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segunda-feira, agosto 30, 2021

Questão fundamental

Já alguma vez sentiste uma vontade tremenda de acreditar em Deus mas, apesar da imensidão do teu desejo, não seres capaz? Tu a esforçares-te por acreditar e... nada! A quem poderás atribuir a culpa de tão rotundo falhanço? Se Deus existe decerto que a culpa é Dele.

Sim, eu sei, é como fazem os putos, nunca têm culpa de nada, estão sempre a procurar outro a quem possam atribuir responsabilidades. Mas se formos de facto filhos de Deus estaremos apenas a deixar correr o marfim, a sermos aquilo que somos. Já Ele, tenho as minhas dúvidas de que ande a cumprir as Suas obrigações enquanto Pai da Humanidade.

quinta-feira, dezembro 05, 2019

Deus-coisa

Somos tantos! Diz o povo que "cada cabeça sua sentença" e nós somos tantos!!! É milagroso que consigamos conviver e perdurar em sociedade. Quem busca provas da existência de alguma coisa que possamos designar como "Deus" não precisará de procurar muito para as encontrar; basta que olhe em volta e veja.

Deus, a existir, será aquilo que nos une, a coisa inominável de que todos comungamos e faz de nós seres humanos capazes de amar e de conviver de forma pacífica. Esse Deus não tem qualquer possibilidade de se aperceber daquilo que somos ou o que fazemos. É um Deus-coisa, não um velhote com dotes escultóricos, capaz de moldar o barro enquanto se vê ao espelho para depois lhe insuflar uma alma vá-se lá saber como.

Os que acreditam na versão do velhote imaginam-no uma espécie de Voz, do Big Brother televisivo, uma personagem metediça e policial que escrutina cada peido que damos. Omnipresente.

Atribuem-lhe também o dom da omnipotência, a capacidade de nos julgar e enviar com despacho para o Inferno ou, então, recolher-nos junto a Si no Paraíso. E somos tantos! Deus não terá mãos a medir embora me pareça que os que não acreditam Nele lhe poupam trabalho e levam logo todos com o selo do fogo eterno independentemente do que tenham feito com a sua vida e com a vida dos outros. Este Deus-burocrata não tem tempo a perder com infiéis, balde com eles! E são tantos!!!

O Deus-coisa tanto existe como não. Está ligado a nós todos e liga-nos uns aos outros mas não tem consciência própria, não tem corpo nem se parece com um imperador, muito menos se assemelha a um juíz. O Deus-coisa está tão longe de tudo isto!

domingo, dezembro 20, 2015

Salvação

Anda toda a gente em busca do caminho da salvação de alguma coisa.
Uns procuram a salvação da alma, outros a salvação das suas economias, outros ainda desejam ardentemente salvar o que resta do dia que estão a viver, e assim por diante.

A ânsia de salvar qualquer coisinha faz-nos desejar que Deus esteja connosco, que Deus nos ame e nos apoie, gostamos de pensar que somos justos e que os nossos anseios sejam puros dentro dos limites que o nosso imaginário impõe à realidade.

Quando digo Deus, estou a referir-me a algo em que acreditamos sinceramente (ou nem por isso), os tais limites éticos, estéticos ou de outra natureza, com que embrulhamos a vida que oferecemos ao nosso corpo e à nossa alma.

A Fé não necessita obrigatoriamente de uma figura barbuda montada numa nuvem branquíssima, apoiada por uma legião de anjos especializados em diferentes tarefas. Deus assume as formas mais variadas.

quinta-feira, junho 27, 2013

Uma questão de Fé?

Vi-a hoje pela manhã. Estava numa loja de telemóveis, aguardando pacientemente a minha vez de ser atendido. Ela estava lá. Velhinha, meio curvada, bem vestida, bem calçada, bem arranjada, óculos escuros redondos. Segurava na mão esquerda uma revista. Não reparei logo mas segurava a revista com um guardanapo de papel a proteger os dedos.

O tempo continuou a passar daquele jeito que passa nesses lugares de atendimento ao público. Muito devagar, um toque sonoro a marcar um novo número. Uma coisa tediosa. A senhora continuava sentada, segurando a revista mais ou menos à altura da face. Tirara os óculos escuros e olhava a página aberta à sua frente. Murmurava qualquer coisa... ou seria impressão minha?

Passado algum tempo voltei a reparar na mulher. Estava encostada ao balcão e trocava algumas palavras pouco amigáveis com o rapaz que a atendia. Ele falava de modo ríspido, parecia alterado. A mulher não olhava para ele, continuava concentrada na revista como se esperasse que do seu olhar pudesse resultar alguma coisa de especial. Era estranho.

Voltei a distrair-me com outra coisa qualquer. Até que a senhora se afastou do balcão e começou a falar alto. Agora estava próxima de mim e pude ver que a revista estava aberta numa página que exibia uma foto do Papa João Paulo II, o santo. Era essa fotografia que a mulher fitava insistentemente. Apercebi-me de que nunca virava a página. Quase pude sentir a presença do defunto Papa.

Todas as pessoas dentro da loja tentavam ignorar a mulher e a sua santa companhia. Ela saiu para a rua. Pude vê-la através da vitrina. Estava especada no passeio a conversar com a fotografia. Passados alguns minutos regressou. Voltou a dizer qualquer coisa (as minhas dificuldades auditivas não me permitiam compreender o que ela dizia por estar um pouco distante). Dirigiu-se à máquina que distribui as senhas de atendimento e retirou uma. Voltava à carga.

Reparei que os empregados da loja não estavam particularmente preocupados nem lhe davam muita atenção. O que estava mais próximo de mim, ao notar que eu olhava a velhinha, ofereceu-me um sorriso muito suave, como quem diz "não faz mal". Compreendi que se tratava de um episódio frequente. Ao sair olhei a mulher uma última vez. Conversava com a fotografia de João Paulo II. Dizia algo e esperava uma resposta em silêncio reverencial.

Vim embora a pensar em questões de Fé. Questões de Fé e de loucura.