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sábado, janeiro 31, 2015

Um dilema

Quando penso nas lutas sociais que constantemente são travadas neste mundo que habito sinto um nó no estômago. De que lado devo colocar a minha força e a minha vontade?

Desde sempre tive uma vida razoavelmente desafogada. A minha família, com maiores ou menores dificuldades, há várias gerações que pertence ao que poderia designar por "classe média", mesmo quando essa classe era uma espécie de coisa incipiente, nos tempos da ditadura salazarista.

Olhando para o tempo que já vivi posso dizer que nunca passei fome por necessidade embora, nos meus tempos de estudante, tenha passado alguma fomeca por opção. Gastava o dinheiro noutras coisas que, à época, me pareciam mais essenciais do que a paparoca. Tartava-se de uma questão de opção.

Nos tempos que correm sinto-me privilegiado. Tenho emprego fixo e uma condição social razoável. Posso preocupar-me com assuntos muito para além da satisfação das minhas necessidades básiicas. Ao mesmo tempo vejo aumentar a fome e a miséria entre os mais desfavorecidos, pessoas que tiveram a pouca sorte de nascer em meios sociais estigmatizados, pessoas que não têm opção e se vêm empurradas para uma luta que se parece com o esbracejar de alguém que se afoga no mar alto.

Quando chega a hora de tomar um lado nas barricadas das lutas sociais sinto que devo lutar contra alguns dos privilégios que fazem da minha vida algo agradável, sinto que deveria ser capaz de viver com menos e partilhar mais. Sou inimigo de mim próprio?

Confesso que este dilema me confunde mas, no entanto, continuo a comer bem, a dormir melhor e a acordar todos os dias com uma boa disposição que não me incomoda. Mas, no entanto...


sábado, maio 05, 2012

Como de costume (uma pequena esperança)

 Mundo maravilhoso (colagem que podes ver aqui)

Após a pequena caminhada que me leva até à porta da escola (hoje a pairar ao som de Frank Zappa, "Peaches en Regalia") tomo o café do costume, no balcão do costume. Nas mesas as velhinhas do costume que já me cumprimentam e a quem retribuo o "bom-dia", mais mecânico que simpático.

Sentados junto à porta os alunos do costume, fazendo tempo para chegarem atrasados à aula, mais daqui a uns minutos, como de costume.

Vou à papelaria ao lado comprar o jornal, como sempre. Entre a porta da papelaria e a da escola tenho tempo apenas para ver as letras gordas e a foto da capa, uma foto a cores, bem escolhida, como de costume.

"Número de empresas em incumprimento aumentou em 2011", "Neonazis gregos prometem "varrer" os imigrantes", "Atrasos na medicina legal estão a parar processos judiciais", "Jardim empresta 25% das verbas de resgate a sociedades falidas". Só notícias de merda.

Na aula os alunos parecem meio lá, meio cá, como alices hesitantes entre beber o liquido que faz encolher ou mastigar um pouco do biscoito que faz aumentar. Vem-me à memória a frase da canção de A Naifa que diz "vivo do que me dão, nunca falto às aulas de esgrima, todos os dias agradeço a Deus esta depressão que me anima". Tenho de sorrir. Mais tarde saio para o intervalo.

Levo o jornal mas não me apetece abri-lo. Isso não é costume. Dou por mim a pensar que,se calhar, fazia melhor se não lesse o jornal. As notícias são deprimentes, dão a impressão de que o meu mundo se está a desfazer lentamente, a dissolver-se mais no tempo que no espaço, como açúcar numa chávena de café tão amargo que não há nada capaz de o adoçar.

Seria eu mais feliz (e eu imagino-me um gajo muito feliz) se dedicasse mais tempo à literatura? Seria eu mais feliz (eu sei que sou um gajo, pelo menos, medianamente feliz) se dedicasse mais tempo a produzir imagens que têm o condão de me levar daqui fora, que me fazem viajar nem sei bem como? Acabo sempre por regressar aqui, regresso agora.

E se me alhear do mundo e daquilo que imagino ser a realidade? E se me desinteressar da narrativa oficial que me intoxica com notícias venenosas? O que poderá acontecer?

Se eu não ler o jornal como será a capa de amanhã? Talvez as letras gordas tragam escritas coisas simpáticas. Se não ler não vou saber e pode ser que as coisas aconteçam de outra maneira. Há sempre uma pequena esperança que, como suspira o povo, é sempre a última a morrer. Mas morre.

terça-feira, abril 10, 2012

FIB

FIB é a sigla para Felicidade Interna Bruta. Ora bem, ia sendo tempo de tentar encontrar outras formas de medir o desenvolvimento político e social que não fosse a frieza fedorenta de um monte de notas de dólar! A ideia terá partido do rei do Butão, numa tentativa para demonstrar que a felicidade não implica, obrigatoriamente, o sofrimento de uma maioria em nome de uma Balança Comercial equilibrada.

A publicação de primeiro Relatório Mundial sobre Felicidade, elaborado pela Universidade de Colúmbia a pedido das Nações Unidas estabeleceu um ranking que, ainda assim, mostra como um PIB equilibrado pode contribuir fortemente para trazer as pessoas bem dispostas e com uma sensação de bem estar reluzente. Isto parece confirmar aquela velha ideia de que o dinheiro não compra a felicidade mas ajuda a encontrá-la.

Convém não esquecer que este estudo, sendo realizado por uma instituição ocidental, terá sido influenciado por valores ocidentais no estabelecimento dos principais factores que contribuem para definir e quantificar a felicidade humana.

É interessante que se comece a pensar de modo diverso, que o enriquecimento e os valores do capitalismo selvagem sejam questionados enquanto finalidade máxima das nossas sociedades. Poderá esta nova atitude vir a influenciar, a médio ou longo prazo, a forma como pensamos e projectamos a vida do planeta?

Sem grande surpresa Portugal surge classificado no lugar 73, a meio de um ranking com 156 nações. É aquela nossa velha atitude de nunca assumirmos as coisas nos seus limites. Nunca estamos demasiado bem nem admitimos estar demasiado mal, estamos sempre mais ou menos ou assim-assim, como se costuma dizer.

"Vai-se andando" ou "o que tem de ser tem muita força", não são meras expressões vazias de significado; são aforismos reveladores que sintetizam uma filosofia existencial milenar característica do nosso povo. É desta forma que combatemos a infelicidade, admitindo a fatalidade do destino. É também assim que descobrimos uma nesga que nos permita procurar a felicidade.

Se tivermos de ser felizes, seremos. Se isso não for possível... paciência.

sexta-feira, dezembro 08, 2006

Mais coisas boas

"Portugal é o segundo maior consumidor de benzodiazepinas (tranquilizantes) na Europa. Estima-se que 23% da população adulta recorra regularmente a estes medicamentos, revela estudo divulgado por Bruxelas."
A coisa, dita assim, soa a banalidade. Qual é o problema? Sim, na realidade não estou a ver que seja tão grave que necessite de investigação policial e auto de ocorrência. Normal.
É normal ver velhinhas com passo de zombie a cirandar no corredor do super-mercado, cidadãos sorridentes encostados ao balcão prontos a aceitar a vida tal como ela lhes parece ser, se estão mais felizes... qual é o problema?
Olhando bem os olhos destas pessoas avançamos um passinho na direcção da possibilidade de compreendermos os que fumam charros ou consomem outro tipo de drogas menos propícias a prescrição médica? Haverá uma distância assim tão grande entre emborcar um prozaczinho ou enchaminar um charuto de skunk?
Afinal de contas andamos todos à procura de um espaço de felicidade onde encaixar a alminha. Há quem se dedique a Deus em igrejas de vão-de-escada, quem plante legumes na horta das traseiras escondendo uma parte do mundo da ferocidade urbana, criando um jardim mais próximo do Éden, para si e para os seus.
É isso, como diz a canção: "Eu já só quero é ser feliz..." então que seja, porque não, que diabo!?
Seja com play station, prozac ou cannabis, evadamo-nos rumo ao pôr-do-sol com um sorriso nos lábios.