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quinta-feira, novembro 01, 2018

Deuses aos pontapés

Os irlandeses decidiram acabar com a penalização legal para a blasfémia. Benza-os Deus. O crime de blasfémia foi apagado da lei com 65% de votos a favor e 35 contra. É nesses 35% que se foca a minha atenção.

35% de defensores da manutenção da blasfémia (mas que merda é essa, blasfémia!?) na letra da lei é muito. São demasiados os que consideram necessário proteger das palavras dos comuns mortais um ser que é, supostamente, omnipresente e, sobretudo, omnipotente. Se Deus existe não precisa de protecção deste género. Parece-me excesso de zelo.

Fico a imaginar que esses 35% são um bando de velhos a fazer contas à hora da morte e que pretendem apresentar-se perante Deus o mais limpinhos que forem capazes. Não garanto que, daqui por uns anos, eu não faça parte dessa brigada do reumático que só quer fazer-se notar pelo Criador.

No Paquistão causou furor e espanto a decisão de um tribunal em absolver uma cristã acusada de blasfémia (terá insultado Maomé com 3 afirmações difamatórias e sarcásticas,segundo a acusação). Houve ameaças de morte contra os juízes, a mulher, entretanto libertada, vê-se obrigada a emigrar com a família por temer a fúria dos defensores do bom nome de Deus.

Irlanda e Paquistão, duas nações tão diferentes, dois deuses que não são, ao que parece, o mesmo; cada qual com os seus profetas e respectivos exércitos dementes. Apesar de todas as diferenças e distâncias geográficas, os radicais defensores de Deus mostram a mesma adoração pela repressão do outro, são sádicos morais, assassinos aos olhos de qualquer animal minimamente racional.

segunda-feira, outubro 22, 2018

Quem somos (de onde vimos, para onde vamos)?

Não compreendo bem a presunção daqueles que se pretendem superiores ou mais sagazes ou mais inteligentes. Afinal de contas descendemos todos do mesmo monte de merda primordial a partir do qual Deus moldou o primeiro de nós. Não compro aquela história de sermos feitos de pó.

Depois é a evolução da espécie; se aceitarmos como correcta a ideia de que estamos a evoluir em direcção a alguma coisa mais expressiva que a tal matéria primeva que Deus terá usado para moldar o primeiro ser humano.

Convém sublinhar a ideia de que Deus terá sujado as mãos para nos criar e que, a partir daí, nunca mais foi o mesmo. Ter as mãos sujas de merda e ser Deus não augura nada de bom para Si próprio nem para a Sua criação. Os deuses não têm sempre boas ideias, certo e sabido. Olhem para nós: comprovadíssimo!

Esta conversa enrolada para tentar compreender que raio de coisa é esta em que o Mundo Humano se está a envolver, a transformar, a arriscar... enfim, esta conversa enrolada para tentar compreender porque estamos nós a regredir em termos civilizacionais em direcção à barbárie. Outra vez.

Depois de muito matutar cheguei à brilhante conclusão do monte de merda primordial. Se fôssemos feitos de pó não seríamos assim tão merdosos. Entretanto sempre há uma boa notícia: o planeta ficará bem melhor quando regressarmos a um estado civilizacional vegetativo.

quinta-feira, setembro 27, 2018

A demissão

Ai que comoção a historieta da demissão do director do Museu de Serralves. Que houve censura, que não houve, que a administração da Fundação andou a meter o bedelho, que não meteu bedelho nenhum: não há dito que não seja contradito. É como se fosse uma altercação entre vizinhas de banca no Mercado do Bolhão mas em versão sisuda. Sabemos bem que a Verdade é uma coisa e que a Realidade é outra, são coisas muito nossas. Seria de esperar que entre pessoas educadas e civilizadas, com tão grandes responsabilidades no campo da Cultura e da Arte, uma situação deste calibre se resolvesse com calma e elevação, lá dentro de casa. Mas não, a coisa transpirou cá para fora e, pronto! Tem sido um berreiro. Uns são a favor, outros são contra, todos têm opinião se bem que não se compreenda muito bem o que terá acontecido. Abaixo a censura! Que não houve censura, que a houve... muito gosta a gente de sentir indignada.

Bem vistas as coisas somos todos enxertados na mesma cêpa: directores, peixeiras, administradores, taxistas, simples opinadores, facebookeanos militantes e todos os demais, ansiosos por termos razão, decididos a mostrar ao mundo o valor da nossa perspectiva, a força da nossa inteligência, inflexíveis na defesa do nosso pedestalzinho. Eu sei que é difícil admitir que erramos mas, caramba, não poderíamos poupar-nos a mais esta ópera bufa? A exposição lá está, o artista é renomado mas já não é isso que importa. Teremos de nos contentar com a nossa colecçãozinha de cromos: director/curador, gestora/administradora, beautiful people, gente muito séria, gente muito culta e, onde o há, o verniz todo estalado. Descansa em paz Mapplethorpe.

terça-feira, agosto 28, 2018

Chateação

Não gosto nada de estar chateado. Haverá quem tenha prazer nisso? Na minha opinião, a chatice atravanca o cérebro, ocupa demasiado espaço. A solução é descarregar-lhe o autoclismo e deixá-la ir cloaca abaixo. Ainda assim, mesmo depois de a mandar para o esgoto a que pertence, fica sempre um bocadinho de chatice agarrado às paredes do crânio. Um bocadinho de nada, insignificante, mas capaz de deixar um gajo incomodado.

Benza-me Deus, estar chateado não é mesmo coisa para a minha cabeça.

sábado, agosto 25, 2018

Decadência

O corpo envelhece, as faculdades mentais degradam-se na razão inversa ao acumular de informação. A decadência do indivíduo é como uma perversão imposta por uma figura divina: quanto mais sabes menos serás capaz de processar aquilo que compreendes. Toma lá e não te queixes!

Obrigadinho, ó figura divina, bem podes enfiar a tua grandiosidade num sítio que eu cá sei.

Enquanto corpo social (verdadeiro protótipo daquilo que imaginamos ser uma divindade) também o processamento e aplicação do saber se torna um caso bicudo. Sendo mais as vozes que as nozes é uma confusão de ideias e princípios que se enredam uns nos outros e fazem tropeçar a nossa vida em comum. Cambaleamos em direcção ao abismo.

Imagino que o azedume que hoje me faz escrever estas linhas seja um sintoma de envelhecimento da alma que me anima. Ou talvez não, isso não interessa nada (nadinha!) quando penso no conjunto da Humanidade.

Não é por morrer uma formiga que o Inverno não regressa.

segunda-feira, julho 30, 2018

Razão (e relevância)

Ter razão e ser relevante, é na ânsia de alcançar esta quimera que muita gente tropeça e se atropela correndo em direcção à luz da fama e do reconhecimento; ainda que construam ideias desossadas de um pensamento que lhes confira o suporte sólido de uma estrutura de suporte.

Ter razão implica que aquilo que se diz (pode não coincidir exactamente com aquilo que se pensa) é definitivo e pulveriza qualquer argumento que se aproxime a menos de vinte metros de distância.

Uma razão assim não é fácil de obter, muito menos será mansa. Uma razão assim é difícil de domar. Ser senhor de tal razão, uma razão que elimina e faz eliminar qualquer um que lhe pretenda mover oposição, é deter um temível poderio. É como ser um Deus que emana uma verdade absoluta e fundamental.

segunda-feira, junho 04, 2018

Morreu a senhora do 1.º esquerdo

Depois do Inverno da vida... puf, lá vamos. Com as pessoas não há cá a regeneração primaveril nem regressam os calores do estio. Temos direito a provar uma coisinha de cada vez e chega. Nada da alambazanços que a vida é como cozinha gourmet, criação de chef.

Ainda assim, é com a nossa assinatura individual que leva. Afinal de contas somos nós quem a vive, não é o vizinho do lado, que esse tem os seus próprios problemas; sonhos, pesadelos e pequenos-almoços.

A conversa vai meio parva. Não tenho coragem de cortar a direito para aquilo que estou a pensar. Custa-me dizê-lo, seja oralmente, seja por escrito. É a constatação de um certo óbvio horrendo que não valerá muito a pena estar a sublinhar com tinta fluorescente e a atirar para a frente dos teus olhos, camarada leitor.

Na verdade todas estas linhas são absolutamente inúteis... como tantas outras coisas.


quinta-feira, fevereiro 01, 2018

Desvario

Anda por aí muito bicho estranho disfarçado de ser humano. À primeira vista não parecem muito avariados, podem até parecer coisinhas fofas a precisarem de quem lhes dê um niquinho de atenção. Pobres bichitos, pensas tu, carinhoso leitor. Mas tem cuidado quando lhes estenderes a mão para uma carícia desinteressada, eis que te mordem com os dentes todos, como se fossem piranhas.

Não é o facto de ficares com um ou dois dedos a menos que te irá demover de fazeres o que imaginas ser bom. O bicho precisa de amigos, que raio! E voltas a tentar passar-lhe a mão (o que te resta dela) no pêlo. Qual quê! És de novo posto à prova com outro festival de dentadas que nada têm de gulosas, são apenas maldosas.

Neste ponto já te estás a lixar para o bicho. O que era fôfo, vês agora, é nojento; o que parecia carência é afinal desvario. Desvario total, absoluto, absurdo. O bicho precisa é de ser mantido à distância. E ele ladra, ele gane, ele solta os mais estranhos grunhidos. Já não sabes se é porco, se é vaca, se é outra merda qualquer. Queres esquecê-lo, ignorar que te levou os dedos.

Mas esse bicho estranho agora não te larga. Cometeste o erro supremo de teres olhado para ele, de teres confundido a sua loucura com mera necessidade de atenção. A demência virulenta que o anima parece-te inesgotável. Apercebes-te que esse animal vive no inferno. Ainda consegues sentir uma réstia de empatia com aquela coisa, um sentimento confuso que mistura compaixão e repulsa mas já não queres saber.

O bicho que se lixe! Vai-te esconder no teu buraco fedorento, bicho tonto.

segunda-feira, janeiro 29, 2018

Universalidade

Valores universais... universais? Há aqui uma certa confusão pois os Valores só fazem sentido numa perspectiva estritamente humana.

As raposas, os carapaus e as serpentes não se regem pelo mesmo tipo de Valores que os seres humanos e, no entanto, fazem parte dos habitantes deste planeta. Que dizer, então, dos habitantes de outros planetas que façam perto do nosso Universo?

Imaginemos, na medida do possível, uma espécie alienígena.

Imaginemos seres gasosos ou com 50 metros de envergadura ou seres que não suportem a proximidade da água. Que tipo de Valores serão queridos por estas coisas tão diferentes de nós?

Como poderemos convencer uma galinha de que a Dignidade é um Valor Universal quando nos preparamos para a degolar, depenar e enfiar na panela? Assim como assim, a nossa capacidade de comunicar com um galináceo é de tal modo reduzida que a bicha se há-de estar bem a cagar na nossa conversa.

Imaginemos uma espécie alienígena que se apaixone perdidamente pela nossa carnucha e invente mil e uma receitas de como cozinhar o corpo humano. Imaginemos um talho intergaláctico com carcaças humanas penduradas nas vitrinas. Quem poderá, em boa consciência, criticar os extra terrestres por nos quererem comer se nos alambazamos em carne de vaca, de faisão, de coelho, lagosta, pato, seja o que for que nade, voe, caminhe sobre as patas ou rasteje sobre o ventre (esse castigo divino infligido à puta da serpente).

Valores universais? Imaginemos o nosso planeta invadido e ocupado por seres demasiado grandes, demasiado fortes, demasiado desenvolvidos tecnologicamente, com demasiados dentes nas bocas, línguas compridas e viscosas a lamberem uma espécie de beiças e com os quais sejamos incapazes de comunicar.

Imaginemos o que vai na cabeça de uma vaquinha que nos olha com aqueles olhos de carneiro mal morto enquanto mastiga a ervinha com toda a elegância...

Oxalá sejamos invadidos por uma espécie vegetariana que adore bróculos e beterrabas.

segunda-feira, janeiro 22, 2018

Uma cena bué ambígua

O prazo encurta a cada dia.
A responsabilidade aumenta na razão directa da diminuição do espaço que resta para que cumpras o compromisso assumido. Quem te mandou a ti meteres-te numa destas!? Ainda por cima não havendo necessidade!

Quando tomas as dores de um compromisso que assumes voluntariamente, quando decides meter mãos a uma obra à qual não estavas obrigado e começas a sentir a dúvida a roer-te as abas do sossego, qual ratinho esfomeado e divertido, ficas com a tripa um bocadinho deslizante.

De súbito apercebes-te de que não possuis as capacidades necessárias para levar a bom termo a tal tarefa. Sentes as orelhas a crescer como as do príncipe do conto. Por que raio te meteste em tal alhada? Mas, ainda assim, sorris e expões um semblante que irradia confiança. Não há que recuar, caraças! Nem pensar.

E assim vais, alegremente, vida adiante, fazendo o que deves e até o que não seria suposto fazeres mas que decidiste transformar em objectivo muito teu. És personagem de epopeia. Quanto ao resultado... o que interessa isso? O importante é que mostraste ao mundo que não tens medo dele. Nem de ti.

sábado, janeiro 06, 2018

Confusão interna

Há por aí muita gente com anseios de governação. Querem ser quem manda, quem orienta, quem aponta os horizontes para os quais deveremos apontar as nossas pencas. Em nome de quê? Quem lhes espevita a vontade de assim serem? Que coisa lhes acende a vaidade necessária à ambição?

Não sei, não compreendo. A alguns logo lhes vislumbramos o rabalhão gordo, a vigarice a iluminar-lhes a beiça luzidia. Mas outros há que não, que nada transparecem quando se lhes olha a gula das riquezas. São movidos apenas pelo sonho de mandar, pelo desejo de serem adorados, pela soberba de pisarem a vermelha passadeira?

Por vezes penso que melhor seria não haver Governo. Outras vezes dou por mim a desejar um Governo bem mais forte que o que há. Dança-me o entendimento em passos tão largos que por vezes me sinto muitíssimo estúpido. Fico confuso e desalentado. Não sei, não compreendo.

Olhando alguns desses ambiciosos cidadãos, ouvindo a torrente de palavras que largam boca fora, como se fosse um rio imparável na busca de um mar que desconhece, sinto uma espécie de raiva que não quero. Preferia o desprezo mas não posso, não consigo, não sei, não compreendo.

terça-feira, dezembro 19, 2017

Matemática desaplicada

Vivo entre multidões. Grandes ou pequenas multidões, todos os dias me movo dentro de algum grupo de pessoas. Tenho o hábito de as olhar, por vezes distraidamente, outras vezes de forma mais atenta. Imagino que haja ocasiões em que olho as pessoas de forma demasiado atenta mas... adiante.

Ontem, no centro comercial (essa multidão transmutada em edifício mastodôntico), reparei numa mulher que me fez lembrar uma outra, uma ex-colega que havia visto há coisa de uma semana durante uma travessia do Tejo. Não é habitual ver essa ex-colega mas aquela tal mulher pareceu-me de tal modo semelhante a ela que imaginei a possibilidade de serem irmãs.

Um pensamento assim é indolência cerebral, não tem a mínima importância. Continuei e, três passos adiante, ai caramba! Vejo a minha ex-colega a cumprimentar um amigo.

Ali estava ela, logo após me ter lembrado que uma mulher (que talvez nunca mais me aperceba de ter visto) poderia ser sua irmã ou algo do género. Logo após me ter lembrado de uma pessoa que raramente vejo e à qual mal me dirijo, uma pessoa cuja existência rara e dificilmente me ocorre, catrapunfas! Ali estava ela.

Ok, ok, eu sei, mas que merda de história é esta? Registo-a aqui apenas porque, quando vi a minha ex-colega a conversar mansamente com o amigo, me ocorreu uma pergunta: que possibilidade estatística havia de acontecer uma coisa destas? Lembrar-me de uma pessoa através de outra e ela aparecer-me imediatamente a seguir?

Soubesse eu alguma coisa para lá da Aritmética simples e talvez pudesse especular sobre a tal possibilidade estatística mas a Matemática nunca foi das minhas relações mais próximas.

Releio o que acima ficou escrito e apetece-me perguntar: esta coisa não tem interesse nenhum, pois não?

segunda-feira, outubro 02, 2017

Armaduras pretas

O que se está a passar na Catalunha é uma grande confusão. Assistimos incrédulos a uma escalada de violência que poderia perfeitamente ser evitada caso houvesse interesse de parte a parte em que as coisas acontecessem de acordo com o bom senso. Mas não. A uns aproveita a violência, a outros está-lhes na massa do sangue.

No meio do terramoto o povo anónimo. Não duvido que, caso fosse catalão, haveria de andar a levar porrada da Guarda Civil. Mas, estando descansadinho cá no meu Portugal, olho para tudo aquilo com uma enorme dose de desconfiança.

Fica a imagem da brutalidade do estado policial. Aqueles cães de fila, enfiados nas suas armaduras, protegidos por capacetes negros, são o símbolo do poder, a sua materialização junto de quem protesta e clama por aquilo que acredita serem os seus direitos. Não há diálogo, apenas violência. Todos sabemos que a violência se propaga como um incêndio em dia de Verão.

Rajoy é um pirómano perigoso e Puigdemont, para apagar o fogoléu, traz um bidão de gasolina em cada mão. Não é preciso fazer um grande esforço de memória para recordarmos situações vagamente semelhantes um pouco por toda a Europa. Sempre que o povo sai à rua lá aparecem os gajos das armaduras pretas e dos capacetes fechados.

São as forças que garantem que a Democracia funciona como DEVE ser.

terça-feira, agosto 08, 2017

Estação tola

A "estação tola" (silly season segundo os súbditos de Sua Majestade William Shakespeare) traz consigo a imbecilidade elevada à condição de coisa divina e os incêndios são o inferno na Terra. É assim mesmo, uma época de extremos, um lugar sem fronteiras demarcadas. As coisas entram umas dentro das outras como balas, como setas disparadas por um lança-mísseis.

Dizem-se enormidades, sucedem-se as catástrofes, a estupidez veste fato de erudição e o contrário é uma ratazana com penas a cantar dentro de uma gaiola dourada. Mas...

... será que este mundo ao contrário acontece apenas nesta época do ano? Não vivemos nós uma eterna "estação tola", longa e imprevisível como um inverno no mundo da Guerra dos Tronos?

Tudo pode não acontecer, bem como o seu contrário.

sábado, janeiro 14, 2017

Este mundo

 Os Pilares da Sociedade (George Grosz, 1926)

A cada dia que passa maior é a minha convicção de que estamos a entrar num ano de merda.

A Ética, irmã gémea da Estética, essa puta maluca, cada vez é mais ignorada por lhe serem reconhecidos cada vez menos atributos e menos atractivos de vária ordem. A degradação é gradual e em ritmo acelerado.

O mundo pula mas já não avança, como sugeria aquela canção melíflua intitulada "Pedra filosofal" (lembras-te?); agora, a cada pulo, o mundo enfia as patas fundo na lama, salpica o focinho com  pingos de diarreia mental e outras coisas fedorentas que vão atascando a nossa sociedade.

A cada dia que passa este mundo é, cada vez mais, um cagalhão que flutua no espaço.

domingo, setembro 18, 2016

La muerte

Hoje acordei com vontade de me irritar com qualquer coisa. Levantei-me a resmungar, deixei escorrer um pouco de café frio para cima de um pé descalço, tive de me apressar em direcção à sanita não fosse a natureza abusar da minha confiança.

As razões para que despertasse em mim a irritação desejada pareciam acumular-se com a precisão do mecanismo do relógio que não tenho no pulso mas que trago dentro da memória. Quando consegui uma chávena de café razoavelmente fumegante e me sentei na mesa da cozinha com os Cem Anos de Solidão à minha frente não tinha bem a noção do que fazia.

Continuo a leitura de Garcia Márquez (há quantos dias ando eu nisto?). Como sempre levo tempos infinitos para terminar um livro porque encaro a leitura como se fosse um peqeuno-almoço para o meu cérebro e para a minha imaginação. O que é verdade é que, após duas páginas, a irritação esfumou-se, o meu desejo matinal viu-se recusado pelo subconsciente que o havia convocado.

Estraguei a estragação do dia que se aprontava para me aparecer um pouco lá mais para a frente na linha do tempo. Percebi que não posso desejar irritar-me com alguma coisa e ler, em seguida, algumas páginas de um livro magnífico. Uma coisa não se compadece da outra.

O coronel Aureliano Buendía enforcou-se no castanheiro do quintal.

quarta-feira, junho 22, 2016

Ausência de graça

Eu sei que não tem graça mas não consigo evitar um sorriso; mais, não consigo segurar o sorriso que me rebenta na face: largo uma gargalhada que cai sobre a senhora como uma bomba!

Ela, coitada, tenta recuperar a vertical um pouco torcida para a frente que levava antes de escorregar na casca de banana, tal qual um desenho animado, antes de ter volteado pelo ar, antes de ter aterrado com a violência de uma cagadela de gaivota no pára-brisas do meu carro.

Toda torcida procura recuperar os objectos espalhados no alcatrão: um molho de chaves, um batom, uma revista Caras, algumas moedas, a carteira, enfim, a mala, vazia, repousa estranha e só, lá mais para a frente, aos pés de um homem alto que parece uma girafa.

Isto não aconteceu mas não sei como aqui cheguei que raio de imaginação foi esta? Ainda por cima sei que isto não tem graça.

segunda-feira, junho 13, 2016

Euro 2016

Decorre o campeonato da Europa em futebol. Joga-se em França, país em estado catatónico. Atentados terroristas, greves, cheias, o que mais poderia acontecer à nação gaulesa? Uma invasão de hooligans vindos de todos os cantos da Europa, era o que faltava para deprimir ainda mais os conterrâneos de Asterix.

Apesar dos arraiais de porrada a que temos assistido em várias cidades gaulesas confesso que vou marcando cada jogo que termina com uma cruzinha. Já foram jogados 8 de 50 e tal jogos e ainda não houve nenhum atentado, nenhuma bomba explodiu a não ser as bombas da cretinice, habituais nestas andanças.

Amanhã estreia-se a selecção portuguesa. Que tudo corra pelo melhor.

Vazio, vazio, vazio!

Há dias em que me apetece não me interessar por nada. São dias em que gostava de poder apagar os pensamentos como se passasse a borracha sobre um desenho desinteressante. Limpar a folha até não restar mais nada.

Hoje é um dia desses.

Não me apetece escrever isto. Não me apetece deixar de o fazer. Não me apetece pensar. Nada me apetece.

"Então porque carga de água haverei de estar a ler esta porcaria?" Pensas tu, paciente leitor: "Porque carga de água há-de este gajo de estar a escrever estas linhas?"

É necessária muita paciência para me aturar, reconheço, mas também sei que só me atura quem quer.

segunda-feira, fevereiro 29, 2016

Lamentosos

Ok, a mensagem parece meio parva e, sobretudo, descabida. O cartaz é fraquinho e vem fora de tempo. Mas as reacções que vai provocando estão de acordo com a qualidade do objecto: a igreja não encaixa, os PáFes tentam cavalgar o bicho e, pasme-se, até dirigentes do Bloco de Esquerda criticam com algum azedume o aspecto da coisa. Fico com a sensação de que os lamentosos, todos eles, pretendem lucrar algo com o respectivo lamento.

Os argumentos apoiam-se numa suposta falta de respeito pelos sentimentos dos crentes e provocação à igreja e, quem sabe, provocação à própria divindade (tema-se a Sua ira e não a dos seus representantes na terra).


Na minha óptica, as reacções de repúdio e censura ao cartaz do “Jesus também tinha 2 pais” são do mesmo género das que motivam os crentes islâmicos que matam e trucidam em resposta a semelhantes faltas de respeito à sua visão do sagrado, variando apenas no modo como se materializam. Uns matam outros lamentam mas, a vítima, num e noutro caso, é o direito à liberdade de expressão; morta a tiro ou apenas esbofeteada, é ela quem sofre com tanta parvoíce.