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sexta-feira, abril 10, 2026

Casa

     Primeiro foi a minha Mãe. Depois faleceu o meu Pai. A partir daí deixei de ter Casa. Apercebo-me agora de que os meus avós também entravam na minha concepção de ter uma casa própria, um lugar de abrigo onde o amor era incondicional e nunca posto em questão. Por vezes cai uma certa nostalgia como se neve fosse. O falecimento daqueles que amamos não reduz o amor que transportamos no peito mas este tende a diluir-se no espaço-tempo. 

    Agora tento preservar esse amor construindo uma Casa para a minha mulher e a minha filha. Deus me dê alento. 

domingo, fevereiro 12, 2023

Enquanto Caronte não vem

     Enquanto Caronte não chega contemplamos memórias difusas, inventamos pretextos que preencham as conversas. As memórias vêm e vão, trazidas e levadas pela corrente eterna e lenta do escuro rio. Sob o negrume das águas adivinham-se almas errantes que nadam como se fossem peixes esquecidos do que são. Enquanto Caronte não vem.

    Enquanto Caronte não chega tentamos encontrar motivos que façam do tempo uma coisa viva, uma coisa que possamos viver juntos. Prolongamos a espera. Sabemos que Caronte vem a caminho. Não sabemos se rema ou deixa a sua nave negra simplesmente vogar por sobre as águas quietas. Aguardamos. Sabemos que Caronte lá vem.

segunda-feira, fevereiro 14, 2022

Insuportar

     Estou em crer que, bem lá no fundo, todo e cada um de nós é uma pessoa insuportável. Se tivermos de partilhar a nossa existência com outras pessoas ao longo de todos os dias de cada semana que passa, a convivência haverá de atingir pontos de difícil equilíbrio. O problema não será o "eu" ou o "outro", o problema será aquilo que nasce entre nós e que nos é, na verdade, exterior, embora nem sempre sejamos capazes de o compreender. 

    Essa incompreensão poderá ser fruto de sentirmos o incómodo tão dentro de nós. O facto de se nos alojar no peito, no coração, nas veias, de nos transformar a respiração em angústia, muito contribuirá para não sermos capazes de compreender a raiz do problema. 

    A raiz do problema é a proximidade... é a convivência... é o cheiro... é a palavra... seja a palavra a mais, seja a outra, a palavra que foi a menos... a raiz do problema é não sermos capazes de perceber qual é, afinal, o problema. Tanto posso ser eu como pode ser o outro ou nenhum dos dois.

    Lá no fundo, lá no fundo, todo e cada um de nós é uma pessoa insuportável. Basta haver outra pessoa, nem precisam ser duas.

terça-feira, janeiro 21, 2020

Calorzinho

É complicado ter esta sensação de que a nossa civilização caminha para o abismo a passo de Golias e ser professor, lidando diariamente com tantas crianças, ver diariamente tantos sorrisos, perceber tanta inocência, é complicado.

É complicado assumir que estou a preparar estas pessoazinhas para a vida quando não tenho a mínima noção do que será essa vida dentro de 20, 30 ou 40 anos. Aqui há 30 anos atrás, quando comecei a minha carreira, o problema não se me colocava, o futuro tinha contornos menos indefinidos e, ainda assim, vai saindo absolutamente diferente do que então imaginava. A transformação social acelerou de modo estonteante e continua a acelerar. Ainda por cima sem travões.

É complicado, mas o calor humano ajuda-me a superar tudo. Ajuda-me a sorrir, ajuda-me a interagir, ajuda-me a viver intensamente todos os momentos. Pode soar lamechas mas é a mais pura das verdades. O calor humano é o que vale a pena, tudo o resto são tretas.

terça-feira, fevereiro 17, 2015

Do Amor

Foi no Dia dos Namorados. Na peixaria encontrei o coração que a imagem acima ilustra. Uma representação de um coração ou, talvez seja mais exacto, uma representação do Amor.

Quem idealizou aquela pequena instalação artística? Não faço ideia. Talvez uma peixeira, não sei. Quando os meus olhos embateram na coisa fiquei meio hipnotizado.

Grotesco.

Aterrador ou enternecedor? O meu coração balançou perigosamente à beira de um abismo estético.

Discretamente fotografei a coisa com o meu telemóvel. Enquanto esperava a minha vez para ser atendido (Um polvo, se faz favor.) reflecti sobre o impulso de quem concebeu aquele pequeno mas fascinante horror.

As pescadas formando um coração, o pormenor colorido dos morangos, como dois coraçõezinhos mais pequenos (ou dois pingos de sangue?). Decerto aquela imagem fora concebida e construída sob o signo da Beleza. Quem fez aquilo, decerto considerou o conjunto como uma expressão de Beleza. Disso não restarão grandes dúvidas.

Esta manifestação de sensibilidade artística merecia lugar em qualquer galeria de arte contemporânea.

sexta-feira, fevereiro 14, 2014

Namoros

Hoje é dia de trabalho rotineiro para o Cupido em que ele faz horas extraordinárias. É suposto que ofereçamos coisas que, de algum modo, simbolizem e comemorem o amor.

Essas coisas terão um carácter pessoal, pequenos símbolos privados, significados secretos que apenas a nossa outra parte seja capaz de compreender. Pode ser um pedaço de tecido, uma música, uma simples palavra, um sorriso. O amor é assim, uma coisa extremamente complexa que se caracteriza pela sua extraordinária simplicidade.

Quem ama sabe o que deve oferecer: amor.

Há também a parte mercantil na comemoração deste denominado Dia dos Namorados. Os apaixonados recorrem às lojas para comprar o tal objecto simbólico. Mas, como se criam símbolos do amor que possam ser produzidos e comercializados em massa? Qual o denominador comum da paixão transformada em objecto?

Multiplicam-se os objectos em forma de coração ou decorados com coraçõezinhos de todos os tamanhos e o vermelho predomina. O amor comercial é de um kitsch a toda a prova, o gosto duvidoso dos objectos que se comercializam nesta data é proverbial.

Não é o amor sempre ridículo? Não são as palavras de amor algo que nos escapa boca fora e que só dizemos quando nos encontramos em estado de total estupefacção perante o mundo olhado desde o olhar cego do nosso coração?

O amor não tem cérebro, talvez por isso seja tão avassalador.

domingo, junho 06, 2010

Caos total

Quanto pode um homem apaixonar-se e quanto tempo pode durar essa paixão?
Eu digo-vos, ó meus compinchas, que não há regra nem limite.
A coisa é mais do que eterna!
Quando nos dizem que as paixões esmorecem e que, no horizonte benigno, haverá de surgir uma coisa mais ou menos informe a que gostam de chamar "amor", eu vos aviso, compinchas meus... treta!
A paixão, quando nasce de rompante, leva mais tempo a desaparecer do que o tempo que dura uma vida. Porque a paixão não é mais o que o fogo do desejo. E quando esse fogo se canede (acende-se ninguém sabe como) nunca mais esmorece e, muito menos, se apaga. Se o amor existe, isso só pode ser paixão. Enorme, assolapada, absoluta. Para sempre. Desejo até que um dia desapareça a face da terra.
Caos total.