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quarta-feira, fevereiro 11, 2026

Coisas do diabo

     Este mundo sempre foi pasto de aparências e mentiras. As ilusões sempre engordaram tendo por alimento a credulidade humana mas, temo bem, nunca incharam tanto como incham nos dias que correm e, tudo indica, incharão de forma descontrolada à medida que a Inteligência Artificial for crescendo e substituindo a outra inteligência: a nossa.

    Falta saber se este crescimento, esta ampliação, este incremento, esta medrança da mentira travestida, falta saber se esta coisa tem limite, se a mentira é como o sapo que fuma e, no fim, rebenta numa nuvem fedorenta.

    Já a Bíblia adverte para a capacidade de aliciamento que o diabo possui chegando mesmo Jesus a identificá-lo como "pai da mentira". Falta saber quem é a mãe que, cá na minha opinião, é a mente humana. Assim, a mentira resultaria de uma frenética fornicação do juízo humano por parte de um Lúcifer meio louco de ciúme por si próprio. Resumindo: a mentira surge sempre que o diabo nos fode o juízo. 

    Como se depreende, a mentira não precisa de um motivo mas pode ser premeditada, não precisa de um objectivo específico mas serve bem como arma de arremesso, enfim, a plasticidade da coisa é, de facto, algo com uma dimensão diabólica. 

    Esta pouco subtil reflexão dá a volta e regressa perto do ponto de partida: se a IA se alimenta da credulidade humana e serve tantas vezes ao inchaço da mentira, então a IA é (mais) uma invenção do diabo? Olha, boa pergunta! Responda quem sabe que eu não tenho nada a ver com isto. Talvez seja esta a tal Grande Substituição que certos palonços advogam, a substituição da Inteligência Humana pela artificial...

quarta-feira, janeiro 28, 2026

Contacto

     Os robots de Inteligência Artificial (ou "com" IA?) personificam (ahahahah) o burocrata perfeito. Ao burocrata de carne e osso ainda podemos tentar seduzir, podemos apelar a uma réstia de humanidade que possa animá-lo a espaços, enfim, imaginamos que aquela pessoa trombuda e aparentemente inacessível possa, apesar de tudo, ser uma pessoa. E tentamos a nossa sorte. Com um robot o caso muda de figura.

    O robot é, de facto, indiferente aos nossos esgares e aos nossos suspiros, é absolutamente insensível. Não tem nem compreende emoções, é estúpido e obstinado como só uma coisa pode ser: obstinado como uma pedra ou como uma porta ou como um martelo. Com um robot não temos a mínima hipótese: se ele decide banir-nos, estamos banidos, se ele decide que somos merecedores de castigo, estamos castigados. Nada a fazer.

    Quando ele nos responde com aparentes bons modos e correcção absoluta é preciso ver que está apenas a macaquear os bons modos e a correcção absoluta que absorve da informação que flutua na rede e que ele sintetiza em milionésimos de segundo: "bom dia" ou "obrigado" dito ou escrito por um robot tem a consistência de uma nuvem e a sinceridade de uma bosta de vaca.

domingo, dezembro 21, 2025

Perguntas

     Tenho a impressão que já anteriormente escrevi o que vou agora escrever: os textos deste blogue são como mensagens deitadas ao mar em garrafas à espera que as encontres e tenhas curiosidade de ler o que vai lá dentro. Ok, mas qual o interesse que poderás ter em semelhante leitura e qual o meu objectivo em pretender esperançadamente que o faças? Há perguntas que mais vale não colocar.  

    Com os meus desenhos e pinturas passa-se mais ou menos a mesma coisa ou, pelo menos, algo muito semelhante. Vou produzindo obras a um ritmo elevado se bem que não a um ritmo constante. Serão dezenas por anos (chegarei à centena, ultrapasso esse número?). Em 99% dos casos trabalho sobre papel pois não tenho atelier ou armazém que suporte tanta produção noutro tipo de superfície. Pinto, desenho e... vai para o monte, para a pasta, é tudo devidamente organizado e arrumado ficando ali, em suspensão, à espera, como animal selvagem escondido na selva. Para quê? Porquê? Há perguntas que são escusadas.

    Uma página no Facebook e outro blogue acabam por servir de repositórios para grande parte das coisas que vou produzindo. Escrevo, desenho, pinto, vou deixando os resultados por aí como o Polegarzinho deixou um rasto de migalhas no chão da floresta para não perder a noção do caminho para casa. Haverá pássaros que devorem os meus sinais e me façam, um dia, perder por completo? Há perguntas simplesmente estúpidas.

    Enfim... acho que vou começar uma nova pintura e não vou colocar qualquer questão sobre este impulso. 

quarta-feira, julho 10, 2024

Amizade genuína

     Será a solidão o mais assustador dos problemas que um ser humano pode encontrar ao longo da vida? Há quem diga que não tem medo da morte mas que a perspectiva de viver uma vida solitária sim, é coisa que lhe provoca desarranjo intestinal. 

    Nos tempos que correm não sei bem o que possa ser considerado "solidão". Todos nós temos dezenas, senão mesmo centenas, de amigos no Facebook. Eles nunca irão abandonar-nos, nunca ficaremos sós. Logo, a solidão parece-me um falso problema (há ainda o Instagram,o TikTok, eu sei lá que mais!).

    A menos que a ausência de toque, de calor humano, a ausência efectiva de um corpo real na nossa zona de acção seja considerado "solidão", o mundo virtual encarrega-se de nos preencher o dia-a-dia, encarrega-se de nos oferecer um objectivo de vida (ou vários). 

    O computador, o objecto em si, é um amigo (tocamos-lhe, sentimos o seu calor, ouvimo-lo, falamos com ele e através dele...), o computador é um amigo e um amigo fiel, diria eu!

    Fico já por aqui, não te chateio mais: se pretendes uma amizade efectiva e genuína olha bem para o objecto que tens à tua frente (se estiveres a utilizar um telemóvel também serve) e sorri-lhe. Ele merece-te e tu merece-lo a ele. Sejam felizes!

terça-feira, maio 28, 2024

Menos morte

     À medida que o tempo passa os amigos vão morrendo. O mundo virtual encarrega-se de deixar vestígios dos que falecem. Recebemos notificações dos seus aniversários, de vez em quando encontramos um comentário na página do Facebook ou num post antigo do blogue. Revemos uma filmagenzita, a saudade aperta-nos o coração. 

    Talvez o mundo virtual retarde um nadinha o desaparecimento completo dos que já lá vão. Não nos liberta da lei da morte mas arranja maneira de a contrariar um bocadinho. É pouco, eu sei, mas é qualquer coisa.

sexta-feira, junho 30, 2023

Emojis

     Releio o post anterior e penso "ás vezes dá-me práquilo". Acontece. A coisa não é de particular responsabilidade. Isto é só o 100 Cabeças, um blogue perdido numa ruela sombria da Zumbisfera, que mal poderá vir ao mundo quando um gajo como eu escreve uma coisa como aquela? (emoji sorridente)

    Não sei se tens a mesma necessidade, acalorado leitor, mas eu preciso de esparvoar com alguma regularidade e frequência. Como sou um gajo contido prefiro esparvoar por estas bandas, em ambiente privado. (emoji a rir com a boca aberta)

    Parece-me necessário ter, de vez em quando, atitudes mais ou menos inesperadas, fazer uma ou outra cena um pouco mais marada. Mas como sou um gajo endireitado pela vida, estas loucuras de pacotilha podem resultar em cenas bem foleiras. (emoji com uma linha recta por boca)

    Atalhando na conversa que vai torta: eu sei que não sou ninguém mas, no entanto, estou aqui. (emoji com expressão dramática)

    Este final foi um bocado aparvalhado, não foi? (emoji que não sabe o que responder sem ofender o interlocutor)

sábado, abril 29, 2023

Nas ruas da zumbisfera

     Sim, eu compreendo, ler umas palavras escritas por um gajo qualquer num blogue perdido na confusão florestal da Internet é algo quase estranho. Cada dia que passa a nossa atenção é mais e mais solicitada de diversas formas; com maior ou menor agressividade, de forma mais melodiosa ou imposta por voz autoritária, a requisição dos nossos amores é feita pela publicidade, pela informação jornalística (24 horas-dia, 7 dias da semana), pelos vendedores de felicidade, pelas sereias, pelos vigaristas, pelos profetas, pelas plataformas digitais, tik-tok, tik-tok, o relógio substituído, pelos políticos de todas as formas e feitios... textos e imagens, sobretudo imagens, imagens em movimento, submergem a alma do confuso cidadão que esbraceja sem saber muito bem se é a maré que o puxa, se é ele quem a empurra para a costa.

    E, dás por ti, ainda lês estas palavras. És um dos 7 ou 8 que o fazem com alguma regularidade. Estás neste recanto escondido de um beco sem saída na Cidade da Informação e pensas... não faço a mínima ideia do que estás a pensar mas, imagino, gosto de te "ver" por aqui, seja qual for a razão que te trouxe até este lugar. 

    Apesar de tudo, tenho a ilusão de quebrar um pouco o isolamento escrevendo nestas 100 Cabeças, insistindo em arrastar os meus passos pelas ruas desertas da zumbisfera. Até mais logo.

domingo, julho 31, 2022

Memória esquecida

     Hoje andei por aqui a vasculhar posts antigos. Porquê? Para quê? Porque vou fazer uma exposição de desenho em Setembro e quero experimentar colocar alguns textos entre os meus desenhos (na foto acima, preparação da coisa). Ter um blogue como este é ter um arquivo imenso de textos escritos ao longo dos anos sobre os temas mais variados. Estou habituado a vir aqui de vez em quando buscar coisas de que necessito. É cómodo e eficaz.

    De repente lembrei-me do meu amigo Eduardo Penteado Lunardelli, uma espécie de Senhor dos Blogues, que viu todos os seus blogues obliterados de um momento para o outro sem que lhe tivesse sido explicado, pelo menos de forma satisfatória, porque razão o encerravam assim, sem aviso prévio.

    Isto deixou-me a pensar sobre o que fazer com os dois mil e muitos posts que estão aqui, no 100 Cabeças. Poderei perder esta memória de um momento para o outro? Corro esse risco. Passar tudo para um disco de memória externa? É uma possibilidade mas é tarefa morosa que não me apetece muito levar a cabo.

    Graças à minha inegável preguiça correrei o risco de "amnésia bloguista" mas, se levar em linha de conta uma certa capacidade para executar tarefas repetitivas e mais aborrecidas do que contar os feijões de uma lata, poderei ter esperança na realização da ciclópica saga do descarregamento do 100 Cabeças. Valerá a pena? Fazendo fé no poeta dependerá do tamanho da minha alma.

quinta-feira, outubro 07, 2021

Robots

    Muito raramente lá aparece um comentário neste blogue. Abro a caixinha e... é mensagem de um robot. Não fico desiludido, nem desalentado, nem acabrunhado, nem antes pelo contrário. Estou habituado ao eco silencioso da zumbisfera, sei que poucos humanos se deslocam nesta ruína abandonada. Dou por mim a sorrir e a pensar como será quando o mundo "real" ficar assim, semelhante à zumbisfera, um habitante aqui, outro ali, sobrevivendo de memórias e ténues esperanças. Quando encontrar um robot na rua for tão reconfortante como encontrar a nossa tia velhinha que já não víamos há um ror de tempo.

    Estes robots que habitam as caixas de comentários têm dois tipos diferentes de personalidades (a expressão aplica-se a robots?): uns tentam convencer-te de que ficaram agradados com o teu blogue e teriam todo o prazer em que retribuísses a visita; outros atacam logo com um lugar virtual, sem conversas prévias nem qualquer tipo de simpatia artificial, impõem-se sem rebuço. Sim, porque neste mundo tudo corre o risco de se tornar artificial, mesmo nós.

    Seja como for podes apenas ignorar o robot, não é relevante. Por enquanto podemos virar-lhes as costas, fingir que não existem. Será assim para todo o sempre?

sexta-feira, janeiro 29, 2021

Abstracção

Ele trazia vozes dentro da cabeça. De onde vinham, de quem eram? Mistério. Primeiro apareceu aquela voz aflautada que falava do tempo e da chuva e do sol; depois uma outra, arrastada e afectada, decididamente uma voz de mulher, que não parava de o corrigir, de comparar os seus modos com os modos de outras pessoas que ele não conhecia, nunca vira nem imaginava como pudessem viver. Havia também aquela voz de barítono que gostava de contar anedotas porcas e aquele miúdo chato que pedia constantemente um copo de água, um copo de leite, uma coca-cola; cada dia chegava, pelo menos, uma nova voz. Ele trazia uma multidão dentro da cabeça.

Sentado com uma chávena de café fumegante sobre a mesa, olhava em frente, concentrado num lugar geométrico algures entre este mundo e o outro. As vozes conversavam  entre si, ele ouvia-as atentamente. O empregado aproximou-se; máscara respiratória, luvas de látex, fato de borracha. Deixou a máquina de pagamento e foi à sua vida. Aquele cliente não aparentava nada de diferente, era exactamente igual aos outros.

A esplanada espalhava-se por toda a praça. Dezenas de mesas, cada uma com um cliente sentado na única cadeira. Empregados rolando, em pé, sobre veículos especiais. Enfiados em pequenos ecrãs, os clientes permaneciam estáticos,  concentrados, alheados do ambiente circundante. Todos eles algures, entre este mundo e o outro.

terça-feira, novembro 06, 2018

Questões

Sempre me confundiu a ideia de que a Economia estivesse em constante crescimento, como se fosse um Universo em expansão. Para mim as coisas são como balões, enchem, enchem, enchem, enchem até à quase loucura, enchem até à eminência do desastre, até à eminência do susto e... pum!

O crescimento constante, o Infinito, decididamente são conceitos que ficam muito para lá da minha capacidade de compreensão.

Nos últimos tempos tenho juntado outra perplexidade a esta lista. Pode uma sociedade evoluir seguramente em direcção a... bom, em direcção a algo melhor... algo diferente? Algo diferente não implica algo melhor e o conceito de evolução social tem muito que se lhe diga. É aqui que enfio os pés na lama e começo a ter dificuldades em movimentar as ideias.

Para mim uma sociedade melhor implica uma maior distribuição dos bens e da riqueza, implica uma maior liberdade individual e de expressão. Implica que um indivíduo possa ser quem quiser, optar pelo estilo de vida que lhe pareça mais cómodo. Uma sociedade melhor implica que os direitos das minorias sejam reconhecidos e respeitados, que os fortes sejam solidários com os fracos.

Poderia estar para aqui a estender a lista mas estes aspectos já me chegam para questionar: há outro tipo de evolução social? Algum destes aspectos é condenável à luz de uma ideologia social justa e equilibrada?

Para já fica a questão, lançada no abismo silencioso da zumbisfera.

terça-feira, março 27, 2018

Tempos dificeis

Talvez seja isto a tão badalada inteligência artificial. Na verdade (seja lá isso o que for) a IA é um sucedâneo da velha esperteza humana. Basta um gajo sem escrúpulos capaz de manipular informação com uma habilidade fora do comum e, pronto, eis uma entidade inteligente.

A ausência de ética é uma coisa banal. Sempre foi. Aliada às tecnologias da moda, a falta de ética, gera a tal IA. Estamos, assim, entregues a uma estranha bicharada.

A cibernética é muito isto, uma mistela entre o animal sem sentimentos e o mecanismo recolector e produtor de informação. Adivinha-se uma vigorosa selva habitada por um panteão de monstruosidades juvenis ainda desconhecidas mas que parecem alimentar-se daquilo que nós somos.

Para sobrevivermos nesta nova e perigosa floresta teremos de ser todos como o Capuchinho Vermelho só que mais desconfiados quando o Lobo Mau nos vier cheirar o cestinho da merenda.

sexta-feira, abril 18, 2014

Regresso e fuga

Tanto tempo sem escrever uma linha que fosse aqui, no 100 Cabeças! É a modorra da zumbisfera a inquinar-me a escrita.

Por alguma razão que me escapa dou por mim a teclar de novo nesta coisa. Poderia falar sobre os livros que li, os filmes que vi, as músicas que me impressionaram entretanto. Poderia tentar escrever algo vagamente inteligente acerca das viagens que fiz, das coisas que me encheram o olhar. Mas não.

Escrevo apenas por escrever, escrevo apenas para não deixar morrer esta centésima cabeça que me enfeita os ombros. Só isso, apenas isso. Coisa pouca e nada mais.

Escrevo e parece-me ouvir o eco do ruído das teclas a serem pressionadas pelos meus dedos roídos nas pontas, como se estivesse enfiado num corredor escuro e comprido, um corredor sem tempo nem memória, vazio e pouco limpo.

Paro a função. Não procuro imagem nem faço questão de terminar com elegância.

quarta-feira, julho 10, 2013

Confissão

Shark, shark night
colagem, 2013

Quiseram os deuses do acaso que, em tempos recentes, eu conhecesse pessoalmente várias pessoas com quem vou convivendo no espaço virtual, principalmente aqui, na zumbisfera dos blogues. A impressão com que fiquei de todos os zumbisféricos que contactei (de TODOS sem excepção) foi extremamente agradável. Pessoas simpáticas, afáveis, de trato fácil, as conversas fluiram sem rumo certo nem constrangimentos. A materialização da zumbisfera proporcionou-me, até agora, óptimos momentos de  grande descontracção.

A minha maior surpresa, no entanto, é a imagem que essas pessoas têm de mim, antes de nos conhecermos ao vivo. Nunca tinha pensado nisso mas, de uma forma geral, em comentários aqui na zumbisfera ou mesmo em conversa directa, apercebi-me que a minha pessoa virtual é algo desconfortável. No trato directo, valha-me isso, os meus amigos virtuais (agora reais) relaxaram ao perceber que não sou tão sombrio, azedo e violento como imaginavam. Ou, pelo menos, ao vivo não pareço sombrio, azedo nem violento.

Já o meu mestre Jorge Pinheiro, professor de pintura no meu último ano da ESBAL, me havia dito, há coisa de uns vinte e tal anos, que olhando os meus trabalhos ninguém imaginaria a minha pessoa. Não sei se é caso para me orgulhar se para me preocupar. O melhor é não pensar muito nisso, nem uma coisa nem outra. Mesmo a minha mãe, que não é pessoa muito interessada no fenómeno artístico (a menos que eu esteja ligado) me perguntou um dia, com algum cuidado, se havia algum trauma na minha infância que me levasse a produzir obra tão negra. O problema da minha mãe era saber se tanta monstruosidade poderia estar, de algum modo, relacionada com ela. Não, mãezinha, pode estar descansada, se alguma coisa eu pintasse por influência sua pintaria flores e passarinhos.

Não, isto é coisa pessoal, é entre mim e o mundo, uma velha luta, uma narrativa épica dentro da minha cabeça. "I'm the star of my own movie", como na canção dos Talking Heads. Não vale a pena tentar explicar o que explicado está na sua própria natureza.

Relendo o que atrás fica escrito tenho a sensação de estar ajoelhado no confessionário a bichanar os meus pecados ao ouvido preguiçoso do padre que eu não sou gajo de psiquiatrias nem coisas desse calibre. A verdade, verdadinha é que há muitos anos que dispenso os padres e falo directamente com o Big Boss. A maior parte das vezes falo com Ele quando desenho, quando escrevo e quando pinto. Talvez seja por isso que as coisas que faço ganham os contornos que têm: são orações ao Divino. Oxalá Ele exista e possa compreender-me.

Eu sei que este texto vai longo e não ajuda nada a desanuviar a minha tal imagem zumbisférica mas as coisas são o que são. Não há volta a dar-lhe. Mas prometo, caro leitor, que se nos encontrarmos um dia face a face serei o que costumo ser, no mundo real. Nem outra coisa seria de esperar.

(sorriso)

domingo, dezembro 09, 2012

Aniversário

Aqui há uns dias atrás o 100 Cabeças cumpriu o 7º aniversário. Como de costume nem me apercebi (a data de nascimento deste blogue é algures para os finais de Novembro) e venho assinalar a efeméride com o atraso habitual.

Muito se tem falado da falência da Blogosfera (chegou mesmo a surgir o termo Zumbisfera) e das razões que levam a esse suave desvanecimento. A leitura de "O ÚLTIMO BLOG e outras blogagens" veio recordar-me uma série de questões relacionadas com a motivação do "blogueiro" e as dificuldades de encontrar e manter leitores (a parte em que o Eduardo expõe as características que considera essenciais para que um Blogue seja capaz de "prender" leitores é muito interessante).

Realmente, as dúvidas e as questões enrolam-se constantemente umas nas outras e vão fazendo com que o "blogueiro" ora seja assíduo, ora se sinta algo desmotivado e vá fazendo gazeta à escrita.

Seja como for, já lá vão 7 anos a "blogar" e, para ser sincero, não estou a ver o fim próximo para esta coisa. Será teimosia, ego desmesurado, simples ingenuidade ou outra coisa qualquer. A verdade é que o 100 Cabeças passou a fazer parte de mim (ou terei sido eu que passei a fazer parte dele?).

Parabéns (atrasados) a mim próprio, o 100 Cabeças!

segunda-feira, janeiro 16, 2012

A Zumbisfera

Há palavras que valem um mundo inteiro. Assim, de repente, não estou a lembrar-me de nenhuma, quero dizer, sei apenas uma. É uma palavra que foi inventada pela Dona Sra. Urtigão a propósito de um post que deixei aqui e o Eduardo levou para o eterno Varal de Ideias.

Falava-se sobre o fim da blogosfera e da forma como ela vem sendo canibalizada (ou parasitada) pelo facebook e outras plataformas do género. Foi então que a Dona Sra. Urtigão inventou essa palavra genial que é "zumbisfera", este espaço onde vogamos como seres em semi-vida virtual, arrastando os nossos textos em passo de caracol embriagado. Este espaço outrora designado por blogosfera, no tempo em fervilhava de vida e alegria, com gente feliz e vivaça, aos pulinhos entre blogues, deixando comentários e links em todas as direcções.

A coisa esmoreceu e, nos dias que agora não correm, antes se arrastam, a zumbisfera vai andando lentamente, como que ao som de uma triste guitarra portuguesa, a choramingar notas que soam tal qual pingos de uma chuva ácida, a caír lá do alto de um céu muito cinzento, batendo na vidraça da janela, sempre fechada.

Em Portugal dizemos "zombie", no Brasil dizemos "zumbi"; a palavra é zumbisfera, porque foi assim que foi inventada e vale para as duas margens do lago Atlântico. Aqui não entra o Acordo Ortográfico pois estamos em pleno espaço virtual, de criação absoluta e liberdade perfeita.

Declaro oficialmente o nascimento da ZUMBISFERA, este lugar onde estamos e de onde ninguém nos haverá de tirar.