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segunda-feira, março 24, 2025

Deus(es)

     Montanha, nuvem, jaguar, livro, floresta, rio, pássaro, fantasma, nota de banco, elefante, fogo, coisas pequenas ou imensuráveis, tudo, nada, algo impossível e o seu contrário, eis algumas formas de Deus.

    Deus! Umas vezes único, outras vezes múltiplo mas sempre poderoso e capaz dos feitos mais extraordinários. Deus ora te ouve e te vigia, ora te abandona à tua sorte. Vai-te lixar. Ou te castiga ou te premeia ou se mostra indiferente ao que quer que possas fazer. Deus é desconcertante, os deuses nem tanto. Traz-me um chá.

    Cogumelo, serpente emplumada, automóvel de grande cilindrada, sol, escuridão, tudo, nada, algo impossível e o seu contrário, eis algumas formas de Deus.

    Talvez pudesse continuar por muito tempo, talvez pudesse escrever muitas linhas, muitas páginas, porque Deus é tantas coisas, são tantos os deuses, mas já estou um bocadinho chateado. Fico por aqui.

quarta-feira, janeiro 18, 2023

Criação dos animais


     Era negro, o fundo. Era negro. Eram mais ou menos brancas, as formas, queriam ser brancas mas não o conseguiam. Completamente. As linhas criadas no contraste encerravam seres que pareciam monstros. Mas não. Não há monstros de papel.

    O triângulo com um olho ao centro é imagem de deus. O que criou os animais. E inventou a fome. E carne, dentes, tripas e músculos. Deus inventou essas coisas todas. Deu vida aos bichos e, aos que não foram devorados, deixou-os morrer.

sexta-feira, março 25, 2022

O apocalipse segundo São Merdoso

     E se as bombas voarem, quais aves migratórias, doidas, em todas as direcções? 

    Bombas que se cruzam nos céus da Europa como autocarros em hora de ponta na baixa da cidade. Bombas como formigas nos seus incansáveis carreiros. Bombas que, depois de caírem, cumprindo finalmente o tenebroso destino, serão como pontos finais semeados de forma cirúrgica sobre uma página agora negra, rendilhada com a forma da Europa.

    O déspota terá acreditado cumprir a missão que Deus lhe confiou no exacto momento em que a bomba (a sua bomba particular, a bomba com o seu nome inscrito, aquela bomba estupidamente vingadora), a bomba rebentar pulverizando-o em incontáveis átomos que irão misturar-se na poeira cósmica do mais completo esquecimento. Adeuuuuusssss...

    E o planeta, momentaneamente moribundo, acredita numa lenta recuperação, agora que está menos exposto à cegueira do homem, do homem branco pelo menos, esse que se varre a si próprio da crosta terrestre; Deus Pai vencido pela Mãe Natureza. O Grande Deus Branco enfiado no buraco por aqueles que O inventaram.

    Os velhos deuses irão regressar um pouco por todo o Mundo, livres da sombra pesada e negra do Deus opressor, o Deus único e absoluto, morto e enterrado com as suas bolsas de valores e iates de luxo, as suas catedrais de consumo e os seus papas dourados, o Deus da opulência desmesurada que matou e destruiu milhões de seres humanos de todas as cores, formas e feitios, a brutalidade gananciosa do monstro enfim derrotada e pronta a ser esquecida na imensidão do Cosmos. 

    Aleluia!

    (espero sinceramente que as bombas não voem mas adorava assistir à queda do déspota e do seu Deus: o Deus da Fúria, o Deus da Guerra, o Deus da Ganância)

segunda-feira, agosto 30, 2021

Questão fundamental

Já alguma vez sentiste uma vontade tremenda de acreditar em Deus mas, apesar da imensidão do teu desejo, não seres capaz? Tu a esforçares-te por acreditar e... nada! A quem poderás atribuir a culpa de tão rotundo falhanço? Se Deus existe decerto que a culpa é Dele.

Sim, eu sei, é como fazem os putos, nunca têm culpa de nada, estão sempre a procurar outro a quem possam atribuir responsabilidades. Mas se formos de facto filhos de Deus estaremos apenas a deixar correr o marfim, a sermos aquilo que somos. Já Ele, tenho as minhas dúvidas de que ande a cumprir as Suas obrigações enquanto Pai da Humanidade.

segunda-feira, julho 05, 2021

Omnipresença

Há um quase silêncio na sala. Apurando o ouvido consigo detectar os automóveis que passam no alcatrão molhado ou aquilo que me parece um televisor, algures, encalhado no betão. Ignorando isso, silêncio absoluto, na medida em que podemos aspirar ao silêncio estando numa cidade sobrepovoada, sobrepoluída e, acima de tudo, esquecida pelos deuses.

Isto é o mais próximo do silêncio absoluto que  Harpócrates nos pode oferecer ou proporcionar. Perante o ruído latente, o deus coloca o indicador da mão direita sobre os lábios. Pudéssemos nós satisfazer o seu pedido, obedecer à sua ordem! 

Muito me incomoda o ruído artificial capaz de irromper na paisagem com a força de uma tempestade. Um avião de combate voando a baixa altitude é como se rasgasse um céu feito de papel imenso. Um funcionário da câmara municipal espantando as folhas caídas com o seu aspirador-ao-contrário é como se fosse um demónio a castigar os viciados na beleza sonora.

Penso no ruído como sendo, ele próprio, uma divindade moderna ou contemporânea. Os antigos, que criaram deuses aos pontapés, não foram capazes de imaginar um que protegesse o ruído? Não quiseram fazê-lo? Deve o ruído ser objecto de veneração? Seja como for, tendo ou não alteres em sua honra, o ruído é das coisas que mais se aproximam da suposta omnipresença divina. Nas cidades é mais que rei, maior que imperador, nas cidades o ruído é deus!

terça-feira, abril 07, 2020

O lugar de Deus

Estou cansado das contagens. Da contagem dos mortos, dos infectados, dos recuperados, dos desempregados, dos desesperados, dos encerrados, dos assustados, dos despreocupados... tantos números, percentagens infinitas, tantas opiniões, tantos inquéritos; tudo para contabilizar o impacto da pandemia nas nossas vidas. É um martelar constante que, decerto, muito contribui para o aumento do número dos angustiados.

Por trás desta amálgama indistinta estão milhões de indivíduos, cada um seu universo, a sofrer, a perder o mundo, a obra de Deus implodindo. E Ele, o que faz? Onde está Deus? A resposta é óbvia: Deus está no Seu lugar.

sábado, julho 02, 2016

Possibilidade

Talvez acredite num Deus que seja o resultado da ligação em cadeia de todas as consciências de todos os seres vivos que habitam o planeta. A existir, este Deus, seria algo informe e maravilhoso, uma omnipotente emanação de energia não assimilável, algo por nós disparado em direcção a uma outra dimensão, uma outra realidade na qual apenas a verdade pudesse ter lugar.

Este Deus seria o resultado da existência de vida e nunca o seu criador. Talvez eu acredite que um Deus possa ser criado e mantido vivo enquanto no planeta a vida existir, mesmo que apenas sobrevivam ratos e baratas a deambular por aí. Mesmo que restem apenas seres unicelulares.

Talvez eu acredite que Deus é um sopro de vida.

Talvez eu acredite nisto... não sei, sinceramente, não sei em que acredito.

sexta-feira, fevereiro 21, 2014

Apolos

Oh, quantas vezes esquecemos, quantas vezes ignoramos as divindades! É como com as fadas nas histórias infantis: se não se acredita nelas acabam por desfalecer e, no extremo, batem as botinhas e vão desta pra melhor. Adeus, até nunca mais...

Deus, o Tal, o Verdadeiro, o dos judeus, Jeová, acho, já sente, de vez em quando, uma tontura (com tanta vírgula não admira). Nada de muito grave, mas convém verificar os níveis de confiança na própria existência. É que, para nós, mortais, a Fé é uma coisa interior, pessoal e intransmissível. Quando alguém diz que tem Fé só nos resta acreditar e aceitar, ainda que a não tenhamos.

Mas Deus, o Tal, omnipotente e omnisciente, sabe bem da sinceridade de cada um, não tem como se auto iludir. E Jeová desfalece, toma vitaminas, vai ao ginásio e consulta um homeopata após sair da sessão de acupunctura mas a coisa está, definitivamente, a ficar feia. Os crentes são menos crentes do que seria suposto e já não O temem como deviam. Já foste, Jeová!

Isto vem a propósito da recente descoberta de uma estátua de Apolo no fundo do Mediterrâneo, resgatada por um pobre pescador palestiniano (ver aqui).

Apolo, um deus meio esquecido (entrada da Wikipedia) que regressa às bocas do mundo após ser pescado e trazido à superfície dos noticiários mundiais. Mas o que me chamou particularmente a atenção foi o lençol sobre o qual deitaram a imagem do dito para lhe tirarem as fotos da praxe: um magnífico estampado de Schtroumpfs (ou Smurfs, como lhes chamam agora).

Alguns milhares de anos separam a estátua de Apolo do Schtoumpf Amoroso ou da sensual Schtroumpfina estampados no lençol mas, quis o acaso (ou o capricho de algum deus), que viessem a encontrar-se numa imagem que corre mundo, comovente e improvável fusão de imaginários culturais.

Isto é uma das coisas que me fascinam: a hibridização anárquica de referências e imaginários, o universo de informação visual que está à nossa disposição, mesmo à frente dos narizes que nos guiam os passos, à espera de um olhar, à espera de uma visão, imagens prontas a usar, imagens ready made, que temos apenas de ser capazes de recontextualizar e... voilá!

Apolo e os Schtroumpfs, uma torrente de ideias...