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quinta-feira, abril 16, 2026

Circuito fechado

     Ler um texto escrito por um pensador francês traduzido para português quando as ideias que veicula são tudo menos ideias simples, pode revelar-se uma tarefa desopilante. Um gajo pode não estar a perceber muito bem aquilo que vai lendo, pode ter que voltar atrás uma e outra vez, reler, parar um pouco, pensar melhor e perceber um bocadinho. Ou pode abstrair-se enquanto vai decifrando as palavras e dar por si a não ler, lendo. As palavras entram pelos olhos mas parecem apenas deslizar quando chegam ao cérebro. Ficam para ali  tentando marchar meio esquecidas.

    E pronto, parar a leitura e escrever um texto no qual tentas explicar o que te aconteceu aqui há uns minutos atrás pode ser uma boa forma de recuperares uma certa vitalidade que ias perdendo com o livro entre as mãos. É o que faço, o que fiz, o que lês e, daqui a nada, o que leste. Dou por mim a pensar que o passado não tem fim (título do último desenho que fiz). E assim fecho o circuito. 

sexta-feira, janeiro 30, 2026

Percepções

    Altura, largura e profundidade ajudam à definição de um objecto. Quando estou a pintar ou a desenhar confronto-me com outro conjunto de variáveis, nessas ocasiões as 3 dimensões passam a ser: volume, distância e movimento. São dimensões espaciais, que implicam a deslocação de objectos no espaço e o próprio espaço, dimensões menos mensuráveis, menos concretas, mais dificilmente representáveis. 

    Como normalmente não tenho de me preocupar com o rigor da representação posso bem inventar uma treta qualquer que tenha consistência suficiente e não pareça demasiado parva. Se bem que isto não seja treta, antes pelo contrário, eu sei que pode soar como tal.

    Feitas as contas, o que importa é a coerência interna do objecto plástico, importa que tudo faça sentido, que cada elemento ganhe o protagonismo que lhe cabe no conjunto e na medida exacta da minha sensibilidade. Ou da tua, caso acredites naquilo que fica registado aí atrás e no que vou escrever já a seguir. 

    A percepção da realidade, a percepção do espaço, das cores, das formas, dificilmente serão exactamente as mesmas de mim para ti e para o outro. Vivemos num espaço comum que percepcionamos e interpretamos de diferentes maneiras. "O mundo de cada um é os olhos que tem", citando Saramago. 

    Nem todos registamos as nossas impressões através da arte mas aí está ela para nos ajudar compreender um pouco melhor quem somos, o que somos, o que fazemos aqui. 

quinta-feira, outubro 17, 2024

Palavras em palco

     A palavra ou vem controlada, com intenção, ou transporta consigo uma certa dose de confusão e  arrisca-se a arrastar a cena penosamente. Os actores parecem improvisar o gesto com mais à vontade do que improvisam com palavras. 

    Tudo isto poderá confirmar a ideia de que precisamos de saber o que fazer no palco antes de nos atirarmos a fazê-lo. Mesmo os resultados positivos de uma improvisação são mais tarde recuperados em sessões de ensaio de modo a procurar um sentido mais estruturado para o seu significado. Não consigo imaginar os espectáculos idealizados por Merce Cunningham.

    Lá no fundo, a ideia é não sermos demasiado obcecados com regras na abordagem ao objecto artístico. Nem tão radicais como Cunningham nem tão rígidos como um ídolo cicládico.

sábado, setembro 28, 2024

A Arte Abstracta é coisa que se veja?

     A designada Arte Abstracta transporta consigo uma tremenda confusão. A Arte Abstracta é uma Cavalo de Tróia da Confusão. A Confusão entra em nós alojada no estômago da Arte Abstracta. 

    Tem tudo a ver com aquela coisa de se representar ou não aquilo que os os nossos olhos vêem ou que imaginamos ver ou lá o que é. Magritte terá tentado apunhalar o o dito cavalo pintando A Traição das Imagens mas o cavalo, além de ser de pau, é demasiado grande para que possamos importuná-lo com um punhal insignificante.

    E é assim que a Arte Abstracta sobrevive a todas as tentativas de esclarecimento sobre a sua origem, a sua substância e (pormenor menos interessante) para onde se dirige. A expressão é caricatural e, talvez por isso, assumiu um papel importante no imaginário popular. Quando se fala de Arte Abstracta toda a gente sabe o que ela é, apesar de não ser bem coisa nenhuma.

terça-feira, setembro 05, 2023

Que o diga Golias

    Lembro-me vagamente de umas aulas, talvez de Estética, a que assisti nos meus primeiros tempos como aluno da Escola de Belas-Artes de Lisboa. Não consigo precisar, passaram várias décadas e a minha memória nunca foi de fiar. Debatia-se a possibilidade da existência de características intrínsecas da obra de arte. Que isto, que aquilo, que teria de ter ou não poderia faltar, as hipóteses iam sendo apresentadas e debatidas. Para me recordar ainda hoje é porque a coisa me interessou e motivou.

    Uma das hipóteses colocadas para que um objecto artístico possa assim ser considerado foi a da sua escala. Quanto maior a escala maior a probabilidade de o objecto vir a produzir uma sensação de deslumbramento no espectador capaz de o levar a considerar estar perante uma obra de arte. É uma perspectiva curiosa mas algo redutora.

    É como se a obra de arte tivesse entre as suas potencialidades a capacidade de nos reduzir à nossa insignificância enquanto indivíduos, como se, para existir, a arte tenha de possuir o condão da enormidade, da inacessibilidade, como se a arte, para o ser, tenha de nos esmagar o ego. 

    Talvez esteja a exagerar mas, quando um gajo reflecte, as ideias vão surgindo em catadupa. Muitas delas podem estar erradas ou, pelo menos, podem não ser muito consistentes, pedindo reflexão, mas na vertigem do pensamento ainda são apenas coisas por nomear, falta-lhes rigor, não passam de projectos de sonhos para serem sonhados quando houver tempo para o fazer. É o que se está a passar aqui, neste momento.

    Veio-me isto à memória e ao tropel do pensamento por ter visto umas imagens de uma instalação de Joana Vasconcelos, uma artista que explora frequentemente a escala do objecto e a sua relação com o espaço como forma de estimular no espectador a sensação de estar perante uma obra de arte.

    Penso que nenhum artista pretende reduzir a sua criação ao gigantismo. Mas o gigantismo é uma armadilha sedutora que provoca desastres frequentes. Que o diga Golias.

domingo, junho 18, 2023

Os cartazes

 

    Dependendo das situações dou por mim a indignar-me, ou não, com questões relacionadas com racismo. Tenho consciência de que, dada a palidez da minha pele, sou um potencial privilegiado num espaço sociopolítico dominado por homens velhos tão ou mais brancos do que eu.

    Talvez por isso, quanto à cena do nosso primeiro-ministro e dos cartazes com o focinho de porco com lápis espetados nas cavidades oculares, não consiga decidir se são ou não são racistas. Parecem-me apenas vulgares, mal concebidos, com uma linha estética simploriamente boçal, definida por uma vontade um tanto infantil de provocar ofensa. Nem sequer julgo que sejam de particular mau gosto. Não chegam a tanto.

quarta-feira, março 08, 2023

Reflexos do passado (e do futuro)

     Não sou gajo de perder muito tempo defronte ao espelho. Com o andar da carruagem tenho-me tornado numa espécie de burro velho e grisalho, não sinto grande atracção pelo meu próprio reflexo. Isso não quer dizer que me estou absolutamente nas tintas para o meu aspecto. Nada disso. Apenas não perco muito tempo a pensar no que me transformei nem sinto particular saudade por aquilo que fui outrora. A barriga teima em ficar como está.

    Ainda assim, quando dou por ela, estico a nuca e tento manter uma certa postura ao caminhar na rua. Depressa esqueço e volto ao andar marreco. Estica, marreco, marreco, estica, sempre dá um certo colorido ao acto banal de pisar o passeio.

    Gosto de me imaginar como sendo jovial e bem-disposto. Daí que me ria bastante comigo próprio quando vejo o tal gajo grisalho, com a sua barriguita e meio marrequito a olhar-se no espelho depois de uma bela banhoca matinal. Sei que não sente grande tristeza por ser assim. Sei também que se vai tentando convencer de que a beleza é algo interior, uma confusão qualquer entre Ética e Estética, mas, lá no fundo, pensa que a beleza e a perfeição não precisam dele para nada. E ficamos bem assim.

domingo, março 05, 2023

Da beleza

     A beleza nem sempre é uma mentira. Por vezes ela é difícil de compreender por não ter equilíbrio nem simetria nem proporção. Por vezes está ali mesmo, à espera de ser vista, e não há quem a vislumbre. A beleza pode ser uma coisa triste (nesses casos dizemos que é coisa melancólica), pode ser um abandono, um vento levemente soprado que verga com graciosidade flores à beira do Inverno, pode ser uma ausência que se transforma em saudade.

    Sinto-me atraído pela beleza imperfeita embora seja sensível à sua extrema perfeição (quando o milagre acontece). Não é que a procure, não. Penso que seja preferível deixá-la acontecer. Forçar a beleza é pedir ao mundo que nos dê algo que pode não ter para oferecer.

segunda-feira, março 14, 2022

E a morte?

     Terá dito Leonardo de Vinci que "a pintura é uma coisa mental". Mais isto menos aquilo, consideremos que sim, que o mestre terá dito que a pintura é uma coisa mental. 

    Conta-se que a frase lhe terá saído após uma queixa dos monges do convento de Santa Maria delle Grazie que reclamavam do facto de ele passar mais tempo embasbacado a olhar para a parede do que a mexer em pincéis e tintas. Será uma das muitas anedotas que se contam sobre pintores e pintura mas deixou uma marca muito profunda no modo como imaginamos que a produção artística se movimenta numa espécie de fronteira entre este mundo e um outro, no qual as formas se encontrarão em estado puro.

    Esta manhã ia caminhando pelo parque quando me veio à cabeça esta frase e, por arrasto, a questão que ela encerra. Especado perante uma árvore tentando captar-lhe a forma, as subtis diferenças de cor e de tom que a luz matinal proporcionava ao meu olhar, pensei na famosa questão: estaria eu, naquele momento, a pintar?

    Entre aquilo que imaginamos e aquilo que pintamos está o nosso corpo. Nem sempre a ideia encontra correspondência na forma, as nossas limitações impedem que a coisa seja tão perfeita quanto a imaginamos. Quando pintamos perseguimos uma ideia, uma espécie de sonho, que se nos adianta sempre, que raramente conseguimos alcançar. Pintar é mais ou menos como pretender atingir a linha do horizonte numa paisagem interminável: dirigimo-nos para ela mas nunca a alcançamos; é o horizonte, caraças!

    Desci a rua em direcção a casa e pensei que, na verdade, tudo é uma coisa mental. Até a vida. Mas... e a morte?

sexta-feira, março 01, 2019

Notícia falsa (?)

Os cientistas do Belo, os Estetas, descobriram que a Arte Contemporânea se esconde dentro de cada um de nós.

Uns pensam que se trata de uma espécie de entidade esquiva, algo vagamente semelhante a um parasita que se nos aloja no cérebro alimentando-se da nossa imaginação, outros sustentam a tese de que é como um algoritmo que é activado quando nos deparamos com um objecto artístico.

Outros ainda, menos dados a prescindir da sua autoridade científica, consideram-se detentores das chaves de interpretação correctas, chaves essas que não estarão assim tão disponíveis a qualquer um; para estes apenas a sua opinião poderá validar a natureza artística (ou não) seja lá de que objecto for.

A notícia desta descoberta não tem sido suficientemente divulgada. Continua a haver milhões de seres humanos que desconhecem esta sua capacidade inata e se julgam incapazes de compreender algo que depende em larga escala deles próprios para ser compreendido.

Seja uma entidade (um fantasma ou génio particular) ou um conjunto de dados combináveis (como se fôssemos máquinas que se limitam a computar), a verdade é que todos os seres humanos nascem e morrem com a coisa alojada no cérebro.

quarta-feira, fevereiro 13, 2019

Fogo!

A beleza é algo fulgurante, coisa que reconforta a alma... até que a incendeia.
Uma alma a arder não é exclusivo do inferno.

domingo, fevereiro 10, 2019

Revelação

Oh, a obra de arte contemporânea! Ao convocar o espectador no processo de validação do próprio objecto artístico, a obra de arte contemporânea interpreta um papel demiúrgico (Deus está em todas as coisas).

Se um objecto aparenta não ter nada de extraordinário mas consegue transportar o observador para uma dimensão reflexiva transcendente, estamos perante uma Revelação (a obra de arte tem o poder de nos fazer transitar entre diferentes dimensões).

A Revelação é um estado de consciência superior que nos permite penetrar um espaço que, não sendo onírico, é habitado por entidades incorpóreas e que não é regido pelas leis da Física nem da Lógica; um espaço no qual a Física e a Lógica são diferentes ou são a mesma coisa, a dimensão das Coisas antes de terem um Nome. É para aí que vamos quando mergulhamos de cabeça numa Revelação.

Voltando atrás, que já me estou a esticar: a obra de arte contemporânea faz do observador um elo significativo na cadeia de comunicação "emissor-objecto-receptor", invertendo-a, torcendo-a, remisturando-a. Exemplificando: o artista cria o objecto, o objecto transporta um significado potencial que se completa no espectador. Não tendo uma leitura fechada o objecto permite a cada um de nós a construção de uma narrativa individualizada (A Fonte de Duchamp será a semente de tudo isto).

Assim sendo, o observador torna-se, também ele, um artista. A arte contemporânea permite a construção de uma utópica sociedade de artistas, criadores ininterruptos de significados, que é, afinal, aquilo que todos nós somos desde que Deus criou Adão. A Arte é a nossa Eva, o objecto artístico é Deus, a arrancar-nos constantemente costelas e a fazer com elas seres virtuais que nos acompanhem na travessia do paradisíaco deserto que é a nossa vida.

domingo, setembro 30, 2018

A Arte não é para todos

 Um Amor Assim É Coisa Pra Não Ter Fim (2018)

Escrevo o título deste post e fico a pensar na diferença entre Arte e arte. Lembro-me de ser miúdo, quando, naquele mundo distante, os artistas eram os pedreiros e os carpinteiros. Depois cresci e fui modificando a forma como filtrava a palavra "artista". Durante muito tempo era sinónimo de vigarista ou de habilidoso, alguém que se safava na vida através de uma certa esperteza, as mais das vezes, saloia.


Estava longe de imaginar que um dia viria a ser considerado um artista. Nem pedreiro, nem espertalhão, mas um outro tipo de artista. Plástico.

Mas o que caracteriza um artista plástico neste Portugal do século XXI? Sinceramente, a resposta é algo que me escapa. Não sei como explicar. Tenho umas ideias...

Olhando para o panorama das artes plásticas tal como se me oferece através da janela dos meios de comunicação, quando a Arte é com "A", percebo que não faço parte daquela paisagem. Significa isso que, nas artes plásticas, há mais do que um mundo? Sim, obviamente.

Já aqui o escrevi mais do que uma vez: a minha arte é com "a". É o meu desejo, é a minha fé. Sonho produzir objectos que permitam estabelecer comunicação com um número alargado de pessoas, mesmo aquelas que desconfiam de mim e da minha arte por não terem o hábito nem a presunção de compreender o que está perante os seus olhos.

A meu ver a arte deve abrir hipóteses e oferecer possibilidades. Livremente e sem complexos. Sei bem que a Arte não é para todos.

sexta-feira, abril 12, 2013

Pensamento pós-almoço (bem regado a vinho tinto)

Todo o objecto, seja qual for a sua natureza, pode ser observado sob duas perspectivas: a forma e o conteúdo; o visível e o invisível; o óbvio e a construção de um pensamento crítico.

Quando esta miríade de conceitos dicotómicos tendencialmente maniqueístas, quando esta pequena fumarada de ideias se confunde numa nuvem que, uma vez arrefecida, gera um bloco concreto, uma imagem mais ou menos poderosa, estamos perante um objecto estético.

Um objecto estético é todo aquele capaz de nos fazer compreender a necessidade que temos de inventar divindades que nos salvem de nós próprios.

quarta-feira, janeiro 10, 2007

À procura da beleza (3)

Kant, ele mesmo


BELO“Não pode haver nenhuma regra de gosto objectiva, que determine por meio de conceitos o que seja belo. Pois todo juízo proveniente desta fonte é estético; isto é, o sentimento do sujeito e não o conceito de um objecto é o seu fundamento determinante. Procurar um princípio de gosto, que fornecesse o critério universal do belo através de conceitos determinados, é um esforço infrutífero, porque o que é procurado é impossível e em si mesmo contraditório.” (Crítica da Faculdade do Juízo, I, 17). Kant refere-se assim à tentativa de definição do belo (Das Schöne), categoria estética ou expressão maior da estética, tradicionalmente tomada por “ciência do belo”.