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terça-feira, janeiro 13, 2026

Aniversário

     Hoje completo 63 anos de vida. Umas vezes parece-me muito, outras pouco, não consigo decidir se estou a ficar velho ou antes pelo contrário. Noto que venho reparando cada vez mais na idade com que faleceram as personagens históricas. A minha filha ofereceu-me um livro com ilustrações de William Blake para A Divina Comédia. Ao ler o texto introdutório lá dei por mim a fazer contas de modo a calcular com que idade morreram um e outro, Dante e Blake. Logo após as contas feitas raciocino, tento comparar as épocas em que viveram com a actual, qual seria a esperança de vida razoável e concluo que, a haver reformas, estas teriam acontecido aos meus heróis muito mais cedo do que aquilo que me está prometido. Sei que nada disto tem a mínima utilidade ou validade, sei que isto não é nada mas faço o exercício apenas porque posso fazê-lo e ninguém me irá chamar a atenção para o vazio em que tento manter-me a pairar.

    Além dos familiares mais próximos, que vão sendo cada vez menos pois os falecimentos vão-se sucedendo a um ritmo mais ou menos constante, ninguém me dá os parabéns nem eu falo do assunto. Ainda hoje, absolutamente por acaso, veio à baila durante a aula a questão dos signos do Zodíaco. Concluímos que na turma não há ninguém que seja "peixes" e algum  miúdo me perguntou qual é o meu signo ao que respondi "isso é demasiado pessoal" e ri-me. Ri-me, sobretudo, por ser o dia do meu aniversário e por estarmos a falar de um assunto acerca do qual nunca falamos.

    Já as minhas caixas de email ficam razoavelmente cheias de mensagens fofinhas que me são enviadas  pela direcção da escola, pelas editoras de livros escolares, pelos Centros de Formação, pelas instituições bancárias, pelas companhias de seguros, todos os que, de uma forma ou de outra, têm conhecimento da data do meu aniversário e não se acanham na hora de chatear. São robots, não sabem o que fazem. Talvez isso lhes garanta uns quantos lugarzinhos no Céu.

sábado, setembro 13, 2025

Centenário

    Quando eu fizer 100 anos há quantos anos estarei já morto e enterrado? E se estiver vivo??? Caraças, grande cena. Se estiver vivo serei decerto uma espécie de múmia: sem cabelo nem gordura, dores nos ossos e nos músculos, se ainda respirar não sei se quererei estar consciente do que for. Talvez a demência seja uma defesa contra a decrepitude absoluta do corpinho.

    Mas, estar vivo é hipótese académica que não levo a sério. Por isso mesmo talvez seja tempo de ir pensando em nomear uma comissão organizadora dos festejos em memória do que eu fui (e ainda virei a ser enquanto por cá andar). Nunca é tarde e raramente é cedo demais para uma cena destas. 

segunda-feira, dezembro 02, 2024

19 anos

     No passado dia 28 de Novembro o 100 Cabeças completou 19 anos de existência virtual. Não há qualquer sentimento especial associado à data. Não há qualquer situação extraordinária a reportar. As coisas são o que são, são pouco ou nada. E 19 anos a escrevinhar posts num Blogue são isso mesmo.

    Os textos que aqui vou deixando têm-me sido úteis em várias situações. Já me serviram para escrever peças de Teatro, já me serviram para programas de exposições e apresentações públicas. O 100 Cabeças é uma espécie de ferramenta.

    Irei continuar a fazer isto até não conseguir mais fazê-lo. Ainda o farei dentro de 19 anos?

quarta-feira, junho 01, 2022

Criançada

     Hoje comemora-se o Dia da Criança. É uma ideia bonita que vai perdendo ou ganhando significado conforme a criança que comemora. Há certas zonas do planeta onde as crianças são soldados, noutras são trabalhadoras a soldo de empresas mais ou menos grandes, há locais onde ser criança é um pesadelo (e não precisa de ser um local geográfico definido por fronteiras terrestres). Há crianças ricas que são infelizes e outras que, sendo pobrezinhas, transbordam felicidade. Ser criança não obedece às definições impostas pelas organizações internacionais que se ocupam em organizar estratégias que defendam esse estatuto.

    Há crianças que nunca chegam a sê-lo, algumas nascem com a velhice já ali ao dobrar da esquina. Há, por outro lado, crianças que nunca deixam de o ser até ao dia longínquo em que batem as botas. Há crianças que vivem a infância num estado de permanente felicidade; são tão felizes, tão felizes que algumas ficam estúpidas para o resto da vida.

    Podia estar para aqui a elencar indefinidamente estados de alma e situações sociais que ora atrapalham ora beneficiam a condição de ser criança. Esses estados de alma e situações sociais são tantos, tão variados, dependem de tantas variáveis que se combinam de forma tão aleatória, que é difícil imaginar como comemorar o Dia da Criança. 

    Deve ser por isso que hoje de manhã, quando fui ao centro comercial fazer algumas compras havia uma fila de centenas de criancinhas alinhadas na entrada principal. Quando subi as escadas vindo do estacionamento a algaraviada das suas vozes infantis ribombava pelo espaço agitando o templo do consumo. O que estavam aquelas crianças a fazer ali? Decerto haverá uma boa razão que eu, no entanto, desconheço.

terça-feira, abril 26, 2022

Montanha-russa

     Lá se passou mais um 25 de Abril, cada vez mais longe vai ficando 1974. Os cabelos embranquecem, a barriga ganha contornos de redondez mais acentuada, um ou outro músculo já se vai queixando sem grandes esforços que o justifiquem. A idade avança mas os sonhos continuam a ser sonhados, talvez a realidade não se compadeça com a sua realização.

    A evolução social do nosso país tem sido uma espécie de cometa disparado na imensidão do espaço. O país que éramos, o país que somos! Sinto orgulho em fazer parte desta pandilha de tótós, capazes de feitos imensos logo abafados por atitudes colectivas desconcertantes. Somos uma sociedade um tanto bipolar, vamos da euforia à depressão profunda em menos de 10 segundos. E vice-versa.

    Vivemos tempos complicados, tempos em que a tal evolução social vai sendo posta à prova e o aparente crescimento imparável conhece obstáculos difíceis de ultrapassar. É para mim um mistério este renascimento da pulsão fascista que ensombra os dias luminosos da Europa. Temo que tenhamos chegado ao topo da montanha-russa. Segue-se a vertigem da descida?

quinta-feira, novembro 28, 2019

14 anos de idade

É hoje (hoje é dia 28 não é?) o aniversário deste blogue. Estamos em Novembro, certo? Sim, 28 de Novembro, catorze anos atrás, se bem faço a conta, postei o primeiro texto aqui, no 100 Cabeças. Este é o post 2076.

14 anos em idade de Blogue corresponderá a quantos anos em termos de vida humana? Há quem saiba estabelecer uma relação entre a idade dos gatos e a dos seus acompanhantes, a idade dos cães e a idade dos seus mestres, é só fazer a continha. Quanto aos Blogues...

14 anos é a idade média dos meus alunos actualmente. Ou seja, aqueles a quem tento ensinar qualquer coisinha nos dias que vão correndo estariam a nascer quando este Blogue dava os primeiros passinhos. O que poderá isto significar? Só pode significar... absolutamente nada!

Vá lá, não sendo tão drástico na apreciação, significa que passaram exactamente 14 anos e que 14 anos são, exactamente, isso mesmo.

Estou a escrever este texto num computador numa sala na minha escola. Há uma fila de 4 mesas viradas para a parede, em cada uma seu computador. Tenho uma colega à minha esquerda que fala para uma outra, à minha direita como se eu não estivesse aqui, entre elas. A minha defesa é constituída por uns auscultadores ligados ao telemóvel e música em volume exagerado (neste momento estou a ouvir Charlie don't surf dos Clash).

Estou também equipado com generosas doses de paciência e de boa educação. Tão generosas são as doses que suporto esta grosseria sem cuspir viperinamente à colega do lado um "fecha a matraca", que era o que me apetecia fazer. Mas não, quando era puto ainda fui tomar chá a casa da prima umas duas ou três vezes acompanhando a minha avó e sempre aprendi uma ou outra coisinha que agora me ajudam a fazer de conta que esta merda não me incomoda. O que faria eu há 14 anos atrás se estivesse numa situação como esta?

Era bem possível que fizesse exactamente isto, escrever um post no 100 Cabeças.

segunda-feira, novembro 28, 2016

Um rabisco

Tanta gente a tentar perceber o que aconteceu, como foi possível? Quem votou em Trump, quais as razões desses votos?

Cada cabeça sua sentença (ou, como se diz neste blogue: 100 cabeças, 1000 sentenças) as opiniões dividem-se. Ora disparam em lucubrações fantásticas, ora serpenteiam em complexas associações de ideias mas, no fim das contas, ninguém pode afirmar que Trump foi eleito por estes ou por aqueles que o terão feito por isto ou por aquilo.

E se, lá no fundo, a razão principal que levou à eleição do homem dos cabelos complexos for tão simples quanto ele ser a imagem mais límpida de uma certa estupidez humana? E se ele foi eleito por mero reflexo, um gesto geral e impensado, executado por uma multidão de votantes pouco dados a reflectir sobre questões éticas ou morais?

Talvez o Trump-presidente seja apenas isso: um rabisco desorientado feito pela multidão numa página da História contemporânea. Seja lá isso o que for... quem sabe?

Nota: o 100 Cabeças completa hoje 11 anos de existência.

quarta-feira, janeiro 13, 2016

Feliz aniversário

O dia de aniversário é como o dia de Carnaval: um gajo tem de estar bem-disposto, prontinho a entrar em estado de euforia, cantarolar, rir, dançar, dizer alarvidades inocentes. Dias assim deixam-me deprimido.

Se por acaso acordamos com propensão para a melancolia e não nos apetece celebrar há sempre alguém que vai ficar chateado, que mostrará decepção e tristeza. Por vezes há mesmo quem mostre irritação.

Tu estás triste quando deverias estar eufórico, derramas tristeza sobre a euforia, fazes com que as coisas amoleçam, derretam, se desfaçam.

Mas qual é o teu problema, caraças!? Feliz aniversário, mas é. Deixa-te de merdas.
Pois sim, já me tinhas dito.
Obrigado.

domingo, janeiro 03, 2016

Bom ano de 2016

Ora então, cá estamos nós.
É com isto que se parece 2016? Noto-lhe bastantes semelhanças com 2015 e, eventualmente, algumas diferenças significativas. O tempo a passar é como fumo dentro de uma garrafa de vidro.

Sinceramente, não tenho desejos especiais para 2016 que não tenha tido já em anos anteriores. Afinal de contas os nossos anseios não se alteram assim tanto quando mudamos o calendário por outro, novo, com os quadradinhos dos dias todos por preencher. O tempo a passar é como uma linha mais ou menos recta.

Gostava de poder manter uma certa serenidade que tenho sentido dentro de mim. Será isso o bastante para provar a mim próprio que o mundo está melhor? A minha relação com o mundo pode alguma vez servir de bitola para medir a amplitude da sua saúde? É óbvio que não. A única saúde que essa serenidade poderá anunciar será a minha o que, do meu ponto de vista, até nem é coisa que me aborreça.

Que te sintas também sereno e de bem com as coisas que te rodeiam, é o que te desejo, amigo leitor.
Bom ano de 2016.

quinta-feira, março 21, 2013

Vergonha

Cumpriu-se ontem o 10º aniversário da invasão do Iraque pelas forças ocidentais comandadas pelo exército americano.

Há dez anos atrás o debate foi violento e apaixonado. Estive do lado dos invasores embora discordasse em absoluto com a guerra e tivesse a certeza de que a manipulação da opinião pública fazia de nós pouco mais que simples marionetas.

A afirmação anterior pode parecer contraditória; como pude estar do lado dos agressores discordando das suas aviltantes razões? Mera questão geográfica e civilizacional, creio. Ainda hoje sinto alguma vergonha por isso.

Fiquei absolutamente dividido. Odiei profundamente todos os mentirosos que nos empurraram para essa aventura irresponsável liderada por um louco demente como George W. Bush mas não podia sentir compaixão por um tirano odioso como Saddam Hussein.

No meio de tudo o que se seguiu as vítimas foram, como seria previsível, todos os inocentes que sofreram na pele a violência e a morte. Agora, guerra finda, o Iraque continua a ferro e fogo. A exportação do sistema democrático, imposto à força da bala e da bomba, frutifica do modo que todos conhecemos.

O balanço dessa guerra não podia ser mais negativo.

terça-feira, novembro 28, 2006

1 ano


Max Ernst (French, born Germany, 1891–1976)The Blessed Virgin Chastises the Infant Jesus Before Three Witnesses: A.B., P.E. and the Artist, 1926Oil on canvas; 77 1/4 x 51 1/4 in. (196 x 130 cm)Museum Ludwig, Köln

Faz hoje precisamente 1 ano que dei início ao 100 CABEÇAS.
No início não sabia muito bem o que isto iria ser.
Hoje, 232 posts depois com este incluído, continuo mais ou menos na mesma embora tenha mais umas ideias sobre o alcance da coisa que é próximo do centímetro e meio.
A vontade de continuar é inversamente proporcional à necessidade de ir ali e voltar num instantinho que o arroz está quase pronto.
Ao longo deste ano morreu muita gente e nasceu muita criança, embora as notícias continuem a falar mais dos que se vão que daqueles que chegam, embora o contrário mostrasse mais saúde mas muito menos interesse.
Resumindo e concluindo: o 100 CABEÇAS está por estes lados, mais ou menos diariamente, mais ou menos interessante ou pedante ou arquejante, mas está. No dia em que deixar de estar será motivo para perguntar "O que se passa?".
A pergunta anterior é vivamente recomendada a todo e qualquer momento que se mostre à esquina da rua um rabo de gato a contorcer-se naquele seu jeito sedutor e hipnótico. O gato pode não estar escondido mas o mais provável é que queira passar despercebido.
Feliz desaniversário 100 CABEÇAS!