terça-feira, outubro 31, 2023

Ou o caraças

     Estou cansado de notícias. Começo a duvidar perigosamente da necessidade de me manter informado sobre questões da actualidade. Sinto-me massacrado pelos noticiários constantes e repetitivos, pelos assuntos do dia que geram milhentas opiniões, pelos discursos assertivos produzidos por cretinos mediáticos, é uma canseira e um desperdício.

    Vejo-me a evitar informação. A pretender ignorar. Sinto-me cheio, a abarrotar de inutilidades, a transbordar palavras vazias. Quero parar de ver, ouvir, ler... quero parar... "Ok, então pára ou o caraças", pensas tu, lúcido leitor. É isso mesmo. Aceito o teu conselho. Vou parar. Ou o caraças.

    Temo transformar-me numa espécie de animal escondido no fundo da toca, a olhar a luz difusa que vem lá de fora. A imaginar que raio de coisas estranhas e dilacerantes acontecem no mundo enquanto temo saber que coisas serão essas. 

    É como se estivesse num buraco.

    Ou o caraças.

segunda-feira, outubro 30, 2023

O Marquês cagado

      Não venho sincronizado com a sorte. Ao longo do caminho vou perdendo alguns minutos que julgava merecer. Doem-me os joelhos, correr é complicado e o tempo vai-me fugindo. Ora foge numa carruagem ora se dissolve num apito. Os túneis tornam-se buracos agressivos.

    Na estação de metro uma foto mostra o Marquês com merda branca a escorrer-lhe da testa. Sei que a estátua está lá fora, talvez sobre o lugar onde me encontro. Passo-lhe por baixo com alguma frequência misturado na barulheira do comboio. Quando vejo a estátua "ao vivo" não me lembro de reparar na merda que tem na testa. Talvez a chuva a tenha lavado e o Marquês esteja, agora, limpo. Ele e o leão. Talvez estejam limpos.

    Mas a foto está sempre ali. O Marquês cagado, na estação a que empresta o nome. 

    Imagino um tempo distante em que a cidade seja então uma ruína; a estátua desapareceu mas a foto no túnel permanece. Misteriosa aos olhos das pessoas do futuro que não relacionam a imagem com nada que conheçam ou possam vir a conhecer. O Marquês cagado, para todo o sempre.

sexta-feira, outubro 27, 2023

Não desesperança

     Viajava na carruagem de metro razoavelmente vazia apesar da hora matinal. E pensou:

    "Não será o desespero a extinguir a nossa espécie. O desejo prevalece mesmo, mesmo até ao último suspiro. Enquanto houver desejo a luta da vida por si própria nunca irá esmorecer. Não há desespero que apague o desejo."

    As portas abriram-se sobre a plataforma da estação onde desejava sair. E saiu:

    "Ao contrário do que nos querem fazer crer, a simples existência basta bem para que sejamos humanos."

    Já sentado perante o café e o pão com queijo (sem manteiga) continuou a dialogar com os seus fantasmas:

    "A humanidade não se revela na angustiosa tarefa de inventar novas formas e justificações plausíveis para a velha compulsão consumista que nos trouxe até aqui, à beirinha do abismo. A humanidade é algo que repousa em cada um de nós esperando serenamente a sua oportunidade para ser ouvida."

    Já na rua, meio devorado pela cidade, despediu-se de si próprio. Era necessário vencer mais aquele dia.

domingo, outubro 22, 2023

Dilema

     Terminei um desenho e, como faço habitualmente, comecei a engendrar um próximo. Desta vez trago um título na cabeça, um título que me foi sugerido pela observação quotidiana da maldade e das suas milhentas formas, um título que tem a intenção de alfinetar consciências. Consciências semelhantes à minha mas também, imagino, algumas bastante diferentes.

    A frase veio-me à cabeça ao ler um artigo de jornal, penso, não tenho a certeza. Não é uma frase estável, vai mudando de cada vez que a formulo na minha mente. Já a apontei duas vezes num caderno. Verifiquei que mudou um pouco do primeiro para o segundo registo. Mas não vou buscar o caderno para escrever este post, não preciso dele.

    Não preciso de reler o que apontei porque sei o que quero dizer, sei o que significa o título; apesar das suas mutações formais a essência mantém-se (é por isso que é a essência). 

    "Mataremos o Cristo tantas vezes quantas forem necessárias", é assim que me surge agora, neste momento. Decerto já pensei no título exactamente com esta forma mais do que uma vez. "Mataremos", estou incluído no grupo dos que matam.Mais, este "mataremos" pretende incluir a espécie humana na sua totalidade, não pretende referir-se a um grupo específico. Refere-se a "todos, todos, todos".

    Ao ler, observar e pensar sobre a guerra na Palestina reparo que o meu título ganha uma dimensão inesperada, foge, escapa-me, deixo de o controlar, é como se ganhasse vida própria. Mais, tudo o que  digo ou penso sobre este conflito transforma a lógica em gelatina, as frases contorcem-se como serpentes, as imagens parecem estátuas de sal à espera de um sopro de vento.

    "Mataremos o Cristo todas as vezes que for preciso", disso não tenho dúvidas. A minha hesitação é se posso ou não devo dizê-lo.

segunda-feira, outubro 16, 2023

Gente banal

     As histórias haviam sido todas narradas. Não restava nenhuma que não tivesse já sido inventada. Os romancistas, os cronistas, os dramaturgos, os poetas de um modo geral, mesmo os pintores, os coreógrafos e os simples bêbados que habitualmente conversavam encostados ao balcão da tasca, deram por si a reciclar constantemente histórias que outras mentes haviam imaginado e outras bocas tinham já mil vezes contado.

    Os grandes mestres não se atrapalharam, continuando a brilhar e a ser admirados, convidados para palestras, vernissages, jantares galantes e viagens maravilhosas que cruzavam este mundo e o outro. O facto de recriarem constantemente narrativas estafadas não os acanhava nem incomodava os basbaques do costume (que se babam como vacas pasmadas perante o esplendor alheio).

    E assim foi; logo houve quem sistematizasse o fim da criatividade inventando tabelas e fórmulas explicativas capazes de orientar o mais canhestro dos putativos artistas em direcção à obra-prima, a sua criação mais grandiosa. Com o passar do tempo todos nos tornámos artistas e todos os artistas passaram a ser gente banal.

sexta-feira, outubro 13, 2023

Monstro

     Era como se a alma lhe tivesse derretido dentro do corpo sem tempo para se liquefazer por completo. Ficou assim, disforme, grotesco, surreal. Tão largo, tão baixo, tão assimétrico, tão desesperado por normalidade! Que raio de coisa lhe terá acontecido? Que estranho e extraordinário fenómeno o deformou daquele modo?

    Entretanto outro míssil caiu lá fora. Tanto quanto se soube, aquele não terá causado vítimas mortais. 

    A vida tem destas coisas.

quarta-feira, outubro 11, 2023

A herança

     Quando vejo imagens de crianças a cirandar por entre escombros de cidades bombardeadas ponho-me a tentar imaginar: o que vai ser daquele puto? Que adulto está a germinar naquele puto? Raras vezes imagino o que quer que seja. 

    Nós, que vivemos com imensas dificuldades e somos vítimas de tremendas injustiças (a inflacção é terrível e o poder judicial tem dois pesos e duas medidas), temos, no entanto, a estranha capacidade de emitir opinião sobre o mundo que envolve aquela criança, mundo que conhecemos das fotografias, das peças dos telejornais, dos textos nos jornais e nas revistas. Alguns de nós tornam-se mesmo peritos na questão sem nunca lá terem metido os pés, nem sequer tendo conhecido um palestiniano, quando muito viram um ou dois israelitas na vida. Alguns leram os livros de Yuval Noah Arari e viram aquele filme do Spielberg. Há mesmo quem negue o Holocausto mas consiga metralhar o Hamas do alto do seu sofá.

    Aquele puto, a mirar as pedras que cobrem o chão e que ainda ontem eram as paredes da sua casa, não vai ter escola, talvez nem tenha família, possivelmente não vai ter nada. Eventualmente terá recebido toda a sua herança no dia em caiu a bomba que lhe levou o mundo em que vivia: herdou todo o capital de ódio acumulado pelos seus antepassados contra os homens responsáveis por aquela destruição.

segunda-feira, outubro 09, 2023

Inferno

     Estalou outra guerra. O Hamas entrou Israel dentro e deu um espectáculo de selvajaria como não havia memória. Sendo um grupo terrorista não tem pruridos em mostrar ao mundo "em rede" como se faz a guerra, coisa que os exércitos organizados tentam esconder dos olhares sensíveis. Fazem mesmo gala na exibição da sua desumanidade praticada em nome de deus.

    Israel retalia com toda a violência das suas armas. Teme-se um genocídio em Gaza. A escalada da violência promete algo que até agora não conhecemos. Teme-se o Inferno.

sábado, outubro 07, 2023

Absolutamente...

     Andamos para aqui aos tombos de encontro às paredes do Tempo que ora se fecham ora se abrem perante nós revelando um planeta selvagem que se vai estendendo em direcção ao infinito visível. E morre muita gente pelo caminho. Na verdade, morremos todos.

    A nossa morte não é motivo de tristeza duradoura pois os que esperam atrás de nós na fila das vidas a viver têm pressa de encontrar a sua forma de lidar com as paredes do tempo na busca interminável pelos caminhos que levam ao infinito.

    O melhor é ficar por aqui. Divago de forma confusa e nem cheguei a metade do que não queria dizer até porque não sei do que se trata.