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sábado, março 28, 2026

Outra espera

     Todas as pessoas andam à procura de uma situação à qual se possam ajustar, um lugar, um grupo, um sonho, e vão fazer tudo o que lhes for possível e lhes parecer necessário para alcançarem os seus objectivos (a rapariga que vai pondo rímel nas pestanas sentada no banco da carruagem do Metro).

    Pequenas situações permitem complexas reflexões - as personagens ora observam, ora encarnam e se tornam pessoas de verdade (embora sejam falsas). Observam, descrevem, participam, mas não podem tomar decisões que alterem o rumo dos acontecimentos. Só "ele" pode tomar essas decisões mas "ele" está ausente e as personagens aguardam pacientemente que "ele" se digne a aparecer.

    "Ele" não veio, não vem, o mais certo é que nunca venha a comparecer naquele espaço iluminado. 

quinta-feira, julho 25, 2024

Impasse

    Contar uma história não é tarefa fácil, principalmente quando não temos a mínima ideia da história que queremos contar. Sim, porque uma coisa é querer contar uma história e outra coisa, bastante diferente, é sabermos que história é essa. Nesta situação encontramo-nos num impasse.

    No entanto, um impasse, este impasse, pode constituir um ponto de partida razoável para contarmos uma história. Imaginemos um início, uma primeira frase: "Ela queria contar uma história mas não sabia que história contar."

    Partindo daqui quem sabe onde poderemos nós ir parar!?

terça-feira, julho 23, 2024

Questão de perspectiva

     O espelho insistia em manter-se discreto; não reflectia, não especulava. Olhava-o com disfarçada insistência, de soslaio, tentando passar despercebido mas ele, o espelho, não reflectia. Nem especulava. Era como se eu não existisse apesar da consciência que me habitava (e ainda habita) e me fazia acreditar estar aqui.

    O problema prendia-se, exactamente, com esse tal "aqui". Aqui no mundo físico? Aqui, no mundo virtual? Ou aqui, reflectido no espelho?

    Uma vez que o espelho se recusava a devolver-me o olhar que lhe oferecia duvidei do meu ser. Imaginei-me vampiro, fantasma, imaginei ter passado para um qualquer estado de existência desconhecido e sem expressão física. Senti já ali não estar.

    Foi então que decidi avançar na direcção do espelho, interpelá-lo frontalmente, oferecer-me sem receio à prospecção que ele faria do meu rosto, do meu corpo, do meu ser. Desse por onde desse, fossem quais fossem as consequências, enfrentei-o.

    Ali estava o meu eu reflectido. Afinal não era um fantasma, nem nada daquelas coisas mirabolantes que imaginei; era eu mesmo, o ser habitual e imperfeito, o bicho, o homem, as mesmas dúvidas, as mesmas rugas, os olhos no lugar devido. O espelho não me reflectira por mera questão de perspectiva.

quinta-feira, junho 01, 2023

Cansaço inquietante (terror infinito)

     Cada dia que passa é menos um dia que vives, mais um dia que viveste. É assim, andas enrodilhado com o tempo, com o espaço, enfiado numa camisa de sete varas que te tolhe o pensamento. Tentas esbracejar mas nada, a coisa não se move, a coisa olha-te com aquele aspecto sobranceiro que têm as coisas como ela. 

    É inquietante.

    Corres para aqui, deslizas para ali. Faz um calor de cozer camelos no deserto, sentes a transpiração nos pés, nas mãos, escorre-te calor costas abaixo, são pingos de suor. Não é suor resultante do esforço intelectual, nem sequer do esforço braçal que te faz acreditar nos benefícios do trabalho. Não. Nada disso. É transpiração produzida por aquela estranha sensação que te deixa petrificado.

    É o terror.

    Esforças-te por acordar. Queres regressar aos lençóis, deixar para trás aquele mar infinito sobre o qual caminhas (sabes que apenas Cristo poderia fazê-lo!) mas não consegues deixar de avançar. Para onde diriges os teus passos? Em direcção ao horizonte que, como sempre fazem todos os horizontes, teima em deslocar-se à tua frente. Nunca o alcançarás.

    É o cansaço.

domingo, julho 22, 2018

Tudo Pode Não Acontecer (1)

O melhor é um gajo dizer logo ao que vem!
Porque isto é como uma paixão, é como estar apaixonado. As coisas vêm por ondas e caem-te em cima. É um turbilhão que te leva de pantanas. Já nem sabes o que fazes; vais fazendo.

Sentes o coração a bater, a bater, a bater, és uma pista de dança onde a arte vem fazer o gosto ao pé. Ouviste bem? A arte não vem dançar contigo, vem dançar em ti. Ela é toda energia, toda flashes luminosos, é um descontrolo mas não é uma loucura. A arte não é uma loucura. Não. A arte é uma outra forma de consciência.

Pode ser apenas pensar com as mãos. Pode ser pensar com o que trazes dentro da cabeça ou com o que te acompanha o coração. As mais das vezes é um vazio que te sentes compelido a preencher. Mas, um conselho: o melhor é que mantenhas a serenidade porque tudo pode não acontecer.