorriem tanto que aquilo há-de fazer-lhes doer as bochechas quando lavarem os dentes. Vêm dos 4 cantos do mundo e estão a deixar o pessoal que vive por estas bandas um tanto inquieto.

    Eu era para já me ter escafedido de casa mas afazeres de última hora mantêm-me por aqui. São às pázadas! Os católicos são às pázadas.Não me irritam particularmente pois tenho conseguido manter-me a uma distância razoável. Vejo-os mas quase não os ouvi. Definitivamente, ainda não fui obrigado a cheirá-los.

    Enfim, eu que tantas vezes despejo azedume sobre a igreja católica, não me sinto capaz de odiar esta putalhada simpática, apesar de me parecer chata pra caralho. Eles têm direito à felicidade. Isso chega-me para não desesperar de os ver por aí, desorientados em pequenos grupos organizados. Façam lá o que têm a fazer e regressem a vossas casas, ou fiquem por aí, o que importa? Mas reduzam-se. Tantos juntos chegam a parecer um tal de Legião.


sábado, julho 15, 2023

Deus me perdoe

   

São a mais nítida ilustração do significado da palavra... da palavra? Do conceito! As Jornadas Mundiais da Juventude, a romperem Lisboa adentro não tarda, são, provavelmente, a mais nítida ilustração do conceito de "hipocrisia" de que há memória e, por arrastamento, um retrato bem focado da igreja católica em Portugal.

 

            Dos gastos pornográficos com a organização da coisa ao modo desapiedado como são tratados os maltrapilhos da cidade, temos plasmado todo um programa social da igreja que se arrasta há séculos, meio velado por obras caridosas, e se vai mantendo ao arrepio da vontade do Papa actual. Como pode Francisco pregar o elogio da pobreza, a empatia para com as minorias e os deserdados da sociedade e subir ao palco do Trancão? Como pode Moedas bater no peitinho na missa de Domingo e limpar a cidade de mendigos à segunda feira? Tudo isto me parece de uma imensa hipocrisia, a igreja católica no seu melhor (que é também o seu pior). 

 

           Outros episódios pouco edificantes poderia analisar (o Memorial às vítimas de padres pedófilos, uma ideia piedosa que afinal não é boa ideia, ou o investimento de dinheiro público num acontecimento privado) mas não sou pessoa de bater em ceguinhos. Deus me perdoe.

 

    carta enviada ao director do Público

domingo, maio 28, 2023

Pequenas mentiras dominicais

     Tenho, por vezes, a sensação de que a presunção me poderia matar, tão forte a sinto no meu peito. Logo de seguida penso: "não é presunção tua mas do outro, tomas por presunção a tua percepção da mania de grandeza que emana daquele que discursa perante ti". Fico angustiado por não ser capaz de perceber o que realmente se passa comigo e com os outros, que relação posso estabelecer entre o que sinto, o que sei e o que acontece lá fora, ao redor do meu corpo.

    Mas afinal o que quero eu? Aspiro à santidade? Alguém consegue ser (absolutamente) imparcial na avaliação que faz de si próprio e do mundo circundante? Apercebo-me do modo como a ignorância me tem atrapalhado a existência, o modo como distorce, amplia e reduz as minhas ambições até esfrangalhar por completo a mais ténue possibilidade de percepção que possa ter de mim, do outro, do mundo.

    Poderá este texto assemelhar-se a um confuso lamento. Não creio que o seja. Faz-me lembrar vagamente os tempos em que ia à missa e, não tendo tomates para me confessar ao padre, aproveitava a homilia para imaginar conversas íntimas com Nosso Senhor. A coisa proporcionava-me momentos de imensa paz, dava-me conforto. Não é que tenha saudades desse tempo... talvez minta.

segunda-feira, abril 24, 2023

Uma grande aventura

     Nem Paraíso, nem Nirvana, nem o caraças! Muito me alegraria caso conseguisse manter a compostura durante os anos que me restam nesta vida que, imagino, seja a única que tenho e que, uma vez acabada: adeuzinho pessoal, até nunca mais!

    Penso que esta sensação de finitude absoluta não complica demasiado aquilo que se me vai formando na mona. Pelo menos por enquanto. Já ouvi falar de ateus empedernidos que se convertem à última da hora, não vá o Diabo tecê-las. Será que, chegado o derradeiro minuto, a morte nos abre nos olhos uma perspectiva qualquer sobre um outro universo? "Ah, bom, sendo assim..." pensa o ateu com um pé cá e outro no lado de lá,"... sendo assim acredito em Ti.", mesmo sem imaginar o que quer que seja que ordena o andamento destas coisas.

    Estou, portanto, a ponderar várias possibilidades de nem sei o quê. Imagino que a vida seja exactamente assim, uma aventura imprevisível mesmo até ao último suspiro.

terça-feira, janeiro 31, 2023

Regabofe

    Cada dia que passa parece trazer consigo uma nova polémica. Agora anda tudo às voltas com as Jornadas Mundiais da Juventude. Os custos astronómicos associados ao acontecimento põem o país inteiro a chiar de ressentimento. E com razão. Se fosse a igreja católica a investir o guito não havia grande problema, a não ser o da incongruência de uma instituição que diz viver para amparar os pobres e os necessitados. Mas é o Estado quem mete parte de leão. Um Estado laico, note-se.

    É, de facto, um fartar vilanagem sem medida nem justificação. Tantos milhões investidos em misticismo e ilusões quando o país inteiro anda às voltas com falta de financiamento para coisas concretas e reais. Enfim, com um investimento desta monta pode ser que a Virgem resolva aparecer outra vez. Se a Virgem aparecesse no topo da pala sempre se justificava o regabofe.

sábado, janeiro 21, 2023

Latinório

    Já reparaste bem no latinório escrito nas notas de um dólar? Fiz uma daquelas traduções farsolas que o google nos oferece e deu o que a seguir registo: "anuit coeptis" (ali de um lado e do outro do triângulo metediço) significa "ele acenou com a cabeça quando começou" e o "novus ordo seclorum" da faixa que esvoaça ordeiramente junto à base da pirâmide será "nova ordem dos tempos" com "o grande selo" a rematar, já em inglês, não vá o diabo tecê-las. Tudo isto enfeitado com a celebérrima máxima "in god we trust", que me excuso a traduzir .

    Para princípio básico de um estado fundamentalista religioso não está nada mal.



segunda-feira, janeiro 09, 2023

Acreditar

     Sim, a arte, por vezes, faz-me acreditar em coisas impossíveis. Quando disso me apercebo instala-se a dúvida: se penso uma coisa ela será impossível? A imaginação resulta numa possibilidade. Esta afirmação parece-me sólida, indiscutível. 

    São tantas as vezes em que sinto as fronteiras da realidade tremendo perante coisas impossíveis que ganham consistência, são tantas as vezes em que sinto o sonho irrompendo neste quotidiano delirante em que me movo, isto acontece tantas vezes que desisti de duvidar. Agora acredito que o impossível pode muito bem acontecer. Ou não.

    Apesar de tudo há uma coisa na qual não sou capaz de acreditar por muito que me esforce (o esforço raramente resulta quando se trata de acreditar em alguma coisa): não consigo acreditar em Deus. E Ele sabe bem que tenho tentado.

domingo, agosto 21, 2022

Fanatismos

     O ataque a Salman Rushdie veio recordar-nos os contornos obscuros de ódios irracionais que tínhamos de algum modo esquecido. A violência perpetrada em nome de Deus nunca desaparece, adormece por períodos de tempo mais ou menos longos para irromper subitamente em todo o seu terrível esplendor. O fanatismo religioso é um cancro que corrói a Humanidade. 

       Ficamos chocados com a irracionalidade dos fanáticos do Islão mas, temo bem, eles não estão sós. A República Islâmica do Irão é um anacronismo. Não há discurso dos seus líderes sem que a vontade de Deus seja invocada. Mas, ouvindo os presidentes dos Estados Unidos da América, inimigos figadais dos iranianos, verificamos que também eles cometem o pecado de invocar em vão o nome de Deus. Os americanos chegam mesmo a inscrever a sua subserviência nas notas dólar numa proverbial confusão entre a natureza de diferentes divindades . E como classificar o discurso de Jair Bolsonaro? O fanatismo e os perigos que com ele crescem não são exclusivos dos adoradores de Alá, longe disso.

      Na Europa levámos séculos a separar Deus e o Estado, séculos a cicatrizar as feridas profundas que as guerras religiosas cavaram na nossa sociedade. Agora assistimos com maior ou menor perplexidade ao ressurgimento de movimentos sociais retrógrados apoiados em discursos religiosos que pretendem impor indiscriminadamente uma ordem supostamente desejada por Deus. 

       Este monoteísmo soa a politeísmo, tão vincadas são as diferenças dos adoradores de um e outro deus e se alguma coisa coisa prova a grandeza de Alá é o facto de Salman Rushdie ter sobrevivido ao seu assassino.

sábado, agosto 13, 2022

Ódio

     É tempo de férias mas os filhos da puta não tiram dias de descanso. O cão sarnento que atacou Salman Rushdie estaria a trabalhar? A recompensa prometida ao animal que tratasse da saúde ao escritor continuava à disposição do assassino? Como podemos (como posso) processar uma selvajaria deste género?

    Isto não é uma guerra, não é retaliação por qualquer tipo de agressão física. Isto é um crime contra a Liberdade de Expressão. Isto é um Auto de Fé, está ao nível de Caim a limpar o sebo a Abel. Se nos tiram a Liberdade de Expressão pouco nos resta por que valha a pena lutar.

    Se fosse crente faria uma oração por Salman, a Alá, a Jeová, ao raio que os parta. Como não sou crente fico apenas com algo vagamente semelhante a ódio alojado no meu coração.

domingo, janeiro 16, 2022

Incapacidade

     Por vezes sinto a falta de Fé. Se bem me lembro houve um tempo em tive Fé, penso que em Deus. Hoje não tenho Fé nenhuma, pelo menos nada que possa perceber dentro de mim. Talvez por ser algo que perdi há tanto tempo não lhe sinto grandemente a falta, nem me sinto órfão por não conhecer Aquele que é, em princípio, o meu Deus. Diz o povo que "quem não sabe é como quem não vê".

    Imagino que a minha falta de Fé seja responsável pelo pouco crédito que dou aos que batem no peito durante a missa, que vejo como gorilas em busca de consolo para a sua bestialidade. Quero crer que alguns desses desgraçadinhos instantâneos sejam sinceros e acreditem, de facto, naquele ritual. Também me custa muito imaginar um Deus burocrata, de livrinho em punho, registando o deve-e-haver dos nossos pecados.

    Bem que gostava de ter Fé em Deus, a sério que gostava. Mas não sou capaz.

sábado, agosto 15, 2020

Sossego

Desejar sossego é como esperar um fantasma que nos visite ao pequeno-almoço. Um fantasma simpático, sentado à cabeceira da mesa, todo ele apenas um sorriso. O fantasma não vem, o sossego também não. O lugar prometia silêncio e isolamento. Contas furadas. Começam a chegar carros a este fim do mundo, com pessoas dentro. Pessoas faladoras e bem dispostas, ao menos isso. Ao que parece vão reunir-se para uma celebração religiosa na capela que fica ao lado da casa onde viemos parar desejando sossego. Seja feita a vontade do Senhor.

Trás-os-Montes é um território portentoso. Belo, a prometer selvajaria, montes a perder de vista, um céu azul enfeitado por nuvens muito brancas a perder de vista. Para aqui chegarmos percorremos auto-estradas, itinerários principais, itinerários complementares, estradas nacionais e, finalmente, estradecas esconsas, ladeadas por pinheiros e carvalhos, aldeolas de ruas desertas, finalmente a casa de xisto onde nos instalámos. Uma bela casa, lugar perdido, lugar isolado a prometer sossego. Até que começam a chegar carros, dos carros vão saindo pessoas, pessoas faladoras, pessoas bem dispostas. Ao menos isso.

Ouço dizer que o Senhor Padre chegará por volta das seis e meia. Caramba, nem aqui, no fim do mundo, Deus deixa um gajo em paz e afugenta o fantasma do sorriso. Da capela sobe um cântico a fazer-me recordar a igreja da minha aldeia beirã. O catolicismo é massa unificadora deste portugalzinho rural, perdido dentro de si próprio.

Está visto que desejar sossego é pedir demais a Deus Nosso Senhor.

quinta-feira, abril 30, 2020

Paraíso algures

 A Invenção do Amor (pintura em progresso)


Ando a ler um livro que tinha para aqui esquecido na prateleira, "Uma História do Paraíso" de Jean Delumeau, editado em 1992. Esta redescoberta não será estranha ao facto de estar a pintar uma tela cuja acção decorre, precisamente, no Paraíso dos cristãos, o tal Jardim de Éden.

É estranho imaginar o que passaria na cabeça dos tipos que descreveram, por vezes com uma minúcia delirante, aquele lugar que muitos acreditavam ser um espaço real, localizado algures para Oriente. O conhecimento limitado da geografia terrestre explica tal crendice o que já não se engole com facilidade é que, nos dias de hoje, haja quem faça ainda interpretações literais do Livro do Génesis. Como entender o que passa pela cabeça dos terraplanistas do século XXI?

O fechamento do universo intelectual é milho para os pardais da estupidez e para os pombos da imbecilidade. Ser capaz de cortar todos os laços com o conhecimento é obra que, ao que parece, não exige um esforço impossível.

Hoje vou pintar pés.

sexta-feira, março 06, 2020

Ressurreição

Uma dúvida me assalta vinda sabe Deus de onde: quando ressuscitarmos que corpos vamos utilizar no nosso regresso a este mundo? Dadas as primeiras imagens que se me formam no espírito depreendo que esta dúvida que me assalta é formada e influenciada por um misto de série de TV e educação católica demasiado esquecida.

O paraíso terreal habitado por uma multidão de zombies tipo Walking Dead, 10ª temporada, quando os corpos meio destruídos da zombieria já trazem ramos agarrados e restos dos corpos devorados pelo caminho? Não posso dizer que seja uma imagem bonita de reter mas poderei afirmar que é apropriada.

Ou bem que Deus se esmera e faz o maior de todos os milagres, restituindo um corpo limpinho aos ressuscitados ou vai haver reclamações em barda.

Mas, por falar em corpos limpinhos e partindo do princípio que os vamos ter, ressuscitaremos com que idade? Com a idade da hora da nossa morte? Regressaremos todos em corpos jovens e vigorosos? Convenhamos que são dúvidas perfeitamente plausíveis, capazes de influenciar a minha mente na hora de bater a caçoleta. Convinha estar informado.

sexta-feira, janeiro 17, 2020

Demónios santos

A violência sobre as crenças alheias é um crime complicado. Aquilo que os primeiros cristãos fizeram à Cultura Clássica foi um crime inqualificável, foi o triunfo da ignorância pomposa sobre a sabedoria. Os cristãos povoaram o mundo com demónios.

Primeiro descobriram demónios em cada estátua, em cada templo, em cada livro e como fervorosos crentes que eram, fizeram da sua destruição um objectivo de vida. Ao decapitarem um estátua ou no acto de incinerar uma pilha de escritos, os futuros santos vislumbravam demónios a escapulirem-se, uns, outros vociferando desesperados. E lá iam eles.

Mas muitos dos mais terríveis demónios que os cristãos trouxeram ao mundo foram os seus santos, os seus bispos, os seus exércitos de trauliteiros assassinos. A violência sobre as crenças alheias é um crime complicado.