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segunda-feira, julho 13, 2026

Fim de viagem

     Ah, a liberdade! A liberdade absoluta de escrever, desenhar, de pensar, de poder exprimir o que vai chegando às fronteiras do meu cérebro sem estar a olhar por sobre o ombro, sem ter de apurar a vista na contemplação das sombras. Não há nada que pague essa loucura.

    Sem liberdade de expressão não pode haver felicidade. Disso estou ciente, isso eu sei, já descobri há muito tempo e, desde o momento dessa descoberta, tenho percebido melhor o que é a infelicidade; logo sinto-me mais perto da vaga possibilidade de vir a compreender o que é, o que significa, que forma tem ou pode vir a ter a felicidade. Não sendo propriamente o fim da viagem em direcção ao Nirvana, a chegada à estação terminal, é algo que proporciona alguma paz de espírito e isso, posso garantir-te, encalorado leitor, já é alguma coisa. Atrever-me-ia mesmo a afirmar que isso é já uma grande coisa! Tenho, no entanto, a esperança de que haja coisas maiores, coisas muito maiores.

    E é assim mesmo, exactamente como lês: digo o que quero, escrevo como quero, não tenho compromissos com ninguém, nem sequer contigo, que tropeçaste neste texto e, milagrosamente, ainda o lês. Ou leste, porque este texto não passa daqui.

sábado, julho 04, 2026

Felicidade e Liberdade

     Não imagino um espaço capaz de proporcionar alegria aos que o habitam se não existir nele liberdade de expressão. A alegria pode encenar-se, pode representar-se, macaquear-se, pode-se trapacear de muitos modos diferentes aquilo que mostramos aos outros, mas cá dentro, no escuro do peito, a verdade dos sentimentos nunca mente. Sabemo-lo bem.

    Fingir a felicidade acontece muito, é uma das mentiras mais comuns que por aí andam. Umas vezes por piedade, outras por maldade, umas vezes por estultícia, outras por razões maquiavélicas, a felicidade representa-se muito. Sente-se pouco? 

    Há quem diga não saber o que isso é, a felicidade; há quem reclame para si um estado de enlevo permanente por sentir-se próximo de uma divindade qualquer; há quem afirme que o poder económico que alcançou lhe permite comprar tantas coisas, inventar e suprir tantas necessidades, que aquilo que sente só pode ser felicidade. Situações tão distintas, pessoas tão diferentes umas das outras, vidas totalmente opostas, culturas, religiões, civilizações separadas no tempo e no espaço, milhentas formas de vida uma única sensação em falta, ou no horizonte, ou no pensamento, um anseio comum que se persegue e sempre nos escapa: a felicidade.

    Seja como for ou onde for, não sou capaz de conceber a possibilidade de se ser feliz num espaço social onde não haja total e absoluta liberdade de expressão. Diria mesmo que é impossível explicar o conceito de felicidade caso nos seja proibida, nem que seja, a mais pequena e insignificante das palavras. 

    Felicidade e liberdade, não serão sinónimos mas são, indubitavelmente, palavras da mesmíssima família. 

quarta-feira, julho 01, 2026

Felicidade visual

   


    Depois de muito reflectir sobre a possibilidade de existir uma metáfora visual da felicidade, uma coisa que se veja e possa transmitir toda a força desse sentimento fugidio, chego à conclusão de que existe, de facto, tal metáfora. É o smiley clássico, uma circunferência amarela com duas bolitas negras e um arco curvado a imitar um sorriso. Simplicidade absoluta, máxima eficácia comunicacional.

    Vejo um grupo de rapazes adolescentes subindo para um autocarro que os levará à praia. Irradiam felicidade. Já anteriormente me tinha ocorrido que é muito mais fácil perceber visualmente a felicidade alheia do que a nossa própria felicidade. Olhando estes rapazes vejo-lhes a felicidade nos gestos, nos sorrisos, na forma meio atolambada como falam uns com os outros, a felicidade a baralhar-lhes o coração com a boca. 

    Resolvo deste modo um problema que me vinha ocupando a mente nos tempos recentes. É a felicidade coisa que se veja? Sim, vê-se. 

terça-feira, junho 30, 2026

Devaneio à hora do almoço

     Para alguém que sinta a pulsão criativa, a necessidade de criar e comunicar, a liberdade de expressão é como se fosse oxigénio. Aqueles que, ainda que sejam amantes da liberdade, vivam de comercializar as suas criações, talvez não considerem a liberdade de expressão tão absolutamente necessária. Seja como for, estou em crer que uns e outros (e todos os demais) serão muitíssimo mais felizes caso vivam num sistema de organização sócio-política que preserve as liberdades fundamentais com a liberdade de expressão bem visível, protegida e enaltecida.

    Aliás, penso também que um sistema como esse é o que mais aproxima os cidadãos de uma sensação de felicidade (ou, pelo menos, faz com que acreditem nessa possibilidade). Mesmo que não tenhamos uma definição standard de "felicidade", ainda que cada um de nós sonhe com um amanhã cantor diferente do do vizinho, a perseguição de uma fada torna a nossa vida menos cinzenta. Perseguir uma nuvenzinha colorida através de um bosque de árvores que são, na verdade, flores gigantescas é mais motivador do que perseguir maços de notas numa floresta de betão (onde os animais te perseguem). Ou então não.

    Ou então habitamos um mundo onde os humanos são apenas aparentemente iguais, um mundo no qual apenas os sacos de pele e ossos que carregam os nossos cérebros e as nossas almas são semelhantes entre si. Dentro dos sacos viajam coisas completa e absolutamente dissemelhantes. Talvez que os princípios fundamentais do Zoroastrismo não sejam tão abstractos quanto possam parecer.

    Vou já em velocidade de cruzeiro e dirijo-me para lugar nenhum, como é meu hábito. Decido guinar em direcção à margem do discurso, encosto a barcaça e salto para terra firme. Talvez beba uma imperial na esperança de matar o calor. 

quinta-feira, maio 28, 2026

É a felicidade uma coisa que se veja?

     A felicidade pode ser coisa que se veja, que se sinta, que se cheire, que se ouça, que possa saborear-se? A felicidade manifesta-se de algum modo que nos permita apreendê-la, medi-la, sopesá-la? Podemos ser mais ou menos felizes neste dia do que fomos num outro? Como podemos responder se não estamos sequer seguros de que o motivo da questão exista?

    Quando tento reflectir sobre a felicidade toda a reflexão me surge na forma de perguntas. Respostas, se as consigo verbalizar, são sempre conversas mais ou menos poéticas.

    Ontem fiz uma descoberta pouco extraordinária. Tive a sensação muito forte de que a felicidade é como são as fadas e as bruxas, que existem se acreditarmos nelas. No caso das fadas verbalizando a nossa crença (acredito em fadas, acredito em fadas, acredito em fadas), no caso das bruxas temendo-as embora admitindo que não existem mas tendo consciência plena de que as há. As há!

    Pensei ainda que as fadas são metáforas da felicidade. Convém que afirmemos alto e bom som que a felicidade existe (acredito na felicidade, acredito na felicidade, acredito na felicidade) caso contrário as bruxas ficam com caminhos abertos em direcção a este mundo que habitamos.

quinta-feira, maio 21, 2026

Um desenho

     A felicidade é uma viagem. O importante não é tanto de onde vimos ou para onde vamos, o que importa, de facto, é o que nos vai acontecendo. Sabemos que vimos do ventre da nossa mãe e que vamos na direcção do imenso adeus e, em princípio, aspiramos à felicidade.

    Fazemos o trajecto como se fazem aqueles desenhos com uma só linha contínua, sem levantar o riscador da superfície de suporte. Marcamos no mapa da vida a forma da nossa felicidade. Quando algo de ruim acontece e nos vemos obrigados a suspender o gesto, a levantar o riscador da superfície onde riscamos a nossa felicidade, vivemos momentos de angústia, momentos de incerteza: ai Jesus, valha-me Nossa Senhora!

    É suposto que à medida que vamos vivendo sejamos capazes de um maior comprometimento com a felicidade que nos permita adquirir uma certa sageza, uma certa gravitas, tudo coisas associadas ao embranquecer das cabeleiras. Isso pode ou não acontecer e, eventualmente, influenciar a nossa forma de estar no mundo. Podemos tornar-nos animais perigosos ou nem por isso, depende do grau de loucura que o mundo nos vai injectando na alma.

    A felicidade é um desenho.

terça-feira, março 24, 2026

Guerra

     Ter a sensação de que tudo e cada coisa se encontra no lugar exacto, eis o princípio fundamental da felicidade. Ver as coisas encaixadas umas nas outras como se o tempo e o espaço formassem um continuum sobre o qual tudo é paz, harmonia e equilíbrio; beleza!

    Imagino que fosse isso o que me levava a ficar dias inteiros deitado no chão a imaginar universos habitados por bonequinhos de plástico enquanto os movia de um lado para o outro, falando por eles, falando com eles, amigos e inimigos que habitavam comigo aquele mundo em constante mutação e no qual eu era Deus, sem sombra para dúvidas. Naquele mundo tudo dependia de mim e eu encarregava-me de fazer com que tudo decorresse dentro da maior das naturalidades, sendo eu a expressão viva da Natureza.

    A memória não consegue ir buscar situações e enredos concretos das aventuras que vivi com os bonecos, recordo apenas uma vaga sensação de felicidade absoluta. Ter o "coração cheio", o corpo todo satisfeito e consciente, pertencer e possuir em simultâneo; é difícil explicar por palavras aquilo que ainda agora fui capaz de sentir, que me fez suspirar, aquilo que eu sei o que é mas não consigo passar com clareza para o teclado, para o ecrã, para ti, a menos que construa uma forma verbal confusa e periclitante, prestes a desabar a cada sílaba.

    Acho que já fui feliz em muitas ocasiões. Imagino que o número de vezes que ri até às lágrimas, as vezes que ri sinceramente a sentir o peito abrir-se para o mundo oferecendo aquilo que sou a quem possa ou queira ver, essas gargalhadas todas poderiam servir para fazer uma contabilidade da alegria que senti ao longo desta minha vida. E depois há a infância, essa espécie de Atlântida, Idade de Ouro, Tempo de Vinho e Rosas, Paraíso... eu sei lá, esse tempo, esse espaço, esse mundo esquecido o qual me oferece esta memória, agora vaga, da felicidade absoluta.

    Olho para a televisão. Vejo mas preferia não ver. Crianças assustadas tentam esconder-se numa folha de papel riscando sobre ela com vigor. O olhar concentrado não esconde a angústia que as rói por dentro. Têm no peito um bicho mau a incomodá-las, um mundo circundante que as ameaça, um céu que desaba constantemente sobre elas, um céu que cai e explode com a brutalidade dos monstros indestrutíveis, dos monstros totais e absolutos, um céu e uma terra que juntos formam a imagem da guerra. Uma guerra com crianças dentro é a coisa mais horrível que consigo imaginar.

    

domingo, novembro 05, 2023

Reflictamos

     A felicidade é uma cena a dar para o esquisito. A meio caminho entre a euforia e a boa disposição, a felicidade irrompe no nosso peito quando menos se espera. Não é coisa que se explique. Resta-nos, por isso mesmo, a possibilidade de reflectirmos um pouco sobre tão agradável sensação.

    Como se manifesta a felicidade? Como a percepcionamos? Como podemos nós espalhar no mundo, nos corações alheios esta coisa boa que nos preenche o coração? Vão-se lá saber respostas aceitáveis para tão variado conjunto de vaporosas questões. Como propus no parágrafo anterior: reflictamos.

    Reflictamos, então.

terça-feira, agosto 01, 2023

Um tal de Legião

     Anda tudo num corrupio por influência das Jornadas Mundiais da Juventude. São milhares de jovens com um ar um tanto apatetado capazes de desatarem a cantar e a dançar não se percebe bem porquê. Estão permanentemente felizes e sorriem tanto que aquilo há-de fazer-lhes doer as bochechas quando lavarem os dentes. Vêm dos 4 cantos do mundo e estão a deixar o pessoal que vive por estas bandas um tanto inquieto.

    Eu era para já me ter escafedido de casa mas afazeres de última hora mantêm-me por aqui. São às pázadas! Os católicos são às pázadas.Não me irritam particularmente pois tenho conseguido manter-me a uma distância razoável. Vejo-os mas quase não os ouvi. Definitivamente, ainda não fui obrigado a cheirá-los.

    Enfim, eu que tantas vezes despejo azedume sobre a igreja católica, não me sinto capaz de odiar esta putalhada simpática, apesar de me parecer chata pra caralho. Eles têm direito à felicidade. Isso chega-me para não desesperar de os ver por aí, desorientados em pequenos grupos organizados. Façam lá o que têm a fazer e regressem a vossas casas, ou fiquem por aí, o que importa? Mas reduzam-se. Tantos juntos chegam a parecer um tal de Legião.


domingo, fevereiro 13, 2022

Felicidade (por favor, não vá embora)

     Será a felicidade algo a que possamos aspirar? 

    Primeira questão a responder: o que é isso, a felicidade? Mmmmh, resposta difícil, raciocínio complexo, a cabeça a andar à roda, tonta, tontinha, sem saber se está a pensar ou a fingir que pensa. Que raio é isso, a felicidade?

    Segunda questão (mesmo que a 1ª tenha resposta inconclusiva): pode a felicidade durar no tempo? Ora porra, se a 1ª questão já vinha armadilhada, ainda que não tenha explodido, que dizer desta 2ª? Pode durar, sim,e pode não durar, não. Mas que porra de perguntas são estas e porque estarei a colocá-las? Prefiro não responder. 

    Desculpa, paciente leitor; se estou a parecer um imbecil, a não fazer sentido, pára já aqui. O que segue não melhora.

    Há questões que talvez não devêssemos colocar. Questionar a felicidade dificilmente poderá ter resultados que não contribuam para a pôr em causa, senão mesmo destruí-la. Talvez a felicidade necessite de alguma simplicidade de espírito para poder medrar. Se posta em causa tende a murchar de imediato, estou em crer.

    Imaginar o tempo que pode a felicidade durar é ainda mais estúpido. Resta-me (resta-nos?) pedir com jeitinho: felicidade, não vá embora. Caso ela se mostre indiferente poderei (poderemos?) acrescentar um "por favor" bem educado e talvez tenha (tenhamos?) sorte. Talvez a felicidade fique. Mas, para que tudo isto possa acontecer, é preciso perceber, é preciso saber o que é isso, a felicidade.

    Eu bem te avisei lá mais atrás, descuidado leitor, que deverias ter parado de ler este post.

sábado, janeiro 31, 2015

Um dilema

Quando penso nas lutas sociais que constantemente são travadas neste mundo que habito sinto um nó no estômago. De que lado devo colocar a minha força e a minha vontade?

Desde sempre tive uma vida razoavelmente desafogada. A minha família, com maiores ou menores dificuldades, há várias gerações que pertence ao que poderia designar por "classe média", mesmo quando essa classe era uma espécie de coisa incipiente, nos tempos da ditadura salazarista.

Olhando para o tempo que já vivi posso dizer que nunca passei fome por necessidade embora, nos meus tempos de estudante, tenha passado alguma fomeca por opção. Gastava o dinheiro noutras coisas que, à época, me pareciam mais essenciais do que a paparoca. Tratava-se de uma questão de opção.

Nos tempos que correm sinto-me privilegiado. Tenho emprego fixo e uma condição social razoável. Posso preocupar-me com assuntos muito para além da satisfação das minhas necessidades básicas. Ao mesmo tempo vejo aumentar a fome e a miséria entre os mais desfavorecidos, pessoas que tiveram a pouca sorte de nascer em meios sociais estigmatizados, pessoas que não têm opção e se vêm empurradas para uma luta que se parece com o esbracejar de alguém que se afoga no mar alto.

Quando chega a hora de escolher um dos lados na barricada das lutas sociais sinto que devo lutar contra alguns dos privilégios que fazem da minha vida algo agradável, sinto que deveria ser capaz de viver com menos e partilhar mais. Sou inimigo de mim próprio?

Confesso que este dilema me confunde mas, no entanto, continuo a comer bem, a dormir melhor e a acordar todos os dias com uma boa disposição que não me incomoda. Mas, no entanto...


sábado, maio 05, 2012

Como de costume (uma pequena esperança)

 Mundo maravilhoso (colagem que podes ver aqui)

Após a pequena caminhada que me leva até à porta da escola (hoje a pairar ao som de Frank Zappa, "Peaches en Regalia") tomo o café do costume, no balcão do costume. Nas mesas as velhinhas do costume que já me cumprimentam e a quem retribuo o "bom-dia", mais mecânico que simpático.

Sentados junto à porta os alunos do costume, fazendo tempo para chegarem atrasados à aula, mais daqui a uns minutos, como de costume.

Vou à papelaria ao lado comprar o jornal, como sempre. Entre a porta da papelaria e a da escola tenho tempo apenas para ver as letras gordas e a foto da capa, uma foto a cores, bem escolhida, como de costume.

"Número de empresas em incumprimento aumentou em 2011", "Neonazis gregos prometem "varrer" os imigrantes", "Atrasos na medicina legal estão a parar processos judiciais", "Jardim empresta 25% das verbas de resgate a sociedades falidas". Só notícias de merda.

Na aula os alunos parecem meio lá, meio cá, como alices hesitantes entre beber o liquido que faz encolher ou mastigar um pouco do biscoito que faz aumentar. Vem-me à memória a frase da canção de A Naifa que diz "vivo do que me dão, nunca falto às aulas de esgrima, todos os dias agradeço a Deus esta depressão que me anima". Tenho de sorrir. Mais tarde saio para o intervalo.

Levo o jornal mas não me apetece abri-lo. Isso não é costume. Dou por mim a pensar que,se calhar, fazia melhor se não lesse o jornal. As notícias são deprimentes, dão a impressão de que o meu mundo se está a desfazer lentamente, a dissolver-se mais no tempo que no espaço, como açúcar numa chávena de café tão amargo que não há nada capaz de o adoçar.

Seria eu mais feliz (e eu imagino-me um gajo muito feliz) se dedicasse mais tempo à literatura? Seria eu mais feliz (eu sei que sou um gajo, pelo menos, medianamente feliz) se dedicasse mais tempo a produzir imagens que têm o condão de me levar daqui para fora, que me fazem viajar nem sei bem como? Acabo sempre por regressar aqui, regresso agora.

E se me alhear do mundo e daquilo que imagino ser a realidade? E se me desinteressar da narrativa oficial que me intoxica com notícias venenosas? O que poderá acontecer?

Se eu não ler o jornal como será a capa de amanhã? Talvez as letras gordas tragam escritas coisas simpáticas. Se não ler não vou saber e pode ser que as coisas aconteçam de outra maneira. Há sempre uma pequena esperança que, como suspira o povo, é sempre a última a morrer. Mas morre.

terça-feira, abril 10, 2012

FIB

FIB é a sigla para Felicidade Interna Bruta. Ora bem, ia sendo tempo de tentar encontrar outras formas de medir o desenvolvimento político e social que não fosse a frieza fedorenta de um monte de notas de dólar! A ideia terá partido do rei do Butão, numa tentativa para demonstrar que a felicidade não implica, obrigatoriamente, o sofrimento de uma maioria em nome de uma Balança Comercial equilibrada.

A publicação de primeiro Relatório Mundial sobre Felicidade, elaborado pela Universidade de Colúmbia a pedido das Nações Unidas estabeleceu um ranking que, ainda assim, mostra como um PIB equilibrado pode contribuir fortemente para trazer as pessoas bem dispostas e com uma sensação de bem estar reluzente. Isto parece confirmar aquela velha ideia de que o dinheiro não compra a felicidade mas ajuda a encontrá-la.

Convém não esquecer que este estudo, sendo realizado por uma instituição ocidental, terá sido influenciado por valores ocidentais no estabelecimento dos principais factores que contribuem para definir e quantificar a felicidade humana.

É interessante que se comece a pensar de modo diverso, que o enriquecimento e os valores do capitalismo selvagem sejam questionados enquanto finalidade máxima das nossas sociedades. Poderá esta nova atitude vir a influenciar, a médio ou longo prazo, a forma como pensamos e projectamos a vida do planeta?

Sem grande surpresa Portugal surge classificado no lugar 73, a meio de um ranking com 156 nações. É aquela nossa velha atitude de nunca assumirmos as coisas nos seus limites. Nunca estamos demasiado bem nem admitimos estar demasiado mal, estamos sempre mais ou menos ou assim-assim, como se costuma dizer.

"Vai-se andando" ou "o que tem de ser tem muita força", não são meras expressões vazias de significado; são aforismos reveladores que sintetizam uma filosofia existencial milenar característica do nosso povo. É desta forma que combatemos a infelicidade, admitindo a fatalidade do destino. É também assim que descobrimos uma nesga que nos permita procurar a felicidade.

Se tivermos de ser felizes, seremos. Se isso não for possível... paciência.

sexta-feira, dezembro 08, 2006

Mais coisas boas

"Portugal é o segundo maior consumidor de benzodiazepinas (tranquilizantes) na Europa. Estima-se que 23% da população adulta recorra regularmente a estes medicamentos, revela estudo divulgado por Bruxelas."
A coisa, dita assim, soa a banalidade. Qual é o problema? Sim, na realidade não estou a ver que seja tão grave que necessite de investigação policial e auto de ocorrência. Normal.
É normal ver velhinhas com passo de zombie a cirandar no corredor do super-mercado, cidadãos sorridentes encostados ao balcão prontos a aceitar a vida tal como ela lhes parece ser, se estão mais felizes... qual é o problema?
Olhando bem os olhos destas pessoas avançamos um passinho na direcção da possibilidade de compreendermos os que fumam charros ou consomem outro tipo de drogas menos propícias a prescrição médica? Haverá uma distância assim tão grande entre emborcar um prozaczinho ou enchaminar um charuto de skunk?
Afinal de contas andamos todos à procura de um espaço de felicidade onde encaixar a alminha. Há quem se dedique a Deus em igrejas de vão-de-escada, quem plante legumes na horta das traseiras escondendo uma parte do mundo da ferocidade urbana, criando um jardim mais próximo do Éden, para si e para os seus.
É isso, como diz a canção: "Eu já só quero é ser feliz..." então que seja, porque não, que diabo!?
Seja com play station, prozac ou cannabis, evadamo-nos rumo ao pôr-do-sol com um sorriso nos lábios.