O Dear Zé enviou-me por e-mail este texto de Miguel Portas . É muito extenso para um post
do 100 Cabeças mas não demasiado extenso para ser lido e fruído com a
calma e a atenção que me parece merecer. Miguel Portas faleceu no
passado dia 24 de Abril, com 53 anos.
Não estarão todos os que gostaria que estivessem, mas todos os que estão, queria que estivessem.
Pelos 50, tiram-se balanços de meia estrada e já perceberam porque continuo um optimista inveterado.
Nesta ocasião, gostaria de fazer três elogios.
O elogio da família
Estão cá os meus pais. Deveria acrescentar, claro.
Na realidade, espanto-me com a sua persistência.
Devo-lhes a vida e nunca lhes devolverei
metade do que eles me deram. Duvido que o meu nascimento, pela uma da
manhã do dia primeiro de Maio, lhes possa ser assacado. Suspeito que
essa terá sido a minha primeira vontade, o meu primeiro protesto. Não
saio enquanto não for o dia do trabalhador…
A sina que lhes estava reservada! Se não fui fácil para muitos de vós, imaginem como terei sido para eles.
A minha mãe não era pêra doce, isto digo eu, não ela.
Depois de ter retardado o nascimento, e de
muitos pormenores a que vos poupo, fugi de casa aos 12 anos. Para ir à
missa. Sábia, ela preferia a praia e deixou-me em casa. Eu bazei,
deixando-lhe um bilhete. Ela jura que lá estava escrito “entre deus e a
mãe, escolho deus”. Recorda-mo de cinco em cinco anos. E eu procuro
esquecer.
Suspeito ter-lhe dito coisas bem piores.
Apesar disso, olhem para ela. Tem um riso e um sorriso que não se
comparam a qualquer outro que conheça.
O meu pai não sofreu menos.
Apareci-lhe em casa, aí pelos 12 ou 13 anos, e devo ter-lhe dito Pai, aqui estou eu! Se uma coisa destas se faz a um pai…
Foi só o começo. Durante anos, pagou a
minha militância mais do que os estudos. Para um socialista, isto devia
equivaler à cobrança regular de um imposto revolucionário. Apesar disso,
aguentou-se à bronca. E ainda me criou o gosto pelo jazz e ensinou a
olhar as cidades.
Estão também aqui os meus padrastos. Já devem ter percebido que apanharam por tabela.
O Afonso era administrador nacional de uma
das “sete irmãs” do petróleo e tinha um jaguar. Essa foi a parte que
deve ter influenciado o meu querido irmão.
Eu fiquei com a outra. O Afonso tinha uma
impecável biblioteca. Literatura erótica de um lado, e marxista,
rigorosamente encadernada, do outro. Servi-me de ambas um pouco cedo
demais. Nesta sala estão amigas e amigos que me aturaram por causa
delas. Por causa de ambas ou de cada uma delas. Agora já sabem quem é o
primeiro responsável: um capitalista com inclinação para literaturas
proibidas.
A Margarida, a minha “madrasta”, não era
capitalista. Queria ser arquitecta e terá sido por isso que conheceu o
meu pai. Por acaso do destino, era a minha professora preferida na
pré-primária. Corria para as aulas dela, porque começavam sempre com um
episódio da vida do Mogli. Isto foi antes do Marx e da Playboy, mas não
sei o que me terá marcado mais. Afinal, foram esses relatos de paraísos
perdidos que me fizeram viajante.
A Guida deu-me também uma irmã. Quer
dizer, teve a ajuda do meu pai, mas isso agora não vem ao caso. A
Catarina não pôde mesmo estar presente hoje.
Esta família é assim. Definitivamente, não é “normal”.
Atacado de marxismo imberbe, achei que não
precisava dela. Foi na adolescência, quando o meu preferido entre os
três magníficos era Engels, que zurzia nas instituições burguesas, a
começar pela família e pelo casamento. Vejam, entretanto, ao que
cheguei: até defendo o casamento para gays e lésbicas…
A verdade é que pelos meus 13 ou 14 anos,
tinha trocado tudo. O cristinianismo pelo comunismo e a família pelo
partido. Demorei estes anos todos a perceber que só se substitui o que
desaparece e mesmo assim...
Aos 50, chego à conclusão que não substituí nada. A minha família não é “normal”, pois não, mas é a minha.
Não tenho sido grande pai, mas os meus
filhos, o André e o Frederico, têm sobrevivido muito bem à vida que
levo, de aeroporto em aeroporto.
Também nunca fui grande companheiro. As
mães dos meus filhos foram sempre muito mais maduras do que eu. Espero
ter sido, contudo, um amável amante. E com a Teresa atingirei a idade da
sabedoria.
É esta a minha família. Infinitamente agradecido.
Agora a política, em versão abreviada
Transitei do cristianismo para o comunismo porque queria mudar o mundo e acreditava na Humanidade.
O comunismo ainda cá mora, suspeito que
devido ao cristianismo. O comunismo representou, por assim dizer, um
upgrade na minha fé: ela passou a ter um certificado científico.
Mas o comunismo foi, principalmente, uma
família, uma comunidade de crentes. Foi a minha durante 18 anos. Ter
saído sem rancor ou amargura, é um dos meus pequenos orgulhos.
A Revolução confirmou a certeza de
adolescência. Enchi-me, aliás, de certezas. Tinha sempre uma pronta a
vestir, qualquer que fosse a ocorrência. Mas não troco esses anos por
quaisquer outros. Foram os mais importantes da minha vida.
Substituí Deus pela classe operária e não me dei mal. Acabada a festa, pá, mantive-me “firme e hirto”.
Alguns dos que aqui estão, sabem que
queria ser revolucionário profissional. Há gente para tudo, não é?
Convenhamos que tal ideia me aproximava mais de um missionário do que de
um político, tal como hoje estes se reconhecem.
Mas, sabiamente, o partido, esse plural
que soletrávamos na primeira pessoa do singular, desconfiava do adepto.
Lá teria as suas razões e, em certo sentido, ainda bem. Se tirei um
curso, embora em dois planos quinquenais, talvez lho deva. E se arranjei
posteriormente uma profissão, a de jornalista, é porque tinha aprendido
a fazer comunicados.
Só na universidade a minha crença nas massas foi abalada.
Um certo dia, percebi que as Assembleias
não votavam argumentos, mas interesses. Espertas, decidiam por mil
razões diferentes das que escutavam e cada presente tinha as suas.
Esta foi uma descoberta dolorosa.
Desde então, penso que as massas são como o
deus da bíblia, capazes do melhor e do pior, tudo dependendo da
circunstância. Pelos 25 anos deixei, finalmente, de ser crente.
Mas nenhum pecado fica por pagar. Ao longo
dos últimos 10 anos tenho-me dedicado a compreender porque vive a fé no
coração de tanta gente. E a dar esperança a uma pequena multidão de
almas que a vida tem expropriado de promessa.
Deus não existirá, mas em seu nome muitos continuam a escrever direito por linhas tortas.
O comunismo existirá, mas habituou-se a escrever torto, mesmo que direitas sejam as suas linhas.
Porque continuo então, eu, um descrente, a fazer política?
Principalmente, porque o faço quando nutro
pelo poder - afinal a razão de ser da política - um desdém que cresce
na exacta medida em que o vou descobrindo?
Suspeito que pela pior das razões – o egoísmo.
Quando chegar ao fim dos dias, quero olhar
para trás e dizer, ok, fiz esta ou aquela asneira, mas no conjunto
valeu a pena, fui um tipo decente, que procurou fazer pelos outros mais
do que por si próprio.
Há muitos modos de se atingir este céu. A política é apenas uma das vias e das mais ínvias, asseguro-vos.
Tão difícil é um rico entrar no reino de
Deus, como um político decidir em função do que é certo ou errado e
justo ou injusto, e não do que garanta a sua posição no sistema.
Enquanto assim for, a política continuará a ser, para mim, um protesto,
uma convicção e uma promessa.
É ainda uma responsabilidade. Como
deputado europeu, respondo pelos votos recebidos. Mas não vos escondo
que me sinto mais útil usando essa qualidade observando as eleições
palestinianas, denunciando o que vi no centro de detenção de imigrantes
de Lampedusa, ou dando o rosto pela voz de trabalhadores portugueses
explorados na Holanda, do que a fazer emendas num relatório.
Sinto-me em comissão de serviço e assim
continuará a ser, se o bloco quiser que eu repita a dose. Mas a política
é, para mim, uma escolha livre. Sempre fiz e continuarei a fazer outros
ofícios.
Aos 50 anos posso, aliás, garantir-vos que
não tenciono ficar na História. Aprendi a gostar mais das pessoas do
que das massas. Quando muito, o que não será pouco, gostaria de ficar no
coração de alguns de vós. O que me leva ao
Elogio da amizade
Parto muito atrasado para essa corrida.
Nas profissões que se ocupam dos poderes
ou que são, em si mesmas, o poder de uns sobre outros, a amizade nasce
se é útil e cresce, não raro, como utilidade mascarada de cumplicidade.
Com a militância, a minha vida, não foi
muito diferente. O amor à causa é um excelente pretexto para evitarmos o
que é, verdadeiramente, difícil – encarar cada um dos outros, como
gente de carne e osso, com todos os defeitos que adoravelmente carregam.
Encontro-me entre amigos e amigas e
estou-vos imensamente agradecido. Se hoje penso deste modo, a muitos de
vós, por esta ou aquela razão e pormenor, o devo. Termino como comecei.
Ainda tenho 50 anos para aprender o que a maioria das mulheres sabe tão
bem como uma pequena minoria de homens – que na vida, importantes são os
detalhes. Lá chegarei. Minorias é comigo…