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sexta-feira, março 13, 2020

Encerrado

O primeiro-ministro anunciou, ontem, mais ou menos à hora da papa, uma série de medidas práticas com a finalidade de refrear o ímpeto infeccioso do covid-19. A ideia é, basicamente, fechar o país. Encerrá-lo.

Estamos desamparados perante a ameaça viral, não sabendo ao certo como combater o bicho fecham-se as portas, recolhemo-nos atrás das paredes na aparente segurança do lar e esperamos. Entretanto a vida continuará lá fora, a vida continuará cá dentro. Dentro de casa, dentro do nosso corpo, dentro dos nossos corpos. A vida não será encerrada.

É-nos sugerido um retiro auto-imposto. Apelam ao nosso espírito cívico, à nossa consciência cidadã, ao nosso amor pelo próximo. A ideia é a de um retiro espiritual em massa. Seremos capazes de realizar esta espécie de mergulho para dentro de nós próprios? Todos, em simultâneo, uma nação em recolhimento.

Tenho as mais sérias dúvidas, parece-me que será pedir demasiado ao povão mas, como diz o próprio povo, pedir não custa. O povo diz muitas coisas, umas acertadas, outras nem tanto.

Iremos nós conhecer um pouco melhor o povo português? É esta a oportunidade para nos olharmos ao espelho colectivo da nação e perceber um pouco mais os contornos da coisa que somos. Seremos algo próximo daquilo que imaginamos (se é que imaginamos ser alguma coisa)?


quinta-feira, março 12, 2020

Covid-19

Era de prever: a histeria instala-se, a vozearia confunde, os opinadores profissionais começam a delirar, seja em directo, nas televisões, seja em diferido, nos jornais, é um regabofe de prosápia e pés pelas mãos. Os decisores políticos acordam transformados em baratas tontas, as medidas de contenção da pandemia formam um novelo intrincado ao qual não se encontra ponta por onde se lhe pegue. Anda tudo para trás e para a frente, para um lado e para o outro, a nau vai de rojo no meio da tempestade. O povinho cá vai andando, a cabeça entre as orelhas, pensando que não sabe o que pensar ou que, sabendo, o mais provável é que esteja enganado.

A pandemia do covid-19 revela a consistência frágil deste nosso mundo, um mundozinho de cristal, desprotegido e incapaz de encontrar formas robustas de se afirmar perante si próprio. Quanto tempo durará esta barafunda? Qual será o aspecto do mundo global quando a poeira assentar? Aguardemos com a serenidade possível.

segunda-feira, fevereiro 24, 2020

A guerra

Anda o mundo agitado pela angústia causada por um novo vírus. Pergunto-me se será razão para tão grande alarme.

Se este vírus tivesse surgido há uns 100 anos atrás decerto não iria desassossegar do mesmo modo os nossos antepassados. Por um lado não teria à disposição a extraordinária ribalta que é o aparato mediático contemporâneo, capaz de transformar qualquer peido num autêntico mar de merda; por outro não haveria esta capacidade de espalhar por toda a superfície planetária uma maleita manhosa como esta pois a indústria do turismo voador ininterrupto não existia. Era uma coisa muito intermitente, incapaz de colocar pessoas infectadas em cada canto do mundo com uma rapidez estonteante.

Vivemos na Aldeia Global, estamos a comportar-nos como aldeões?

Esta história fez-me lembrar um conto de Leopoldo Lugones intitulado Os cavalos de Abdera no qual... talvez possas ler o conto, amigo leitor, e depois me dirás se há alguma sombra de lógica nesta minha comparação. Passando adiante: é como se os vírus tivessem algum tipo de inteligência e fossem capazes de definir estratégias guerreiras.

É a guerra.

quinta-feira, outubro 30, 2014

Paranóia ou nem por isso?


É impressão minha ou a paranóia descabelada provocada pelo Ébola nos países ocidentais está a diminuir?

Em muitos países de África sim, a situação é terrível. Já morreram milhares de pessoas. Deste lado do Mar Mediterrânico a contagem de casos ainda não ultrapassou a casa das unidades mas, no entanto, não fomos poupados a alertas desesperados avisando-nos sobre a proximidade do Apocalipse.

De onde vem este desejo masoquista de que um dia (esse dia virá!?) uma epidemia devastadora caia sobre nós e deixe a nossa sociedade  num estado tipo Walkingdead? Será isto resultado de um sentimento de remorso, um recalcamento católico que nos faz olhar ao espelho e ver uma sociedade merecedora de um novo Dilúvio ou coisa ainda pior?

Há certas personagens que nestas ocasiões vêm para os écrãs de TV fazer cara de cú, franzir a sobrancelha e explicar à populaça que eles bem tinham avisado; que a grande epidemia da nossa geração é esta (agora é que é!!!), que estamos lixados e o melhor é ir encomendando a alminha ao Criador.

Parece que esses caras-de-cú se enganaram (mais uma vez) e que, oh céus!, ainda não é desta que vamos andar a enterrar as nossas famílias em valas-comuns.

O risco de infecção existe, não haja dúvidas quanto a isso. Ninguém está livre do Ébola do mesmo modo que ninguém está livre do HIV ou do Influenza.

Resumindo: não fiques desatento, caro leitor, se pisares cócó na rua tem cuidado ao limpar a sola do sapato, o cócó pode estar cheio de vírus Ébola! O mesmo com chichi ou escarretas. Não mexas em escarretas de desconhecidos, nem em poças de vomitado por identificar. Tem cuidado leitor amigo. Já são poucos os que visitam Blogues, não queremos que o Ébola te leve.

sexta-feira, outubro 10, 2014

Socorro!!!

Socorro! Ai Jesus! Valha-nos Deus! Valha-nos Nossa Senhora! Chamem o exército, tragam os cães, fechem as portas e levantem muros. Socorro que vem aí o Ébola!

Começou a campanha de desinformação e exploração do medo. Haverá por aí alguém interessado em explorar a ingenuidade alheia?

A ignorância é importante e há quem trabalhe arduamente no sentido de a manter forte e actuante. Um ignorante está mais desprotegido perante o temido novo flagelo divino.

Quem pretende lucrar com esta nova paranóia colectiva? Ainda não percebi mas decerto irá surgir em breve algum negócio chorudo associado ao novo medo da década.

Cuidado, vem aí o vírus do Ébola!!!