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quarta-feira, junho 24, 2026

Pensamento complexo (ou então simplório)

     Nós somos comunicação em estado puro e vivemos para comunicar.

    Aprendemos a falar a nossa língua e, desse modo, moldamos o mundo que nos rodeia; aprendemos os nomes das coisas, inventamos formas de os relacionar construindo significados novos, outras perspectivas, é um autêntico universo que nos alicia a sermos demiurgos. Construímos um modelo de realidade que sejamos capazes de suportar. Se não conseguirmos fazê-lo somos deportados para modelos de realidade construídos por outros, o que talvez não seja muito agradável. A riqueza de linguagem e o seu domínio são autênticos tesouros, as caixas de ferramentas que nos permitem existir e comunicar.

    Sabendo que somos comunicação em estado puro e que vivemos para comunicar! 

domingo, setembro 21, 2025

Anonimato

     Quando realizamos algo que no nosso imaginário é digno de nota devemos ficar desiludidos caso a cena não tenha sido observada por, pelo menos, mais uma pessoa? Logo naquele momento, precisamente quando conseguimos ultrapassar medos e limitações, nem um parzinho de olhos a observar? Ora porra, é preciso ter azar! Saber que conseguimos não é recompensa suficiente?

segunda-feira, agosto 04, 2025

Euzinho

     Um gajo é bem capaz da maior das petulâncias sem que disso se aperceba. Dizer, pensar, fazer, imaginar, congeminar, trocar umas ideias sem que se esteja muito interessado naquilo que o interlocutor possa dizer. Enfim, petulância quando rima com condescendência é autêntica merda radioactiva na dimensão situada ali entre a alma e o espírito. Um gajo é bem capaz de viver assim uma vida inteira, sempre convencido de que o mundo não o compreende.

     

terça-feira, março 18, 2025

Uma árvore imune à lógica

     Se tentarmos estabelecer uma árvore genealógica de Deus deparamos com a imensidão do Nada. 

     Deus não tem uma árvore genealógica. Deus tem uma árvore imunalógica.

terça-feira, fevereiro 20, 2024

Seja

     Não quero que eles sejam como eu. Só não gosto que sejam como são. Que vivam como lhes for mais confortável. Por mim, tudo bem. Mas não me venham dar ordens nem me venham impor as suas leis merdosas.

terça-feira, março 07, 2023

Frutos do futuro

     A mulher já teria tido a ilusão de ser bela. Agora ajeitava timidamente o cabelo e caminhava rente à parede da clínica. Lá mais prá frente todos nos transformaremos em coisas que antes não conhecíamos.

segunda-feira, agosto 08, 2022

Ouvi dizer

     Dizem-nos que não há problema, que vai ficar tudo bem.Tendo a concordar, quando nos formos ficará tudo bem. Para as baleias, para os chimpanzés, para os papagaios e para os leões. Dizem por aí que o capitalismo não tem de ser olhado de soslaio, que sem capitalismo não haverá redenção. Tendo a discordar, o capitalismo é um monstro com 20 fileiras de dentes aguçados e de cada vez que um dente lhe cai dois novos crescem no seu lugar. Dizem por aí que o crescimento económico não é "o" problema. Tendo a discordar.

    

quarta-feira, junho 29, 2022

História

     A História dá-nos vislumbres do Passado. Mesmo quando dispomos de fontes concretas sobre determinado acontecimento, o Tempo baralha-nos, troca-nos as voltas e apenas podemos imaginar o que terá significado para aqueles que o vivenciaram. O problema somos nós.

    Olhamos os acontecimentos passados com os nossos olhos, sentimos com aquilo que trazemos dentro de nós, como podemos compreender o que sentiu um homem das cavernas? Imaginamos a sua vida tendo como termo de comparação a nossa própria. Não me parece que haja grande coisa a fazer acerca disto.

    Mesmo quando recordamos a nossa infância ficamos impedidos de reviver fidedignamente aquele tempo por sermos já tão diferentes do que fomos. 

terça-feira, novembro 30, 2021

Mundo tolo

     Ando de mal com a realidade. Prefiro o sonho absurdo, a coisa impossível. Não tenho bem a certeza mas penso que foi sempre assim. O problema é meu, sei bem que o problema é meu. Isso sossega-me porque, apesar da má relação, dá-me algum conforto perceber que fora de mim as coisas fazem sentido. Se o mundo circundante fosse como aquele que invento e habito, todo impulso, todo improviso, preguiçoso e demasiadas vezes monstruoso, se o mundo à minha volta fosse como aquele que trago dentro de mim, não sei o que aconteceria. Talvez não acontecesse nada de extraordinário. Talvez o mundo monstruoso não seja o meu.

    

quinta-feira, agosto 12, 2021

Perseguição sem fim

Somos como uma matilha de cães abandonados, cada um perseguindo a própria cauda. No conjunto formamos uma sociedade bem patusca, como se fôssemos uma equipa de natação sincronizada evoluindo fora de água e sem tema musical que nos oriente.

Nenhum de nós é capaz de desistir desta perseguição implacável.

segunda-feira, agosto 02, 2021

Coisas da criação

O que pode desejar alguém que não existe? Comidinha? Música para os seus hipotéticos ouvidos? Uma caminhada na praia debaixo de um sol que não seja demasiado castigador... se não existe pode desejar alguma coisa? Alguma coisa que seja sua?

O que pode desejar uma personagem que não seja desejo do seu criador? Pode alguém que é inventado inventar algo? Pode o inventor cortar o cordel umbilical sem que a sua personagem morra ali, de imediato, fulminada por um raio que a parta? Até que ponto criador e personagem são uma e a mesma coisa? Até que ponto são coisas diferentes?

Tantas perguntas que talvez não mereçam resposta. E haveria muitas mais.

quarta-feira, julho 07, 2021

Ser chefe

A culpa é atributo de gente subalterna. Nunca um chefe ou um dirigente são culpados de seja o que for, muito pelo contrário: os que mandam são responsáveis apenas pelo sucesso, quando as coisas correm bem. É por isso mesmo que são chefes; recolhem os louros, distribuem o opróbrio.

domingo, março 08, 2020

Vertigem de merda

Não me tinha apercebido (nem sequer pensado) que a simples presença de um monte de merda levasse tantos dos que lhe estão próximos a desejarem assemelhar-se a cagalhões. Acontece em muitos lugares e em diferentes contextos, quando os transformistas, de pessoa para cagalhão, pressentem que o monte de merda tem aceitação pública e se aproxima dos seus objectivos.

Vivemos tempos de "vale tudo" e esta vertigem mimética contribui para a paulatina transformação do ambiente social numa esterqueira, uma pocilga tão nojenta que causa repulsa ao mais porco dos porcos.

domingo, novembro 10, 2019

Amigos

Os amigos não são melhores nem piores. Como podemos ter um "pior amigo"?

Os amigos são tudo o que temos.

terça-feira, julho 16, 2019

Manas siamesas

Já o afirmei muitas vezes, aqui, no 100 Cabeças, ali, na escola, aos meus alunos, aos meus colegas professores, acoli, na mesa da tasca em conversa com amigos ou, apenas, conhecidos: o maior de todos os problemas é a ignorância, irmã siamesa da estupidez. Partilham o mesmo cérebro, estão unidas pela cabeça.

Haja quem faça a operação, primeiro é necessário separá-las. Depois... aceitam-se sugestões.

sábado, janeiro 05, 2019

Magia de Ano Novo

O dia 1 de Janeiro é, afinal, um dia como outro qualquer. O calendário não tem propriedades mágicas. Se, porventura, alguma coisa muda com a passagem de ano, isso fica a dever-se a uma eventual vontade de mudança que trazemos dentro de nós.
A haver alguma magia nesta coisa, a magia somos nós.

quarta-feira, outubro 24, 2018

Cães vadios, ratazanas e carraças

É como aquela cena do Yin e Yang, cada pensamento bonito precisa de uma sombra arrepiante que o equilibre, cada cãozinho tem à espera a carraça que lhe compete alimentar um dia. A um post fofinho deve suceder outro que seja azedo. Somos todos alimento uns dos outros (peixes grandes comem peixes pequenos) e foi assim que Deus fez o Paraíso.

Quero dizer, ao que consta Deus não pôs logo a bicharada a ferrar a dentuça no parceiro do lado; dizem para aí que, nos primórdios do Paraíso os leões eram amigos dos cordeiros (sim, havia leões e cordeiros deitados no mesmo prado verdejante) e até a carraça era uma bicha pacífica. Não nos explicam de que se alimentavam estas bestiolas mas era tudo na base do "peace and love".

Sinceramente não sei quando é que a cena descambou. Terá sido por causa do Pecado Original? É bem capaz de ter sido isso: Eva convenceu Adão a dar uma trinca numa maçã (uma maçã!!!???) e pronto, lixou-se tudo. O casal apercebeu-se de uma série de coisas que até ali não lhes diziam nada, foi a expulsão do Paraíso e por aí fora. Não tenho a certeza de o que leão tenha ferrado o dente no cordeiro logo a seguir ou se ainda andou algum tempo a pensar sobre o assunto, o que sabemos é que todo o mundo passou a babar-se quando lhe chega às fuças o odor do sangue fresco e a sentir um prazer mórbido perante o espectáculo da dor alheia.

Voltando ao princípio em volta circular e completa: cada pensamento bonito precisa de uma sombra arrepiante que o equilibre, cada cãozinho tem à espera a carraça que lhe compete alimentar um dia. Que raio de coisa terá passado pela cabeça a Deus para espoletar tamanha loucura generalizada estragando de um momento para o outro a doce pasmaceira que animava o Paraíso? Tédio divino? Falta de imaginação? Incompetência pura e simples? Terá Ele inventado o sadismo naquele preciso instante (apesar de só ter permitido que o Divino Marquês viesse ao Mundo muito, muito tempo depois)? Nunca saberemos a resposta. Deus não fala connosco, muito menos frequenta Blogues. Quando muito deita o olho ao Facebook!

quarta-feira, agosto 15, 2018

Tempo

Hoje tive a sensação de que o tempo não passa, antes se vai amontoando sobre nós. E isso nos verga e nos dificulta cada vez mais a acção, faz-nos acreditar que envelhecemos. O tempo torna-se um facto ao moldar o nosso corpo e a nossa mente.

Senti, depois, uma vaga esperança: talvez, se conseguirmos ignorá-lo, não lhe dar muita importância, talvez assim possamos permanecer menos velhos, fintando o tempo.

quarta-feira, agosto 08, 2018

Da luta contra a estupidez

Lutar contra a estupidez é complicado por ser uma luta que temos de começar a travar dentro de nós próprios. Nenhuma luta na qual somos o primeiro adversário a vergar prenuncia uma vitória que nos possa proporcionar orgulho suficiente e justifique o facto de termos apertado o pescoço ao inimigo.

Enfim, só poderemos almejar uma vaga esperança de vitória nesta luta caso estejamos dispostos a admitir que somos umas verdadeiras bestas em potência.

Convenhamos que não é empresa aliciante.

terça-feira, fevereiro 20, 2018

Zombies sociais

Como é possível haver tantos estúpidos mal-intencionados em lugares de decisão e governo, ainda por cima, eleitos por nós. Ou somos maioritariamente estúpidos e, coligados com uma minoria de mal-intencionados, sentimos uma descontrolada atracção pelo abismo, ou então a ignorância é mais grave do que imaginamos e estamos a construir uma sociedade toda ao contrário daquilo que dizemos desejar. Somos como zombies sociais, cambaleamos sem destino e sem sentido em direcção a um horizonte repleto de escuridão onde não há absolutamente nada e alimentamo-nos dos cadáveres dos sonhos que vamos matando pelo caminho.