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terça-feira, abril 21, 2026

A guerra é a guerra

     A pressão é enorme, o escrutínio é constante, um gajo diz uma merda qualquer, deixa uma graçola imbecil numa rede social e... já foste! Um pacóvio tão pacóvio como ele repara na coisa e está feito ao bife. A partir de agora acabou-se-lhe a paz. É A GUERRA!

    Um gajo recebe mensagens parvas a toda a hora. Acorda indignado, toma doses cavalares de sarcasmo ao pequeno almoço e passa o resto da manhã a dar respostas manhosas enquanto continua a suportar saraivadas de comentários ácidos. Almoça e, durante a tarde, a coisa não amaina nem melhora. Tungas, tungas, tungas, aqueles camelos a baterem no ceguinho como se não houvesse amanhã! E depois chega a noite. Um gajo deitado na cama, as luzes apagadas, apenas iluminado pelo écrãzinho maravilhoso, pela janelinha aberta sobre o mundo virtual, esse lugar mágico onde tudo acontece. Responde, responde, responde.

    O sono acaba por vencer, o telemóvel fica sem bateria, a imaginação nunca foi muito abundante. Um fiozinho de baba escorre do canto da boca para a almofada. O mundo está em repouso, o guerreiro descansa. Amanhã será um outro dia, um dia muito parecido com aquilo que este foi, outra jornada intensa repleta de batalhas, lutas e escaramuças. A guerra é a guerra. Qual foi a razão que despoletou isto tudo? Um gajo já nem se lembra... e isso interessa?  

terça-feira, março 10, 2026

Tempos modernos

     Alarvidade e javardice: eis duas palavras mágicas desconhecidas dos adoradores de tiquetoques que, no entanto, definem o universo em que movem as suas mentes. Nota-se um ambiente cada vez mais agreste e menos limpo nos pátios da escola, uma coisa entre a barba por fazer e a mão suja por ter com ela limpado o rabo.

    Os putos crescem no meio da javardice e transformam-se em autênticos alarves. Não me lembro bem se, quando fui puto, as coisas aconteceram do mesmo modo. Não me lembro dos pormenores mas penso poder afirmar que a coisa também não era particularmente limpa. Talvez que crescer na porcaria faça parte da condição humana, o estrume alimenta as raízes das flores mais coloridas e faz as delícias dos escaravelhos mais reluzentes.

    O que nos choca talvez seja o facto de esta alarvidade não ser a nossa e de esta javardice nos parecer exagerada (por estarmos já um bocado velhotes), talvez a coisa não seja assim tão radical. Se pensarmos bem, o mundo que agora construímos e nos parece adequado, fruto do nosso labor, haveria de parecer extraordinariamente agressivo e peludo aos olhos nossos avós, um mundo repleto de alarvidades e muita javardice.

quinta-feira, janeiro 08, 2026

O assalto

     Tive recentemente uma experiência muito desagradável. Abri a minha página no Facebook e estava calmamente a ler e a responder a "coisas", banalidades que todos fazemos quando navegamos naquela rede social, quando algo de muito estranho aconteceu. De súbito começaram a surgir imagens e vídeos de pornografia infantil e/ou de tortura e violência extrema. Tentei apagar, bloquear, eu sei lá o que tentei fazer. Nada resultava. Quando parecia que tinha controlado a coisa, acontecia tudo outra vez. Até que recebi uma mensagem da Meta (acho eu) a informar-me que estava a publicar coisas estranhas que desrespeitavam as regras da plataforma e que a minha página iria ser suspensa para averiguações. Entretanto ofereciam-me simpaticamente ajuda psicológica pois uma pessoa que publica aquelas coisas decerto padece de alguma doença. Grave.

    Por um lado fiquei aliviado por aquilo parar mas, por outro lado, senti-me um pouco angustiado. Primeiro, vi coisas naqueles vídeos que nunca antes tinha visto e que me deixaram profundamente nauseado; segundo, alguém, algures estaria a pensar que eu era capaz de consumir aquele tipo de material abjecto? Mesmo que esse alguém não fizesse a mínima ideia sobre quem eu sou a situação deixava-me desconfortável. Muito desconfortável, mesmo.

    Recebi uma mensagem da Meta dizendo que a minha página decerto havia sido assaltada e iriam permitir que eu recuperasse a dita cuja. Achei bem e achei simpático. Ainda não tinha começado a tentar seguir os passos que me eram indicados e já recebia segunda mensagem de email informando que a minha conta havia sido encerrada definitivamente. Pensei que haveria ali algum erro e tentei cumprir as indicações da 1ª mensagem mas... nada a fazer. A minha conta foi à vida, definitivamente.

    Quando me aconteceu, imagino que isto deva ter acontecido a mais umas centenas ou mesmo milhares de páginas por esse mundo fora. Não sei, não faço ideia. Seja como for, o acontecimento indispôs-me um pouco e fiquei com uma estranha sensação de ter visto a minha intimidade ser violada com uma desfaçatez que não imaginava ser possível.

    Entretanto abri uma nova página. Após 15 ou 16 anos com a outra acumulara centenas de "amigos" que desapareceram  de um momento para o outro e estou a recuperar contactos. A verdade é que, ao fim de dois dias, ainda só tenho 37 amigos confirmados. Conheço-os a todos pessoalmente. Reparei noutro pormenor: todos os amigos que faleceram ao longo destes anos e que continuavam na minha lista desapareceram finalmente. Receber os avisos dos seus aniversários era algo que costumava deixar-me um tanto tristee angustiado.

sexta-feira, novembro 27, 2020

Reunidos


As reuniões online são espaços de comunicação estranhos. Os intervenientes estão todos encaixados em pequenos rectângulos, alinhados como produtos de consumo nas prateleiras de supermercado. Falamos. Um de cada vez. Olhos baixos, olhos em riste, cada um parece navegar nos seus pensamentos. Estamos todos no écrã mas cada um no seu espaço particular. Somos cabeças, troncos, talking heads, tanto quanto posso imaginar alguns poderão nem ter pernas, nem ser pessoas.

O tempo alonga-se. Será consequência deste espaço virtual? Teremos nós uma existência alternativa quando nos enfiamos na rede? Como peixes, como pixels, como crianças largadas na floresta com migalhas de pão no fundo dos bolsos?

"Sua conexão com a internet está instável", o aviso surge num rectângulo cinzento translúcido, as vozes dos outros ganham tons metálicos, gorgolejam como se fossem aspiradas por um ralo virtual, levadas para o fundo deste mar de entulho onde mantemos os nossos pequenos botes a boiar. Temo que haja tubarões e monstros que comem tubarões.

As reuniões online não atenuam a incrível carga burocrática que nos pesa nos ombros como canga a amestrar o boi. Começo a sentir uma ligeira vertigem, uma súbita vontade de ir embora, levantar o cu desta cadeira e pôr-me ao fresco. Desligo a câmara, desligo o som. Fumo um cigarro.

Ir embora não implica sair do lugar.

quarta-feira, janeiro 23, 2019

Tweets, posts e likes

A perfeição sempre foi uma miragem mas, agora, neste "tempo detergente", quando as redes sociais exigem das figuras públicas uma correspondência absoluta entre o seu comportamento e as expectativas de todo o "Zé da Esquina" e respectiva "Zeza dos Ovos", a perfeição entrou definitivamente na categoria alegórica de "unicórnio".

A proximidade é tanta que podemos ouvir as pessoas mais distantes a pensarem dentro da nossa cabeça. São tweets, são posts, são likes, são emojis, são mensagens de todas as formas e feitios a caírem constantemente nas redes que cobrem todo o planeta como imensas spider webs. Falta saber com exactidão quem é a spider de atalaia nas webs que frequentamos e ajudamos a tecer.

A coisa é muito complexa. Somos, em simultâneo, as aranhas que tecem a rede e as moscas incautas que nela vão ser aprisionadas e transformadas em recurso alimentar para suprir alguma fome futura. Nem sei se o que digo faz algum sentido, de tal modo ando confuso.

Voltando ao princípio: a perfeição moral e o comportamento impoluto passaram para a esfera do Divino; literalmente. Já nenhum de nós pode aspirar à admiração geral pois a forma como coçamos a cabeça ou o modo pouco humano como nos referimos às focas bebés podem provocar uma onda de rejeição que não conseguimos antecipar.

Cada um de nós é, à sua maneira e escala, uma figura pública. Estamos sujeitos a um policiamento implacável feito por entidades virtuais, trolls sem face, policiamento esse capaz de gerar sofrimento a qualquer momento. A violência dos ataques à personalidade de cada indivíduo (tal como as manifestações de admiração e de amor) é directamente proporcional à sua popularidade e visibilidade social.

Pode ser um like mal interpretado, um emoji desajustado ou a partilha de alguma cena menos recomendável. Andamos por este mundo como cegos que não têm capacidade de perceber quão próxima está a escarpa que se  precipita na garganta do inferno.