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sábado, novembro 05, 2016

Feitiço

Havia muito tempo que o relógio da estação só marcava a hora certa duas vezes em cada dia. Quando reparei nesse pormenor apercebi-me que a minha vida é muito feita de esquecimentos. Talvez seja isso que me permite o espaço necessário à imaginação.

Talvez a imaginação necessite desses esquecimentos passageiros para que possamos encontrar-nos.

Tal como o bicho perseguido agora sai da toca, atraído pelos raios dourados do sol, esquecido do perigo que ali o enfiara, tão fundo na escuridão e no medo, também a imaginação sai da minha cabeça em busca do teu olhar.

Vivo enfeitiçado pela imaginação.

quarta-feira, outubro 26, 2016

Antes pelo contrário



Alemães, austríacos, belgas (valões e flamengos), búlgaros, cipriotas, croatas, dinamarqueses, eslovacos, eslovenos, estónios, espanhóis, finlandeses, franceses, gregos, húngaros, irlandeses, italianos, letões, lituanos, luxemburgueses, malteses, holandeses, polacos, portugueses (minhotos, beirões, ribatejanos, alentejanos e algarvios), ingleses (de malas aviadas), escoceses e irlandeses do norte (a hesitarem no aviamento das respectivas malas), checos, romenos e suecos. Tantos povos, tanta gente, uma só União, a Europeia. 

A pergunta que me dança na caverna craniana é: o que une esta União? É a Cultura? A religião? É uma ideologia política? Algum Herói, algum sonho, um ideal que seja? Não. Não me parece que haja outra coisa em comum além da deusa Economia. 

Mas, tal como o Cristianismo tem diferentes interpretações que se materializam em Igrejas particulares que apontam diferentes caminhos para a redenção das almas, também a Economia divinizada suscita debates acalorados e diferentes vias para a redenção dos orçamentos dos estados. A confusão instala-se, a coesão é uma espécie de batata que obedece a múltiplas lógicas voláteis. Pautar a construção europeia por princípios económicos equivale a desfazê-la em pedacinhos peçonhentos. 

A Economia é uma divindade prostituta, pode proporcionar prazeres momentâneos, êxtases magníficos mas, no fim do dia, exige o pagamento devido sem oferecer qualquer tipo de afecto ao pagador. 

Somos um cadáver andante, um zombie sociopolítico, uma coisa votada ao esquecimento. Sem solidariedade esta coisa de que fazemos parte não faz sentido. Sem cultura Democrática somos uma bosta. E, como bosta que somos, havemos de ir esgoto abaixo e, connosco, toda a magnífica utopia social-democrata será despejada no Mar Mediterrâneo. 

Sinto algum pesar por fazer parte deste epílogo histórico mas, por outro lado, não me pesa o coração. A tristeza que me assalta é fruto de não conseguir cumprir aquele que acredito ser o sentido da vida: deixar para as gerações futuras um mundo melhor do que aquele que encontrámos. Antes pelo contrário.

sexta-feira, maio 13, 2016

Magia

Tentar compreender o mundo que nos rodeia é tarefa impossível de concretizar. Sempre foi. Os grandes pensadores oferecem-nos lampejos clarividentes, iluminam por instantes o negrume universal.

Quando reflectimos sobre a imensidão percebemos que somos menos que um átomo no corpo frágil de uma formiga. Além disso, condenados que estamos à extinção, podemos sentir a angústia infinita de não sermos nada. Mas, no entanto, estamos aqui. Temos esta vida para viver e este universo para compreender.

É com estes pensamentos que entro no dia que se segue. Não posso dizer que esteja particularmente entusiasmado. Sei que, mais logo, terei esquecido esta deprimente reflexão. Quando der a primeira gargalhada do dia tudo se iluminará, como que por magia.

domingo, abril 24, 2016

Hoje era Domingo

Comprei o jornal e um maço de tabaco. Paguei com o meu cartão de débito. Percorri os corredores do centro comercial até entrar na FNAC. Hoje era Domingo, dia de contar contos às crianças no palcozinho do bar. O bar repleto e barulhento (os alarmes estão sempre a apitar, estridentes como alfinetes a espetarem-se-nos no cérebro). As crianças, no palco, estão hipnotizadas, os pais, embevecidos, observam. Aquele lugar não é para mim.

Saio da FNAC e dirijo-me ao Starbuck’s. Um café e um muffin de mirtilo. Sento o cú numa poltrona confortável a abro o jornal. Hoje era Domingo. O Alentejo, a Uber, a nova temporada de A Guerra dos Tronos, vou lendo notícias e artigos até que um título capta a minha atenção: “A crise da água que está a ameaçar a Índia”. A descrição dos factos é aterradora. Crianças que morrem percorrendo territórios secos em busca de água. Populações inteiras que migram em busca de água; conflitos, refugiados…

Olho pela vitrina e vejo duas crianças a reclamar qualquer coisa. Caras feias, caras tristes, os pais, severos, esticam dedos, pregam moral. De súbito sou assaltado por uma sensação de incomodidade. Penso nas crianças do outro lado do vidro e tento imaginar as crianças que morrem na Índia, em busca de água.


Fecho o jornal, dobro-o e meto-o debaixo do braço. Saio dali meio perdido. Não me lembro bem o que ia a pensar quando entrei no meu carro e liguei a ignição. O mundo é tão grande e tão diverso… talvez não pensasse em nada. O que há para pensar?

quarta-feira, abril 06, 2016

Ladrões e bandidos

Os designados Panama Papers puseram de fora o rabo do gato escondido. Todos nós sabemos que a corrupção é uma qualidade indispensável ao exercício do poder. Mas a exposição pública dos negócios duvidosos de tanta gentalha impressiona.

Chefes de estado, personagens públicas de diversas áreas, gente polida e mais ou menos educada, muitos tementes a Deus, outros agnósticos convictos, todos eles com as patas enfiadas na merda, agora sabemos quem são.

As centenas de vigaristas revelados impressiona não tanto por serem imensos mas por conhecermos os dados secretos de apenas uma das milhentas empresas que se dedicam ao negócio de roubar o povão por este mundo fora. Multipliquemos o número de esquemas corruptos promovidos pela Mossack Fonseca agora revelados pelos esquemas semelhantes promovidos por empresas suas concorrentes e teremos a dimensão aproximada das razões que explicam o desvario total em que sobrevive a espécie humana.

A Democracia treme e vacila. Agora que estes ladrões começaram a ser publicamente expostos como irá reagir a besta capitalista? Duvido que se deixe engaiolar, decerto vai começar a destilar um veneno qualquer, vai estrebuchar e retaliar.

Aguardemos.

segunda-feira, fevereiro 22, 2016

A Europa definha

A União Europeia vai-se esboroando aos olhos de todos. O alargamento a Leste trouxe para a União uma mão-cheia de países onde a tradição democrática é encarada na ponta de um cacete. Velhos aliados enganam-se mutuamente, interessados apenas em manter os privilégios das classes dominantes. A globalização "amerdalhou" tudo. A Europa perdeu empregos e perdeu trabalho. As fábricas e os capitalistas fogem do centro da União em direcção à periferia e à Ásia em busca de mão-de-obra barata, quando não escrava. Por aqui restam a especulação financeira e um desemprego galopante.

Não há ideal que aguente. Vendemos a alma a troco de patacos. Imagino que seja a marcha da História. A Europa definha, a China e a Índia parecem emergir do "merdalhal", apesar das incomensuráveis legiões de pobres e explorados que pululam nos respectivos territórios.

Até quando tudo isto irá continuar neste equilíbrio precário, antes de desabar com estrondo e poeirada? Haverá uma guerra no fim destes tempos?

sábado, fevereiro 20, 2016

"Os mercados"

De que são feitos "os mercados" que se assustam e enervam com algo tão inofensivo como o governo de António Costa num país insignificante como é Portugal e parecem impávidos e serenos com a cavalgada heróica de Donald Trump na corrida à candidatura do partido republicano para a presidência dos EUA?

Que aspecto terá essa coisa, "os mercados", qual o contorno do corpo que encerra a sua alma? Todos sabemos qual o aspecto de Deus, mostram-no inúmeras obras de arte, moldou-O a imaginação dos artistas. É um velhote enxuto, de longas barbas e cabelos brancos. Tem o aspecto devido ao que imaginamos que Ele é.

E "os mercados" que se sentem confortáveis com as guerras, com a miséria, com o enriquecimento selvagem dos vampiros, que não têm sentimentos, nem nada que se assemelhe a bondade? Quem lhes faz o retrato?

terça-feira, dezembro 19, 2006

Nós?


Time's Person of the Year: YouIn 2006, the World Wide Web became a tool for bringing together the small contributions of millions of people and making them matter.
Para a revista Time "nós" somos a personalidade do ano.
Nós todos metidos numa palavra só, "you", os que andamos pela NET a vasculhar, a escrever, a ler e mais que seja.
Nós somos a personalidade do ano por estarmos a participar na construção de um fenómeno de comunicação de massas que vai ganhando proporções mirabolantes a cada dia que passa e insistirmos nisso com persistência.
Nós, habitantes do 1º mundo, seres viventes das sociedades democráticas, mediáticas, capitalistas e consumistas, interessados na Informação. Interessados em consumi-la e em criá-la.
Nós, cada vez mais actores e, simultâneamente, espectadores da vida que nós próprios vivemos.
Nós, cientistas sociais e cobaias no nosso laboratório.
Nós, cibernautas insuspeitos.
Nós, enquanto seres virtuais, manipuladores de coisa nenhuma e de tudo, por arrasto.
Nós?

sábado, dezembro 16, 2006

Paraíso incómodo

O facto de os exames nacionais de Filosofia para os 10º e 11º anos do Ensino Secundário deixarem de existir em 2008 e de a disciplina passar a ser opcional no 12º ano está a provocar alguma apreensão entre as elites do pensamento indígena.
As orientações do Ministério da Educação são, mais uma vez (já cansa!), postas em causa tanto pelo senso comum como pelo senso menos comum e mais elaborado.

Talvez as cabeças falantes do Ministério tenham chegado à conclusão que pensar menos diminui o sofrimento.

Um parvo despreocupado e trabalhador parece ser mil vezes preferível a um pensador, eventualmente torturado pela visão de um mundo cada vez mais obviamente injusto e pouco democrático o que lhe poderá provocar um défice de produção.
Um parvo acredita facilmente que vive em democracia desde que alguém, vestido de fato e gravata, lho garanta com o rigor próprio de um tom de voz adequado. Já um cidadão habituado a questionar a mais simples evidência terá dificuldades em engolir toda a merda que lhe queiram enfiar goela abaixo pelo funil dos meios de comunicação de massas.

O mundo está a mudar. No futuro não será melhor nem pior do que alguma vez já foi. Será diferente. Se for um mundo habitado por cidadãos que pensem menos do que os de hoje, haverá menos sofrimento para os que sofrem e menos remorso para aqueles que provocam esse sofrimento. Isso é potencialmente bom, embora à primeira vista possa parecer uma coisa má e cruel. É o ovo de Colombo do economicismo neoconservador, a porta que se entreabre para o Paraíso dos mongas em que estamos a transformar a nossa sociedade. Um paraíso incómodo.



terça-feira, outubro 17, 2006

(...)


Saio de casa à hora do lobisomem. Agradeço à lua não estar ainda cheia. No carro evito o espelho por receio. Até as caixas de cartão me parecem cadáveres de objectos consumidos.
Dou por mim a imaginar o futuro tal como me lembro de tê-lo imaginado para a data presente e é tudo tão parecido!
Espero estar acordado amanhã.

quarta-feira, outubro 11, 2006

Brincadeira?

criancinhas norte coreanas em brincadeira tradicional

"O Governo da Coreia do Norte afirma que a continuação da pressão por parte dos Estados Unidos será interpretada como uma declaração de guerra, que levará o país a tomar "uma série de contra-medidas" não especificadas. "

Retirado de Público on line

Nem sei se dá para levar a sério uma conversa deste género!
Este mundo está definitivamente entregue a palhaços maus e demasiado perigosos.