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quinta-feira, fevereiro 19, 2026

Pessimismo

    Andamos tão perdidos! A questão é: alguma vez tivemos um objectivo concreto que compreendemos e perseguimos conscientemente? Continuo a acordar de manhã obrigando-me a pensar de vez em quando no sentido da vida. Continuo a pensar (quando penso, obrigado por mim próprio a pensar) que o sentido da vida é deixar um mundo melhor aos que virão depois de mim.

    Por estas e por outras, por vezes compreendo que o melhor é não pensar. Quero dizer, melhor, melhor, talvez não seja, talvez devesse dizer "o mais cómodo"; o mais cómodo é não pensar. Deixar que alguém pense por nós, deixar que alguém actue em nosso nome, alguém que faça merda. Assim, depois, poderemos culpar esse alguém pelo fracasso, poderemos barafustar, gritar, cuspir na porcaria que nos é oferecida. E tudo fica na mesma ou um pouco pior do que estava.

    Talvez não andemos perdidos. Talvez não andemos, de todo. Talvez estejamos parados; com sorte estamos apenas parados, à espera que aconteça alguma coisa que não seja uma desgraça. Com azar estamos a cair desamparados. Até batermos no fundo.

sexta-feira, fevereiro 13, 2026

Mais velho

     Actualmente cumprimentamos: bom dia! Ou então dizemos: boa tarde, ou boa noite. Depende. Vamos pela positiva, aproximamo-nos de quem não conhecemos com palavras cautelosas mas de bom tom. Somos assim educados, os mais velhos ensinam-nos a ser assim, parece-nos correcto. Quando alguém nos fala devemos manter silêncio, ouvir o que é dito, esperar a nossa vez e retrucar, se for caso disso, ou concordar, seja lá o que for, aconteça o que acontecer, somos incentivados a comunicar, a olhar nos olhos.

    Espero que estes princípios simples se mantenham, pelo menos durante mais algum tempo. Por vezes penso se não estamos às portas de um tempo de "pontapé-na-cona". Os mais velhos são demasiadas vezes considerados empecilhos e a sua forma de ver o mundo, a mensagem que têm para nós, é desvalorizada por não saberem mexer em meia-dúzia de coisitas electrónicas ou artificiais ou lá como se designam esses "gadgets" que enformam o nosso quotidiano delirante. Substitui-se a capacidade de pensar pela capacidade de mexer.

    Apercebo-me de que sou já um dos "mais velhos". Ainda não tinha pensado nisso. 

segunda-feira, fevereiro 09, 2026

Saudade da surdez

     Os miúdos no corredor gritam, grunhem, produzem sons guturais capazes de inquietar um porco. Empurram-se, lutam, correm, caem e voltam a levantar-se, tudo num torvelinho angustiante, uma inquietação sem razão nem paralelo. Que estranha força os move, que deus imbecil os anima e faz com que ajam como tolos de hospício?

    É chegada a hora de entrarem para a sala de aula e eles lá vão. Não os vejo, estou numa outra sala, sentado à secretária escrevo estas palavras no teclado de um computador. Deixo de os ouvir. Nestas ocasiões o silêncio é muitíssimo valorizado. Que sossego. Agora passo a ouvir o som da água que cai dos beirais misturada com a da chuva o que também pode ser muito irritante.

    Lamento não ter trazido comigo os auscultadores, a falta que neste momento me fazem.

    Não consigo recordar se esta sensibilidade à barulheira é recente ou é antiga. Talvez não me aperceba sempre dos sons circundantes, talvez a concentração da atenção em algum objecto (uma pintura que se pinta, um livro que se lê) me ajude a abstrair da chinfrineira. Talvez, nem sei! O que eu percebo é que tudo isto pode contribuir para destrambelhar uma pessoa.

 Nota - Ontem, ao final da tarde, noite entrada, fiquei razoavelmente feliz. O Tó Zé lá foi eleito.

quarta-feira, fevereiro 04, 2026

Dia de chuva

     A chuva cai, incessante, monótona, ameaçadora. A paisagem entristecida parece encolher-se sobre o ventre de modo a proteger-se da chuva que continua a cair. Os últimos dias têm sido angustiantes para muitos de nós, por causa da chuva, que cai e cai e cai e parece que nunca mais irá parar.

    Continua a chover.

    Há uma hora atrás, mais coisa menos coisa, a chuva abriu uma trégua, até o céu clareou ligeiramente! (Tenho a impressão de ter visto uma mulher a sorrir). Mas durou pouco, foi como se a chuva se tivesse esquecido momentaneamente de cair e, mal se apercebeu de que não cumpria a função para a qual Deus a criou, voltou a tombar sobre a terra, com peso de gotas bem constituídas. Sem vento a bater-lhe cai sobre nós em rectos tracejados.

    Chove, chove e continua.

    Há em tudo isto qualquer coisa de marcial. Talvez o ritmo, talvez as gotas perfiladas que caem ininterruptamente, talvez o aspecto inevitável que a realidade vai ganhando, como se não houvesse nada a fazer a não ser cumprir ordens superiores, como na tropa. E quem é o general da chuva!? Ah, pois é.

    Chove, chove, chove que Deus a dá.

quinta-feira, janeiro 29, 2026

"Realidade"

     Um tipo esgueira-se para aqui, a contemplar o Tempo pelo lado de fora da vidraça. As cenas desenrolam-se com as personagens enquadradas na totalidade, nunca falta um braço, nem falta uma perna, nunca uma personagem surge em plano americano, esse plano que nos corta as pernas.

    Há muitas imagens, recordações aparentemente distintas mas um tipo repara que certos gestos se repetem. Não há som ambiente, tudo é amalgamado pelo som que te entra directinho nos ouvidos, uma torrente de música sincopada em altos berros. É assim que recordas o passado, É assim que perspectivas o futuro.

    Um tipo não consegue manter-se deste lado durante muito tempo. Chega sempre o momento em que tem de ir-se embora, regressar ao espaço que se convencionou designar por "realidade". 

quinta-feira, janeiro 08, 2026

O assalto

     Tive recentemente uma experiência muito desagradável. Abri a minha página no Facebook e estava calmamente a ler e a responder a "coisas", banalidades que todos fazemos quando navegamos naquela rede social, quando algo de muito estranho aconteceu. De súbito começaram a surgir imagens e vídeos de pornografia infantil e/ou de tortura e violência extrema. Tentei apagar, bloquear, eu sei lá o que tentei fazer. Nada resultava. Quando parecia que tinha controlado a coisa, acontecia tudo outra vez. Até que recebi uma mensagem da Meta (acho eu) a informar-me que estava a publicar coisas estranhas que desrespeitavam as regras da plataforma e que a minha página iria ser suspensa para averiguações. Entretanto ofereciam-me simpaticamente ajuda psicológica pois uma pessoa que publica aquelas coisas decerto padece de alguma doença. Grave.

    Por um lado fiquei aliviado por aquilo parar mas, por outro lado, senti-me um pouco angustiado. Primeiro, vi coisas naqueles vídeos que nunca antes tinha visto e que me deixaram profundamente nauseado; segundo, alguém, algures estaria a pensar que eu era capaz de consumir aquele tipo de material abjecto? Mesmo que esse alguém não fizesse a mínima ideia sobre quem eu sou a situação deixava-me desconfortável. Muito desconfortável, mesmo.

    Recebi uma mensagem da Meta dizendo que a minha página decerto havia sido assaltada e iriam permitir que eu recuperasse a dita cuja. Achei bem e achei simpático. Ainda não tinha começado a tentar seguir os passos que me eram indicados e já recebia segunda mensagem de email informando que a minha conta havia sido encerrada definitivamente. Pensei que haveria ali algum erro e tentei cumprir as indicações da 1ª mensagem mas... nada a fazer. A minha conta foi à vida, definitivamente.

    Quando me aconteceu, imagino que isto deva ter acontecido a mais umas centenas ou mesmo milhares de páginas por esse mundo fora. Não sei, não faço ideia. Seja como for, o acontecimento indispôs-me um pouco e fiquei com uma estranha sensação de ter visto a minha intimidade ser violada com uma desfaçatez que não imaginava ser possível.

    Entretanto abri uma nova página. Após 15 ou 16 anos com a outra acumulara centenas de "amigos" que desapareceram  de um momento para o outro e estou a recuperar contactos. A verdade é que, ao fim de dois dias, ainda só tenho 37 amigos confirmados. Conheço-os a todos pessoalmente. Reparei noutro pormenor: todos os amigos que faleceram ao longo destes anos e que continuavam na minha lista desapareceram finalmente. Receber os avisos dos seus aniversários era algo que costumava deixar-me um tanto tristee angustiado.

sexta-feira, janeiro 02, 2026

O Deus do mar

     Começo 2026 a recordar algo que aconteceu muito recentemente, no ano passado. Eu e a Ana íamos iniciar uma viagem com Atenas por destino. Comprei um livro, "O Louco de Deus no Fim do Mundo" de Javier Cercas, para ler no avião e lá pela Grécia. Mas pus-me a olhar para o volume de quatrocentas e tal páginas e pensei "isto é pesado, ocupa muito espaço, vou procurar um livrinho para levar". Assim fiz.

    Subi ao sótão, subi à escadinha que encosta às prateleiras e fiquei com o nariz ao nível de uma fileira de livros de Jorge Luís Borges. Esbeltos, pequeninos, livros perfeitos para ler em viagem tal como já havia feito anteriormente. Peguei em Atlas, um volumezinho que não me lembrava de ter lido. O livro tinha uma marca. Abri-o. No topo da página o título do texto: O templo de Poseidon. 

    Caraças! Mais uma daquelas coincidências que podem deixar um gajo confuso e a acreditar que alguma força, poderosa e extraterrestre, está a estabelecer contacto, a enviar sinais evidentes de que um gajo não está só no Universo. Fechei o livro e, como é evidente, foi o que levei comigo. Li-o (ou tê-lo-ei relido?) na viagem de regresso.

    Entre uma coisa e outra visitámos o referido templo. Estava um frio de rachar! 

    Bom Ano Novo. 

domingo, dezembro 21, 2025

Perguntas

     Tenho a impressão que já anteriormente escrevi o que vou agora escrever: os textos deste blogue são como mensagens deitadas ao mar em garrafas à espera que as encontres e tenhas curiosidade de ler o que vai lá dentro. Ok, mas qual o interesse que poderás ter em semelhante leitura e qual o meu objectivo em pretender esperançadamente que o faças? Há perguntas que mais vale não colocar.  

    Com os meus desenhos e pinturas passa-se mais ou menos a mesma coisa ou, pelo menos, algo muito semelhante. Vou produzindo obras a um ritmo elevado se bem que não a um ritmo constante. Serão dezenas por anos (chegarei à centena, ultrapasso esse número?). Em 99% dos casos trabalho sobre papel pois não tenho atelier ou armazém que suporte tanta produção noutro tipo de superfície. Pinto, desenho e... vai para o monte, para a pasta, é tudo devidamente organizado e arrumado ficando ali, em suspensão, à espera, como animal selvagem escondido na selva. Para quê? Porquê? Há perguntas que são escusadas.

    Uma página no Facebook e outro blogue acabam por servir de repositórios para grande parte das coisas que vou produzindo. Escrevo, desenho, pinto, vou deixando os resultados por aí como o Polegarzinho deixou um rasto de migalhas no chão da floresta para não perder a noção do caminho para casa. Haverá pássaros que devorem os meus sinais e me façam, um dia, perder por completo? Há perguntas simplesmente estúpidas.

    Enfim... acho que vou começar uma nova pintura e não vou colocar qualquer questão sobre este impulso. 

domingo, dezembro 14, 2025

Os merceeiros do Apocalipse

     Empolgados no segredo dos seus sonhos pelo mito do Paraíso descrito nos livros sagrados, alguns dos nossos antepassados recentes, sobreviventes dos horrores da Segunda Guerra, quiseram construir o Jardim aqui na Terra. Foi assim que começou a construção daquilo a que hoje chamamos União Europeia.

    A sensação de justiça e segurança social atrai para este sonho gentes de todas as latitudes. Eles vêm de países ricos, de países pobres, de países assim-assim, seduzidos pelo sonho cristão quase tornado realidade. Milhões de não-cristãos, convertidos ao ideal das Escrituras sem disso se darem conta. Apesar de continuarem a frequentar as suas mesquitas e sinagogas, os cativados imigrantes vão-se transformando numa outra coisa. De tal modo que os filhos dos seus netos não terão memória de quem foram.

    Eis que o terrível mito do anti-Cristo vai ganhando corpo mas, inesperadamente, não é um ser terrível, não são 4 cavaleiros, são merceeiros do Apocalipse, comandados por um tonto imbecil. Um velho gordo e narcisista, com um penteado impossível para disfarçar a careca, como se a estupidez e a ganância pudessem esconder-se numa caverna sustentada a laca.

    Compreendemos agora como as narrativas épicas do passado e a grandeza dos heróis que erigiram este mundo pode ter sido exagerada e orientada pelos próprios. Na verdade, sempre tivemos o destino traçado apesar de isso ser uma impossibilidade cósmica.

     

quinta-feira, novembro 20, 2025

Rotina matinal

     

    Estou a fazer uma pintura. Começou por ser uma imagem única à qual resolvi acrescentar outras duas, laterais, com as mesmas dimensões da primeira: 100X70cm. O título, "My Sweet Lord". No "painel" central há uma luz que irradia do  alto, sugerindo uma forma cónica ou triangular, luz essa que anuncia actividade divina que se desenrola fora do campo de visão do observador. O que se passa ali, no alto? Não sei, não estou a ver.

    Todas as manhãs olho e observo a pintura durante, pelo menos, meia hora. Tenho uma passadeira com um ângulo de visão aproximado ao desta foto e caminho uns quantos quilómetros a olhar o, agora, tríptico. Surpreendo-me sempre que exerço esta actividade, surpreende-me a forma como o tempo se expande enquanto caminho, olho e sonho. Passo tempo de qualidade comigo próprio.

    Estas caminhadas contemplativas têm qualidades transformadoras que não consigo explicar (nem carecem de explicação), basta-me usufruir da coisa. Todas as manhãs. O dia que segue corre bem.

terça-feira, outubro 28, 2025

Solubilidade

     O céu fechou-se de súbito. O sol não foi para ali chamado e o dia ficou semelhante a uma noite qualquer. O vento a marulhar nas folhas das árvores confundiu-se com o ruído da chuva a cair. O ar não estava frio, sentia-se um leve calor. Que fazer? Devia esperar que a chuva amainasse ou meter pés ao caminho? Não lhe apetecia tomar uma decisão por isso ignorou o problema, fez com que não existisse. Não existindo problema ficava tudo bem; a escuridão, a chuva, a temperatura ambiente.

sábado, julho 26, 2025

3 impossibilidades entre mil

     Impossível. É-me impossível manter um ritmo diário de escrita. Não é que não queira, não é que não possa, não. É porque me esqueço. Essa é a mais implacável de todas as razões e contra ela pouco há a fazer. Talvez tomando Memofante. Forte.

    Impossível escolher a quem confiar o meu voto quando nenhuma das candidaturas apresentadas me inspira confiança. Uma ou outra faz-me despertar uma confiançazinha pequenina, um broto, uma ténue sensação de "je ne sais quoi" mas nenhuma cresce o suficiente para que, no dia da verdade, cruze dois traços no quadradinho que lhe corresponda. Impossível. Resta o voto em branco. Abstenção não é opção.

    Impossível ficar indiferente ao genocídio do povo palestino. Indignação e, por vezes, raiva irrompem em mim de forma mais ou menos descontrolada perante as notícias que vão chegando. Mas todo o meu sentimentário resulta estéril. Qualquer atitude, qualquer discurso, qualquer coisa que pretenda fazer a propósito disto não representa absolutamente nada em termos práticos. Não aquece nem arrefece. E fico a pensar se a minha indignação teria o mesmo tom e semelhante intensidade caso estivesse deveras envolvido no processo, caso tivesse outra proximidade espacial e emocional à Palestina e ao seu povo. Impossível saber.

     

quarta-feira, julho 16, 2025

Animais de criação

     Há quem se veja a si próprio como eterna e constante vítima do "sistema". Esses encaram tal condição como sendo algo heróico, são mártires da pureza dos ideais que os animam. Se, porventura, os seus ideais vierem um dia a triunfar, os nossos candidatos ao paraíso dos deserdados ficarão órfãos da sua razão de existir. Isso é trágico.

    Há também aqueles que são, de facto, vítimas eternas e constantes do sistema mas esses, não sei bem, talvez não coloquem a questão nestes termos além de todos estarmos conscientes de que nunca, mas mesmo nunca, virão a ter direito à mais insignificante migalha de justiça. 

    Entre uns e outros está muita boa gente. Gente farta de aturar as lamentações dos justos eternamente injustiçados e que sente repulsa pelas verdadeiras vítimas. Gente na qual me incluo. Uns têm mais que fazer do que dar atenção a este tipo de questões, estão demasiado ocupados a trabalhar para poderem consumir. Outros vivem em mundos mais ou menos abstractos, não têm espaço mental para oferecer a este mundo. Outros ainda têm ódio aos primeiros e desprezam os segundos. Etc. É muita boa gente, são muitas condições diferenciadas.

    O que resta disto tudo? Um pouco de amor requentado, bastante ódio, muita estupidez e oceanos de ignorância. É a nossa espécie em todo o seu esplendor, criação divina. 

terça-feira, julho 15, 2025

Viver o momento

     Fazer citações é caminho estreito e repleto de pedregulhos, daqueles que não dão para construir castelos. Ou bem que sabemos do que estamos a falar ou melhor seria manter a boquinha trancada a sete-chaves. Mas as coisas não se passam bem assim.

    No mundo ideal, citar alguém implica recolher e acrescentar dados relacionados com a proveniência da coisa o que implica, pelo menos, um "onde" e um "quem", eventualmente um "quando", o que se aconselha vivamente. É, portanto, tarefa que impõe algum rigor e boa-fé da parte de quem cita.

    No mundo real é a confusão que se sabe. As citações chovem como sapos em narrativa bíblica. As vindas sabe-se lá de onde misturadas com as que se sabe bem de onde vêm, tudo vale a mesma coisa, não há problema de maior. A ideia original pode estar já um bocadinho distorcida, por vezes completamente adulterada mas, pronto, não vamos chatear-nos por isso. O que interessa é passar a mensagem.

    Uma citação errada pode substituir a original e correcta sem grande problema nem esforço. Basta que seja repetida as vezes suficientes para se tornar mais verdadeira que a verdade. Alguém se incomoda com isso? Não vale a pena, desde que a mensagem tenha passado estará tudo bem.

    Quem diz uma citação diz um facto. A confirmação é, muitas vezes, puro aborrecimento. Se a coisa for suficientemente sumarenta podemos ficar pela primeira forma, mesmo que não seja propriamente verdade: desfrutar do momento é o grande objectivo dos seres vivos. Seja ele qual for (o facto, o ser vivo, ambos ou vice-versa). 

quinta-feira, julho 10, 2025

O dia de hoje

     Antecipar um dia em que podemos fazer tudo aquilo que podemos imaginar e podemos ponderar dadas as circunstâncias não é a tarefa mais simples nem é evidente. O meu cérebro desorganiza-se com facilidade; aliás, para se desorganizar seria necessário que o meu cérebro estivesse, de alguma forma, organizado, o que raramente acontece. A pontuação da frase anterior deixou-me a pensar e encheu-me de dúvidas mas parece-me ter chegado a uma conclusão aceitável.

    Já me desviava do que pretendia dizer. Lá está! É a tal tendência para uma desorganização constante e persistente. De que falava eu? Ah, sim, já me lembro (li a primeira frase deste post). Poder fazer aquilo que seja capaz de imaginar...

    Desenhar? Recortar coisinhas e fazer colagens? Ler? Ouvir música durante as tarefas mais criativas? Ir dar uma volta, apanhar ar no trombil? Dormir uma sesta? Ir ao velório? As possibilidades são variadas e eventualmente combinatórias. Posso estabelecer um plano, elaborar uma lista, ordenar, organizar, prever, antever, posso fazer tanta coisa, caraças! Por isso mesmo opto por não fazer nada. Ou melhor, por isso mesmo deixo que seja o dia a decidir por mim. Decerto tomará melhores opções.

    Não me sinto capaz de fazer as coisas "bem feitas". 

segunda-feira, julho 07, 2025

A promessa

     E pronto, bastou falar nisso para que não acontecesse logo no dia seguinte. terei um espírito de contradição tão forte, tão enraizado, que me contradigo a mim próprio? Mais estranho ainda, esse espírito de contradição leva-me a estabelecer compromissos comigo próprio com o intuito inconfessado de apenas os quebrar? Fecho contratos comigo próprio com o único objectivo de os não cumprir? 

    Seja como for, falhei apenas um dia. Ontem não escrevi um post no 100 Cabeças quebrando a meia promessa que fiz anteontem. Não é grave. É apenas motivo de reflexão. Talvez não haja conclusões a tirar. Talvez a coisa se resolva escrevendo um post todos os dias até ao final do mês (risinho desdenhoso).

sábado, junho 21, 2025

2 comentários (a artigos no Público online)

    Com o sofrimento dos outros posso eu bem. A globalização foi criada para facilitar as trocas comerciais e não para aplanar o mundo em termos culturais e políticos. A esperança é que os interesses monetários arrefeçam a vontade de matar, violar e saquear, instintos muito humanos, como sabemos. Aqueles que têm o azar de nascer em países que se alimentam da carne e da alma dos cidadãos que se amanhem. A vida é como Deus a concebeu e quem ganha são sempre os mesmos, como na quinta de Orwell. 

    Deus, pátria, autoridade. O deus é Jeová recauchutado como Jesus Cristo; a pátria é uma mistificação beatífica de uma chusma de heróis sanguinários (o mundo não é um mar de rosas) que se foram safando à força da bordoada que é como se traçam as fronteiras que definem as nações; a autoridade é a perspectiva fascista da coisa: ódio, violência e repressão de tudo o que não vai conforme os ditames do chefe. Quem não vê isto é porque está a dormir e precisa de ser acordado. 

quarta-feira, maio 28, 2025

Extraordinarice

     É assim mesmo que as coisas se passam. Temos de esgueirar-nos numa floresta de acontecimentos banais, sempre na esperança de que algo notável possa acontecer antes do final de cada dia. Convém sublinhar que muitos de nós são seres de uma fragilidade absoluta, seres construídos sobre personalidades de cristal, personalidades incapazes de suportar os tons mais agudos, sempre em risco de rachar, de quebrar, de voar em todas as direcções, estilhaçadas.

    Como perceber a excepcionalidade de um acontecimento? Sim, a questão é de suma importância apesar de nos parecer um bocado tola: então não se percebe logo quando um acontecimento é extraordinário!? Não. Nem sempre.

    Ainda hoje vi duas pombas, uma fêmea e uma macho, jogando o jogo da Primavera, e vi um senhora muito forte que se deslocava apoiada numa bengala com uma espécie de casaco comprido que esvoaçava batido pela brisa, uma figura notável, e vi um cão preto a ser amarrado à porta do supermercado e depois a latir timidamente, chamando a dona que havia ido às compras, enquanto olhava em volta a tentar perceber exactamente o que se passava. Vi todas estas coisas que me pareceram extraordinárias apesar de aparentemente ordinárias.

    Depois de escrever o parágrafo anterior fica a dançar-me na cabeça uma pergunta que poderá parecer uma pergunta de merda: haverá alguma coisa que não seja extraordinária?

terça-feira, maio 13, 2025

Palestrante

     O palestrante deambulava para a esquerda e para a direita numa linha vagamente recta. Aqui e ali uma paragem, acolá uma suspensão no discurso, tudo razoavelmente dramático. Esboçou uma narrativa carregada com traços terroríficos. O gesto, o tom, o estilo, tudo para convocar um sentimento piedoso entre nós, na plateia. E a coisa funcionou. Os espectadores pareceram irmanados pela compreensão do sofrimento alheio. Tudo muito piedoso, tudo muito solidário em retrospectiva. Bastaria olhar os rostos comprimidos dos que escutavam o professor para perceber que se tratava de boa gente, que era tudo boa gente.

    Algo me incomodou a ponto de retirar o meu bloco do bolso para registar o que se segue: "muito evocamos os tormentos e pouco falamos de alegrias." 

    Voltei a guardar o bloco no bolso do casaco e continuei a seguir o passeio do professor à minha frente; direita, esquerda, parado, em andamento. No fim todos batemos palmas.

sexta-feira, maio 02, 2025

Sem título

     A manhã mal começara mas o homem sabia bem que o dia haveria de ser passado à espera que chegasse ao fim. Cada minuto, cada hora, potenciais suplícios. Calçou as botas com a ajuda de uma calçadeira, apertou o cinto num furo mais adiante, a barriga a crescer-lhe como se pudesse estar grávido, a crescer-lhe todos os dias um pouco mais, um pouco mais, haveria limite para aquilo ou acabaria por rebentar espalhando sangue e tripas à sua volta? Esta imagem fê-lo sorrir. Agradavam-lhe ideias assim, ideias extremamente estúpidas. 

    Saiu arrastando os pés. Dirigiu-se ao supermercado. Cruzou-se com mais pessoas que pareciam arrastar-se como ele, pessoas aparentemente desanimadas, aparentemente pouco dadas a sonhar com um futuro para lá do meio-dia. Colocou uma embalagem de cogumelos laminados no cestinho com rodas. Juntou-lhe uma garrafa de vinho tinto e duas latas de atum em promoção. Dirigiu-se à caixas automáticas e escolheu uma, ao acaso. A máquina não colaborou logo à primeira tentativa mas depois da intervenção de uma senhora credenciada pela empresa detentora do capital da loja, lá se decidiu a cumprir o seu papel nesta cadeia fastidiosa de acontecimentos banais. O homem pagou com um cartão de débito e saiu do supermercado.

    Chuviscava. Atravessou a rua na passadeira. Um carro vermelho teve de parar para que ele atravessasse. Regressou a casa e sentou-se no sofá sem grande entusiasmo. Pegou no livro que deixara sobre a mesinha: "Este país não é para velhos" de Cormac McCarthy. Sorriu. Talvez devesse emigrar.