Mostrar mensagens com a etiqueta leitura. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta leitura. Mostrar todas as mensagens

quinta-feira, abril 16, 2026

Circuito fechado

     Ler um texto escrito por um pensador francês traduzido para português quando as ideias que veicula são tudo menos ideias simples, pode revelar-se uma tarefa desopilante. Um gajo pode não estar a perceber muito bem aquilo que vai lendo, pode ter que voltar atrás uma e outra vez, reler, parar um pouco, pensar melhor e perceber um bocadinho. Ou pode abstrair-se enquanto vai decifrando as palavras e dar por si a não ler, lendo. As palavras entram pelos olhos mas parecem apenas deslizar quando chegam ao cérebro. Ficam para ali  tentando marchar meio esquecidas.

    E pronto, parar a leitura e escrever um texto no qual tentas explicar o que te aconteceu aqui há uns minutos atrás pode ser uma boa forma de recuperares uma certa vitalidade que ias perdendo com o livro entre as mãos. É o que faço, o que fiz, o que lês e, daqui a nada, o que leste. Dou por mim a pensar que o passado não tem fim (título do último desenho que fiz). E assim fecho o circuito. 

domingo, novembro 24, 2024

Leitura

     Influenciado pela imaginação de Borges (aliada à minha com o fito de me fazer planar algures entre o céu e o inferno) folheei brevemente a Divina Comédia (edição bilingue com tradução de Vasco Graça Moura). Senti o impacto da coisa, tal qual Borges descreve na sua conferência em Sete Noites (vi Cerebro com uma nitidez nunca antes sequer imaginada). 

    Um gajo, não tendo problemas de guito, pensa logo: "podia comprar isto". Mas depois de reflectir um pouco, este gajo, percebe que nunca iria ler a cena até ao fim, que seria mais um belo livro a fazer-lhe caretas lá do cimo da prateleira. Devolvido o livro ao seu lugar um gajo pensa: "nem sequer Os Lusíadas fui ainda capaz de ler".

    Que livros ler, quando os ler, como os ler, o que deixar de fazer para fazê-lo? Eis uma sequência de incómodas questões que o gajo prefere ignorar.

segunda-feira, novembro 20, 2023

O mundo a dar as voltas do costume

     Não sei também te acontece, difuso leitor, mas, por vezes, sinto uma estranha compulsão pela leitura. Estou a ler qualquer coisinha (neste momento o "Pequeno Almoço de Campeões" de Kurt Vonnegut) e começo a sentir apelos externos, cantos de sereia desconcertantes que me levam a abeirar de prateleiras repletas de livros.

    Hoje lá me cheguei a uma prateleira da biblioteca da minha escola. Ia só verificar se tinham "A Peste", de Camus. Tinham. Dois exemplares e tudo. Foi então que ouvi um sereia a cantarolar ao longe. 

    Como na biblioteca as coisas estão arrumadinhas, ali perto espreitava na minha direcção "A Guerra das Salamandras" de Karel Capek. O nome do autor é-me familiar por ser o criador do conceito de robot ou coisa que o valha. Tendo dez minutos perdidos no tempo não resisti a folhear a coisa e ler um pedaço.

    Não tinha completado a segunda página já um bando de sereias serigaitas me enchia a mona de cânticos irresistíveis. Ai, ai, eram tantas e cantavam tão melodiosamente! Fechei o livro com a mente ainda a palpitar, passei os olhos pela sinopse e... punfas, toma lá que já almoçaste! Lá estava escarrapachado que Capek foi uma grande influência para dois ou três escritores mas só fixei o nome de um desses eventuais discípulos: Kurt Vonnegut!

    Pronto. Estava dado o laço. Nunca li Capek mas sei que, a partir de agora, me será impossível não o fazer.

sexta-feira, outubro 07, 2022

Uma certa indolência

     Não ler é um direito de todo o cidadão. Será a não leitura um direito simétrico ao da leitura? Se colocados na balança dos direitos (aquela que a Justiça segura como segurasse o bebé do Rei Salomão) terá o não ler um peso equivalente ao ler, mantendo os pratinhos equilibrados numa exacta correspondência?

    Enfim, o conhecimento livresco e o conhecimento interiorizado pela vivência do quotidiano equivalem-se? A academia e a rua (ou a selva, ou as ruínas de uma cidade esquecida) terão igual valor enquanto instituições que enquadram a aprendizagem da vida? 

    Poderia continuar a colocar questões atrás de questões num rosário com tendência para o interminável. Nem sequer estou interessado nas respostas, muito menos em eventuais polémicas que tais questões pudessem despoletar. Este post resulta apenas de uma certa indolência intelectual. Nada de muito grave, espero eu.

quinta-feira, abril 16, 2020

Grande D. Quixote

Faltam-me 7 páginas para terminar a leitura do 2º volume do D. Quixote de la Mancha, tradução de Aquilino Ribeiro, ilustrações de Gustave Doré, editado pelo Público aqui há uns anos. Reservo esse derradeiro capítulo, "de como D. Quixote caiu doente, do testamento que fez e da sua morte" mais umas horas.

A viagem que venho fazendo na companhia do Cavaleiro de Triste Figura aka Cavaleiro do Leões e do seu fiel escudeiro Sancho Pança, mais as cavalgaduras que com eles alombam, o Rocinante e o Ruço, tem sido espantosa.

Agora compreendo porque é o D. Quixote tão imenso. Todos temos a impressão de conhecer este cavaleiro andante, as mais das vezes através de ecos da sua fama que nos chegam tomando as mais variadas formas mas, em boa verdade te digo, amigo leitor, que nada se compara ao contacto directo com a obra... mas isso já tu suspeitavas.

Começo a sentir uma pontinha de saudade da leitura desta obra monumental.

segunda-feira, agosto 05, 2019

Ler

Ler não é remédio mas alivia a solidão e pode ajudar a manter a estupidez à distância.

Sou um leitor muito lento, quase um caracol, tal o ritmo a que leio. Este ano resolvi fazer uma lista do títulos que vou lendo. Constato que não são mais nem menos do que imaginava. Os temas e os autores são tão díspares que nem eu compreendo qual a lógica das minhas escolhas. Melhor, ao passar os olhos pela lista percebo que não há qualquer lógica nas escolhas.

Romances, crónicas, ensaios, temas históricos, contos, novelas, passa tudo. A única regra é ter sempre um livro para ler. É essa a lógica!

O meu avô materno tinha um pequeno azulejo na parede da cozinha que dizia "Livros e amigos, poucos e escolhidos", nunca esqueci essa frase mas, sinceramente, não oriento a minha vida por ela. Principalmente no que diz respeito aos livros.

Apesar da lentidão com que avanço nas páginas impressas, acumulei centenas de livros nas estantes e recorro com frequência a bibliotecas públicas, muitas vezes por questões de racionalidade económica e de espaço físico. E o meu cérebro? Estarão todos os livros que li guardados nele?